sexta-feira, 22 de maio de 2026
TAL COMO ACONTECEU COM DI MARIA, OTAMENDI MERECIA OUTRA DESPEDIDA...
Que a corrente de águas barrentas do La Plata devolva o central argentino à memória do Monumental... Pena uma nova saída da Luz de forma pouco condizente com a dimensão e o que deu durante seis anos.
Quando, muito emocionado, Otamendi desabafa «e agora, vamos para casa» - como que fazendo um esforço para não se esquecer a razão de ter de passar pela emoção profunda e sofrida de se despedir do Benfica e dos companheiros - pareceu-me ouvir um verso de Gardel. «Volver con la frente marchita.. que es un soplo la vida, veinte años no es nada». Otamendi volta a Buenos Aires sem regressar verdadeiramente. Voltar é físico, regressar é viagem emocional e ninguém regressa a um local de onde nunca saiu.
Otamendi seguramente disse até já ao azul vibrante do Tejo. Deixando-se levar pela corrente de águas barrentas do rio La Plata e, na imortalidade de personagens de Jorge Luis Borges, vestindo a pele de herdeiro de um compadrito portenho, mas que usa a alma e não as facas para os duelos. Duelos não de vida ou morte, mas de ser ou não ser.
Jorge Luis Borges, expoente da literatura argentina, sabe do que fala. Também ele nasceu em Buenos Aires, também ele viveu na Europa, também ele voltou sem regressar à capital argentina. No poema Arrabal, termina em exclamação: «yo estaba siempre (y estaré) en Buenos Aires». A memória é mais real do que a distância, ser é mais profundo do que estar.
Nenhum voltar é original, são repetições de uma alma que se melhora. Por isso, Otamendi não volta mais velho. Volta repetido. Talvez até na ilusão de juventude, a de voltar a um lugar onde começou a imaginar-se. Onde tudo é tão verdadeiro quanto simbólico. Onde a catedral da Luz dá lugar à arena do Monumental, uma memória coletiva a gritar ao mesmo tempo. E talvez seja isso que chama por Otamendi: não o River Plate, mas o som. O eco dos antepassados, as memórias que se foram purificando até serem alma.
Otamendi merecia um melhor ‘até já’ do Benfica. Como há um ano o mereceu Di María, que quase saiu incógnito. Por muito que a maioria dos adeptos entenda este fim de ciclo, nada engrandece mais uma instituição, como uma pessoa, do que a gratidão. Otamendi deu tudo. E deu muito. Dentro e fora do campo. O choro compulsivo de Prestianni durante a mensagem de despedida de Otamendi no balneário diz muito desse papel. Tantas vezes o agora ex-capitão deu na cabeça do jovem compatriota, que chegou a estar com um pé e três quartos fora da Luz e terminou a época como indiscutível… Por isto e por tudo, fica apenas a convicção que o Benfica fará em devido tempo a justa homenagem a Di María e Otamendi. Porque há jogadores que pertencem aos jogos e há jogadores que pertencem à memória dos jogos. Há jogadores que pertencem à estatística e outros que pertencem à emoção. Há jogadores que ficam na história e há jogadores que ficam no coração. E há quem ocupe todos estes lugares.
Sinto que devo agradecer a Otamendi. Pelo que deu e pelo respeito que mostrou pelo país que, acredito, será também seu. Para que volte sem regressar. Desejo-lhe a maior felicidade. Desportiva e, acima de tudo, pessoal. Na certeza de que algumas despedidas não são eventos. São apenas formas mais lentas de permanecer.
Jorge Pessoa e Silva, in a Bola
BENFICA: UM PRESIDENTE NA SALA DE ESPERA
José Mourinho, Marco Silva, Ruben Amorim ou um treinador estrangeiro: a próxima época do Benfica estará a ser preparada sem certezas. Rui Costa vai explicar-se e terá de mostrar que decide
José Mourinho ainda não comunicou ao Benfica a sua decisão, mas por esta altura restam poucas dúvidas de que voltará a Madrid. Há semanas que sabemos que é o preferido de Florentino Pérez, que entretanto poderá usar o treinador como bandeira em eleições (onde é que já vimos isto?), e ainda que o próprio Mourinho tenha evitado o assunto nas últimas conferências de imprensa não será difícil imaginá-lo, na futura apresentação, a dizer que ninguém diz não ao Real Madrid.
Certo é que o campeonato terminou entretanto e o Benfica está a preparar a próxima época sem saber quem será o treinador. Nada de inédito, claro, basta reparar que o atual técnico campeão, Francesco Farioli, até só chegou em julho do ano passado, após um Mundial de Clubes que mudou tudo (sobretudo a opinião do presidente do FC Porto, que antes tinha garantido que Martín Anselmi era para ficar). Afinal, parece que correu tudo bem...
Na Luz, a ordem é para esperar. Rui Costa espera por José Mourinho, mesmo que tenhamos dado conta de alguns avanços para a sucessão. Marco Silva, a hipótese que fomos dando como a mais provável, espera por Rui Costa, sendo pressionado pelo Fulham para renovar. E Ruben Amorim não espera nada, a não ser que uma boa proposta do estrangeiro lhe estrague o planeado ano sabático.
Tudo somado, e conforme A BOLA dá conta na edição de hoje, entra em campo a hipótese de um treinador estrangeiro. Ou seja, ou Mourinho dá a volta e renova, ou Marco Silva diz não ao Fulham e assina, ou um milagre traz Amorim, ou então o mercado estrangeiro vai ter de resolver a equação que tanto preocupa os benfiquistas. Está quase tudo nas mãos dos treinadores enquanto o presidente espera, com diferentes soluções em cima da mesa.
Haverá muitas questões e análises sobre o que têm em comum (ou não) Mourinho, Marco, Ruben e o estrangeiro, mas depois de mais uma época sem o título de campeão, sem o dinheiro da próxima Champions e com mercados de transferências gigantes mas duvidosos, o plano do presidente não pode sofrer hesitações.
Rui Costa prometeu explicações para esta semana, mas afinal vai ter de adiar - à espera de Mourinho, lá está. Quando falar, terá de dar aos benfiquistas uma sensação de segurança na estratégia que terá traçado para a próxima época - é isso que se espera do presidente. Há nomes mais sonantes do que outros para treinar o Benfica em 2026/27, mas pior do que voltar a falhar os objetivos será transmitir a ideia de que não tem mão no que está a passar-se.
Catarina Pereira, in a Bola
MAIS DO QUE UM TREINADOR
No desporto de alto rendimento, o sucesso regular depende de vários ingredientes em simultâneo, em que quase ou todas as peças do puzzle têm de estar num nível elevado para que os resultados surjam.
Posto isto, José Mourinho foi contratado pelo Benfica com o intuito de resolver várias peças do puzzle que a direção do clube considerou estarem a falhar e para os quais entendia que o treinador Bruno Lage não seria, ou não teria, a solução. Na narrativa da direção, Mourinho elevaria os níveis para um patamar de excelência. As alterações surgiriam a tempo das eleições e, independentemente da qualidade ou dos defeitos dos dois treinadores, seria fácil fazer a conta de 1+1: José Mourinho permitiria várias consequências positivas e, entre elas, uma campanha eleitoral com menos oscilações.
José Mourinho, como todos os treinadores com vários anos de carreira e, neste caso específico, com um currículo muito apetrechado, tem um perfil de liderança bem identificado e enraizado. Como treinador, possui um conjunto de competências, mas neste caso, fruto de ter treinado os maiores clubes do mundo em contextos muito exigentes, tem também uma visão holística de como um clube deve estar organizado e uma forte convicção nas suas melhores práticas.
Mourinho chegou ao Benfica numa altura em que o clube demonstrava (e continua a demonstrar) ter uma estratégia pouco robusta e uma cultura organizacional confusa, a juntar às constantes alterações na liderança da equipa de futebol e na direção desportiva, com investimentos elevados e resultados opostos aos pretendidos. E Mourinho não é o tipo de treinador que tem de exigir maior autonomia ou poder. É um treinador que, face à carreira que construiu, tem uma cláusula implícita nos seus contratos verbais: merece ter mais poder e autonomia do que um treinador com uma carreira dita normal.
Mas ter mais autonomia numa estrutura pouco robusta, dispersa e confusa é como ter mais dinheiro numa casa onde se gasta mal ou dar mais tempo a quem não tem horários. Quando se recruta um treinador, a cultura organizacional, a estratégia e os valores devem ser um ponto de partida. E não um ponto a meio ou final consoante o perfil de treinador que se contrata. Quando tentamos enfiar uma peça num local onde a mesma não pertence, é uma questão de tempo. Vencer será um acaso apesar da estratégia ou estrutura e nunca por causa da estratégia ou estrutura.
É desta autonomia que falo, e será um dos pilares para resolver um dos desafios que o Real Madrid terá para o treinador setubalense: ser capaz de resolver algo maior do que ser apenas treinador. É reencontrar aquilo que deve ser a cultura de disciplina e exigência na equipa de futebol. É tentar encontrar novos Modric e Kroos para serem os líderes dentro de campo e em espaços onde ele não está nem pode estar. Não sei responder se Mourinho será ou não o treinador ideal para os problemas táticos atual plantel. Mas quem o contrata fá-lo com a convicção de que terá capacidade para devolver as peças do puzzle que não existiram nos últimos meses: disciplina e completo alinhamento entre treinador e direção.
Isto não significa que os treinadores anteriores fossem maus, nada disso. A direção do Real Madrid admite, com isto, que delega mais uma função no treinador português e que para isso, este tem de ter determinadas competências e que deve assumir a responsabilidade de fazer algo que a direção não conseguiu. Se lhe der autonomia e com ela responsabilidade, poder e significado, Mourinho pode resolver alguns dos problemas na cabeça da direção. Porque a equipa do Real Madrid tem muito mais falta de disciplina, cultura organizacional, rigor e compromisso do que falta de talento, e todos sabemos que ter atletas caros e talentosos, não chega.
No Benfica faltou aquilo que já vinha a faltar nas épocas anteriores e por isso, qualquer que fosse o treinador, o problema seria maior ou menor, mas nunca seria resolvido de modo estrutural. Isto não quer dizer que tudo o que aconteceu de mau foi responsabilidade do clube e tudo o que aconteceu de bom foi responsabilidade do treinador, nada disso. Mas considerar, nos dias de hoje, que o problema do clube encarnado é o treinador é o mesmo que pensar que o problema da economia nacional se resolve passando o pagamento do vencimento de mensal para semanal.
Há um match que não foi feito na Luz: entre a estratégia, a cultura organizacional que o clube gostaria de ter e não a que verdadeiramente tem, o treinador e o perfil de liderança e gestão desse treinador. Isto fará parte do sucesso ou do insucesso de quem chegar à Luz e fará parte do novo desafio de José Mourinho, seja em Madrid ou noutro clube qualquer. Mourinho pode agradar ou não relativamente àquilo que consegue aportar às suas equipas, mas tem duas enormes qualidades que face a estruturas difusas, continuam a ser rainhas: comunicação situacional e uma enorme capacidade de ler o ambiente em redor.
Florentino Pérez, com 26 anos à frente do clube madridista, aposta no português após 13 anos. Desde 2013, o Real Madrid trocou nove vezes de treinador e repetiu dois nomes nesse período: Zidane e Ancelotti. Passados 13 anos, muita coisa mudou. E a maturidade do presidente leva-o a procurar um treinador que gosta de gerir conflitos através do confronto, que conhece bem a casa, conhece a pessoa com quem vai lidar diretamente e com quem já viveu alegrias e deceções.
Mourinho sabe melhor do que ninguém que não pode ser o Mourinho de 2010. Provavelmente, nem o conseguiria ser. O ecossistema do desporto de alto rendimento mudou de forma vertiginosa e exige novas abordagens. O que não mudou, e dificilmente mudará tão cedo, é a base do sucesso de uma organização de topo: liderança eficiente, cultura organizacional robusta e alinhada entre todos, talento e competências, uma excelente estratégia e recursos capazes de responder aos objetivos.
Rui Lança, in a Bola
RUBEN AMORIM É O TREINADOR CERTO PARA O BENFICA?
ESCOLHIDO! MARCO SILVA CADA VEZ MAIS PRÓXIMO!
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Benfica e Sporting na corrida por Yeremay | MERCADO FLASH
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