O Benfica chega a janeiro como chegam os pugilistas que ainda estão de pé, mas já perderam a conta aos golpes. Houve eleições há pouco mais de quatro meses com Rui Costa, ao longo de uma dura campanha, a revalidar o mandato. Antes mudou o treinador. Saiu Bruno Lage, entrou José Mourinho, um dos homens mais preparados do futebol europeu para gerir crises, egos e ruínas. E, ainda assim, o Benfica chegou ao coração do inverno fora da Taça de Portugal, derrotado na Taça da Liga, a nove pontos do líder FC Porto e a cinco do segundo lugar ocupado pelo Sporting. A noite épica frente ao Real Madrid, que permite a continuidade na Champions, tornou-se num balão de oxigénio que perdeu algum volume com o empate em Tondela.
Uma época que começou com ambição, passou a resumir-se a um objetivo curto de chegar ao segundo lugar e um sonho (ainda muito distante) de alcançar a primeiro, além de mais um capítulo europeu prestes a ser escrito com o Real Madrid. Em matéria interna, o resumo faz-se de forma simples: pouco para quem é grande, muito para quem está ferido.
A equipa, é justo dizê-lo, tem melhorado. Está melhor hoje do que há algumas semanas. Mais organizada, mais compacta, menos caótica. E para isso também contribuiu a ida de Aursnes para o meio e a interrupção no futebol anárquico de Ríos. Mas ainda continua com o peso de quem sabe que qualquer erro já não tem margem de correção. Cada jornada de campeonato é uma final, cada falha um epitáfio. O futebol, quando se joga assim, deixa de ser jogo e passa a ser julgamento.
Foi nesse cenário que apareceram os miúdos. Como aparecem sempre. Sem pedir licença. Sem pedir desculpa. Banjaqui tem 17 anos e corre pela direita como quem ainda não sabe que o futebol também pode doer. Anísio Cabral, da mesma idade, pisa a área com a naturalidade de quem ainda acredita que todas as bolas podem ser golo. Foram eles que fabricaram o último frente ao Estrela. Um gesto simples. Um entendimento limpo. Um golo que não muda classificações, mas muda estados de alma. E às vezes é isso que salva um clube de se perder por dentro.
Com eles vieram os sorrisos. A pureza. A alegria. A irreverência. Aquilo que o Benfica parecia ter perdido, antes do jogo com o Real Madrid, e no meio da pressão constante de viver no limite em todas as competições.
Além de Banjaqui e Anísio (que voltaram a jogar frente ao Tondela) podem também juntar-se outros que já se estrearam pela equipa principal, como Diogo Prioste ou José Neto. Todos com a mesma característica invisível e decisiva: cabeça limpa e sonhos até ao céu. A tal leveza que os mais experientes, carregados de expectativas e obrigações, nem sempre conseguem ter.
O combustível dado por sangue novo já resultou antes na Luz. Foi assim com Renato Sanches na primeira época de Rui Vitória, quando ninguém lhe explicou que não podia fazer aquilo. Foi assim com João Félix no ano em que Bruno Lage chegou à equipa principal e recuperou sete pontos ao FC Porto. Foi assim, mais recentemente, com a vitamina João Neves na ponta final da primeira época de Schmidt, fundamental para o Benfica manter o avanço e sagrar-se campeão. O futebol repete-se porque os clubes esquecem-se. E voltam a lembrar-se quando já há pouco a perder.
A distância nove pontos para os dragões, com o Sporting pelo meio, faz com que a matemática se apresente de forma fria e faça com que o título, ainda antes do clássico de segunda-feira, seja ainda uma miragem. Mas pode haver outra vitória. Menos ruidosa. Mais profunda. A afirmação destes miúdos, e um novo milagre na Champions, pode ser o melhor que esta época tem para oferecer na Luz.
José Mourinho tem tido a coragem e visão de os lançar. E eles correspondem. De sorriso aberto, futebol nas pernas e coração cheio. Assim continuem a ter oportunidades. Assim possam gozar da paciência que normalmente é reservada aos reforços de €27 M e €30 M, aqueles que podem somar cinco ou seis jogos cinzentos porque fazem parte do processo de adaptação. O talento de alguns destes jovens merece essa aposta contínua e equilibrada. Mourinho saberá isso melhor do que ninguém.
Depois há o lado magnético com a bancada. A identificação é imediata. Os sócios olham para eles como família. Porque são da casa. Porque cresceram ali. Porque representam a base e a essência do clube.
Com a exceção da Supertaça, ainda conquistada no período de Bruno Lage, a época do Benfica pode terminar sem títulos.. E isso nunca deve ser satisfatório num clube que investiu como nunca e tem condições para outro tipo de campanha. Mas com os sorrisos dos campeões do mundo de sub-17, nem tudo tem de ser depressão.
Às vezes, a maior vitória é perceber que o futuro entra sem medo. Com miúdos que pisam o relvado sem saber que a missão é quase impossível. Que respondem ao desafio sem traumas, cicatrizes ou ressacas de maus resultados. E talvez seja por isso que jogam como se cada segundo fosse eterno e cada jogo pudesse mudar tudo.
Luís Aguilar, in a Bola

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