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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

REVISTA MÍSTICA - ENTREVISTA COM AIMAR E SAVIOLA


EM FOCO: RE-ENCONTRO DE IRMÃOS


 
 
Mística 19 - (Continuação Pablo Aimar e Javier Saviola)

(A Mística juntou Pablo Aimar e Javier Saviola)
 

Reencontro de irmãos

Todos sabem que são amigos, todos conhecem a história que fez deles ídolos no River Plate e nas selecções argentinas. Após a aventura espanhola, reencontraram-se no Benfica. Comum a todo o trajecto, a amizade.
Para além dos 10 capítulos desta história, contados ao correr da bola, nas páginas da revista Mística, fique a conhecer os outros 10, que aqui rematamos.

Texto Ricardo Soares

1 O nascimento de uma amizade

Jovens, muito jovens, Aimar e Saviola eram prodígios no River Plate. Por isso, bem cedo nas suas carreiras foram lançados pelo técnico Marcelo Gallardo. Ali nascia uma forte amizade.

SAVIOLA: Foi muito bom conhecê-lo, porque se criou ali uma relação de amizade. Independentemente do que veio a ser a nossa carreira, gerou-se ali um mútuo respeito e tornámo-nos amigos de forma natural.
AIMAR: Não me recordo exactamente do dia em que o conheci. Mas de certeza que foi num treino da primeira equipa do River Plate ou até mesmo das selecções jovens da Argentina. Ele é dois anos mais novo que eu por isso, supostamente, poderia ser mais complicado treinarmos juntos nas selecções jovens, mas o que se passa é que devido à sua qualidade, ele era muitas vezes chamado a escalões superiores. Fica a dúvida, mas acredito que possa ter sido nalgum treino do River que nos conhecemos.
SAVIOLA: Eu lembro-me. Estávamos no River Plate. Recordo-me que eu era mais novo e que cheguei à primeira equipa quase ao mesmo tempo do Pablo.

 

2 Saviola, craque aos 16

Se Aimar bem cedo deu nas vistas no River Plate, Saviola destacou-se ainda mais pelo facto de ter apenas 16 anos de idade quando se estreou. Foi no Torneio Abertura que tudo começou.

AIMAR: Desde o primeiro momento que mostrou ser diferente de todos os outros. Marcou, desde logo, um estilo muito próprio. Fazia coisas que nenhum de nós conseguia. Já tinha esta forma de jogar muito própria. Uma enorme facilidade para se mover dentro da área e controlar a bola de formas estranhas (risos).

3 Francescoli ali tão perto

O River Plate de então tinha diversos “monstros sagrados” do futebol argentino. O maior deles, Enzo Francescoli, “estrela” uruguaia que regressara pouco tempo antes ao clube. Para Aimar e Saviola, crescer lado a lado com Francescoli e seus pares, era algo de muito especial.

AIMAR: Tanto o Saviola como eu éramos muito novos. O Enzo Francescoli retirou-se, salvo erro, em 1997 ou 98, altura em que nós estávamos a começar a treinar com a equipa. Mas não só o Enzo era a nossa referência. Outros, como o Leonardo Astrada, eram também exemplos dentro e fora de campo.
SAVIOLA: No meu caso, desde os oito anos que jogava no River, pelo que via aqueles monstros sagrados diariamente. Estava no Monumental de manhã à noite e via os treinos deles. Depois, passei por uma fase em que era apanha-bolas nos jogos e podia admirá-los ainda mais de perto. Muito aprendi nesses jogos, vendo a forma como se movimentavam.
AIMAR: Eram pessoas normais e que tratavam os mais jovens como estes querem ser tratados: de forma natural. Dentro e fora de campo. Não eram inacessíveis e rompiam as nossas expectativas de serem ídolos ao primeiro contacto ao revelarem uma total humildade e naturalidade no trato.
SAVIOLA: É curioso que eu, apesar de ter muita vontade de lhes pedir um autógrafo ou para tirar uma foto, acabava por não pedir, por ser um pouco tímido. Mas eles iam-me conhecendo. Depois, quando comecei a treinar com eles, facilmente fui recebido porque já sabiam que eu era uma pessoa humilde, pois tinham-me visto crescer.

4 Como eles descrevem Buenos Aires

Os primeiros anos das carreiras foram vividos lado a lado na imponente Buenos Aires. Eis como eles a descrevem.

AIMAR: Uma cidade imensa. Gigantesca. Uma capital de um país enorme. Acho que vivem lá 16 ou 17 milhões de pessoas, quase metade da população argentina. Da cidade mais a norte, à cidade mais a sul, distam quatro mil quilómetros. Isso prova o quão concentrada está a população em Buenos Aires. É uma cidade que tem tudo e que é extremamente apaixonada pelo futebol e também pela música. São pessoas que quando gostam de algo se apaixonam.
SAVIOLA: Está tudo dito. Buenos Aires é uma cidade fantástica, com muita vida. Tem alma, grande variedade de acontecimentos.

5 Campeões do Mundo

Em 1997, Pablo Aimar conquista o Mundial de Sub-20 na Malásia, notabilizando-se como uma das grandes figuras do torneio, lado a lado com esperanças tais como Riquelme ou Cambiasso. Aimar joga, faz jogar, assiste e marca. Dois anos depois, Saviola repete a façanha em plena Argentina.

SAVIOLA: Recordo-me que quando venceste o Mundial, a equipa tinha nomes fabulosos. No meu caso, tratou-se de algo especial porque fomos campeões no nosso próprio país. Foi das coisas mais lindas que vivi no futebol.
AIMAR: Tu participaste no Mundial de Sub-20 dois anos depois. Aquele em que participei foi magnífico. Uma recordação, não apenas pelo que aconteceu dentro de campo, mas também por todo o ambiente em redor da competição, pois estávamos num país que não conhecíamos. Foi uma experiência emocionante, claro.
SAVIOLA: Eu tinha apenas 19 anos e vivi aquilo de uma forma muito pura. Por exemplo, quando venci títulos com outra idade, já as coisas eram diferentes, tanto a nível de responsabilidade como de maturidade. Ali foi especial, único.

6 O preço da fama

Aimar e Saviola eram e são ídolos para os adeptos do River. Mas nem sempre foi fácil lidar com tanta fama.

AIMAR: No meu caso, nunca lidei nada bem com essa situação. Talvez agora lide melhor, mas já tenho mais 14 anos do que tinha na altura. Não conseguia ficar tranquilo em relação a essa vertente. O Javier sempre foi mais sociável.
SAVIOLA: Mas também me fiz valer, tal como tu, da educação que trazia de casa, da família que me suportava, dos conselhos dos jogadores mais traquejados e de que querer concentrar-me totalmente no futebol. Tornámo-nos conhecidos, éramos vistos por muitos olhos – porque sabemos a importância que o futebol – tem e claro que é natural que muitos se aproximem por algum tipo de interesse, mas estávamos bem protegidos pelos familiares, pela educação e acima de tudo pela humildade.



7 As viagens de duas vidas

Após épocas de magia no Monumental, hora de rumar ao futebol europeu. Aimar chegou, viu e venceu no Valência. Saviola brilhou, de igual modo, mas no Barcelona. Enquanto Aimar, antes de rumar ao Benfica, ainda passou pelo Saragoça, já “El conejo” passou por emblemas como o Sevilha, Mónaco e Real Madrid.

SAVIOLA: Acima de tudo, foi bonito ver que seguimos as nossas carreiras em clubes de dimensão e no mesmo campeonato. Continuámos sempre a falar. Eu ia ver jogos dele e vice-versa. Mantivemos sempre o contacto.
AIMAR: As recordações de Espanha são as melhores. Em Valência fui muito bem tratado e, claro, ajudou o facto de termos conseguido títulos que há três décadas o clube não alcançava. Colocámo-nos na luta entre o Barcelona e o Real Madrid. É algo de muito difícil, quase inalcançável, mas nós tínhamos uma grande equipa e tudo nos correu bem. Mas o que guardo de Valência com maior carinho é a amizade que travei com pessoas de dentro e de fora do futebol. Dos jogadores argentinos do clube aos valencianos, ganhei bons amigos que ainda hoje mantenho. Os meus dois filhos mais velhos nasceram lá. Acho que mais do que títulos, guardo a forma como adquiri laços muito fortes com a cidade.
SAVIOLA: Quando cheguei a Barcelona tinha 19 anos e estava a chegar a um grande clube. Acho que não tinha bem noção do colosso onde estava porque só tinha três anos de carreira. Acho que o Aimar se adaptou muito bem a Valência, um clube que estava em grande.
AIMAR: Mas nem nunca o Javier precisou de adaptações. Recordo-me que foi para Barcelona e rapidamente se integrou no clube e se adaptou à cidade. É o tipo de pessoa que deixa fluir as coisas. Necessita é de estar tranquilo e feliz num sítio. A partir daí, está tudo bem.
SAVIOLA: Mas quando fui para o Mónaco foi mais estranho. É um lugar único. As pessoas vão ao Mónaco durante três dias para passear e desfrutar. Viver lá é uma experiência diferente, porque recordo-me que, em Barcelona, Sevilha ou Madrid o futebol é quase uma religião, o que não acontece no Mónaco. Parece que vivemos num conto de fadas, com helicópteros um pouco por todo o lado, actores e actrizes a surgirem ao nosso lado nas ruas e uma cidade quase deserta no inverno. É como digo: para conhecer é um bom destino.

8 Desencontros alvicelestes

Dois jogadores de créditos firmados, Aimar e Saviola encontraram-se vezes sem conta nas convocatórias da selecção argentina. Mas nem sempre puderam desfrutar em conjunto desse sonho tornado realidade.

AIMAR: Curiosamente, não jogámos muitas vezes juntos na selecção argentina. Fomos imensamente convocados, mas depois, quando eu jogava, era normal que o avançado fosse outro que não o Javier. E depois, quando ele começou a ser titular, já era o Riquelme que atuava na minha posição. Uma situação natural, bem vistas as coisas, porque todos sabemos a qualidade e quantidade de opções existentes para a selecção argentina.
SAVIOLA: Não jogámos muitas vezes juntos na selecção, é verdade, mas não deixou de ser talvez a coisa mais importante a nível desportivo, pois é um sonho para qualquer argentino.
AIMAR: Sim, vestir aquela camisola é um sonho, mas eu tenho sempre a mesma ideia: nunca é um objectivo cumprido, é apenas mais um passo dado. Foi isso que senti ao representar a Argentina. 

9 Uma foto com “Diós”

Se Aimar foi, em tempos, considerado por Diego Armando Maradona um dos poucos jogadores que fazia valer a pena comprar bilhete para ver futebol, já Saviola também pode contar uma história curiosa da experiência de privar com o mais recordado jogador argentino de todos os tempos.

SAVIOLA: Estive uma vez com ele quando me distinguiu com um prémio individual, na Argentina. Claro que fiquei siderado, mas mal abri a boca. Só que reencontrei-o minutos depois no estacionamento. Ele estava com a família e eu não fui de modas: pedi para tirar uma foto com ele.
AIMAR: Nunca estivemos juntos com o Maradona. No meu caso, tive a oportunidade de conhecer esse mito do futebol, talvez o maior da história do futebol. Quando aparece o Maradona, queremos vê-lo, estar com ele. Basta jogarmos ou gostarmos de futebol para termos esse sentimento. E posso dizer que os contactos que tive com ele foram muito agradáveis.

10 Reencontro no Benfica

Esta já é a terceira época em que a dupla actua junta na Luz. Pelo meio, boas recordações, mas o infinito desejo de continuar a vencer, agora de águia ao peito.

AIMAR: No primeiro ano do Javier tudo correu bem. Fomos campeões, jogámos bem e ele esteve a um nível muito elevado. Mas o que se passa é que queremos sempre mais. Isso já é passado. Há que olhar em frente e procurar novos êxitos.
SAVIOLA: Oxalá o melhor ainda esteja para vir. Quer joguemos juntos, quer joguemos com outros dos extraordinários companheiros que temos no Benfica, todos remamos para o mesmo lado: ajudar o clube a vencer. Isso faz-nos felizes.

 

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