quinta-feira, 27 de junho de 2019
COM MUITO DINHEIRO GRANDES RESPONSABILIDADES
O Benfica terá feito um negócio notável com a venda do passe de João Félix. Escrevo no condicional pois há apenas uma declaração de intenção do Atlético de Madrid e, até à comunicação oficial, há alguma informação incerta e, por vezes, contraditória. Mas, se se confirmar uma venda pela cláusula de rescisão de , estamos perante um dos 120 milhões de euros, estamos perante um dos melhores negócios da história do futebol. João Félix jogou uns breves 3.022 minutos com a camisola da equipa A do Benfica. Em 43 jogos, confirmou que é um jogador diferenciado, com golo, muita qualidade na decisão e um potencial imenso. Só que, sendo óbvio que um Benfica europeu precisa de ser capaz de reter talento da formação, há também limites para a capacidade de resistência de um clube de um campeonato periférico como o nosso: 120 milhões por um jogador que ainda há oito meses tinha uma cláusula de 60 milhões está bem para além desses limites. Aliás, vender jogadores por valores exorbitantes (é mesmo disso que estamos a falar) é coerente com a aposta estratégica na formação. No entanto, com muito dinheiro vem também grandes responsabilidades. E o negóio da venda de João Félix, pelo valor, pelo clube de destino e pela intermediação de Jorge Mendes precisa de todo o escrutínio e atenção dos sócios do Benfica. Um bom princípio é, por exemplo, olhar para o que aconteceu com os nossos adversários depois de se encontrarem em situações como a que hoje vive o Benfica. Se recuarmos década e meia, o FC Porto, pela mão do mesmo empresário, acumulava vendas exorbitantes, juntando ao sucesso desportivo receitas financeiras com poucos paralelos. Hoje, está intervencionado pela UEFA e com dificuldade em financiar o investimento. É disparatado criticar à partida um negócio com os contornos do que o Benfica vai fazer com o Atlético de Madrid, esquecendo, por exemplo, que foi também desde que Jorge Mendes passou a ser parceiro estratégico do clube que iniciou uma senda vitoriosa mas é igualmente um erro ter postura acrítica. Há perguntas que têm de ter respostas e, no essencial, temos de estar alerta em relação ao futuro próximo. Desde logo, há que seguir o dinheiro,. O Benfica não só pode como deve continuar a fazer negócios com a intermediação de Jorge Mendes, o que não devia é, por força da receita que vai fazer com João Félix, adquirir jogadores sem currículo, apenas porque são agenciados pela Gestifute. Se o fizer, fica sugerido que o que entra como receita, logo sai como despesa. Há momentos em que é prudente e avisado seguir a máxima de que não basta ser sério, é preciso parecer. Depois do que se tem passado no último par de anos com o Benfica, este é um desses momentos.
Pedro Adão e Silva, in Record
BENFICA ESTÁ RICO!
"Garantiu €200 milhões! (comissões já abatidas). Logo, pode comprar bem... FC Porto e Sporting: como vai a carruagem de perspectivas...
Mais de 2 meses até que os plantéis fiquem, enfim!, definidos. Porém, a temporada oficial do nosso futebol arrancará 3 semanas antes - e há pré-eliminatórias na Champions (FC Porto) e na Liga Europa (V. Guimarães e SC Braga). Férias, agora, é o que não têm dirigentes e empresários. Mesmo para treinadores e vários futebolistas, ainda que na praia, os telemóveis não param... Alvoroço na preparação (exigente e... crucial) da próxima época. Realidades e sonhos: tempo de esboçar perspectivas (podem mudar pouco depois deste texto estar escrito...).
Benfica. Está rico! (à escala lusitana). Fabulosa transferência do miúdo João Félix: €120 milhões!!! (a receber em quantas parcelas/quanto tempo?). Mais os 38 milhões vindos do Wolverhampton, por Jiménez, os 19, do Guangzhou, por Talisca, e os 12 do Frankfurt, por Jovic se mudar para o Real Madrid. Abata-se comissões; ainda assim, e com exagero nelas!, o encaixe atinge, pelo menos, 150 milhões! Mais entrada directa na Champions: garantia de 40/50 milhões, com mínimo (na época anterior, a carreira do FC Porto valeu 80 milhões!).
Portanto, receitas extraordinárias do Benfica já estão nos 200 milhões! E pode não ficar por aqui... se Carrillo sair definitivamente (10/15 milhões?) e/ou se algum clube se interessar a sério pelo talento (competitivamente adiado) de Zivkovic, por exemplo. Previsto adeus a Fejsa não terá significativa contrapartida financeira.
Benfica campeão e, de súbita, rico! Tem, pois, condições, muito superiores às habituais, para segurar continuidade de Rúben Dias, Grimaldo, Rafa, Pizzi, Ferro, Florentino... - e a de Cervi, se sobre ele não tiver dúvidas...
Claro que necessita de reforços: 2, ou 3, pontas de lança a sério (adeus a João Félix e, quase de certeza, a Jonas...); quiça defesas laterais (parece evidente!; mas Vieira garantiu que não!) e um defesa central. E tanto se tem falado de o Benfica querer outro guarda-redes...
Salvio decidiu deixar saudades da sua classe, tão fustigada por lesões - e não faço nem leve ideia do extremo já contratado, vindo do Al Ain: Caio Lucas. Sobre outro extremo (a confirmar), o menino Pedro Neto, internacional esperança (há 2 anos, saiu do SC Braga para a Lazio, dizem que por 17 milhões!), tenho ideia de possuir bom potencial.
Por muto forte investimento que faça, não creio que Benfica despenda sequer metade dos tais 120 milhões que já garantiu encaixar. Se, para além de forte, o investimento será bom, isso só o tempo dirá (há um ano, de 9 aquisições, apenas 2 se impuseram: Odysseas e Gabriel).
FC Porto. Saídas de Mlitão e de Felipe valeram entrada de €70 milhões (50+20). E a conta bancária portista já inchara com os 80 milhões conquistados na Champions. Portanto, mau grado mais um ano sob alçada financeira da UEFA, dinheiro disponível não é escasso. Problemão está nisto: para além do adeus à, quanto a mim, melhor dupla de defesas centrais em Portugal, também deixará de haver Casillas; tal como, ao que tudo indica, a enorme capacidade competitiva de Herrera (em todas as posições do meio campo!) e o invulgar talento de Brahimi. Meia equipa titular! Nada tendo da improvável a perda de outra chave-mestra no possante futebol à Sérgio Conceição: Marega, desde há um ano híper desejoso de rumar a Inglaterra. Aquisições? Até ver, apenas Saraiva, defesa direito argentino (duro falhanço em última hora: Bruma, avançado no qual vejo pujante talento). Regressam o médio Sérgio Oliveira (Herrera...), o extremo Galeno (Brahimi...) e o central Osorio - este para discutir com os jovens (muito prometedores) Diogo Leite e Diogo Queirós a importantíssima dupla com Pepe; e regresso de Marcano estará na calha? Continua a não se vislumbrar alternativa ao precioso Alex Telles.... Gritante: SOS por guarda-redes!
Sporting. Crucial: quantos milhões pela, tão dolorosa quanto inevitável/necessária, perda do líder Bruno Fernandes? Emprestado Gudelj (foi importante) também parte - mas Battaglia deverá recuperar de grave lesão e Doumbia deu indicações de mais-valia. Aquisições feitas: defesa direito (Rosier), experiente defesa central (Luís Neto), avançado (Vietto). Decerto regressará outro avançado, a grande promessa Gelson Dala. Por definir: Acuña e Bas Dost ficam? Resposta importantíssima..."
Santos Neves, in A Bola
LADRAM OS CÃES DA MADRUGADA
"Os anos atropelam a gente e não olham para trás nem pedem desculpa por todos os desenganos que nos trazem à medida que vão de mão dada connosco pela viela sinistra que vai dar à porta da velhaca senhora da gadanha.
Os cães da madrugada ladram-me aos tornozelos da tristeza. Havia uma velha música de Umberto Bindi que dizia:
”Ecco/ La musica è finita
Gli amici se ne vanno
Che inutile serata...”
É isso. Amigos que partem e eu sobro para lhes ir escrevendo, cabisbaixo, os epitáfios. O Vítor Campos e o Camolas, o Chibanga, Lennart Johansson, Manuel José Homem de Melo. Perco-me no QWERT das páginas de obituários. Ou nas páginas de homenagem a quem já não consegue lembrar, meu amigo Fernando Chalana, perdido lá no labirinto do seu imenso talento.
Eu costumava ligar para casa do Marinho Peres, no tempo em que os telefones obedeciam às leis dos fios, e ouvia inevitavelmente, do outro lado, a sua voz cava: “Fala, garoto!” Ele gostava daquele tratamento de tipo mais velho, uns sete anos mais do que eu, nessa altura uma vida bem preenchida, e depois partíamos na grande aventura dos almoços prolongados com histórias e episódios infinitos, desbobinados à medida da sua memória. Foi assim em Guimarães, em Lisboa, no Funchal... Marinho eternamente amigo; eternamente divertido; profundamente bom.
Parece que já lá vão muitos anos, e vão mesmo. Os anos atropelam a gente e não olham para trás nem pedem desculpa por todos os desenganos que nos trazem à medida que vão de mão dada connosco pela viela sinistra que vai dar à porta da velhaca senhora da gadanha. Em Sorocaba, Marinho Peres vai recusando passar a fronteira dessa porta que só tem para lá dela os confins do nada. Canalha, um AVC apanhou-o distraído, talvez a rir-se, ele que sempre fez questão de rir, de rir muito, de que todos se rissem muito em seu redor.
Vi muitos treinos do Sporting sentado a seu lado num banco de madeira corrido, junto à linha lateral do antigo campo de treinos de Alvalade, que ficava quase em frente da porta principal do estádio, e ele gostava de observar à distância para, de vez em quando, ir até lá corrigir os movimentos com o seu ar de monstro descabelado que a alma recusava a alimentar por muito tempo. E gostava de ensinar, à sua maneira, aquilo que pretendia dos jogadores. Dava-me uma cotovelada e dizia: “Vê! Vê! Não tem como enganar. Aquele cara lá na frente vai cair outra vez no impedimento!” Vinha o lance e era tal e qual como descrito, um passe de Figo ou Balakov, daqueles de bandeja com pastel de bacalhau, cervejinha, palito e tudo, direito aos pés do avançado-centro, e o apito do adjunto interrompendo por fora-de-jogo. “Eu não te disse!”, ria Marinho um riso de nervos: “Vá tomá no cu dele!!!”
Mario Peres Ulibarri, de seu nome completo, levou uma vez o Sporting a 11 vitórias consecutivas nas primeiras jornadas do campeonato. Até no Bessa, onde os leões costumavam sofrer como cachorros vadios, venceu por 3-0 com um bela exibição de um tal Careca que, para Sousa Cintra, era a coisa mais parecida com uma mistura de Eusébio e de Pelé. Estive lá nessa noite chuvosa do Porto. Depois, em Chaves, um empate por 2-2, desperdiçada a vantagem de 2-0, abanou a equipa de tal forma que não teve arranjo. O costume.
Nessa semana fui ao gabinete de Marinho Peres, em Alvalade, para uma grande entrevista. Pedi-lhe para se deitar na mesa das massagens e ser aí fotografado pelo meu querido Nuno Ferrari, outro dos que já partiram. O moto da conversa deveria ser: “O leão na mesa do psicanalista”. O Marinho contou o regresso aos treinos do dia seguinte ao empate: gente de ombros curvados, conversas em murmúrios, caras fechadas, nem o estralejar de uma gargalhada. No fim, desabafou: “Coisa tremenda, garoto! Ganhámos 11 partidas e, no primeiro erro, só ouço todo o mundo dizer que já não vai ser este ano, que é tudo uma merda, que somos um clube de infelizes, sem sorte nos jogos...” Assustava-o aquela mentalidade desistente. Não foi campeão, mas chegou à meia-final da Taça UEFA. Depois andou por aí, de novo no Belenenses, por mais do que uma vez, no Marítimo também.
“Nascondendo la malinconia
Sotto l’ombra di un sorriso”,
recordo-me dele com saudade. E só posso dar-lhe um conselho de amigo antigo: “Se a morte chegar à tua beira, responde-lhe como costumavas fazer – ‘Vai tomá no teu cu, garota!’”"
ENTRE OS MORTOS HAVIA UM QUE RESPIRAVA
Edie era um tipo valente, isso ninguém pode por em causa. O apelido Rickenbacher não escondia as suas origens alemãs, mas nasceu em Columbus, no Ohio, e sempre teimou que o seu alemão era suíço e que um suíço-alemão não tem nada que ver com um alemão-alemão e ponto final. Vai daí, começou a assinar Rickenbacker e, mal pôde, atirou-se aos alemães como gato a bofe que, vendo bem, já não é coisa que se dê a gatos.
O pai de Edie era dado a máquinas. Tinha um moto de vida um bocado estúpido, mas era o que se podia arranjar no início de 1900, em Columbus, Ohio: «Se fizeram as máquinas é porque querem que as usemos». O filho fartou-se de usá-las mas a primeira vez que se viu metido numa camisa de onze varas foi por causa de uma carroça puxada a cavalos com a qual disparou por uma ruela, esbarrando com tudo o que lhe ia passando à frente do nariz (bem grande, por sinal) até se estatelar ao comprido numa eira com a cabeça amolgada e umas costelas deitadas abaixo. Disse sempre a toda a gente que o pai morrera quando ele tinha treze anos num acidente de automóvel, mas essa versão seria desmentida mais tarde por um dos seus biógrafos, W. David Lewis, que expôs uma versão bem mais macabra de mr. Rickenbacher sr. envolvido numa altercação de taberna a expirar à força de facadas no bucho.
Órfão, Edie deixou os disparates próprios da adolescência para se dedicar a disparates de adulto. Inscreveu-se num curso de engenharia por correspondência, empregou-se na Columbus Buggy Company e vendeu automóveis. Não demorou a ganhar a alcunha de Fast Edie, por conduzir carros bem mais depressa do que carroças puxadas por cavalos. No dia 9 de Setembro de 1916, ao volante de um Maxwell, participou na prova de Indianápolis 500, rebentou com a viatura, voltou a amolgar umas omoplatas mas, surpreendentemente, o seu nariz preponderante manteve-se intacto. Em seguida, limitou-se a ser ele próprio: em treze corridas, ganhou sete. Só que, a febre da velocidade não se esgotava com equídeos nem com cilindradas menores. Queria pilotar aviões e, apesar de ter ganho a alcunha de Huno por parte de alguns colegas, devido ao germânico nome de família, não tardou a tornar-se um ás. Em França, no Esquadrão 94º, ao comando de um Fokker D. VII, foi abatendo inimigos como se fossem tordos.
Quando a I Grande Guerra acabou, Edie era uma estrela. 26 aviões alemães abatidos, Legião de Honra e Cruz de Guerra atribuídas pela França, Medalha de Guerra e Cruz dos Serviços Distintos entregues pelo governo americano, fama de grande vencedor de provas automobilísticas, dinheiro no bolso, promovido ao posto de major. Era um tipo valente, mas também modesto. «Na guerra fui capitão, depois deram-me estes galões de major; como nunca combati como major, quero ser tratado por capitão». Escreveu um livro chamado Fighting the Flying Circus, no qual chorou a morte do seu grande amigo, o tenente Quentin Roosevelt, filho do presidente Theodore, e foi convidado para fazer filmes em Hollywood a troco de muitos punhados de milhares de dólares. Encolheu os ombros e esteve-se positivamente nas tintas para o cinema.
Rickenbacker, dono do seu nariz, que como já disse era francamente proeminente, fundou uma companhia aérea, a Florida Airways, e voltou a apaixonar-se por automóveis o que, convenhamos, foi melhor do que recuperar o seu encanto pelos equinos do final da sua infância. Muita gente não sabe, nem eu sabia até ler sobre esta curiosíssima figura, que foi a sua fábrica, Rickenbacker Motor Company quem desenvolveu o sistema de travões às quatro rodas. O que não impediu que a empresa caísse na bancarrota. Não olhou duas vezes para trás: fundou a Indianapolis Motor Speedway, vendeu maquinaria para a Cadillac e para a General Motors e acabou por adotar a filosofia do pai.
Edie foi como irmão de Quentin quando combateram juntos nos céus da França e da Alemanha. Mas nunca viu a política do presidente Roosevelt como sobrinho Criticou publicamente o New Deal, o projecto de reformas e obras públicas de Theodore com violência: «Não vejo grandes diferenças entre isto e o comunismo». Os Estados Unidos gostam de se considerar como uma espécie de luz da Democracia. Rickenbacker, o herói da guerra contra a Alemanha, passou a ser tratado como um alemão. A administração Roosevelt entrou pelo caminho da mais pura das censuras: proibiu que as suas opiniões fossem propagadas pelas principais cadeias de televisão e pressionou as direcções dos jornais a não lhe concederem espaço. Devolvido à condição de Rickenbacher, o Huno, viajava como passageiro num Douglas DC-3 que se despenhou em Atlanta. Como nos livros de Texas Jack, entre os mortos havia um que respirava: Edward Rickenbacker. O seu estado era tão miserável, que ninguém o socorreu. Deram mais atenção aos vivos. Edie não resistiu. Só o seu cleopátrico nariz se manteve intacto."
PRIMEIRAS PÁGINAS
quarta-feira, 26 de junho de 2019
FÉLIX CONSOLADO E FÉLIX DESOLADO
"Em momentos de puro lirismo ainda me passa pela cabeça que é possível contrariar o império do dinheiro, mas o caminho é irreversível
1. Este Contador da Luz chega, hoje, às 100 crónicas. Um número centenário centrado, quase totalmente, num meu homónimo de apelido: João Félix. Entre ele e eu distam 51 anos e 214 dias de tempo de vida, ele que, curiosamente, faz anos no mesmo dia outonal em que o meu Pai, de quem recebi o apelido, também fazia. Com este jovem na crista da onda mediática, volta a questão da pronúncia apelido. Félix deve pronunciar-se como se acabasse em s e não em cs, respeitando, assim, a origem da palavra dos tempos do início da formação da língua portuguesa. Deve ser lida como cálix e cóccix (se acha que não, experimente o leitor dizer esta palavra como muitos dizem Felics...).
Em escassos seis meses, a vida de João Félix mudou radicalmente. Foi titular indiscutível na equipa principal do Benfica, mas apenas desde Janeiro sob a direcção de Bruno Lage, embora tivesse brilhado nos juniores, o que, há um ano, muito ajudou o clube a sagrar-se campeão nacional.
Dentro de semanas, Madrid substitui Lisboa e o Atlético espanhol segue-se ao SLB. Muito se tem dito sobre os prós e contras desta mudança tão rápida, quanto alucinante. Para um teenager na idade de todos os sonhos, não é fácil ter de fazer uma escolha desta magnitude, pois que ao lado de uma opção está sempre uma renúncia. Melhor? Pior? O tempo se encarregará de dar a resposta.
É óbvio que terá sido uma decisão pensada e ponderada. É natural que tenha tido a ajuda imprescindível da sua família e o acompanhamento profissional do seu agente. Percebo os riscos associados a qualquer das opções que tiveram de sopesar.
No fundo, a decisão é um caminho entre o certo hoje e o incerto amanhã. Entre o seguro agora e o arriscado depois. Entre o apanhar o comboio que passa e o esperar pelo próximo. Entre o fascínio e a maturidade. Entre a meta e as etapas. Entre o maior resguardo e a maior solidão. Entre o coração sem cifrões e o dinheiro sem pulsações.
2. Como benfiquista, sinto alguma divisão dentro de mim. Fico desolado futebolisticamente falando. Tenho de me resignar diante de um futebol, em que primeiro está o ter e cada vez menos o ser, por via da regra impositiva do poder dos dinheiros sem pátria. Nos últimos anos, assim tem sido com muitos atletas que permitiram ao Benfica na era L.F. Vieira ter superado a barreira dos mil milhões de euros (brutos) de encaixe financeiro. Ponho-me a imaginar o sonho de voltar a ser campeão europeu se, em momentos diferentes, tivessem continuando no Benfica, jogadores que passaram pelo clube durante uma época ou metade dela: Ramires, Witsel, Ederson, Oblak, Renato Sanches, Gonçalo Guedes, Lindelof, Matic, etc. Não esquecendo Bernardo Silva ou João Cancelo, que praticamente não conheceram o carinho da Luz. Custa-me muito que o meu clube não possa aguentar um pouco mais pérolas tão preciosas, que não aparecem de um dia para o outro. E se o meu coração encarnado continua a sangrar pelo notável Bernardo - ele próprio um benfiquista de alma e coração -, ver partir João Félix com o escassíssimo aperitivo de quatro meses (na 1.ª categoria) provoca um grande desconforto na inegociável alma benfiquista.
Por vezes, em momentos de puro lirismo, ainda me passa pela cabeça que é possível contrariar o império do dinheiro e a malfadada lógica de entreposto. Mas logo desperto do sonho acordado e percebo que o caminho é irreversível.
Respeito, racionalmente, a decisão da saída. É a vida, como sói dizer-se. Mas, na quietude cómoda da minha casa e diante do computador no qual agora escrevo estas palavras, tenho pena de não se terem conjugado caminhos para uma solução a contendo de todos. João Félix poderia ter amadurecido, humana e futebolistamente, mais uma ou duas épocas no Benfica. Creio mesmo que teria mais a aprender com Bruno Lage do que com Simeone. Bem sei que escolheu Madrid, ali mais perto de Lisboa, e não uma fria Alemanha, ou uma desinteressante França ou Itália (já quanto a Inglaterra, sou de opinião que seria a escolha ideal). Bem sei que vai para um forte clube que quer subir ao topo e do qual já se vem aproximando. Não tenho dúvidas de que será bem aconselhado e é um rapaz ajuizado. Todavia, o desafio, ainda com os seus 19 anos, tem riscos não despeciendos. Cito apenas um que não teria se estivesse mais um tempinhos na Luz (ainda que com menos dinheiro já em cima de muito dinheiro): com 120 milhões investidos e 6 ou 7 milhões líquidos por ano (cito o que tenho lido), não vai ter estado de graça, isto é, não vai ter muito margem de erro ou de adaptação. Isto perante os adeptos impacientes que sempre os há, os media-abutre espanhóis implacáveis contra os portugueses e o balneário onde a natureza humana da inveja e da injustiça relativa sempre espreita em momentos menos afortunados.
Centro e vinte milhões de euros é, de facto, um montante assombroso. O seu a seu dono. Uma operação que muito se deve ao presidente do Benfica, que teve o rasgo e a visão de dobrar a cláusula de rescisão ainda há bem pouco tempo e que nunca cedeu a uma transferência por um valor inferior. Não se trata apenas de um valor (bruto, é certo...) impensável para um rapaz de 19 anos, como também releva o facto de o recebimento ser imediato, o que também faz muito diferença, face ao recorrente escalonamento e diferimento dos recebimentos.
3. O mundo do futebol rico entrou numa zona para-obscena que nada tem a ver com o das sociedades em que se insere. Para os maiores clubes europeus, mais milhões ou menos milhões é quase igual ao litro. Ou são os consumidores que os pagam por via da repercussão nos preços dos bens e serviços por força dos direitos de imagem, da publicidade e patrocínios, ou são fundos soberanos de Estados distantes e ricos que têm meios, não raro em regime (consentido) de lavandaria e pronto-a-vestir. A isto a FIFA e a UEFA fecham os olhos e fingem fair play financeiro que só atiram aos países pobres e remediados com o seu selectivo dedo em riste.
Mas voltamos aos 120 milhões. Vejamos alguns exemplos do que significa este valor, em termos relativos, com outras indicadores do Portugal de 2019. Trata-se de tanto como 75% do total de taxas moderadoras que, no SNS, os portugueses pagam por ano. Equivale a 34% do total orçamentado com o Rendimento Social de Inserção, a 17% do Abono de Família, a 57% do Complemento Solidário para Idosos, prestação que é paga aos pensionistas de mais baixas pensões e sem outros recursos, ou, ainda, a 21% da totalidade do Subsídio de Desemprego. O montante da transacção equivale, por outro lado, a 37% do Orçamento do Ministério da Cultura e a 14% da totalidade da verba pública dedicada à investigação científica de carácter geral. E corresponde a 11% de todo o Sistema de Justiça (excluindo prisões) e - imagine-se! - a 8,2 vezes o orçamento de toda a Presidência da República. Comparando com impostos, equivale, por exemplo, a 31% do imposto de Circulação de Viaturas. O valor em causa é o mesmo que o salário mínimo português anual (14 meses) pago a 14.286 trabalhadores. Como se constata, oscilarmos entre o esplendor e o fausto deste Portugal da fantasia e a exiguidade do Portugal do comum cidadão.
Fiz ainda outro exercício. Comparei aquele valor com a capitalização bolsista das SAD dos três grandes que, conjuntamente, era, à cotação de ontem, 24 de Junho de 2019, de 129.325 milhões de euros (representando a SAD encarnada 53,4% do total). Montante pouco acima da cláusula de rescisão paga pelo clube de Madrid. Em jeito de brincadeira especulativa, seria caso para perguntar por que não fez o Atlético, com mais um pozinhos, uma Oferta Pública de Aquisição (OPA). Ficaria não só com o João Félix, mas com os três plantéis do SLB, FCP e SCP...
Contraluz
- Contratação: Fala-se da eventual vinda para o Benfica de dois jovens portugueses da Lazio, há dois anos transferidos do Sp. Braga por 28 milhões! Diz-se que custarão agora 20 milhões ao SLB. No total, 48 milhões envolvidos. Não conheço as suas potencialidades (na Lazio quase não jogaram..). Apenas sei que o intermediário é o mesmo de João Félix. Pura coincidência ou algo mais?
- Compensação: O FCP vai receber 1,2 milhões pela formação de João Félix no Dragão. Não que seja muito, mas é infinitamente maior do que terá recebido pelas saídas de Brahimi e Herrera (1,2/0=∞) e até dá para financiar parcialmente o pagamento que, no fim do processo dos emails, poderá ter de pagar ao Benfica.
- Constatação: Os rostos - até mais do que as palavras - não podiam ser mais elucidativos, quanto a comentadores afectos ao FCP e ao SCP falando do que antes juravam ser impossível: os tais 120 milhões. Foi elucidativa a decepção. Pudera! Ponho-me a pensar como me sentiria se João Félix tivesse feito o caminho inverso: da Luz para o Dragão...
- Felicitação: Ao Casa pia Atlético Clube (campeão) e ao Vilafranquense pela promoção inédita à 2.ª Divisão! Quanto à cidade de Lisboa, os gansos, que até já tinham uma presença na 1.ª Divisão (1938-39), compensam a ausência do Atlético e Oriental nos escalões profissionais."
Bagão Félix, in A Bola
OS CIÚMES QUE TÊM DO BENFICA
"Faz bem o que mais ninguém é capaz, porque tem um rumo e respeita um plano de crescimento subordinado ao admirável sentido estratégico do seu presidente
Não fosse a transferência de João Félix para o Atlético Madrid, mais os 120 milhões de euros que lhe estão associados, suscitando conversas e discussões ao nível de baiuca de aldeia, o defeso seria uma pasmaceira completa. Sem capacidade para investir no futebol de paróquia o resultado é este, nada de especial acontece.
O Benfica, campeão em título, é um oásis em deserto de ideias. Faz bem o que mais ninguém é capaz, porque tem um rumo e, principalmente, respeita um plano de recuperação e crescimento subordinado ao admirável sentido estratégico do seu presidente: primeiro salvou o clube das cinzas, depois investiu nas infraestruturas, com gastos substanciais que obrigaram a uma travessia longa, mas de risco controlado, até alcançar a estabilidade financeira que lhe permitisse concentrar forças e energias no ousado projecto desportivo. Que está em marcha e, como é óbvio e notório, não só coloca a águia em patamar superior comparativamente aos principais emblemas rivais como explica os ciúmes que estes lhe têm e não escondem.
Neste momento, o Benfica reforça-se a rejuvenesce-se, procedendo apenas a acertos pontuais na medida em que o corpo central do plantel se mantém. Será essa, creio, a intenção futura, justificada por uma linha de continuidade assegurada pela academia do Seixal, ficando o recurso ao mercado externo limitado à suspensão de carências que os meios internos não conseguirem solucionar.
Nenhuma surpresa, pois, pelo facto de o pilar principal formado por Jardel, Fejsa e Jonas, sobre o qual foi projectada a época transacta, ter perdido o protagonismo. O caminho de reconquista a isso obrigou. Abriram-se novos horizontes e os três indispensáveis, de repente, perderam espaço, embora por razões diferentes.
Jardel, ainda com Luisão no activo, adiou Rúben Dias, mas já não parou Ferro, nem prejudicou o crescimento da futura dupla de centrais da Selecção. Será chamado menos vezes ao palco, mas nem por isso verá diminuída a sua influência na comunidade.
O caso de Fejsa é diferente. O futebol do Benfica adquiriu outra intensidade com novas dinâmicas e debilitou a posição do médio, ao nível da velocidade que não tem e de disponibilidade física que lhe falta.
Jonas é o homem do golo. Sem ele era desgraça anunciada. Além disso, foi tema de discussões infindáveis e de sábios tratados jornalísticos quando Rui Vitória alterou o sistema de jogo. Porém, o avançado brasileiro, detentor de uma qualidade de execução superior, integra-se em qualquer desenho táctico. Foi o que fez, provando à saciedade a inutilidade das horas que se gastaram sobre um problema que, verdadeiramente, nunca existiu.
A idade não perdoa, e as dores nas costas também não, mas um jogador com a sua classe quase nem precisa de correr atrás da bola, é a bola que corre atrás dele... Não espantará, no entanto, se não couber no formato da águia 2019/2020. Tal como Salvio, por exemplo. O argentino chegou 2012, não está em causa a sua competência, mas as frequentes paragens provocadas por lesões somam dois anos de inactividade. É demasiado. O comportamento do Benfica é inatacável ao prolongar-lhe o contrato até 2022, mas as coisas são como são...
O espírito da reconquista trazido por Bruno Lage foi apenas o primeiro passo de um novo percurso. Ou não. O percurso será o mesmo, embora atacado com outra atitude. Com o prazer de acreditar que o Benfica vai voltar a ser campeão europeu, como confessou o director-geral Tiago Pinto, em entrevista publicada em A Bola. É esse o desejo supremo do presidente Luís Filipe Vieira e, garantidamente, de toda a grande família benfiquista.
(...)"
Fernando Guerra, in A Bola
MERCADO PINTADO A VÁRIAS CORES
"O mercado começou, cedo, a agitar-se internacionalmente com a contratação de João Félix, por 120 milhões de euros. Agora, fala-se no interesse da Juventus na contratação de De Light, o que, tal como A Bola noticiava ontem, poderá originar um tsunami que irá varrer os melhores centrais do mundo, incluindo Rúben Dias. Torna-se, assim, previsível que a janela de verão seja das mais arejadas de sempre, por onde irão voar muitas centenas de milhões e muitos jogadores a caminho de novas paragens.
Em face dos colossais números dos grandes europeus, o mercado português apenas pode olhar lá para cima e rezar para que as pequenas verbas disponíveis deem certo.
No quadro dos três clubes maiores, o FC Porto é o que tem mais pressa em resolver e o que se mostra mais nervoso. O clube vai precisar de reestruturar toda uma equipa e de a tornar suficientemente competitiva para não deixar fugir o Benfica no restrito panorama nacional e ainda conseguir entrar na fase de grupos da Champions, um primeiro objectivo da época que é, desde logo, decisivo.
O Sporting vive, inquieto, a expectativa de venda de Bruno Fernandes. Será em função dessa transferência, eventualmente dolorosa e necessária, que irá traçar o quadro para o futuro imediato e para uma política desportiva que não poderá ir muito para fora de pé, sem risco de afogamento.
Por fim, o Benfica. É o mais descansado, muito embora se perceba que não gostaria de juntar Rúben Dias no adeus a João Félix. Preocupação maior será a de saber proteger com contratações de valor elevado para a realidade portuguesa, mas cirúrgicas."
Vítor Serpa, in A Bola
PRIMEIRAS PÁGINAS
terça-feira, 25 de junho de 2019
JOÃO FÉLIX E BRIGITTE BARDOT
"Olho para o menino e sinto-lhe a alegria da pureza da semente, de que falava Miguel Torga. No drible, no arranque, no remate, no golo: o mais importante é a bola. Como se fosse Peter Pan, o rapazinho que não queria crescer.
Torga, o Poeta da Montanha, que eu gosto de citar, escreveu uma vez, em 1957, salvo erro:
'Pois eu gosto de crianças
Já fui criança, também...
'Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.
É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal duma nascente,
E tudo o que sou voltasse
À pureza da semente'.
Outro dia estava a ver o João Félix jogar e lembrei-me deste poema. Faz sentido. O João é uma criança. Assim, de forma meio assustada, calculei que terá idade para ser praticamente meu neto. Talvez por isso, ao olhar para ele, dentro do campo, sobre a relva, com o aparelho nos dentes, a franja desarrumada e os sinais do acne juvenil, não consiga ver para lá da criança que é.
Não lhe adivinho o futuro. Reconheço-lhe o atrevimento.
Talvez ele venha a atingir o topo do mundo. Se o conseguir não ficarei admirado.
Mas é apenas uma criança.
Que joga a bola como todas as crianças.
Só que em deus qualquer, daqueles que gostam de futebol, resolveu presenteá-lo com o dom único de a bola ter por ele a preferência que não tem por outros. Escolheu-o. Obedece-lhe. Enrola-se nos seus pés como uma cachorrinha abandonada que precisa de mimos e sabe que os pés de João nunca serão capazes de a tratar mal.
Mesmo que criança ainda.
Um garoto. Que joga como se ainda brincasse na sua liberdade suprema de infância irremediável. A primeira vez que Nelson Rodrigues, o grande mestre brasileiro da crónica, viu jogar Pelé, publicou no seu jornal:
'Examino a ficha de Pelé e tomo um susto:
- dezassete anos!
Há certas idades que são aberrantes, inverosímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezassete anos jamais. Pois bem - verdadeiro!'
Quase me apetece escrever de volta: eu, com mais de cinquenta e cinco, custa-me a crer que alguém possa ter dezanove anos. O João tem! Verdadeiro!
A sombra de Peter Pan
Digo-vos com a sinceridade do costume de já uma década nestas vossas páginas a escrevinhar sobre tudo e mais alguma coisa: essa crónica de Nelson Rodrigues é absolutamente admirável. Tão obra de arte como uma peça de piano de Prokofiev, o mestre da clássica elegância. Querem ver? Querem ver? 'Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens. É, de facto, um menino, um garoto. Se quisesse entrar num filme de Brigitte Bardot, seria barrado, seria enxotado. Mas reparem:
- é um génio indubitável.
Digo e repito:
- génio.
Pelé podia virar-se para Miguel Ângelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los, com íntima efusão:
- 'Como vai, colega?'
De facto assim como Miguel Ângelo é o Pelé da pintura, da escultura, Pelé é o Miguel Ângelo da bola. Um e outro podem achar graça de nós, medíocres, que não somos génios de cosia nenhuma, nem de cuspe a distância. E que coisa nenhuma, nem de cuspe a distância. E que coisa confortável para nós, brasileiros, saber que temos um patrício assim genial e assim garoto! Vejam:
- dezassete anos!
Na idade em que o pobre ser humano anda quebrando vidraça, ou jogando bola de gude, ou raspando perna de passarinho a canivete, Pelé torna-se campeão do mundo. Estava lá um rei, Gustavo, da Suécia. E viu-se, então, essa coisa que estaria a exigir um verso de Camões: - o rei desceu do seu trono e foi cumprimentar, foi apertar a mão do menino Pelé'.
Irra! Eu gostava de ter escrito isto, sem tirar nem pôr. Mas o Nelson antecipou-se e deixou-me sem palavras.
Só que, tal como ele, o que eu queria dizer é que o João ainda tem idade para andar por aí a jogar a bola na rua, partindo as vidraças dos vizinhos.
Não anda. Veste a camisola do Benfica e joga aquela enormidade que nós temos a felicidade de assistir, com o atrevimento, ou melhor, o descaramento próprio de um menino. E que descaramento, senhores! É de fazer comichões no sangue!
Todos os dias escrevem páginas e páginas sobre o João e sobre os milhões que vale o João, mas ele vale bem mais do que isso, porque o facto não passa por ter idade, ou não, para ver filmes da Brigitte Bardot, passa pela realidade de podermos ver o futebol na sua mais inocente virtude da finta, do remate, da alegria incontrariável do golo.
Eu gostava de continuar a vê-lo jogar assim para sempre, como um Peter Pan, o rapazinho que não queria crescer.
Mas o João vai crescer e cair dentro do mundo do futebol sem contemplações.
Vejo-o com a bola nos pés e vejo em garoto feliz.
Na estrada para ser homem.
Que nunca, nunca perca a pureza da semente."
Afonso de Melo, in O Benfica
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