terça-feira, 2 de abril de 2019

O ESTILHAÇAR DO RAPAZ-MARAVILHA


"Hirsch e Fuchs foram os primeiros judeus a serem chamados à selecção alemã. Heróis da I Guerra e perseguidos na II

Um dos mais graves problemas de escrever crónicas sobre alemães é o espaço que se ocupa com as mais ligeiras frivolidades. Por exemplo, descrever um jogo que se disputou no primeiro dia de maio de 1910 faz-se com uma perna às costas até se esbarrar de frente com o nome do estádio como quem choca com a fachada da sede do município de Nuremberga: Telegraphenkaserne Stadium. Esfarela-se o nariz e apanha-se uma cãimbra na língua. Mas, com o orgulho ancestral dos Nibelungos, os teutónicos não facilitam, nunca facilitam. Cá por mim fazem bem. O Telegraphenkaserne Stadium, em Karlsruhe, limitou-se a ser o palco de um confronto de irmãos. E, como dizia o malicioso Dino Segrè, que passou à história pelas pilhérias que assinava com o pseudónimo de Pitigrilli, eram pior do que inimigos, eram irmãos.
Muito bem. Pitigrilli dizia que tinha escolhido esse nome porque era um homem que gostava de por os pontos nos ii. Ponho eu também os pontinhos no episódio. O Phönix Karlsruhe e o Karlsruhe Füssballverein estavam frente a frente carregando nos ombros essa velha e inevitável tradição de haver sempre um clube de pobres e um clube de ricos na mesma cidade, odiando-se como só os irmãos se conseguem odiar. Decidia-se o título de campeão da Imperial Alemanha do dr. Topsius, d’A Relíquia do divino Eça, Raposão, prostituta Mary, Titi e tudo e tudo, e houve mesmo quem filmasse o acontecimento, filme esse que durou até hoje. O grande protagonista da película é Gottfried Erik Fuchs, 21 anos, judeu nascido nos arredores de Karsruhe,_Baden-Württenberg, autor de um dos golos da vitória dos ricos do Karlsruhe Füssballlverein, e não digam que não alertei para o diabo destas crónicas essencialmente germânicas. No «supporting role», como gostam de dizer os apreciadores de Óscares, não estava nenhum Oskar mas estava um Julius: Julius Hirsch, sétimo filho de um comerciante judeu da vizinha Achern, 18 anos, que jogava no clube desde os 10. Ligeiramente mais velho, já com 22 completos, completava o trio Friedrich Förderer. Ou talvez não completasse verdadeiramente._Afinal, não era judeu como os seus outros dois companheiros e isso viria a fazer uma grande diferença na sua vida.
Gottfried Fuchs e Julius Hirsch foram os primeiros judeus a serem chamados à seleção da Alemanha. Dois anos após a escaldante tarde do Telegraphenkaserne Stadium, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, os alemães bateram a Rússia com um muito germânico massacre: 16-0. Fuchs, Hirsh e Förderer faziam parte da equipa. O primeiro marcou dez golos; Friederich marcou quatro; Julius não fez o gosto ao pé mas tratou de esculachar todos os russos que lhe passaram por perto com dribles estonteantes.
«Jovens, que jovens eram...», suspiraria Pessoa. A I Grande Guerra não os poupou às trincheiras. Poupou-os, por seu lado, o destino à morte. Regressaram como heróis e foram levados ao colo pela História até aquele pináculo da glória ao qual só ascendem os que os deuses amam. Ao mesmo tempo que uma sinistra sombra negra se erguia no horizonte pronta para apagar de vez as luzes que quase os cegaram.
Werner Skrentny escreveu um livro sobre Julius Hirsch: Julius Hirsch. Nationalspieler. Ermordet – O Jogador Assassinado. Nele ficamos a saber que a mãe, Emma, que já tinha dado à luz seis crianças vivas e outras tantas mortas, estava internada num sanatório à data do seu parto. Fora-lhe diagnosticada uma demência profunda. Julius nasceu com os olhos anormalmente separados um do outro o que lhe dava um certo ar de peixe fora de água mas talvez lhe permitisse a visão periférica que fez parte dos pormenores do seu imenso talento.
Se Hirsch era um remediado, Fuchs, pertencente a uma família que dominava o negócio da madeira, era um abastado. Em Abril de 1933, Friedrich Förderer definitivamente não completava mais trio algum. Não sendo judeu não ficou abrangido pela resolução tomada pelos clubes alemães de cooperarem com o grande esforço desenvolvido pelo Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei dispensando todos os seus atletas de origem judia. Hitler tinha sido nomeado chanceler em Janeiro. 
Gotfried fugiu para Paris; Julius também. Instalou-se em casa da irmã, Rosa. Gotfried acabaria por morrer em Montreal, no Canadá, em 1972; Julius não aguentou muito tempo no 16 éme arrondissement, onde era vizinho de Fuchs. Preocupado com o que estaria a acontecer à mulher, Ellen, apanhou um comboio de regresso à Alemanha. Em 1943, estava consignado a um refúgio para judeus na Friedrich Strasse de Karlsruhe. Tinha, pregada na farda baça, a estrela de David. No dia do 15.º aniversário da sua filha Esther, um oficial das SS chamado Phillip Hass, apresentou-se no refúgio com uma lista de nomes. Um deles era o de Hirsch. Julius e Esther choraram juntos. Depois o abraço estilhaçou-se como vidro. Hass saiu com ele pela porta e nunca mais se ouviu falar de Julius Hirsh, o ‘wunderkind’."

A ENVERGADURA E A PEQUENEZ



"O maior momento de exaltação de um grande clube acontece sempre que a Equipa ou o Atleta cumprem em competição o seu desígnio de superação colectiva e individual. A virtude da capacidade de vitória consiste em vivenciar mutuamente a forte união entre os competidores e os seus Adeptos, no momento da celebração de um golo, de uma marca ou de um recorde, e em nenhuma outra ocasião nos sentimos, nós e os jogadores, mais genuínos e mais felizes do que quando podemos celebrar conjuntamente uma vitória ao vivo.
Em todo o caso, nos tempos mais recentes tem vindo a tornar-se comum que os maiores clubes portugueses voltem a consagrar mais tarde, de modo formal, a soma de todas as vitórias e o conjunto dos seus mais destacados protagonistas, em reuniões sociais expressamente realizadas fora dos terrenos de jogo, como manifestações holísticas de afirmação do seu próprio poder desportivo e social perante a comunidade envolvente, nas quais são anualmente consagrados e designados para a posteridade os seus novos heróis, os seus maiores feitos desportivos de cada época e, no patamar mais elevado do ranking dos clubes nacionais, também os seus novos projectos e eventos empresariais mais relevantes.
É assim, precisamente com este espírito, que o Sport Lisboa e Benfica realiza anualmente a Gala Cosme Damião, já convencionalmente vertida, pode dizer-se, numa nova tradição do Clube.
E claro que - como seria de esperar - todos os outros grémios seguiram, depois, o nosso exemplo... Mas é abissal diferença entre as festarolas em que os nossos contendores se entretêem, lá à medida deles, e as dimensões de espectáculo, a competência e a genuinidade sempre garantidas nas festas do Glorioso corresponde, naturalmente, às disparidades patentes entre a envergadura do Benfica e a pequenez dos outros. A diferenciação dos próprios critérios com que os nossos produtores e realizadores partem para as nossas produções, e a escassez de recursos e a mitigada expertise com que os 'curiosos' das outras partes tentem avançar para as deles, torna patética qualquer comparação de modelos e consequências.
Ou seja, de um lado, a dimensão única do Grande Benfica; dos outros, a fatal desvantagem da privação de ideias, da cadência de motivos e da falta de massa crítica.
Neste ano, tirando obviamente os grandes shows de bola na Catedral, no Seixal e na Tapadinha e os verdadeiros festivais de outras modalidades realizados nos nossos pavilhões, a Gala Cosme Damião 2019 efectuada no Campo Pequeno e transmitida pela BTV em sinal aberto, na passada quinta-feita, terá sido o melhor espectáculo criado pelo Benfica no séc. XXI. Pinto final."

José Nuno Martins, in O Benfica

A CICCIOLINA DA NET


"Comprar um hacker a Julian Assange ou Edward Snowden faz tanto sentido como dizer que a supermodelo Gisele Bundchene a actriz porno Cicciolina são colegas de trabalho. É essa a mentira repetida uma e outra vez por comentadores, adeptos e jornalistas ligados ao segundo maior clube português: o anti-Benfica.
Assange, à frente de Wikileaks, colocou à disposição do público milhões de documentos que atestam a má-fé e os crimes cometidos por entidades, governos e líderes mundiais. Snowden deitou cá para fora a informação de o governo dos EUA andar a espiar os cidadãos do seu país (e de muitos outros Estados) através das chamadas telefónicas e acessos à net.
Bundchen foi rainha das passerelles, uma das modelos mais fotografadas da história, é empresária de sucesso e cara e corpo de uma das marcas de lingeriemais badaladas do planeta. Cicciolina foi protagonista de filmes de gosto duvidoso, deputada ao parlamento italiano e, na década de 1980, deve ter sido portadora das mamas mais famosas da Europa.
hacker não é nada dos anteriores: nem denunciante altruísta, nem analista arrependido, nem empresário de sucesso, nem sequer um ordinário actor. É um peão de brega que, alegadamente, terá lucrado com operações ilegais em paraísos fiscais, movido por interesses clubísticos, e que agora se mascara de detentor da verdade, depois das noitadas na capital europeia do sexo com outros pobres actores do panorama desportivo português.
Até ao fim deste processo é a isto que vamos assistir: o branqueamento das acções de quem acedeu de forma ilegal a informações privadas, que as passou a gente sem escrúpulos, que por sua vez as manipulou a seu bel-prazer com o objecto de prejudicar a instituição desportiva rival do seu clube do coração Parece-vos simplista? Se calhar, é porque é mesmo. Espantados? Não sei porquê. Coacção, ameaça, pressão, agressão, insulto, difamação, mentira, fuga à Justiça - uma receita que todos conhecemos bem das décadas de 1980 e 1990 no futebol português. Só vai ao engano quem quer. Faça-se justiça."

Ricardo Santos, in O Benfica

ARBITRAGEM VIVEU UM SÁBADO NEGRO


"O presidente do Conselho de Arbitragem não tem por missão defender os árbitros mas defender a arbitragem. O que não é a mesma coisa...

A chegada ao futebol das ajudas tecnológicas aos árbitros, no sentido de minimizar os erros, teve efeitos vários e diversos: por exemplo, os adeptos, no estádio, não festejam da mesma maneira a entrada da bola na baliza, preferem aguardar pela confirmação do VAR para uma explosão de alegria ao retardador; os jogadores sabem que já não vale a pena o jogo subterrâneo que tantas vezes escapava a escrutínio das equipas de arbitragem e que, até, marcou uma era no futebol; e os árbitros viram esfumar-se a melhor das desculpas que tinham, a de que não tinham visto bem o lance.
Não creio subsistirem dúvidas da irreversibilidade do VAR e da sua extrema utilidade. O Mundial da Rússia teve arbitragem quase sempre perto da excelência e a Liga dos Campeões está a mostrar-nos uma significativa redução de erros. Mas, e aqui chegamos ao caso português, o que a tecnologia não consegue é transformar um mau árbitro num bom árbitro. Se o juiz de vídeo não percebe o jogo, usa mal as regras e não tem coragem para aplicar a lei, a única coisa que pode e deve ser feita é dar-lhe guia de marcha e convidá-lo a dedicar-se a outra actividade onde não cause danos ao futebol.
Depois de um fim de semana com jornada de selecções em que, pela ausência de VAR, Portugal se viu espoliado de duas grandes penalidades claras, o campeonato nacional regressou com um sábado negro para a arbitragem, em que houve incompetência, falta de bom senso e cobardia. E, na maior parte dos casos, o mal maior não esteve no árbitro de campo mas em quem, sentado na Cidade do Futebol, mostrou uma inépcia indesculpável. Sejamos absolutamente claros: se Manuel Mota, em Chaves, sofreu bloqueio quando foi ver as imagens e mesmo assim expulsou Ristovski, nada desculpa o VAR na grande penalidade cometida por Acuña sobre Paulinho (VAR, Vasco Santos); em Braga (VAR, António Nobre e P. Martins), o penálti não assinalado de Corona sobre Wilson Eduardo, aos 88 minutos, foi uma facada nas costas na verdade desportiva; e na Luz (VAR, Hélder Malheiro e Bruno Jesus) a grande penalidade cometida por João Pedro sobre Samaris, vista com clareza cristalina na televisão, devia dar despedimento com justa causa a quem tanto maltratou o futebol. Se um árbitro vê um lance daqueles e não age em conformidade, não merece outra cosia que não seja a porta da rua.

Ás
Haris Seferovic
internacional suíço, melhor marcador da Liga, regressou de lesão e não se sentiu afectado ou diminuído por ir para o banco. Quando chegou a hora de entrar, trabalhou como o mais humilde dos operários e tanto porfiou que matou caça, finalizando com um belo golpe de cabeça um cruzamento preciso de Grimaldo.

Ás
Marco Silva
O Everton de Marco Silva parece estar a ganhar a consistência que lhe faltava e está na corrida pelo sétimo lugar da Premier League, um objectivo para os 14 clubes que não são City, Liverpool, United, Tottenham, Arsenal ou Chelsea. No sábado, a equipa de Marco venceu o West Ham, em Londres, com clareza.

Duque
Sebastian Vettel
que se passou com o piloto alemão, muito afastado das perfomances sem mácula que o fizeram chegar ao tetracampeonato na Fórmula 1? Ontem, no Barém, desconcertante e errático, voltou a ser superado por um afinadíssimo Hamilton, que teria ainda tempo para vencer uma corrida com dobradinha Mercedes...

O coelho que comeu a cartola do mágico...
«Com a entrada de Seferovic, e depois de Taarbat e Jota, procurámos criar dificuldades ao Tondela para que baixasse o bloco»
Bruno Lage, treinador do Benfica
sucesso de Bruno Lage no Benfica deveu-se fundamentalmente ao regresso dos encarnados a princípios de jogo que andavam esquecidos e à escolha criteriosa de peças que se encaixavam na perfeição. Lage não deve afastar-se destas premissas. Andar a tirar demasiados coelhos da cartola, como fez no sábado, é perigoso e um dia pode dar com ela cheia de buracos.

Civilização
A festa foi bonita, o Presidente da República marcou presença, Moçambique recebeu, além da ajuda financeira, mais uma prova de que mora no nosso coração, e foi batido o recorde de assistência num jogo de futebol feminino em Portugal. Tudo porque a FPF tomou a iniciativa, o Belenenses ajudou e o Benfica e o Sporting estiveram à altura das circunstâncias, comportando-se como rivais históricos que se respeitam. Para o futebol português, cuja imagem, por culpa dos dirigentes, anda pelas ruas da amargura, foi um raio de luz que iluminou as trevas.

A arte da sedução, na versão Mourinho
Descartado o regresso ao Real Madrid, Mourinho tem sabido manter viva a chama noutros mercados, alguns deles que nunca explorou, como a França, onde teve direito a manchete do 'L'Équipe', e a Alemanha, que fala insistentemente no nome do sadino para o Bayern. Não é em vão que lhe chamam 'The Special One'."

José Manuel Delgado, in A Bola

“FAZER SEMPRE O NOSSO MELHOR E MOSTRÁ-LO NOS JOGOS”


FUTEBOL
O treinador do Benfica perspetivou a segunda mão da meia-final da Taça de Portugal.
A época 2018/19 vai receber, esta quarta-feira, às 20h45, no Estádio José Alvalade, o 4.º dérbi, este a contar para a segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal. O Benfica leva vantagem da Luz (2-1), mas Bruno Lage, em conferência de Imprensa de antevisão, avisou que o “resultado é curto”.
Como é que o Benfica tem de se apresentar para alcançar a sua 37.ª final?
Vai ser um jogo que nos dá a oportunidade de discutir um título. Estamos no intervalo e a vencer com um resultado curto de 2-1, e temos de estar ao nosso melhor nível. O adversário é competente, um dos melhores em Portugal.
Acredita que a equipa pode fazer agora igual ao que fez em Alvalade para a Liga NOS?
O que procuramos é sempre o que aconteceu em Alvalade, fazer sempre o nosso melhor e mostrar de três em três dias o que podemos fazer nos jogos. Temos mostrado evolução, mas ela nem sempre é progressiva. Olhamos para a equipa em termos ofensivos e defensivos na perspetiva de evoluir, não perdendo coisas que estão garantidas. Outro fator é as trocas que podemos fazer entre jogadores que oferecem coisas diferentes. O adversário tem as suas forças e fraquezas. O Sporting jogou de uma maneira no 1.º jogo, de outra no 2.º e agora joga com três centrais. Procuramos evoluir com os jogos, e olhar para as dinâmicas do adversário e para os sistemas diferentes que apresenta.
José Mourinho disse que este jogo é mais importante para o Sporting do que para o Benfica; desejou-lhe sorte na carreira, mas evitou comparações. Pode comentar estas afirmações?
Sobre o jogo, a nossa forma de os encarar é de verdadeiras finais. Tem sido assim desde que pegámos na equipa. Estamos a vencer, podemos ficar a disputar uma final e um título mais à frente. Jogo de elevada importância. Sobre a segunda parte da pergunta… através do meu pai, já tive a oportunidade de agradecer as palavras do míster Mourinho. Nós não fazemos comparações, vocês é que fazem. Compararam-me com o Mourinho depois de duas ou três vitórias e ri-me. Cada um tem de fazer o seu percurso. O mais difícil no futebol é vencer jogos; vencer consecutivamente ainda mais difícil é; vencer campeonatos consecutivos é só para quem é especial. Poucos o fazem, só dois ou três é que o fazem e um deles é José Mourinho. Por isso é que Mourinho é reconhecido como o special one.
O Benfica está mais perto de vencer ao anular Bruno Fernandes no dérbi?

Temos uma tendência para falar sempre de forma individual, fazemos comparações e procurando sempre saber se o melhor é Bruno Fernandes ou João Félix. Eu acredito é no que a equipa oferece e na sua dinâmica coletiva. Cada jogador é diferente. Discute-se sempre quem é melhor, quando são jogadores e posições diferentes, e cada um à sua maneira é fantástico. O que interessa é as dinâmicas da equipa e perceber em que posição poderá jogar o Bruno Fernandes. Pode jogar mais ofensivo, como o fez no primeiro jogo ou mais perto da construção, como aconteceu no segundo.
Espera um Sporting a apresentar-se com três centrais? Como o Benfica pode anular o adversário?
Não sei se vai jogar com três centrais ou não. Se fosse um treinador português, a jogar em casa e a ter de vencer, diria que não. Este treinador tem uma cultura diferente e na Holanda o sistema com três centrais é visto como mais ofensivo. A construir, vai iniciar a três, não sei é se vai ser com dois centrais e um médio ou os três centrais ou com um lateral ao lado do central, e nós vamos ter a nossa estratégia definida para condicionar ao máximo essa saída de bola a três do Sporting.
CONVOCADOS DO BENFICA PARA O DÉRBI DA TAÇA
FUTEBOL
As escolhas do treinador Bruno Lage para o jogo da 2.ª mão das meias-finais da prova-rainha.
Lista de convocados
Guarda-redes: Mile Svilar e Ivan Zlobin;
Defesas: Jardel, André Almeida, Rúben Dias, Grimaldo e Corchia;
Médios: Zivkovic, Fejsa, Samaris, Pizzi, Gabriel, Gedson Fernandes, Rafa e Taarabt;
Avançados: Seferovic, Jonas, João Félix e Jota.
BOLETIM CLÍNICO
Tyronne Ebuehi: status pós-cirurgia a rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo;
Conti: traumatismo no pé direito;
Salvio: lesão tendinosa do bicípete femoral à direita.

UMA HISTÓRIA... COM FANTOCHES!


"Entre o Passado e o Futuro é o nome de um livro de Hannah Arendt. Para além do adejar da asa especulativa da autora, temas há que nela encontrei e onde me ancorei, uma vez mais – como este: “O grande impacto da noção de história sobre a consciência da Idade Moderna deu-se relativamente tarde, não antes do último terço do século XVIII, tendo encontrado com relativa celeridade o seu apogeu, na filosofia de Hegel. O conceito central da filosofia hegeliana é a história” (Relógio D’Água Editores, Lisboa, 2006, p. 82). Mas uma história em sintonia com o conhecido aforismo do mesmo Hegel: “O que é racional é real e o que é real é racional”. A própria negatividade dialéctica, que propicia o movimento, na História, articula os diversos momentos, que o constituem, no vasto campo da racionalidade. Em Marx, ao invés, o concreto constitui-se sobre uma base material. Para ele, a “luta de classes” é o motor da História. Mas, argumentam os principais historiadores da Educação Física e do Desporto: “Não sabeis que a Educação Física (que verdadeiramente se confundia com a ginástica) e o Desporto viveram os seus primeiros anos de vida, sob o império do racionalismo cartesiano, do positivismo comteano e do empirismo inglês? Depois da morte de Hegel (1831) o racionalismo foi substituído, paulatinamente, pelo positivismo e pelo empirismo (como vimos atrás) e o estatuto de cientificidade desta área do conhecimento fugiu, convictamente, à tirania de muitos mitos e à férula de uma retrógrada metafísica. E foi no carácter determinante da base material da existência social e nas leis da fisiologia e nas teorias de Darwin (1809-1882) que, preferentemente, o ser humano entrou de estudar-se. Uma trovoada de aplausos cobria a frase de Nietzsche, que ficou célebre: “Darwin é o maior benfeitor da humanidade contemporânea”. E porquê? Porque foi ele que difundiu a ideia, segundo a qual a diferença entre o animal e o ser humano é uma simples questão de grau.
Em Comte (1798-1857), por sua vez, dois aspectos são primaciais: por um lado, uma certa concepção e valorização da matemática, das ciências empíricas e biológicas e, por outro, um sociocentrismo, que descobre na sociedade o sujeito último do pensamento, da acção e do saber. A sociedade toma o lugar de Deus. Só que um puro servilismo ao capitalismo (e a um certo capitalismo de Estado a que chamaram “comunismo”) deixou o mundo contemporâneo verdadeiramente intoxicado de exploração, de manipulação, de alienação. Tem razão o meu querido Amigo D. José Tolentino Mendonça, quando escreve: “A esfera do sujeito, mesmo aquela privada, é cada vez mais absorvida pelo imperativo de produzir e consumir. E só por esse”. E que, por isso: “cresce uma atmosfera tóxica, onde a tentação da violência civil e o horizonte de um colapso ecológico global parecem cada vez mais próximos e coincidentes” (Expresso, 2019/3/30). Outro querido Amigo, o jornalista Vítor Serpa, no aparente espectáculo feérico do futebol, precisamente naquele onde tremula, no mastro de honra, a bandeira portuguesa, descobre também uma atmosfera tóxica, que não se erradica facilmente, porque são superstruturas da mesma infraestrutura económica, corporizada por fantoches que não passam de “bonecos articulados por fios (…). Hoje, podemos encontrar os fantoches um pouco por todo o lado e a questão mais intrigante é a de que nem todos são imediatamente reconhecidos à vista desarmada (…). Há, no entanto, uma inquietação legítima: os fantoches começam a ser muitos e têm uma particular sedução pelas câmaras televisivas, pelos microfones da rádio, pelos títulos gordos de jornais e, muito especialmente, pelo uso das redes sociais”. E, entretanto, “algum povinho desaprendeu de saber que o fantoche é apenas e só um fantoche” e começou a pensar pelos neurónios, que não existem, das cabeças dos fantoches. Resultado final: cada vez mais o futebol molda as pessoas à fatalidade do que Marcuse designava como “princípio da performance”, para sublinhar que é pela medida, pelo rendimento, pelo recorde, que a sociedade neoliberal se encontra estratificada. As pessoas classificam-se com números, porque se reduz o seu valor tão-só à sua utilidade produtiva.
Gaba-se Portugal de ter aprendido rapidamente a Democracia. Parece que não. Eu sei que (e cito agora o Marx e o Engels da Ideologia Alemã) “Os pensamentos da classe dominante são, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, isto é, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção espiritual dispõe, por esse facto, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, de tal maneira que, simultaneamente, os pensamentos daqueles que carecem dos meios para a produção espiritual lhe estão, em média, submetidos. Os pensamentos dominantes não são mais do que as relações materiais dominantes apreendidas como pensamento; são portanto a expressão das relações que precisamente tornam uma classe em classe dominante; são portanto os pensamentos da sua dominação”. Em poucas palavras: o fundamento último para a dominação intelectual e espiritual é a propriedade dos meios de produção intelectual e espiritual. Normalmente, na análise desta problemática, não se juntam os factos e os valores. E, no entanto, sem esta junção, os factos e os acontecimentos surgem irremediavelmente mal interpretados e abstractos e sem significado e sentido . Com o fim da 2ª Guerra Mundial, disseram-nos que o nazismo e o fascismo tinham sido rotundamente derrotados e que os regimes democráticos haviam triunfado, por fim. Só que não há democracia, sem democratas. A virtude não se obtém, por decreto. E a cultura de corrupção, o crime organizado, que se apoderaram (principalmente do futebol profissional, se é verdade o que se noticia) não deverão tratar-se unicamente como casos de polícia, mas como casos de política, incluindo aqui a política educativa. São tempos de crise os que se vivem, no futebol português? São tempos, portanto, de ruptura e de utopia (ou de profetismo, de que tanto carece o mundo hodierno, encurralado no materialismo capitalista dominante).
Miguel Poiares Maduro, antigo presidente do Comité de Governação da FIFA, não se arreceou de declarar, publicamente, para responder à questão: “Qual deveria ser o primeiro passo, para uma mudança na FIFA?”. Disse ele: “O mais fácil é começar pelo presidente da FIFA, introduzindo novos participantes, no colégio eleitoral. Se se der direito de voto a representantes de jogadores, treinadores, árbitros e adeptos, o efeito imediato será desestabilizar a actual estrutura de poder. Isso, por si só, alteraria completamente a dinâmica. Não podemos esperar que aqueles que precisam de ser alvo de uma mudança façam eles próprios essa mudança”. E mudança, porquê? Porque, no meu entender, não são pessoas humanas quem se encontra reduzido a números, a coisas, a mercadoria, ou seja, não são pessoas humanas, livres e libertadoras, quem promove e defende um “desporto”(?), como já o tive o ensejo de escrever tantas vezes: que adormece as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida. E onde já se escutam, por aí, vozes de “pessoas respeitáveis” conclamando contra a hipertrofia dos direitos sociais, que acarretam incomportáveis custos ao erário público. Os estratos mais pobres da população são portanto os culpados, assim o dizem extensos pareceres, das tremendas dificuldades económico-financeiras dos Estados. Não será de admirar que se anuncie, mais tarde ou mais cedo, o fim do social, no Estado-Providência. E o cristão “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” deixe de ser a principal ideia reguladora da “razão comunicativa”. Por isso, não se pense que foi em defesa dos grandes ideais desportivos que se realizaram os jogos da “cruz gamada” de 1936, ou os jogos de Moscovo de 1980, ou os jogos de Pequim de 2008. O humanismo dos políticos e financeiros, que os promoveram e permitiram, desfaz-se em vãs promessas e falsas certezas. Não esqueço o livro do sul-africano Albert Nolan, God in South Africa: ”Nós não somos chamados unicamente a amar Deus, ou amar o nosso semelhante. Nós somos principalmente chamados a transcendermo-nos” (p. 199). Foi isto o que eu quis dizer, sobre o mais, com a minha tese sobre a “motricidade humana”…"

DO RESPEITO. E, TAMBÉM, DA FALTA DELE


"É difícil respeitar quem não se dá ao respeito. Gente que não se importa de ser peão em jogos para os quais não tem capacidade intelectual

Tenho por Rui Pinto o respeito que sempre terei pelas pessoas que revelam a coragem de enfrentar forças muito superiores a elas. Correu o mais famoso hacker português, não tenhamos disso dúvidas, enormes riscos ao assumir - ou, pelo menos, dar por isso a cara, perceberemos, talvez, mais à frente... - uma guerra que podia perfeitamente não ter comprado, de certeza ciente (ele mais do que ninguém) de que não há, hoje, segredo que esteja 100 por cento seguro e que, por via disso, a sua identidade haveria, mais tarde ou mais cedo, por ser revelada. E que sofreria as represálias de quem nunca lhe perdoará a forma como denunciou esquemas que deveriam (no entender de quem os praticou, perceba-se..) ter ficado na obscuridade.
Recuso-me, ainda assim,a colar a Rui Pinto a imagem de Robin dos Bosques que muitos lhe pretendem associar. Em especial porque existe, ainda, muita coisa por esclarecer pela Justiça e só depois disso poderemos tirar conclusões efectivas sobre as motivações do jovem pirata informático, que convém recordar aos mais esquecidos, não está apenas acusado de acesso ilegítimo ou violação de segredo, crimes para muitos desculpáveis - numa teoria que, admito, até percebo - pelos muitos esquemas (uns já assumidamente criminosos outros que, se não são, assim parecem) que com isso ajudou a denunciar. Está, também, acusado de extorsão, que a provar-se faria cair por terra a ideia de tratar-se Rui Pinto de alguém que fez o que fez a pensar apenas no bem comum. Ou no interesse dos mais pobres. O melhor parece-me, portanto, esperar e só depois decidir se Rui Pinto será visto como herói ou vilão. Ou, até, algo entre uma coisa e a outra.
Mas tenho, neste caso, certeza de uma coisa: não podem as autoridades centrar-se apenas no mensageiro. Seria - além de inexplicável - um desperdício não aproveitar aquilo que Rui Pinto divulgou, ou ajudou a divulgar, para fazer uma cada vez mais necessária limpeza num mundo que sempre se achou acima das leis. Não está, tal como acima delas não está Rui Pinto. E se todo este episódio ajudar a tornar o futebol mais transparente, então o hacker luso terá, mesmo que por isso tenha de pagar criminalmente, prestado um enorme serviço à sociedade. E sim, seja qual for o desfecho das acusações a Rui Pinto, não me choca nada que peçam as autoridades a sua colaboração, aproveitando as suas aparentemente extraordinárias capacidades informáticas para combater actos ilícitos. Não era a primeira vez que aconteceria e não seria, certamente, a última.

Não tenho absolutamente respeito algum pelas duas figurinhas que esta semana nos fizeram perceber que o futebol português é, verdadeiramente, um poço sem fundo: quando nos parece que não pode descer mais baixo, há sempre alguém a mostrar-nos que não há, afinal, limites quando a ideia é mostrar o lado mais podre do mundo da bola. É triste perceber o mediatismo que assumem, não só por culpa de quem deveria perceber que não são ninguém, mas também de gente que, com responsabilidades, deles apenas deveria querer distância. Dizem saber todos os podres do futebol, reais ou fictícios, e e normal que saibam, de facto, alguns, porque o futebol português está mergulhado num lamaçal de podridão de que figurinhas destas precisam para sobreviver, social e, até, financeiramente.
Mas mais tristes ainda são, mesmo, as figuras que estão dispostos a fazer em nome não se entende bem do quê. Não percebem que não passam de peões num jogo de xadrez que não têm capacidade intelectual para jogar. E não é preciso ser nenhum Kasparov para saber que os peões são, sempre, os primeiros a ser sacrificados e nunca, mas nunca, poderão transformar-se em torres, cavalos ou bispos. São, e serão sempre, dispensáveis quando deixam de ser úteis. E saem do jogo sem que ninguém se lembre - ou tenha pena - deles.

É difícil ter respeito por quem não se dá ao respeito. O que os clubes estão a fazer na rábula da integração do Gil Vicente na Liga é inqualifivável. Já é maus saber que há um grupo a tentar alterar as regras que os próprios aprovaram há quase dois anos quando faltam menos de dois meses de acabar a época só porque podem, agora, ser despromovidos. Pior ainda é ouvir um presidente vir no final de uma reunião do chamado G15, dizer que os clubes precisam de ser esclarecidos sobre a norma que aprovaram. É incrível, não é? Perceber que nas Assembleias Gerais da Liga os clubes aprovam regulamentos que não sabem o que significam daria vontade de rir, não se tratasse de uma coisa demasiado séria para brincar.
Haver clubes que, perante o abismo da descida, recorram a todos os meios para evitar lá cair até se percebe. O que não se entende mesmo é haver outros que, absolutamente confortáveis, embarquem nesta loucura. Ou, se calhar, até se percebe. Porque aquilo que motiva este inesperado movimento, talvez não na sua origem mas no aproveitamento que deste caso está a fazer, será afinal mais profundo do que o que está à vista. E perceber-se-á em breve. É, como quase tudo no futebol português, um jogo de poder. E é também por isso que é cada vez mais difícil andar para a frente. Por causa disso e da falta de vergonha que por cá continua a cultivar-se como se fosse uma virtude.

Inqualificável é também que alguém que, pelas responsabilidades que tem, teríamos como minimamente inteligente, utilize as redes sociais para ter conversas (como lhe chamaria alguém sempre que a discussão aquece) de tasca. É verdadeiramente incrível aquilo em que a clubite transforma as pessoas."

Ricardo Quaresma, in A Bola

A CHAMA IMENSA - BTV - 01 ABRIL 2019