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segunda-feira, 3 de junho de 2013

BASQUETEBOL : ENTREVISTA A CARLOS ANDRADE

«Extinção da equipa do FC Porto foi um choque» - Carlos Andrade  (foto ASF)
Jogador encarnado, de 35 anos, mal amado pelos adeptos após três anos a defender o emblema do FC Porto, revisita época de sucesso, que culminou com a repetição do título nacional. Com a habitual bonomia, o irmão de Mary Andrade perspetiva outros futuros bons resultados, apesar dos tempos mais difíceis financeiramente.


Tem currículo de luxo - sagrou-se campeão em todos os clubes lusos, a culminar no Benfica, neste ano, após Portugal Telecom, FC Porto e Atlético Queluz...

- Sinto-me felizardo pela oportunidade de representar bons clubes em Portugal. Na minha primeira etapa no Benfica [2007/08], não ganhei, mas tive uma nova oportunidade agora. É um orgulho.

Há uns anos, o campeonato era mais complicado de vencer? 

- Não tira o mérito ao sucesso do Benfica. Foi um ano muito difícil, com muita pressão e emoções, até pela situação de termos de ganhar porque o FC Porto já não está presente. No fim, é gratificante podermos abraçar as pessoas com quem partilhámos as vivências e agradecer aos adeptos.

Mas o campeonato era mais competitivo e o título mais difícil de conquistar há uns anos...

- Ainda ontem falei sobre isso com um amigo, a propósito do título quando estávamos no Queluz [2004/05]. Com as equipas dessa altura, o Benfica talvez tivesse mais dificuldades nesta época. Os títulos são todos especiais, mas esse êxito seria o primeiro se tivesse de enumerá-los. Foi o mais marcante pela época, os companheiros, as amizades, a competitividade da Liga nessa altura, a participação nas competições europeias... Foi espetacular - vencemos o campeonato, a Taça de Portugal e estabelecemos o recorde de 27 vitórias consecutivas.

Esse bom ambiente também existiu no balneário nesta época?

- O ambiente é espetacular. Nos treinos, somos quatro jogadores de ascendência cabo-verdiana. Por vezes, gostamos de picar um pouco os portugueses, contra os americanos, contra os cabo-verdianos [risos]. É uma picardia saudável. É giro juntá-los e levá-los à Casa da Morna. Fizemos lá alguns jantares neste ano. Também fazemos cachupadas na minha ou em casa do Betinho.

Até estabeleceram a meta de ganhar todos os jogos neste ano.

- De início, não era assim. Queríamos ganhar aos fins de semana. A meio da época, constatámos que não tínhamos perdido nenhum e um dos treinadores adjuntos lançou o desafio. Tentámos sair com essa fome de ganhar os jogos todos, mas acabámos por perder a invencibilidade em casa, contra o CAB Madeira, que fez um jogo extraordinário. Não nos afetou. No final, disse-lhes que ‘se não estivesse magoado, não perdíamos’ [risos].

É bem possível porque é tido como um jogador mobilizador dos companheiros. Concorda? 

- Pode-se dizer isso. Para alguns, talvez tenha personalidade um pouco estranha [risos]. Vibro muito dentro de campo com as emoções e a atmosfera do jogo. Passo-as aos companheiros. Faço coisas para manter a ligação ao jogo. Por vezes, saem algo agressivas; noutras é mais para relaxar.

Esse comportamento tem sido mal aceite pelos benfiquistas.

- As pessoas respeitam o meu profissionalismo, o jogador que sou, mas há quem não esqueça a minha personalidade, por ter representado o FC Porto durante três anos. Limito-me a ouvir os comentários quando vou para o carro ou quando me abordam. Creio que nunca faltei ao respeito a ninguém, nem ao Benfica, de que sou fã desde pequeno. É um pouco triste. As pessoas talvez levassem a peito a situação de me rir quando era insultado. Estava a defender-me. Também nunca fiz gestos.

A situação atenuou-se durante a época?

- Está melhor. Não digo que está muito melhor porque os adeptos não esquecem.

E como conseguiu lidar com a animosidade dos adeptos?

- Não é difícil porque tenho a consciência tranquila. Dei o meu melhor nos clubes da minha carreira. Nada tenho a provar. O meu trabalho em campo fala por si - o meu profissionalismo, o carinho e o amor pelo Benfica. Espero que os adeptos entendam o meu gosto pela modalidade e o clube.

Continua no Benfica? 

- Tenho mais um ano de contrato e outro de opção. De seguida, espero renovar por mais temporadas [risos].

O Benfica prepara-se para reformular o investimento
nas modalidades. A equipa de basquetebol tende a ressentir-se? 


- É o reflexo das dificuldades do País. As pessoas têm de entender que o desporto também é afetado. As outras modalidades do clube podem, igualmente, sofrer um precalçozito. Cá estaremos para quem vier. Talvez não surjam jogadores com tanta qualidade, mas teremos de trabalhar da mesma forma, porque as ambições do Benfica são iguais às dos outros anos.

O Benfica corre o risco de perder competitividade?

- Não. Os outros clubes também serão muito afetados. Neste momento, o Benfica é privilegiado. Há poucas ou mesmo nenhuma equipa com esta estrutura e condições. Temos todas as possibilidades de continuarmos no topo. Os jogadores contratados serão sempre de qualidade. A ganhar mais ou menos, qualquer jogador quererá reforçar o Benfica.


Carlos Andrade garante que a transferência para o Benfica, no final da temporada de 2011/12, não resultou da extinção da equipa de basquetebol do FC Porto, cuja camisola vestiu a partir de 2009.

«Equacionei sair em 2011 - tinha um pré-acordo com o Benfica - mas o FC Porto acionou a clausula de opção. No final da época seguinte, terminado o contrato com o FC Porto, fui para a Alemanha, onde iniciei as conversações com o Carlos Lisboa [n.d.r. treinador do Benfica] e chegámos a acordo», conta o extremo.

A notícia da extinção da equipa portista, recebida «decorridos dois ou três dias» de garantir a transferência para Lisboa, «foi um choque».

O irmão da jogadora Mary Andrade recorda: «Procurei informação na Internet e lembro-me de falar com o Moncho López [treinador] e o Miguel Miranda - ficámos pasmados».
Apesar das dificuldades financeiras nos últimos dois anos de contrato relatadas pelo jogador - «Estivemos meses sem receber salários» -, «nada fazia prever» o fim do basquetebol sénior. 

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