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segunda-feira, 20 de abril de 2020

NO JOGO DA VIDA


Sempre fui caseiro, moderadamente caseiro. Nas minhas residências, ao longo dos anos, encontrei e desfrutei de longos momentos de conforto, de aprendizagem, de reflexão. Estar impelido a ficar em casa até não é, por conseguinte, algo que magoe o meu alicerce emocional, algo que perturbe o meu estado psíquico.
Ainda assim, reconheço que uma coisa é a opção, outra coisa é a imposição. Quem me conhece sabe que cultivo a partilha, que me imponho o convívio. Confesso, nessa matéria, que estou cada vez mais seletivo. Para além de tarefas corriqueiras, sair de casa tem que ter subjacente alguma razão valorativa. Confraternizar com os meus familiares, sobretudo as minhas três filhas, afigura-se, desde logo, motivo primacial. Logo a seguir, o núcleo restrito, poderia mesmo chamar duro, dos meus amigos, daqueles que contribuem para as páginas mais bonitas da minha felicidade e aos quais procuro recompensar com toda a minha entrega. Honestamente, já não dou o meu tempo, de forma voluntária, a episódios que me não enriqueçam. Dito de outra forma, não cumpro calendário, não faço assistências, menos ainda golos, em iniciativas que nada adiantem no âmbito das minhas realização e satisfação pessoais.
Tenho ou não esse direito? Tal como tenho também o dever de reforçar a minha solidariedade, manifestada de múltiplas maneiras, para com aqueles que dela carecem, especialmente pessoas que comigo se cruzaram na minha vida já razoavelmente extensa. Eis uma atitude que venho reforçando nos últimos tempos, tantas vezes de forma silenciosa, direcionada para antigos companheiros desse fascinante universo que é o futebol e, no caso vertente, o meu Benfica.
E na dramática conjuntura que vivemos? A casa, e os equipamentos imprescindíveis, como o telefone, a televisão e o computador, concedem-me a possibilidade de inclusão. Da inclusão possível e até recomendável. Para mitigar alguma amargura, penso sempre nos meus antepassados, que atravessaram, sem a comodidade que agora tenho, longos momentos de aflição, ditados por crueldades conhecidas, verdadeiros atentados à condição humana.
Tenho aproveitado estes tempos de reclusão para reler, para rever. Dou-me conta de que é possível (re)encontrar na palavra ou na imagem ferramentas estimulantes. E descobertas? Também descobertas, sim. A principal? Ter muito maior consciência de que este rapaz, que viu a luz no Seixal, há setenta e seis anos, conseguiu mais, muito mais mesmo, do que sonhou alto na sua infância, adolescência ou já mesmo no começo da idade adulta.
Da mesma forma, responsavelmente atento, o reforço da convicção de quão imperfeito é o mundo, de quantas injustiças ele comporta, ele enferma. Numa perspetiva otimista, admito que esta bruta pandemia universal possa concorrer para que um mundo demasiadamente desumanizado possa dar lugar ao começo de uma sociedade global mais austera para com a ganância e mais amiga da fraternidade.
Tenho aproveitado também este período de confinamento para exercer algumas reflexões sobre o que se vai passando no mundo do futebol, também ele parado por força do aparecimento, à escala mundial, do coronavírus. Julgo que o principal foco dos dirigentes do futebol, nacional e internacional, deve ser arranjar a forma ideal de, em total segurança, ser possível terminar as jornadas dos campeonatos ainda por concluir.
Sugiro, assim, que os organismos de carácter nacional e internacional, Federação Portuguesa de Futebol, Liga, FIFA e UEFA, por exemplo, encontrem soluções para que o futebol volte com garantia para todos, sejam futebolistas ou não, de modo a evitar riscos que possam colocar a saúde de todos em causa.
No seguimento do acima mencionado, recomendo que as jornadas que faltam nas competições profissionais sejam realizadas apenas após a pandemia do coronavírus ser resolvida, de forma a que as dez jornadas que faltam da principal liga, por exemplo, possam ser realizadas com toda a segurança. De que modo? Fazendo três jogos por semana. Assim, os atletas deveriam ir já de férias e regressariam três semanas antes para estarem minimamente preparados para o regresso ao ativo. A seguir, cumpririam os dez jogos que faltam, fazendo três jornadas por semana. Assim em duas semanas e meia terminaria a competição.
Creio que pode ser uma alternativa válida, dado que o aspeto técnico dos plantéis em nada se alteraria, seja para os treinadores ou para os jogadores, mantendo eles os modelos de jogo que já existem após trabalho de meses e meses. Seria, de algum modo, um regresso à matéria dada, ao contrário de uma pré-temporada com iguais circunstâncias para todos, não havendo espaço para argumentos ou reclamações.
No aspeto económico, as instâncias internacionais, seja UEFA ou FIFA (ou ambas), deveriam ter em conta que sem jogadores não há jogos, não há clubes e o futebol desaparece.
António Simões, in a Bola

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