Páginas

segunda-feira, 20 de abril de 2020

POR FAVOR TRAGAM OS ADEPTOS DE VOLTA AOS ESTÁDIOS


Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.
Parte 2
Ao ver a série no Netflix The English Game, que recomendo vivamente, rapidamente percebemos que na origem do futebol esteve sempre este sentimento de comunidade. O futebol começou a ser jogado por aristocratas, mas rapidamente as classes operárias viram neste desporto uma possibilidade de afirmação e reconhecimento por parte das suas comunidades.
O futebol era jogado para o povo e não fazia sentido se não existisse esse sentimento de pertença a uma comunidade para tentar, dentro das leis e regulamentos, derrotar a outra equipa. Já na altura, especialmente nas equipas representativas de comunidades essencialmente operárias, as pessoas tinham muitas dificuldades para sobreviver, mas arranjavam sempre algum dinheiro para assistir e participar naquilo que mais gosto lhes dava, revendo-se num grupo de jogadores que iria fazer tudo para vencer, vencer para a sua comunidade. À época, começaram a surgir os primeiros jogadores profissionais, e existia a discussão do amor a camisola... falsa questão ainda nos dias de hoje. Se o clube tiver uma alma e uma identidade forte em relação à comunidade, é preciso ser-se muito insensível, embora sendo profissional, para não se ligar emocionalmente a essa mesma comunidade.
Amor aos clubes
Recordo que ainda era treinador do Desportivo das Aves (I Liga) e fui ver um jogo ao Estádio do Mar, numa quinta-feira ao fim da tarde. Fiquei de tal forma deslumbrado com os adeptos que resolvi aceitar, na hora, um convite que tinha em carteira, vou treinar o Leixões (III Divisão). Para onde vou, adoro vestir a camisola dos clubes que represento. No Besiktas, um bairro de Istambul, tornei-me um Carsi, e ainda hoje o sou. No Sheffield Wednesday, uma comunidade historicamente ligada ao steel, tornei-me um blue forever, no Swansea um swan, no Leixões e no Vitória os meus jogadores jogavam para os adeptos (pela minha voz), e fazia questão de lhes contar relatos de pessoas que eram pobres, tinham privações na vida, mas que nunca faltavam aos jogos. O jogo é do Povo e não o devemos roubar às comunidades. Ao assistir à segunda temporada de Sunderland till die, percebemos a essência que está por detrás do jogo de futebol e que faz da Inglaterra o país que orgulhosamente se apresenta como o Pai e mãe do futebol, ainda hoje. O negócio apoderou-se do futebol. Lá como cá, os clubes passaram a ser sociedades, mas a diferença é que os adeptos estão no centro do futebol e têm que ser respeitados. Os clubes estão intimamente ligados às comunidades e não conseguem sobreviver (nem fazem sentido) sem os adeptos. Ao ver essa série, verificamos que os donos eram de Oxforshire não de Sunderland, mas depressa mergulharam nos valores e princípios da comunidade para não cometerem os mesmos erros dos antecessores. A primeira ideia, depois de tentar fazer uma equipa competitiva foi chamar o máximo de adeptos ao estádio, por um lado por causa das receitas e por outro, porque percebem o facto de eles serem uma mola impulsionadora para a equipa. O Sunderland, da League One correspondente à nossa III Divisão, atinge o número de 46.039 espectadores num jogo do campeonato, no boxing day, depois de o chairman do clube lançar o desafio de baterem o recorde de adeptos da divisão. Na final da Taça Checkatrade com o Porsmouth (também da League One) em Wembley, ambos encheram o estádio com 85.021 espetadores. Fiquei com esta frase na cabeça ao ver a série, Sunderland Till Die: «O clube de futebol é a comunidade.» Era assim no Sheffield Wednesday também. Quando fomos à final de Wembley levámos 40.000 adeptos, e não mais porque não havia mais bilhetes...
Televisão importante, mas…
A televisão é importante, o seu dinheiro é determinante, mas os adeptos estão no centro das prioridades e por estarem no centro de tudo, são consumidores do clube: lugar anual, cachecóis, consomem nos bares do estádio, nem imaginam o frenesim que é o dia em que as novas camisolas são colocadas a venda nas lojas dos clubes (muitos adeptos compram a camisola principal e as alternativas), etc. Um dia fomos jogar a Bolton e já tínhamos começado o aquecimento quando vem o delegado do jogo dizer-me (não pedir a minha opinião), que a partida ia ser atrasada meia hora, porque havia um acidente na autoestrada e os adeptos não conseguiam chegar a horas...
Hoje o futebol tornou-se num negócio, mas eu continuo a fazer-me de autista e a olhar para o jogo dentro do meu prisma: perceber como vou ganhar ao meu adversário de forma a que os adeptos do Rio Ave sintam orgulho na nossa equipa, e possam rever-se nela. De que forma, tendo menos condições que o adversário, os podemos vencer... assim cumpro o meu sonho de menino, e é assim que me sinto feliz. Fazer equipas, jogar bem, ligados à comunidade e sem receio de estabelecer laços emocionais para a vida, ganhar jogos de uma forma que as gentes fiquem felizes.
Façam o favor de fazer a vossa parte: tragam os adeptos para os estádios; não digam que não são os adeptos que pagam aos jogadores, porque isso é não perceber nada deste jogo (aconselho a verem as duas séries referidas anteriormente); hoje fico triste quando oiço, a pessoas com grande responsabilidade, que adeptos nos estádios são uma chatice, porque a Liga exige um sem número de requisitos e não vale a pena o investimento (bares, casas de banho, segurança, limpeza); fico triste quando, neste século, vejo lugares pagos nos estádios à chuva!; fico triste por não haver um propósito nacional de encher os estádios de público (mesmo sendo necessário baixar o preço dos bilhetes ou dos lugares anuais); fico triste por ver e ouvir alguns que nunca deram um pontapé numa bola, tratarem tão mal o futebol nas televisões e rádios, e contribuírem para as pessoas ficarem cada vez mais longe deste jogo que é lindo... Se um dia não existir dinheiro das televisões em Portugal, vai ser uma corrida aos adeptos. Por favor tragam os adeptos de volta aos estádios.

Carlos Carvalhal, in a Bola

Sem comentários:

Enviar um comentário