quinta-feira, 16 de abril de 2026
O PROBLEMA NÃO É O BENFICA, O PROBLEMA É O MODELO
Durante anos, disseram que a centralização dos direitos televisivos era inevitável. E, mais do que isso, que ninguém iria perder. Era essa a promessa. Um modelo mais justo, mais equilibrado, onde o crescimento do bolo resolveria tudo.
A realidade começa agora a desmontar esse discurso.
Depois de Rui Costa, na Assembleia da República, foi a vez de Nuno Catarino, em entrevista ao ECO, reforçar a posição do SL Benfica. E não deixou margem para dúvidas. O modelo em curso não serve o Benfica nem resolve o problema do futebol português.
Durante anos, figuras como Pedro Proença garantiram que ninguém sairia prejudicado. Hoje já não há promessas. Há números. E, nesses números, o Benfica admite perdas que podem chegar aos 15 milhões de euros por época.
Ao mesmo tempo, o Benfica prova no mercado exatamente o contrário do que lhe querem impor. Consegue um contrato para as próximas duas temporadas acima do que muitos consideravam possível. Quando negoceia sozinho, valoriza-se. Quando entra no modelo, perde. Não se constrói um sistema mais forte à custa de enfraquecer quem mais valor cria.
Enquanto alguns clubes negoceiam hoje contratos por valores inferiores aos anteriores, o Benfica continua a puxar o valor do mercado para cima. E, ainda assim, é chamado a aceitar um modelo que o penaliza. Um modelo que não cria valor. Só o divide.
Durante anos falou-se de um bolo de €300 milhões para distribuir. Era esse o argumento. Hoje, já poucos acreditam nesse número. E perdeu-se demasiado tempo a discutir como dividir, sem nunca discutir seriamente como crescer.
Pouco ou nada foi feito para valorizar o produto. Estádios, relvados, qualidade das transmissões, experiência de jogo. Pouco ou nada disto foi melhorado. Não houve uma estratégia consistente de internacionalização. Nem um combate eficaz à pirataria. E, nesse vazio, o SL Benfica fez o seu caminho, investiu, valorizou a sua marca e aumentou a capacidade de gerar valor por si.
A ideia de uma centralização facultativa pode não ser perfeita. Mas tem uma vantagem essencial. Parte da realidade. Permite que quem precisa ganhe escala, sem obrigar quem já cria valor a abdicar dele. No fim, a questão não é ideológica. É estrutural. Se quem mais valor gera passa a receber menos, o problema não é o SL Benfica. O problema é o modelo.
Hugo Oliveira, in a Bola
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Resumo | Arsenal 0-0 Sporting | Champions League 25/26
Resumo | Bayern 4-3 Real Madrid | Champions League 25/26
BENFICA: O CAMINHO PARA A SUSTENTABILIDADE AINDA ESTÁ POR FAZER
A entrevista de Nuno Catarino, dada no contexto de uma nova emissão de obrigações, traz um sinal positivo que deve ser reconhecido. Pela primeira vez, foi apresentado um relatório semestral do clube. É um passo importante para reforçar o acompanhamento e a participação dos sócios na vida do Benfica.
Mas, num momento em que o Benfica recorre ao mercado para reforçar a sua estrutura financeira, é ainda mais importante enquadrar o tema com responsabilidade e visão de longo prazo. O empréstimo obrigacionista enquadra-se numa lógica normal de gestão da dívida. É um instrumento habitual e, por si só, não levanta questões estruturais. Mas o debate sobre as finanças do Benfica exige mais. O presente não pode ser gerido sem um destino claro. �Sim, hoje o Benfica é financiável. É bom que assim seja. Mas a verdadeira questão é sabermos se está a ser construído um modelo que torne o Benfica mais forte e vencedor daqui a cinco e dez anos. A resposta, olhando para os dados e para o enquadramento apresentado, é neste momento negativa.
Não construir as bases de um futuro a médio e longo prazo traz desafios no curto prazo. Sem um novo modelo, os problemas estruturais do Benfica tenderão a manter-se e podem agravar-se mais depressa do que se pensa. Há quem possa qualificar este receio de alarmista. Eu trabalho há décadas com números, objetivos muito ambiciosos e metas de crescimento global. Prefiro chamar-lhe realismo.
O que nos dizem os números financeiros do Benfica? Que o passivo cresce, a dívida líquida aumenta e os encargos com juros acompanham essa evolução. Mais importante ainda, as receitas operacionais continuam a ser insuficientes para cobrir os custos.
Enquanto assim for, este modelo não serve o Benfica, nem permitirá ao Benfica crescer. Neste cenário, a venda de jogadores deixa de ser estratégica e passa a ser necessária. E o que acontece dentro de campo tem um impacto fundamental. Não atingir sucesso desportivo contribuirá para uma desvalorização progressiva dos nossos principais ativos, venham estes do mercado ou da nossa formação.
Quando isto acontece, e já está a acontecer, o clube entra numa espiral difícil de inverter. Planeia-se em função do mercado, não de um projeto desportivo. Cada janela de transferências deixa de ser uma oportunidade e passa a ser uma obrigação. É a diferença entre crescer e sobreviver. O Benfica precisa de crescer, sob pena da distância para a Europa do futebol continuar a aumentar.
As receitas de transferências devem ter um papel diferente. Devem servir para modernizar infraestruturas, reduzir passivo, aumentar a capacidade de gerar receitas recorrentes, e, por último, proteger o clube em anos onde não atingir o objetivo mínimo de chegar à Liga dos Campeões. As receitas de transferências não podem ser a base ou o alimento exclusivo do orçamento do dia-a-dia.
Na entrevista foram levantados três pontos
A primeira é o Benfica District. Trata-se de um projeto relevante, com potencial para diversificar receitas, mas que tem de ser afinado se queremos que seja uma resposta consolidada. Ainda não é claro como vai gerar receitas recorrentes significativas. Há que demonstrar melhor esse potencial. A par disso, é possível desde já identificar exemplos de como o projeto pode ser melhorado para gerar receitas adicionais significativas.
A cobertura do estádio e o rebaixamento do relvado são intervenções essenciais para permitir uma utilização contínua ao longo do ano, nomeadamente para grandes eventos. Por outro lado, o modelo de financiamento tem de ser repensado. O Benfica deve atrair um parceiro investidor, evitando assumir riscos financeiros significativos fora do seu objetivo principal: ganhar em campo.
Há ainda uma dimensão adicional na experiência de dia de jogo. Medidas como a venda de bebidas alcoólicas são relevantes para aumentar receitas e alinhar o Benfica com as melhores práticas internacionais. Nuno Catarino está bem neste ponto. O potencial de crescimento nesta área é significativo e deve ser aproveitado. É, por exemplo, uma das principais fontes de receita de dia de jogo do FC Bayern.
A segunda área é a centralização dos direitos televisivos. E aqui a análise tem de ser direta. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Primeiro, acreditou-se num modelo assente em pressupostos irrealistas e no conto de fadas de Pedro Proença. Depois, seguiu-se uma estratégia pouco ambiciosa, focada em não perder receita, quando o objetivo devia ser crescer. Por fim, quando ainda havia margem para inovar, optou-se por renovar um modelo com uma década, sem criação de valor adicional.
Muitos erros e nenhuma assunção de responsabilidade numa das principais fontes de receita. Aqui chegados, não é evidente como é que Nuno Catarino propõe colmatar a perda de receita que anuncia. Aqui chegamos ao último capítulo, o da bravata e do confronto. Quando o Benfica devia ter liderado, escolheu ir atrás. Uma sequência de decisões erradas, ou de falta destas, compromete agora o nosso potencial de crescimento e negociação.
A terceira área é a estrutura acionista e o posicionamento estratégico no mercado global. O Benfica tem escala internacional, mas continua sem um modelo claro. Sair de bolsa, recomprar ações e integrar parceiros estratégicos com competências específicas pode contribuir para o Benfica acelerar o processo de crescimento que tanto precisa. Este modelo permite proteger o Benfica e acelerar o seu desenvolvimento.
Também aqui a gestão tem sido inconsistente. Não houve antecipação na recompra das ações em momento crítico. Ao mesmo tempo, não existe uma posição clara sobre o papel da Lenore Sports Partners como parceiro estratégico. Que valor aporta este acionista? Que sinergias estão a ser exploradas? Nada se sabe sobre isto, apesar da própria intenção anunciada publicamente pela Lenore aquando da compra das ações.
Num contexto global, indecisões acumuladas acabam por ter um custo evidente e elevado. Todos sabemos isto: o Benfica tem dimensão, marca e base global para fazer muito mais. Falta transformar esse potencial em decisões consistentes que dão futuro ao clube, sem nunca nos desviarmos do essencial: as contas do Benfica devem ser avaliadas não apenas pela sua estabilidade no imediato, mas pela sua capacidade de financiar uma ambição desportiva compatível com a dimensão histórica do clube.
Depois de mais um ano muito aquém das expectativas dentro e fora de campo, os Benfiquistas anseiam por sinais de transformação, para que possamos conquistar o 39 já na próxima época e, a partir daí, renovar a nossa ambição. Não podemos adiar este caminho. As finanças do Benfica têm que o demonstrar de forma clara.
Mauro Xavier, in a Bola
NA FRENTE PARECE QUE ESTÁ TUDO DECIDIDO
Na frente tudo na mesma, o que se aplica também à liderança do futebol português, limitada a reuniões a quatro, como aquelas que Frederico Varandas recuperou para responder a Villas-Boas
Que valha a transpiração quando falta alguma inspiração. O lema não é novo, mas serviu para o Sporting garantir o triunfo no reduto do Estrela da Amadora, com um golo de Daniel Bragança, o quinto da época para o esquerdino, melhor reforço de inverno que Rui Borges poderia desejar.
O Benfica voltou aos triunfos, mas até poupou o Nacional a números mais expressivos. José Mourinho não renunciou à utilização de nenhum dos jogadores que sinalizou em Rio Maior — nem que fosse a partir do banco —, mas ninguém pode dizer que o treinador tenha mentido, dado o aviso antecipado de que «há valores mais altos que se levantam». Prestianni e Schjelderup mostraram que a próxima época pode ter pontas por onde pegar, e Mourinho, que já disse que quer continuar, até anunciou que o estreante Gonçalo Moreira terá lugar na pré-época.
O FC Porto tirou a última senha, desta vez, mas no que diz respeito à tabela classificativa segue firme no primeiro lugar, depois da vitória clara no Estoril e antes do duelo da próxima ronda entre os rivais.
Na frente está tudo na mesma, portanto, como confirmam as palavras de Frederico Varandas, que na resposta a Villas-Boas revelou dois encontros limitados a quatro clubes: um com Pedro Proença, na Federação Portuguesa de Futebol, e outro com Reinaldo Teixeira, num hotel de Gaia, quando FC Porto, Sporting, Benfica e SC Braga andaram a entrevistar os candidatos à presidência da Liga.
O presidente leonino não deu nenhuma novidade, a bem dizer. Os encontros a quatro — ou a oito, se tiverem acompanhantes — são prática bastante comum. Um vício já aqui criticado, que trava a afirmação do futebol português pela forma como limita o desenvolvimento dos clubes de menor dimensão. Uma realidade que fica bem evidente quando outros emblemas vão às provas europeias, por exemplo, mas sobretudo nas bancadas fechadas ou indignas para utilização que por aí abundam.
Seja para discutir a centralização ou outro assunto qualquer de mínima relevância, o futebol português continua a ser decidido numa mesa para quatro. Nada de substancial mudará enquanto outros, todos os outros, continuarem a abdicar do poder que podem ter, em troca de empréstimos.
Qualquer dia até o título é decidido assim: um ano para cada um e ninguém leva a mal.
Nuno Travassos, in a Bola
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