sábado, 15 de agosto de 2026
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
BENFICA: A REVOLUÇÃO DE UM HOMEM SÓ
Marco Silva tenta transformar o Benfica sem massa crítica para uma ideia de equipa grande. É precisamente quando o mercado é ainda mais decisivo que a resposta falha copiosamente
Escrevi aqui várias vezes que quanto mais o Benfica insistisse em treinadores com modelo assente em transição ofensiva mais longe estaria do sucesso e de ter um plantel capaz de dar resposta quando viesse alguém com ideias mais próximas do que deve ser uma equipa grande a jogar na Liga portuguesa.
Depois de Roger Schmidt, tanto com Bruno Lage como com José Mourinho, os encarnados não só se afastaram do seu ADN e cultura, por via das ideias de ambos os técnicos, como também a maior parte dos atletas contratados — €200M investidos em duas épocas — empurraram uma equipa que deveria ser dominadora para uma outra a vestir outra pele, a de uma que não consegue dominar e controlar. Perante a distância entre as classes alta e média, já para não falar de outras, essa é a morte do artista. Falhar ultrapassar defesas baixas pode resultar em títulos perdidos. Depois do quase com Lage, Mourinho não perdeu um jogo no campeonato e, mesmo assim, só conseguiu um terceiro lugar. O que mostra o quão errada pode estar uma abordagem que não seja global. Ou seja, estará sempre mais perto de vencer quem tiver mais soluções em transição ou ataque rápido e também na sua organização posicional com bola, impactante não só a atacar como a defender. E é preciso não esquecer a importância da coesão a defender, e de se ser sólido e disruptivo, consoante a baliza que se defende ou ataca, nas bolas paradas.
Não acredito que Marco Silva tenha trazido consigo de Londres essa ideia de futebol hiper-associativo, de elevadas percentagens de posse e de um ataque mais envolvente do que vertical e progressivo. No entanto, reconheço que a química que os jogadores da frente apresentam — a mobilidade, criatividade e as dinâmicas que se observam — apresenta-se superior ao que trouxeram à luz do dia os antecessores. Os mesmos que mostraram dificuldades, com planos ou sem planos específicos divulgados publicamente, em perceber que talentos puros como Schjelderup e Prestianni tinham ultrapassado o ponto de fricção e já era visível para quase toda a gente que estavam prontos. Claro que a definição no momento de finalizar tem deixado a desejar, mas nota-se evolução.
Uma boa evolução num tecido coletivo sem caras novas à exceção de Kaminski, o que contrasta com a instabilidade que resulta da falta de massa crítica no setor defensivo, há muito anunciada e há muito por resolver. A mesma falta de plano que explica o salto entre treinadores a olhar para o nome (ou para o passado) e pouco para as ideias também esclarece a quantidade de potenciais reforços que se perseguem para a posição de central, para logo depois se riscar porque são demasiado caros ou há demasiada gente atrás. O mercado do Benfica é o exemplo perfeito daquilo que não se deve fazer. E essa conclusão ficará mesmo que os encarnados ainda encontrem um grande negócio, o melhor do verão. Irá sempre parecer um acidente.
Tomás Araújo e Lenglet complementam-se na velocidade e são mais jogadores do que defesas. Sabem o que fazer com a bola. Isso é um upgrade em relação ao passado. No entanto, não gostam do choque, do duelo físico e, dos dois, apenas o francês disputa a bola pelo ar, sem esconder algum desconforto. O mesmo se passa com Enzo e será apenas um pouco melhor com Aursnes. Tal como com os vários laterais à disposição, entre os quais Bah é o mais disponível para o momento. Em cima, Marco Silva acrescentou mais um factor de instabilidade: mudou de guarda-redes. E a defesa está a sofrer demais. Precisa de tempo. Mas também precisa de um ou dois jogadores diferentes — um central e um médio defensivo mais agressivo, que dificilmente já será Palhinha —, ficando a dúvida, que terá de ser Samuel a dissipar, se não necessita também de um número 1. O próprio técnico não escondeu algum nervosismo em Edinburgo perante uma pergunta normal do jornalista sobre o tema.
Marco Silva está no meio de uma revolução e sem homens de confiança ao seu lado. Vai ter de encontrar quem o siga cegamente para o que aí vem. Terá de descobrir passe vertical onde só se movimenta a bola para o lado ou se bate longo. De incutir agressividade a quem só quer fazer contenção. De obrigar a saltar quem deixa a bola bater. E de disciplinar quem já teve episódios de explosão. Isto num clube que se movimenta como se continuasse anos 90, mesmo com os títulos conquistados depois disso. Se o conseguir será o seu melhor trabalho, todavia também o mais difícil. De longe.
O mercado é o reflexo de como se vive no Benfica. Se há dúvidas com Lenglet, estas aumentam com Kaminski. Está longe de ser, para já, um reforço. O que não quer dizer que seja um flop. Ainda. O polaco, percebe-se, é um jogador para receber a bola no espaço, não para encontrá-lo para si próprio, através do drible. Poderá ser útil em estágios mais avançados da Liga Europa, mas de costas para a baliza contrária e sob pressão tem sido desastroso. Aí, seja ansiedade ou falta de treino, mostra debilidades pouco naturais para um jogador já internacional. Foram sim 17 milhões de euros gastos com um perfil para uma mão-cheia de jogos, num setor em que havia soluções e, sobretudo, tempo. Quando já faltava um central e um 6, e agora talvez se pense num guarda-redes e, acrescento eu, num cenário ideal, num 8 diferente.
Os sinais dizem-nos que a pressão vai tornar-se mais duradoura, o terceiro homem vai aparecer e o moral vai provavelmente crescer, podendo empurrar a equipa para a tal velocidade de cruzeiro, de triunfo atrás de triunfo. O calendário, esse, apertará ainda mais e, para ser bem-sucedido, o técnico tem a plena consciência de que, neste microclima, não poderá perder os rivais de vista. Entretanto, já ganhou tempo suficiente para que finalmente chegue ajuda! Ainda que já devesse ter percebido que talvez tenha de esperar que quem assina os cheques se ajude a si próprio. Ainda que isso passe por se perceber as próprias limitações, o que nem com os constantes pedidos de desculpas tem acontecido. Uma delas é não perceber que quando se bate a tantas portas não se trata de esperar para escolher bem. É apenas não saber o que escolher.
Luís Mateus, in a Bola
OS TREINOS DO BENFICA ANDAM MESMO INTENSOS
Faltou à águia sentido de urgência para parecer que aquilo na Escócia era um jogo, mas nem Marco Silva ajudou com onze e substituições ditadas pela gestão, mais do que pela vontade de ganhar
Há muito que os jornalistas deixaram de poder assistir aos treinos das equipas de futebol — eu ainda tive oportunidade de ver muitos, no campo 3 da Luz, na Reboleira, no Restelo, em Alverca, no Bonfim, em Campo Maior... —, por isso foi um privilégio, ontem, estar no sofá a ver a equipa de Marco Silva a trabalhar.
Sim, a desculpa é que se tratava de um suposto jogo oficial, a segunda mão da terceira pré-eliminatória da Europa League. Mas isso foi apenas o que obrigou o Benfica a abrir o treino, e não apenas aqueles 15 minutos que a UEFA obriga e que são apenas o aquecimento antes de começar, já à porta fechada, o que realmente interessa.
Ontem, não. Ontem, a águia foi mesmo obrigada a ter o treino todo aberto, e logo um treino de conjunto, com uns convidados escoceses esforçados. Só faltou Marco Silva entrar campo dentro para corrigir posicionamentos para a sensação ser completa.
Porque por muito que se queira, por muito que um treinador tente puxar pelos seus jogadores, é quase impossível que a segunda mão duma pré-eliminatória de agosto, depois de 6-1 na primeira, saiba a ou tenha a intensidade de um jogo. Falta o sentido de urgência, falta o receio de perder pontos, ou de ficar pelo caminho.
E nem Marco Silva ajudou a passar esse sentido de urgência, quando as substituições que fez foram ditadas pelo plano de minutos traçado antes (45' a cada central; Barrenechea e Sudakov, os outros titulares de campo na Escócia que já tinham começado o jogo com o Académico de Viseu, substituídos pouco depois de uma hora), e não pelo que o jogo ditava. Até as últimas trocas foram ditadas pela gestão, mais do que pela vontade de vencer o encontro, como confirmou o próprio treinador das águias, caso contrário Durán não teria jogado 90'.
Com tudo isto, acho que se pode dizer que foi bem bom. Para treino, teve uma intensidade invulgar. Melhor a dos primeiros 45 minutos do que a dos segundos, claro, porque muitos dos titulares de ontem ainda não tinham estado num treino de conjunto tão forte esta época.
E para Marco Silva sobrará a esperança de que, com melhorias físicas, a equipa possa pressionar nos jogos melhor do que fez no treino de ontem; e que, em jogo, a concentração seja maior, para evitar tantas falhas na concretização, ou distrações como as de José Neto (ultrapassado no um para um) ou Richard Ríos (que deixou o autor do golo do Hearts sozinho para ir marcar quem já estava a ser marcado por Manu) no lance do 1-0.
Hugo Vasconcelos, in a Bola
QUASE DEU PARA DORMIR | HEARTS 1 - 1 BENFICA | REAÇÃO COMPLETA
SUDAKOV NÃO CONVENCE E JÁ PODE TER SUBSTITUTO NO 11 DO BENFICA!
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Será já este o Benfica de Marco Silva? | TEMA DO DIA
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