segunda-feira, 3 de junho de 2019

COM AS VONTADES E OS SONHOS LÁ DENTRO, ESTA ERA A VEZ DELES



"A imagem apareceu enquanto os jogadores do Liverpool festejavam com os adeptos aquela reviravolta dos diabos frente ao Barcelona, do 0-3 fora para o 4-3 em casa. Uma tarja, plantada pendurada numa das bancadas de Anfield, onde se lia:
With the drive
And the dreams inside
This is my time
Eu, que já estava ligeiramente (ok, muito) emocionada com aquela 2.ª parte que tinha acabado de ver, com o “You’ll never walk alone” cantado pelas lágrimas de alegria de 50 mil almas, então é que me desmanchei.
Diz-se que “I won’t share you”, de onde esse pedaço de lírica que li na tarja foi retirada, é uma canção de ciúme, o ciúme que Morrissey sentiria de Johnny Marr e que também ajudou a que os The Smiths acabassem - “I won’t share you” é, curiosamente ou não, a derradeira canção do derradeiro álbum de originais da banda, “Strangeways, Here We Come”.
Mas lida assim, sem contexto, ou melhor, naquele contexto épico de 11-mais-3 homens a darem a volta a um 3-0 para chegarem à final da Liga dos Campeões, um par de dias depois de verem a última esperança de se tornarem campeões ingleses a desvanecer-se num remate do meio da rua do capitão do City, nesse contexto, a frase não é uma frase de ciúme, mas sim de força de vontade, de esperança, da ousadia de quem sonha e não acredita no que todos dizem ser impossível (e, não me venham com coisas, vocês também o disseram), mesmo depois de um esforço inglório.
Era o tempo deles, a vez deles, do Liverpool, só vice-campeão da Premier League mesmo com 97 pontos, de Jurgen Klopp e as suas seis finais perdidas, do futebol rock and roll e até de quem manda no clube, que teve a coragem de manter o alemão de óculos engraçados e sentido de humor impagável, mesmo com um 8.º lugar na primeira época e dois 4.º lugares nas que se seguiram. Mesmo com uma final da Taça da Liga perdida, uma final da Liga Europa perdida, mesmo com uma final da Champions perdida.
Os mesmos The Smiths cantaram que “it takes guts to be gentle and kind” e eu também acho que é preciso coragem para, nos dias de hoje, se manter um treinador que demora a ganhar, mesmo que tenha uma ideia de jogo verdadeiramente entusiasmante. E também foi por isso que no sábado torci pelo Liverpool, por Klopp, por Van Dijk e Salah e Mané e Alexander-Arnold e Milner, apesar de também ter muita simpatia pelo Tottenham, por Pochettino, por Eriksen e Alli e Son. Até porque muito do que se aplica ao Liverpool, também se aplica à equipa de Londres.
O jogo, diga-se, foi de uma pobreza franciscana. Achávamos todos que íamos ver um jogo eléctrico, de parada e resposta, com muitas transições, muitos remates e muitos golos, mas calhou-nos 90 minutos de passes falhados, chutão para a frente, ocasionais remates e um resultado desde logo marcado por uma grande penalidade quando ainda estávamos na fila para ir recolher a primeira cerveja da noite. Como se as duas meias-finais épicas que tinham levado Liverpool e Tottenham ao Wanda Metropolitano de Madrid tivessem sugado toda a energia e criatividade às duas equipas, como se o peso daquele título fosse demasiado, numa temporada boa para ambos, mas ainda desprovida de títulos - os títulos não têm per se de validar uma grande época, mas ajudam, sem dúvida.
Ganhou, portanto, o Liverpool, com um golo a abrir e outro a fechar, o primeiro de Salah, o outro de um Origi que ainda há um par de meses estava de malas feitas para um empréstimo triste ao Huddersfield. Klopp cantou, talked about six, foi o rei da festa empoleirado no autocarro que atravessou as ruas vermelhas de Liverpool, que por acaso nem é a cidade natal dos The Smiths, essa fica ali a 50 quilómetros, em Manchester, mas talvez não haja banda em Liverpool (nem sequer “a” banda) que cante as emoções vividas em Anfield como Morrissey e Marr um dia fizeram.
Esta era a vez deles.

O que se passou
Vou começar pelo que se vai passar. Quarta-feira, Portugal recebe a Suíça na final four da primeira edição da Liga das Nações, que terá ainda Inglaterra e Holanda. Os jogos realizam-se em Guimarães e no Porto e convém recordar a certas e determinadas pessoas que são jogos de Portugal e não do Benfica, Sporting, FC Porto, Arrentela ou do Freixo de Espada à Cinta. De Portugal.
De resto, passou-se que Jorge Jesus, depois de um curto mas intenso namoro, foi confirmado como treinador do Flamengo.
Passou-se ainda que a Selecção Nacional sub-20 foi inesperadamente eliminada na fase de grupos do Mundial da categoria, onde era uma das equipas favoritas à vitória.
Passou-se também que o estónio Ott Tanak (Toyota) foi o vencedor do Rali de Portugal e que Miguel Oliveira foi 16.º no GP Itália, mesmo com um dedo partido, após queda no warm up.
Mas a notícia mais trágica da semana foi a morte de José Antonio Reyes, antigo jogador do Benfica, Sevilha, Arsenal, Real Madrid e Atlético Madrid, vítima de um acidente de viação na sua Andaluzia natal. O extremo partiu cedo, com apenas 35 anos."

CORTEM-LHES OS BRAÇOS!



"Não tenho dúvidas em afirmar que os penáltis por “bola na mão” são as faltas mais estúpidas do futebol.

A insólita final da Liga dos Campeões entre duas equipas inglesas apresentava-se como um grande espectáculo em perspectiva. Ambas praticavam um futebol aberto, leal, de ataque. Ambas tinham eliminado colossos do futebol. Seria previsivelmente um jogo com muitos golos.
O que ninguém pensou foi na “terceira equipa”, chefiada por um árbitro esloveno de quem eu nunca ouvira falar. E o senhor vinha com a ideia de inscrever o seu nome na história do jogo. Assim, logo aos 20 segundos (!) assinalou um penálti contra o Tottenham por suposta mão de um defesa.
Ora, a um árbitro não se pede só que saiba as leis - pede-se que tenha bom senso. É esse bom senso que leva muitos, por exemplo, a não mostrarem cartões amarelos nos primeiros minutos de jogo. Mas o senhor marcou mesmo um penálti a abrir a partida, numa mão que era tudo menos clara. A bola bateu no peito do jogador e depois escorregou-lhe pelo braço, que só estava ligeiramente aberto. Foi um lance acidental, numa jogada que não tinha perigo. Mas o senhor esloveno marcou penálti sem sequer ir ver as imagens. E com isso condicionou toda a história do jogo. Vou mesmo mais longe: estragou o jogo.
Uma final que se antevia espectacular foi uma chatice. Um jogo que se antevia com muitos golos só teve esse de penálti e outro já mesmo no fim. O Liverpool passou o jogo a defender o golo madrugador e o Tottenham só demasiado perto do fim se conseguiu encontrar.
Fala-se muito em “verdade desportiva”. Ora estas “mãos” duvidosas adulteram completamente essa verdade, porque transformam lances sem perigo em golos. E dizem que na próxima época ainda será pior: todas as bolas que forem à mão serão punidas. Mas querem matar o futebol? Querem que os jogos passem a decidir-se por penáltis?
As leis devem promover as boas jogadas, os golos de bola corrida, ou os jogos decididos por penáltis duvidosos?
Os braços fazem parte do corpo. E o corpo não é um conjunto de elementos desligados: é um todo harmónico em que os órgãos se movimentam de forma coordenada. Os atletas correm e saltam com as pernas, mas também com o movimento dos braços. Os bailarinos movem-se com constantes movimentos dos braços - e não só por razões estéticas.
Do mesmo modo, os futebolistas correm, rodopiam, saltam mexendo braços e pernas, até para se protegerem em caso de queda. Não se pode exigir-lhes que tenham sempre os braços agarrados ao corpo. Para isso, atem-lhes os braços ao tronco com ligaduras ou cortem-lhes os braços.
Não tenho dúvidas em afirmar que os penáltis por “bola na mão” são as faltas mais estúpidas do futebol. A lei, como era antigamente - em que para ser falta tinha de haver um movimento deliberado do braço ao encontro da bola -, era mil vezes mais justa. E não falseava a verdade desportiva."

A EDUCAÇÃO PELO DESPORTO: UTOPIA OU REALIDADE?


"A tese de Norbert Elias e Eric Dunning é conhecida: o desporto é fruto da civilização dos costumes, da aprendizagem das regras através da competição, que leva a uma canalização controlada da violência e das emoções e da interiorização das normas de comportamento.
O desporto, como se sabe, nasce na Inglaterra. Tem um período específico: o vitoriano, ou seja, do desenvolvimento industrial e de forte urbanização. Os jogos de exercícios (que não são ainda desporto) foram codificados e utilizados segundo uma solução pedagógica, respondendo a uma preocupação educativa: disciplinar a juventude, não pela vontade impositiva de uma autoridade superior, mas pela aceitação voluntária de regras comuns, que ultrapassam o quadro de um terreno de jogo para se aplicar na vida quotidiana, cultivar e canalizar o gosto pela acção, para forjar os homens de carácter, dotados de qualidades morais úteis para o país: espírito empreendedor, lealdade, perseverança, mentalidade de lutador e de vencedor. Foi este modelo de educação que os promotores da educação liberal quiseram depois importar para França, como foi o caso de Pierre de Coubertin.
A questão que podemos colocar é a seguinte: em que medida os valores educativos do desporto, herdados de Inglaterra vitoriana, são de actualidade?
O desenvolvimento das práticas desportivas, o seu lugar e o seu papel na sociedade oferecem imagens contrastadas para não dizer contraditórias. As relações que o desporto promove com a violência nos estádios e nas bancadas, com o dinheiro e a droga ou o doping, parecem negar toda a pretensão de o edificar a algo supremo. Os “advogados” do desporto puro e do desporto educativo pretendem ilustrar que ele foi desviado do seu objectivo inicial, tornando-se uma presa dos mercadores do templo, um lugar de lutas políticas, ideológicas e sociais. Pode ser verdade. Mas o número de praticantes não cessa de aumentar. Se o desporto não assumisse um valor educativo, os encarregados de educação não desejavam que as suas crianças praticassem uma ou mais modalidades desportivas e de as praticar eles mesmos.
Os atletas estão muito longe de ser virtuosos. Para ganhar, é preciso agressividade, é preciso “destruir” o adversário. Não é isso que se ouve nos balneários ou fora deles?
Não faltam instituições educativas que propõem a prática de um ou mais desportos. Entre elas, temos a Escola. Uns vão me dizer que eles não fazem desporto, mas sim educação física. Distingo subtil, mas incompreendido pelos alunos e pais, e que pede um “tratamento didáctico” sofisticado.
O desporto é um incontestável meio de educação. Ele favorece os comportamentos responsáveis, pacíficos e democráticos e contribui para o desenvolvimento positivo da personalidade. Mas os valores desportivos não devem ser considerados como objectivos ou condutas que podemos prever ou avaliar, mas como algo a construir, organizando as condutas de cada um."

OS HOMENS DO TÍTULO: GABRIEL, O FALSO FLOP



Tal como para tantos outros jogadores que acabaram a época a festejar no Marquês, também há um pré e um pós-Bruno Lage para Gabriel, contratação sonante que nos primeiros meses no Benfica dava ares de flop. Mas quando o meio-campo se encheu do seu bom senso, logo se percebeu que apenas talvez estivesse mal aproveitado. A Tribuna publica uma série de artigos sobre os futebolistas do Benfica que chegaram ao #37. Um por um, com estatística da Goal Point.
Nos primeiros meses da nova época, as hostes benfiquistas chegaram a temer que Gabriel, por quem o clube tanto havia lutado para contratar ao Leganés, poderia ser, na verdade, um flop.

Mas tal como para tantos outros jogadores que acabaram a época a festejar no Marquês, também há um pré e um pós-Bruno Lage para o brasileiro, que depois de alguns meses em que se dividiu entre o banco e o onze, mas sem nunca impressionar, tornou-se essencial para Lage, enchendo o meio-campo de decisões acertadas, colocando a bola onde bem queria com aquela precisão de passe, raramente apanhado fora do lugar, até uma lesão grave o deixar fora de jogo até ao final do ano.
Afinal, Gabriel não era flop. Só estaria a ser desperdiçado.
Em 17 jogos e 1253 minutos, Gabriel não marcou nos 17 remates que fez, mas deu uma assistência para golo e criou ainda mais três ocasiões flagrantes. Mas no meio-campo foi um monstro: contou 74 ações defensivas no primeiro terço, mais 56 no terço intermédio, conseguindo um total de 52 desarmes, 37 deles completos. Só inteceções foram 32 e bloqueios de passe 32.
A Goal Point contou ainda 29 alívios, quase todos dentro da área (24) e 16 dos quais de cabeça. Mais impressionante ainda é o número de recuperações de posses de bola: foram 106. Gabriel fez-se ainda valer do seu poder físico (tem 1,87m e 83kg) para ganhar 60 duelos aéreos defensivos.
Ao longo da temporada, em jogos para o campeonato, Gabriel foi ainda admoestado quatro vezes com cartão amarelo, aos quais se junta o duplo amarelo que recebeu no clássico frente ao FC Porto.
Até sofrer uma lesão no ligamento lateral interno do joelho esquerdo no dérbi com o Sporting, Gabriel estava a ser um dos jogadores mais influentes e decisivos do Benfica de Bruno Lage. Na próxima temporada, e apesar do crescimento de Florentino, que o substituiu no onze, deverá voltar a ser um dos patrões do meio-campo encarnado.
In Tribuna Expresso

OS HOMENS DO TÍTULO: FERRO, O CENTRAL DA IMPERTURBÁVEL CALMA



O central passou a primeira parte da temporada na equipa B, mas mal teve a oportunidade de se mostrar entre os grandes, e logo num Benfica-Sporting, fez o suficiente para Bruno Lage não mais deixar de confiar nele. Aos 22 anos, Ferro é um central maduro, dono de uma tranquilidade de quem já anda aqui há anos e anos. A Tribuna publica uma série de artigos sobre os futebolistas do Benfica que chegaram ao #37. Um por um, com estatística da Goal Point.
O infortúnio de uns pode muitas vezes mudar a vida de outros e Francisco Reis Ferreira, mais conhecido no mundo do futebol como Ferro, pode dizer uma ou duas coisas sobre o assunto. Porque muita coisa teve de acontecer para que naquele 6 de fevereiro de 2019, em pleno Benfica-Sporting, o central natural de Oliveira de Azeméis vestisse pela primeira vez a camisola da equipa principal do Benfica.

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Porque Jardel se lesionou à passagem da meia-hora de jogo. Porque Conti já há muito estava no estaleiro. Porque Lema havia sido rapidamente descartado. Mas, para sermos justos, também aconteceu porque Ferro era titular e capitão da equipa B dos encarnados. E porque tem muita qualidade.
Depois daqueles 53 minutos frente ao Sporting, Ferro não mais deixou de ser titular para Bruno Lage, que só não o utilizou frente ao Eintracht Frankfurt na Liga Europa. De resto, fora o encontro em que esteve suspenso, o defesa de 22 anos foi sempre titular e sempre importante na manobra defensiva da equipa, graças à sua técnica bem acima da média, à maturidade e à sua calma que parece imperturbável até nos grandes jogos, sem descurar a sua capacidade de passe e de subir lá ao alto, aproveitando da melhor forma o seu 1,91m (marcou três golos na temporada).
É, em linguagem destes tempos, um central moderno.
E os números estão cá para ajudar. Em apenas 13 jogos e 1142 minutos no campeonato, Ferro realizou 129 ações defensivas, 107 delas no primeiro terço do terreno. Fez ainda 32 desarmes, 24 deles completos, e 21 interceções. Bloqueou três remates, três cruzamentos e cinco passes.
Alívios foram 65, 45 deles dentro da área e 34 de cabeça, provocando ainda nove foras de jogo a adversários. Ganhou 46 duelos aéreos defensivos e recuperou 64 posses de bola.
Em 13 jogos viu apenas um cartão amarelo, mas acabou expulso no encontro com o Desp. Aves, em que curiosamente também marcou - recebeu vermelho direto depois de travar em falta Derley, quando o brasileiro seguia isolado para a baliza.

In Tribuna Expresso

A LIGA DAS NAÇÕES


"O que ambicionamos é que Cristiano Ronaldo receba, tal como há três anos com o troféu do europeu, a primeira taça da Liga das Nações.

1. A Liga das Nações vai dominar as nossas atenções na próxima semana. Como para os milhões de adeptos do futebol a final de ontem, em Madrid, da bem inglesa Liga dos Campeões foi tão atractiva quanto motivante. Como neste final de semana o Rali de Portugal chamou a curvas emblemáticas e a lombas entusiasmantes muitos milhares de amantes de velocidade e dos automóveis. Com a Toyota, no momento em que escrevo, a dominar por completo um Rali que, na minha adolescência, me fez conhecer lugares ímpares de Portugal. Com noites que jamais esquecerei e companhias que, com grande tristeza, já nos deixaram! Mas que estão, sempre, a olhar por nós! E são alguns destes lugares que milhares de suíços, ingleses e holandeses vão conhecer nos próximos dias. As bonitas cidades do Porto e de Guimarães irão receber mais de 150 mil visitantes. E eles conhecerão cidades modernas, lugares da nossa História, uma gastronomia singular e um povo bem hospitaleiro. E sol que abre paixões e noites que arrebatam corações. Vai ser uma invasão ao Norte. E com o Doiro, mais o Douro, a exigir novas visitas e, como nos ensina na sua magistralidade Miguel Torga, no seu extraordinário livro Portugal - merece ser comprado e lido nestes tempos de feiras do Livro! - a perceber que, por ali, «o vinho é verde, o caldo é verde...»! Com toques de azul e branco!

2. Portugal tem todas as condições para conquistar a primeira edição da nova competição da UEFA, esta Liga das Nações. Desejamos que a selecção de Fernando Santos seja a primeira a erguer o troféu. E para além do orgulho de ser o troféu número um estará também a alegria para os cofres da nossa Federação já que arrecadará cerca de 10,5 milhões de euros. O que é motivante é que sendo campeões da Europa em título, temos todas as condições para sermos os primeiros vencedores da Liga das Nações. Estou convicto que no próximo domingo estaremos no Estádio do Dragão a puxar por Portugal. E a festa será bonita. Merece ser bonita. Nas vésperas do Santo António e nas antevésperas do São João. Com trânsito condicionado nas duas cidades e com muita cerveja bebida e consumida. Entre outras iguarias - aí as francesinhas... - que o Porto e Guimarães proporcionarão aos milhares de turistas que o futebol - sim, o futebol! - vai trazer a Portugal. E o turismo desportivo, como bem se percebeu ontem em Madrid e não se percebeu bem na quarta-feira na distante Baku na final, também inglesa, da Liga Europa - é, hoje em dia, uma realidade real e com relevantes números para a economia das cidades que acolhem estes grandes eventos. Para, no final e afinal, o que todos ambicionamos é que Cristiano Ronaldo receba, tal como há três anos em paris com o troféu do Europeu, a primeira Taça de vencedor da Liga das Nações. Será, acredito, um momento que ficará na história, bem rica, do futebol português. E lendo Miguel Torga sabemos que a «nossa unidade é feita de forças múltiplas e variadas. Os preguiçosos de Coimbra, os esbanjadores de Lisboa, os livros de Eça e o cepticismo rural na eficiência dos reformadores também são portugueses»! E todos estes estarão, dentro ou fora do Estádio do Dragão, a começar na noite da próxima quarta-feira, a puxar por Portugal!

3. (...)

4. A selecção de Portugal de sub-20 saiu, sem honra nem glória, do Mundial de sub-20. Nos oitavos de final estão apenas quatro selecções europeias: Polónia, Itália, França e Ucrânia. E seis americanas: EUA, Uruguai, Equador, Panamá, Colômbia e Argentina. E ainda três africanas: Senegal, Nigéria e Mali. Mais o Japão, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia. Percebemos que onze jogadores não são uma equipa. E que uma equipa tão só é formada por onze jogadores. Como escreveu, com a sua imensa sagacidade, T. S. Eliot, «a única sabedoria que uma pessoa pode esperar adquirir é a sabedoria da humildade». E para alguns jogadores este Mundial da desilusão na Polónia é um grande instante - nem sequer um momento... - de imensa sabedoria. Os cemitérios, como nos ensinou o Professor Adriano Moreira, estão cheios - diria eu repletos! - de pessoas insubstituíveis. Que, em vida, consideravam, alguns, no seu inato orgulho, que não tinham substitutos que podem ser substituídos! Já que «o orgulho... é filho da ignorância»!

5. O futebol está quase todo de férias. Mas, como sempre, vamos viver o folhetim das compras e das vendas, dos milhões e das cláusulas de rescisão - umas, em rigor, meramente indicativas... -, de treinadores contratados e outros sugeridos (ou oferecidos), de aquisições de participações accionistas em SAD's de constituição de novas sociedades desportivas em clubes que não participam em competições profissionais. São tempos de certas mudanças, algumas profundas, e as semanas de ouro da intermediação global de jogadores e treinadores! Mas, de verdade, só ouviremos falar de milhões. Muitos milhões. Mas, permitam-me, o foco, agora, é a vez da Liga das Nações.

6. E como a respeito da idade escreveu esse grande Mestre e extraordinário pedagogo, Agostinho da Silva, direi que
«não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava»!
Força Portugal!"

Fernando Seara, in A Bola

AUTORIDADE, PARÓDIA E MEDO


"Expressão muito utilizada no mundo desportivo - «pôr tudo a limpo»

Erros e medo
1. Quando, há várias décadas um editorial do Pravda, jornal oficial do regime estalinista, aparecia com erros de gramática ou de ortografia todos sabiam que tinham sido escritos pelo próprio Estaline. De facto, ninguém tinha coragem para assinalar os erros do grande chefe. Assinalar uma falta de concordância numa frase escrita por Estaline seria decretar provavelmente a própria sentença de morte. Os editoriais que todos seguiriam sem hesitar seriam, portanto, os que teriam erros de linguagem.
A violência da autoridade entra assim no limite da paródia.
Uma ordem escrita de forma errada seria cumprida com esmero e dedicação máxima.
Levando isto ao extremo: e se uma ordem falada ou escrita por um qualquer chefe tivesse tantos erros gramaticais que se tornasse ilegível ou, bem mais terrível: se se entendesse o oposto daquilo que o comandante queria ordenar?
Pensar num exército completamente atabalhoado porque as ordens que recebeu, e que cumpre à risca, foram expressas numa língua cheia de erros ortográficos e de sintaxe.
Um exército que estivesse a invadir um país errado.

Assaltante desastrado
2. Há uma cena no filme Inimigo Público de Woody Allen, em que o protagonista, Virgil Starkwell, interpretado pelo próprio Allen, prepara tudo para assaltar um banco e, para ser mais discreto, leva um papel escrito que entrega ao caixa do banco, em que se pode ler algo do género: Isto é um assalto, tenho uma arma. Não reaja e entregue-me o dinheiro.
A questão é que o bilhete, escrito à mão pelo próprio ladrão desastrado, estava cheio de erros e o caixa do banco não entendeu o que ele queria.
O caixa e o assaltante discreto - mas com má gramática e caligrafia - discutiram depois um pouco sobre se ali, no papel, estava escrito uma letra ou outra. A seguir, o caixa chama outros funcionários do banco para discutirem a caligrafia, ortografia e gramática. Gera-se um grande burburinho em redor do bilhete escrito e dos erros gramaticais.
De facto, o assaltante era um desastrado na língua. Terminou preso.

Expressões populares
3. Expressão muito utilizada no muito desportivo - pôr tudo a limpo.
- Pôr tudo a limpo, tirar a limpo: «esclarecer, desfazer dúvidas, apurar a verdade».
- Pôr tudo a limpo. Ou seja, eliminar a sujidade.
- A sujidade é aquilo que tapa, que não deixa ver.
- Não deixa ver o quê?
- A verdade.
- Tirar a limpo, pôr a limpo: usar o pano do pó, um pano do pó simbólico, um pano do pó verbal.
- Em redor disto, a palavra esclarecer: tornar claro, passar o pano pelo obscuro e tornar claro.
- Esclarecer: é um acto de limpeza.
- É tirar o pó de cima daquilo que merece estar à vista.
- O pó é a ambiguidade, é aquilo que tapa.
- Tirar o pó de cima da verdade.

Maioria
4. Qualquer eleição de presidentes ou dirigentes desportivos, políticos ou associativos, é antecedida de grande discussões, ansiedade e expectativas.
Conta-se que, algumas décadas atrás, um candidato às eleições para Presidente de uma importante país foi abordado por uma senhora entusiasmada pela sua candidatura e que lhe disse:
- Todas as pessoas que pensam votarão em si!
- Minha senhora, assim não dá - respondeu o candidato. - Preciso de uma maioria."

Gonçalo M. Tavares, in A Bola

A DESCONSTRUÇÃO NA CIÊNCIA ACTUAL


"O que vou escrever toda a gente o conhece: uma profissão é respeitada, a partir do que produz, da qualidade do que produz, da utilidade do que produz e, sobretudo, da postura crítica diante do que produz. Actualmente, o questionamento é o primeiro momento da investigação científica, em particular de um conhecimento que se pretende inovador. E, como inovador, desconstrutivo. De facto, quem inova começa por desconstruir. Recordo Gilles Deleuze (1925-1995). O seu pensamento cresceu e frutificou à sombra de Nietzsche e assim participou na desconstrução da modernidade de Descartes a Hegel. Derrida (1930-2004) rejeita liminarmente o logofonocentrismo da cultura ocidental. Trata-se (diz ele) de um puro idealismo. E, porque idealismo, uma ditadura. O determinismo científico positivista acompanhava a ditadura do racionalismo filosófico. Há na ciência e na filosofia uma indiscutível concordância, pois que as “verdades” científicas não são independentes das crenças e dos valores. No caso do determinismo científico, ele sofre um telúrico abalo, com a admissão da estatística, para explicar o comportamento macroscópico da matéria e da energia – abalo que atingiu mesmo o “corte epistemológico”, com a incerteza e a ambiguidade onda/corpúsculo da Mecânica Quântica. Por isso, é tão analfabeto o que nada sabe, como o que julga que sabe tudo e que desconhece que a aplicação prática dos conhecimentos é uma arte e portanto, na passagem da teoria à prática, no próprio conhecimento científico, há mais do que ciência. Michel Serres, em diálogo com Bruno Latour (cfr. Michel Serres, Diálogo sobre a Ciência, a Cultura e o Tempo, Instituto Piaget, p. 74): “O século das Luzes contribuiu fortemente para remeter, para o domínio do irracional, toda a razão não formada pela ciência. Ora, eu defendo que existe tanta racionalidade, em Montaigne e em Verlaine, como na física e na bioquímica e, reciprocamente, há por vezes tanta irracionalidade dispersa nas ciências, como em certos sonhos”. Ou seja, a razão encontramo-la, estatisticamente igual, nas ciências e na literatura e não só nas ciências.
Bohme e Stehr, em livro célebre, The knowledge society – The growing impact of scientific knowledge on social relations, sublinham que a sociedade hodierna pode intitular-se a “Sociedade do Conhecimento” e um Conhecimento que radica na ciência e na tecnologia, as quais se apresentam como a força produtiva imediata e de grande poder desconstrutivo/reconstrutivo. De salientar ainda, na Sociedade do Conhecimento, a emergência dos intelectuais, como nova classe social. E portanto uma classe aberta à desconstrução/reconstrução permanentes do conhecimento. Embora a obra, que correu mundo, de Daniel Bell, sobre a sociedade pós-industrial, afirmando a centralidade da teoria, no conhecimento científico, para mim o intelectual, na Sociedade do Conhecimento, é um teórico de grande experiência prática. Ele deverá saber que uma invenção, ou uma descoberta, no mundo das ciências, desvenda, ao mesmo tempo, ciência e cultura. Na Sociedade do Conhecimento, a ciência, por si só, não poderá percecionar-se, como um “conhecimento completo”, porque a realidade, qualquer que ela seja, é bem mais do que ciência, é bem mais do que tecnologia. Conta-se que o célebre criador dos “Ballets Russes”, Serguei Diaghilev, suplicava ao dramaturgo, ao cineasta, ao escritor, Jean Cocteau: “Étonne-moi”. Alguns novos cientistas do Desporto também não se fazem rogados, para nos espantar, quando afirmam, publicamente e sem quaisquer problemas, que a tecnologia, de que dispõem, lhes permite a formação de campeões de invulgares qualidades. Sem dispensar o contributo inestimável da tecnologia (seria ridículo, já em pleno século XXI) o ser humano não desenvolve as suas qualidades, com tecnologia tão-só. Ainda há pouco, o treinador de futebol do Benfica, Nuno Lage, confessava à Imprensa: “Querem saber o segredo da nossa vitória, no campeonato nacional?”. E, quase escandindo as palavras, adiantou: “Fomos uma família!”. Fazendo minhas as palavras do grego Sócrates, “só sei que nada sei”, não devo esconder que já dialoguei com grandes treinadores desportivos, que fizeram o favor de responder às minhas dúvidas e demarcando-se de um entendimento generalizado, entre jovens académicos, me ensinaram que têm no cérebro verdadeiras abstracções da realidade os que fazem da tecnologia a primeira das causas de um modelar treino desportivo.
De facto, assim como alguns que se julgam astrónomos não fazem mais do que astrologia, também alguns que se julgam cientistas do desporto não passam de cartomantes. Há qualidades, no praticante, que são verdadeiros atributos humanos e não se trabalham, unicamente (nem principalmente) com tecnologia. Do que venho de escrever se infere da necessidade do contributo da tecnologia, no Desporto, mas de uma tecnologia humanizada. O sujeito, o tempo, a história, a cultura têm uma participação substantiva no processo de construção da ciência contemporânea. Thomas Kuhn, depois de ter estudado, com diligência e originalidade, a História da Ciência (dando especial relevo à Física) interpretou-a como uma actividade que resulta, não de um crescimento linear e contínuo, mas de revoluções científicas. Não esqueço que Lakatos defende a hegemonia de um paradigma, mais pelo sucesso do que pelo confronto, mais pelo diálogo do que pela competição. Seja como for, só com tecnologia não se formam homens (e mulheres), tanto na área do desporto, como no âmbito da educação. Na década de 30, a Alemanha era o país, tecnologicamente, mais avançado da Europa e, no entanto, criou o nazismo onde se descortinavam mais palavras do que ideias e com um líder (aplaudido por massas descabeladas, capazes dos maiores atropelos à dignidade humana) em que a loucura assumiu a forma de estupidez. Actualmente, a ciência e a tecnologia têm um poder tal que, sem filosofia, sem teologia, sem cultura, podem colaborar na destruição do próprio planeta. Como dizia o velho Esopo a respeito da língua, a ciência e a tecnologia podem tornar-se na melhor e na pior das coisas. Dizia-me, fraternalmente, há poucos dias, o António Simões, extraordinário jogador de uma extraordinária equipa, o Benfica da década de 60: “O meu amigo, para mim, tem um método: passa da prática à teoria e das ciências à filosofia e da vida à sabedoria. Por isso, o estar tão perto de nós e compreender-nos tão bem, a nós os que vivemos anos e anos, como jogadores de futebol”. E eu: “Por isso, a vossa competência, sempre renovada, de o meu amigo e outros dos seus colegas, antigos jogadores de futebol, poderem questionar o saber teórico de um modesto aprendiz da filosofia, como eu”. O ser humano é um ser inquestionavelmente biológico, mas também um ser inquestionavelmente cultural que, pela transcendência, vive num universo de consciência, de linguagem e de ideias. E, no ser humano, biologia e cultura são inseparáveis, quero eu dizer: a biologia desenvolve-se pela cultura e a cultura encontra uma raiz biológica em tudo o que faz.
E uma questão, neste momento, me nasce no cérebro: E as máquinas, ajoujadas de tecnologia, mas sem emoções, podem ser inteligentes? “Na concepção de Damásio, as emoções primárias podem, numa fase inicial, ser vistas apenas como meras reacções fisiológicas. Mas, num momento imediatamente seguinte, essas emoções associam-se aos sentimentos primordiais e transformam-se em sentimentos emocionais. Por conseguinte (…), os sentimentos primordiais surgem necessariamente associados a uma forma elementar de “eu”, o “proto-eu (ou proto-self), É este “eu” que, ao surgir associado aos sentimentos primordiais, está na origem das primeiras formas de consciência” (Artur Azul, Mente e Consciência – Filosofia e Neurociência, Guerra e Paz Editores, Lisboa, p. 145). Actualmente, parecem inexactas as opiniões dos que desconhecem que as emoções são parte (e activa) da inteligência. Aliás se, no ser humano, tudo está em tudo, por que não estariam as emoções, na razão? Por isso, para mim, os computadores não aprendem, porque não se emocionam. Acabo de escrever um erro de palmatória? De facto, o computador pode armazenar uma incontável quantidade de informações, mas não erra e, porque não erra, não descobre, nem inventa. E a sabedoria, quero eu dizer: a serena lucidez de quem sente todos os problemas, como se a todos já os tivesse vivido? A palavra “sabedoria” suscita inúmeros comentários, nas várias áreas do saber. Aí deixo o resumo de uma definição a este propósito: a sabedoria é uma filosofia de vida de alguém com larga tarimba de experiência e de informação. E, também aqui, há que saber desconstruir os vários textos de certos cientistas do desporto, doentiamente agarrados aos números, à tecnologia, ao homem-máquina. Alguns deles até são professores e ainda não entenderam a ligação essencial (eu diria mesmo: dialética) entre o estudo continuado do professor como fundamento da aprendizagem permanente dos alunos. Embora eu reconheça que é a esclerose em boa parte do sistema que sustenta uma docência reduzida ao mero ensino de coisas que já não servem para nada.
C. P. Snow, em conferência célebre, na Universidade de Cambridge (conferência intitulada Duas Culturas) deu um novo impulso à tese de que o saber universitário se encontra dividido em dois grupos, aparentemente inconciliáveis: de um lado, documentados e argutos nas investigações, os cientistas incapazes de uma crítica a um acanhado positivismo (ou neopositivismo)); do outro, os “intelectuais”, com um extenso saber literário, mas sem ponta de interesse por uma prática científica, ou pelo máximo de consciência possível de uma “revolução científica”. Não esqueço o que Ortega y Gasset escreveu: “A ciência experimental desenvolveu-se, em grande parte, graças ao trabalho de pessoas inquestionavelmente medíocres”. Se bem penso, eu direi que, tanto as ciências, como as humanidades, crescem, evoluem, universalizam-se, graças ao trabalho diligente de pessoas fabulosamente medíocres, universitárias ou não. A competência na cátedra e a genialidade na criação científica (e, se possível, a honradez na vida pessoal): são poucos e, quando existem, ainda têm que suportar a inveja, o ressentimento de uns certos pigmeus, intelectualmente muito limitados e praticamente impotentes e sem rumo. A desconstrução tem de chegar à frieza intelectual dos cientistas e ao analfabetismo científico de certos cultores das ciências sociais e humanas. Des-construir para re-construir. Desconstruir uma área científica, pensada e promovida por “tecnocientocratas” que olham com velada antipatia para a síntese ciência-cultura, ciência-arte, ciência-filosofia; e desconstruir ainda os literatos retóricos, há muito divorciados de um sério convívio com a tecnologia (incluindo a tecnologia digital) e a ciência, passando pelas energias renováveis ou pela computação quântica. E, depois de desconstruir, reconstruir todo o conhecimento científico, incluindo as ciências sociais e humanas, onde não deixe de escutar-se a recomendação de Rousseau a Emílio: “Quero ensinar-te a viver”. Porque é de viver (e não só durar) que se trata, quando se trata das ciências e das humanidades."

PRIMEIRAS PÁGINAS


domingo, 2 de junho de 2019

UM AZAR DO KRALJ


O slackline do Sun Tzu de Alverca e alguns recados: ponham-se finos e um digital detox, amigo Salvio (top of the flops, by Um Azar do Kralj)
Vasco Mendonça escolhe os piores dos piores do Benfica de 2018-19 numa análise cuidada, aprofundada, irónica e metafórica que podem ler aqui primeiro
RUI VITÓRIA
O Sun Tzu de Alverca do Ribatejo terminou a época passada com uma revisão em baixa do seu rating por parte da Standard & Poor's e da Casa do Benfica de Grândola, para referir apenas algumas das entidades. Seria sempre uma missão complicada, mas o treinador do Benfica avançou imune às circunstâncias, como um bêbedo que resolve fazer slackline. No caso, boa parte dos mirones desejavam a sua queda. O rating passou a lixo à medida que as exibições pobres se sucediam e os pontos iam ficando pelo caminho. Rui Vitória tentou contrariar a inevitabilidade da sua saída com palavras bonitas e algumas mexidas no onze, mas o melhor que conseguiu foi uma derrota em Portimão. Será recordado por dois títulos nacionais muitíssimo saborosos que nos permitiram chegar ao tetra ou pela pior prestação de sempre na Champions, consoante o momento em que nos lembrarmos dele.
ALFA SEMEDO
Há jogadores por quem ninguém torce. O brasileiro Ramires foi feliz na sua passagem pelo Benfica mas a primeira entrevista que deu foi a dizer que o maior clube do mundo era apenas um local de passagem a caminho do novo-riquismo londrino. Celebrei as vitórias do Benfica que contaram com a sua presença, mas nunca apreciei especialmente o fulano. Depois há o oposto. Alfa Semedo não é um prodígio e acabou por desapontar, mas eu suspeito que, algures no íntimo deste ser, existe um futebolista capaz de dar segurança defensiva e alegrias ao Benfica, como a que ele deu num golo que nem o próprio saberá exactamente como marcou, numa noite de Champions em Atenas. Não sei se algum dia a vamos descobrir, mas acho que há ali qualquer coisa.
CASTILLO
Chegou ao Benfica com fama de avançado fisicamente robusto, um jogador raçudo, um brigão com sentido de oportunidade, enfim, um extenso rol de mentiras que nos enfiaram na cabeça quando estávamos de férias no Algarve a ler desportivos. De cada vez que penso no valor da venda de Castillo - entretanto saiu por 7 milhões de euros - lembro-me da história do canadiano que colocou um clip de papel à venda no ebay e foi trocando por artigos melhores até conseguir adquirir uma casa. É preciso ser-se um génio para vender este amontoado de lenha em forma de jogador de futebol por 7 milhões de euros. Se Castillo vale 7 milhões, um Rafa há-de sair por 700.
FERREYRA
As credenciais deste eram indesmentíveis - quase 50 golos em duas épocas às ordens de Paulo Fonseca na Ucrânia - mas o futebol de Ferreyra nunca floresceu nem convenceu. Já perto do final da sua passagem pelo Benfica, foi Lage quem lhe deu uma oportunidade frente ao Rio Ave, mas o argentino voltou a parecer alheado do jogo, o cérebro incapaz de comandar as suas pernas, a alegria de viver completamente evaporada entre as linhas adversárias, uma réstia ínfima de paixão não se sabe por quê ou por quem, porque sempre de olhos postos no infinito em detrimento do colega que conduzia a bola. Deve ter votado PAN.
TAARABT
Pode um flop mais do que confirmado ser um dos maiores flops da temporada? Eu explico. Há muito que Taarabt é visto como um flop indiscutível, um flop tão grande que, se algum dia fosse criado um Comité Central de Flops, as suas reuniões aconteceriam às sextas no Urban e ele seria, evidentemente, um dos membros. Tudo isto até Taarabt conhecer Bruno Lage, milagreiro que o transformou em negação do flop, provocando um estranho misto de nó no cérebro e apreensão que se apodera do leitor sempre que o marroquino entra em campo. Agradeçam mais uma vez a Lage por expandir a vossa experiência sensorial. Taarabt é, também, uma confirmação renovada de que alguns flops mais não são do que histórias com um final feliz à espera de acontecer.
MENÇÕES DESONROSAS
SVILAR
Já acreditei muito mais no seu potencial. Acho que a única forma de sabermos se vale alguma coisa é torturá-lo com um empréstimo de uma época ao Tondela, onde começará como suplente, e ver se sai dali um adulto.
ZIVKOVIC
Decidi incluí-lo só para ver se ele abre a pestana. Zivko, eu sei que estás a ler isto. Põe-te fino.
JOTA
Idem. Vê lá mas é se renovas.
SALVIO
Devias fazer um digital detox, amigo.
KROVINOVIC
O que é que se passou contigo? Já falei com o Lage e só voltas a jogar quando mudares de penteado.
Um Azar do Kralj