terça-feira, 15 de outubro de 2019

UM AZAR DO KRALJ


Portugal e o jogo de caridade dos amigos de Jorge Mendes contra os amigos de Shevchenko (por Um Azar do Kralj)
Eis então a análise de Vasco Mendonça ao jogo que Portugal perdeu por jogar pouco coletivamente e individualmente também. É ler o que o cronista da Tribuna Expresso escreve a propósito de Pepe, Raphael Guerreiro, João Mário, Moutinho e, sim, João Félix.


Rui Patrício
Fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar títulos como "Portugal volta à calculadora", "Contas difíceis para Portugal", ou "Fernando Santos considera resultado injusto", mas não foi suficiente.
Nelson Semedo
Deu profundidade ao ataque, defendeu o seu corredor muitas vezes sem grande ajuda, e desobedeceu como pôde às instruções de Fernando Santos para que repetisse as suas acções em campo até nos matar de tédio. Podíamos pedir mais, mas talvez não hoje.
Pepe
A sua primeira parte pareceu-se um pouco com a participação num jogo de caridade envolvendo os amigos de Shevchenko contra os amigos de Jorge Mendes. Acabou por corrigir na segunda metade, evitando que a Ucrânia traduzisse injustamente em mais golos a sua superioridade ao longo do jogo.
Ruben Dias
Bom desarme aos 59. 'Aos 63' conseguiu a invulgar proeza de questionar a decisão do árbitro em assinalar uma falta, tudo isto enquanto ainda cometia a referida falta, designadamente com o cotovelo enfiado na nuca de um adversário. Fez por não causar embaraços ao seu pais, mas nem sempre foi fácil. Há uma expressão sua no segundo golo que diz tudo, um breve esgar de dor de quem ainda sofre, mas aos poucos se vai habituando a estas figuras sempre que visita o leste da Europa.
Raphael Guerreiro
Fez muito bem em tirar o dia. A vida não é só trabalho.
Danilo
Pareceu quase sempre pouco divertido com algumas das rabias desenhadas pelos ucranianos sedentos de bola, logo ele que é um atleta sorridente. Não obstante ter travado um combate digno no meio campo, foi um remate seu à trave que quase permitiu a Fernando Santos aparecer sorridente na sala de imprensa.
Se a FIFA não fosse profundamente corrupta, aquela receção aos 15' de Félix teria dado golo (por Um Azar do Kralj, que chora por João)
Então, aqui vai a análise de Vasco Mendonça a mais um jogo da seleção. E é uma análise em que cabe uma viagem ao golo anulado a Cristiano Ronaldo contra a Espanha por causa de um toque de Nani. Imaginem que aquele chapéu de sexta-feira tinha sido o 700? Pois
Moutinho
Faz-me lembrar aqueles versos da Sophia de Mello Breyner:
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar,
Em especial os que perdi a ver jogos do João Moutinho na seleção.
João Mário
Aposto que os ucranianos não se prepararam para ver João Mário jogar tão avançado no terreno. A sorte deles foi que João Mário também não, caso contrário podia ter corrido muito mal.
Bernardo Silva
Não sei o que é mais doloroso: ver Bernardo Silva agrilhoado por uma combinação de talento ucraniano e falta de ideias portuguesa, ou o facto de isso me ter levado a procurar a canção dos Delfins, "Soltem os prisioneiros", cuja versão ao vivo estou a ouvir há demasiado tempo. E agora vou rever os cruzamentos repetitivos do Bernardo Silva enquanto choro.
Gonçalo Guedes
Nada diz "quero ganhar na Ucrânia" como substituir um dos nossos melhores marcadores ao intervalo. Não que tivesse feito assim uma primeira parte estonteante, mas as ocasiões em que não combinou com João Mário deram a entender que tinha algo mais para dar ao jogo.
Cristiano Ronaldo
Aposto que foi assim que ele imaginou o golo 700 da sua carreira: um penalty sensaborão num estádio cheio, em êxtase, a cantar em uníssono o nome daquele que ficará na história como um grande futebolista chamado Andriy Shevchenko.
João Félix
O seu primeiro toque na bola foi um corte a remate de Bernardo Silva, e mesmo assim foi das suas melhores intervenções.
Bruno Fernandes
Cumpriu à risca as instruções de Fernando Santos, assumindo-se como uma versão de João Mário com pior feitio.
Bruma
A minha forma de estar na vida ao longo destes últimos tem passado, no essencial, por não contar com o Bruma para resolver os problemas com que me vou deparando. Até hoje sempre me dei bem, mas essa convicção foi testada esta noite. Dei por mim quase a acreditar que íamos virar o resultado sem saber ler nem escrever, tudo por causa de um extremo esquerdo meio estouvado que fez o que mais ninguém conseguiu: agitou o jogo e fez os ucranianos duvidarem por breves instantes de que a qualificação estava no papo.
Um Azar do Kralj, in Tribuna Expresso

O ADVOGADO DO DIABO LAGE


"Em Outubro há já uma espécie de campanha contra Bruno Lage. O clássico provocou dúvidas na equipa campeã, a Europa acentuou as de dirigentes e adeptos, e os nomes de Samaris, Cervi e Zivkovic dão tom mais pesado à acusação. Lage não é diferente e carrega os vícios da profissão. Acredita na ideia e no trabalho que o fará vingar. A virtude, que é ao mesmo tempo defeito profissional, leva-o a aceitar termos sem pensar duas vezes, facilitando a vida dos dirigentes, que adoram percorrer caminhos em que nunca sejam responsabilizados.
O espírito crítico faz com que dê sempre o benefício da dúvida ao treinador. O do Benfica terá achado que não precisava de um novo Félix, mas curiosamente defendeu que Vlachodimos beneficiaria de alguém que com ele competisse pela baliza. Se isto continuar a fazer sentido então acreditamos que há capacidade de contratar para Portugal jogadores desta qualidade. Ou então é apenas demasiado fácil fazer saber que Lage não quis.
Tudo isto, em Outubro, é tremendamente absurdo. Uma aberração.
O plantel está montado apenas para consumo interno e, da última época para cá, perdeu dos melhores a jogar entre linhas como Félix, sofreu com as lesões de Gabriel e Florentino, e passou a sentir mais dificuldades em chegar ao golo, com a pior versão de Seferovic. E há ainda que esperar que a poeira assente. A inexplicável má forma de Samaris parece confirmar que a última época foi excepção e não regra, e Cervi luta muito para proteger Grimaldo, mas não dá profundidade com bola. Já Zivkovic ainda há muito a tentar convencer treinadores sem sucesso e talvez já tenha desistido de tentar. Só quem vê os treinos saberá.
Os que já não querem Lage sonharão com Jesus, que até teve plantéis bem mais ricos que o actual, e que ganhou mas também perdeu. Tudo isto, em Outubro, é tremendamente precipitado. Uma aberração."

Luís Mateus, in A Bola

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA PRESIDÊNCIA


"No pós-João Rocha, sete (!!!) presidentes do Sporting não concluíram os mandatos. Uma forma de estar autofágica, que ameaça repetir-se

Os sinais que chegam de Alvalade apontam a forte possibilidade de haver eleições antecipadas, num clube que está partido a meio e não encontra forma de sararas feridas. Neste momento, com inimigos irredutíveis, vindos do brunismo e das claques, e com os seus votantes a vacilarem na militância, Frederico Varandas depende demasiado dos resultados da equipa de Jorge Silas, o que configura uma situação de extrema volatilidade. É evidente que a escassa vocação mediática do presidente também não ajuda a causa, e o desnorte visto na última assembleia geral, com beijos a voar para as bancadas, pinta bem o quadro de um clube à beira de um ataque de nervos. Mas, sejamos claros: há uma reestruturação financeira tornada pública (independentemente das queixas à CMVM...) e não valerá muito a pena persistir na identificação dos erros associados à construção da equipa de futebol, o que está feito, está feito. Acima de tudo, o Sporting precisa de estabilidade que decorrer do normal cumprimento das legislaturas. E, se a memória não me falha, no pós-João Rocha, Jorge Gonçalves, Pedro Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, José Eduardo Bettencourt, Godinho Lopes e Bruno Carvalho não concluíram os mandatos e o clube foi para eleições antecipadas. É essa situação, tão presente na vida dos leões, que agora volta a perfilar-se, com os danos que avanços e recuos sempre causam, especialmente numa conjuntura tão periclitante como o que é vivida em Alvalade.

Portugal, joga hoje, na Ucrânia e tem a possibilidade de carimbar já o passaporte para a fase final do Euro-2020, o que representará a sétima participação seguida das nossas cores neste certame, onde são contabilizados, neste período, dois terceiros lugares (2000 e 2012), um segundo (2004) e um primeiro (2016). Depois de uma arbitragem desastrada (a falta que o VAR fez...) no encontro com os luxemburgueses, que terá impedido Cristiano Ronaldo de atingir a marca extraterrestre de 700 golos em jogos oficiais de seniores, em Kiev volta a abrir-se uma janela para que tal feito seja alcançado com a camisola das quinas vestida. Sem que nada me mova contra a Juventus, era mais bonito assim...

PS - Rui Patrício voltou a Alvalade, um regresso de bom filho...

Ás
Ricardo Leite Pinto
Vice-chanceler da U. Lusíada, Mestre em Direito e Doutor em História, Ricardo Leite Pinto descobriu, na Torre do Tombo, numa pesquisa para uma tese sobre as publicações infantojuvenis no Estado Novo, um projecto, de 1952, de A Bola Infantil, que não chegou a ver a luz do dia. Grande contributo para a história do jornalismo...

Ás
Arthur Nory Mariano
O nível médio do desporto brasileiro subiu bastante, após a implementação do programa olímpico que culminou com os Jogos do Rio de Janeiro, em 2016. Ontem, em Estugarda, o atleta brasileiro Arthur Nory Mariano sagrou-se campeão do mundo de barra fixa, exemplificando a nova realidade canarinha pós Rio-2016.

Duque
Tite
Depois de conquistar a Copa América (7 de Julho de 2019) a selecção brasileira disputou quatro jogos, perdeu um (Peru) e empatou os restantes três (Colômbia, Senegal e Nigéria). Entretanto, Tite, que tirou o escrete da crise, dá sinais de desagrado pela política em torno da equipa e perdeu o estado de graça junto aos media.

Que mal fez José Alvalade ao Sporting?
«(Estádio Cristiano Ronaldo) é uma hipótese que não deixamos de lado e da qual obviamente teríamos muito orgulho»
Frederico Varandas, presidente do Sporting
José Alfredo Holtreman Roquette, neto do Visconde de Alvalade e conhecido como José Alvalade, foi fundador e primeiro sócio do Sporting Clube de Portugal. Em 1956, os leões homenagearam esta figura ímpar, dando o seu nome ao estádio que tinham acabado de inaugurar; em 2003, foi decidido manter a designação para o novo anfiteatro. Mudar agora de nome?

'Squadra azzurra' com pressa de qualificação
Quatro vezes campeã do mundo, também vencedora de um Europeu, a Itália foi a ausência mais notada do último Mundial, disputado na Rússia. Mas, com três jornadas de avanço, a squadra azzurra já marcou presença no Euro-2020 e os tiffosi suspiraram de alívio. A primeira missão de Roberto Mancini está cumprida...

O Homem da Maratona
O queniano Eliud Kipchoge, de 34 anos, correu a maratona de Viena em menos de duas horas (1.59.40h), quebrando assim uma barreira que parecia para lá dos limites humanos. É certo que teve um percurso escolhido a dedo, o apoio de 41 lebres, uns ténis futuristas e o ritmo marcado por tecnologia laser, pelo que a IAAF não homologou a marca como recorde do mundo. Porém, ficou a saber-se que a missão não é impossível e, mais ano, menos ano, numa maratona convencional, alguém dobrará este cabo das tormentas. A INEOS, um gigante da petroquímica, associada, no desporto, à vela e ao ciclismo, e a Nike, investiram neste projecto, de matriz Red Bull, 25 milhões de euros, uma ninharia quando comparados com o retorno mediático planetário que trouxe para as marcas."

José Manuel Delgado, in A Bola

PRIMEIRAS PÁGINAS: TRAUMATISMO UCRANIANO


A CHAMA IMENSA - BTV - 14 OUTUBRO 2019

                                           

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

NOVAMENTE O SILVA DA NET


Gomes da Silva e a reestruturação financeira do Sporting: «Ganhou quase tanto como o Benfica por Félix»
Ex-'vice' do Benfica aborda silêncio dos encarnados face ao "perdão da dívida" dos leões.
Rui Gomes da Silva abordou esta segunda-feira a reestruturação financeira avançada a semana passada pelo Sporting. No texto que publica semanalmente no blog "Novo Geração Benfica", o antigo vice-presidente dos encarnados sublinha que "o Sporting, com esse perdão, ganhou quase tanto quanto o que o Benfica anunciou ter ganho pela venda de João Félix".
Os leões, recorde-se, anunciaram que foram formalizadas as alterações aos contratos de financiamento entre o Grupo Sporting e os bancos Millennium BCP e Novo Banco e que, nesse âmbito, "procedeu à regularização de todas as obrigações pecuniárias vencidas, encontrando-se assim em cumprimento perante os bancos".
"Tirando a graça que por aí circula, que, nos últimos 20 anos, o Sporting ter tido mais perdões de dívida que campeonatos ganhos, o que me preocupa é o silêncio do Benfica! O Sporting, com esse perdão, ganhou quase tanto quanto o que o Benfica anunciou ter ganho pela venda de João Félix! E - não menos importante - sem ter de pagar 12 milhões a Jorge Mendes! E - tão importante como o não ter pago comissão de uma operação que queria, ao contrário do Benfica que paga comissões por operações que não quer - sem ter de comprar RDT ou Vinicius, inflacionados para compensar vá-se lá saber o quê!!! Ou sem quase ter comprado um guarda-redes com mais lesões que títulos!!! Ou... o que ainda veremos!!! Valha-nos que - pelo menos - não foram os empresários a emprestar dinheiro... ao Sporting! Só espero que, um dia destes, não venhamos a descobrir que o nosso silêncio se deveu a um novo entendimento estratégico com o Sporting com encontros secretos e tudo para os salvar! Porque isso não é assunto que preocupe quem gosta a sério do Benfica!", escreveu Gomes da Silva.

DE KIEV A TEERÃO


"Acredito que amanhã Cristiano Ronaldo marcará frente à forte equipa da Ucrânia e será determinante para uma vitória da nossa Selecção

1. Amanhã em Kiev acredito que Cristiano Ronaldo vai chegar ao solo setecentos da sua carreira de extraordinário jogador de futebol. Um dos maiores jogadores da história do futebol mundial e um monstro de centenas de relvados. No passado sábado os meus três netos acompanharam-me, e com o seu dedicado e querido Pai deliciaram-se com a vitória de Portugal e ficaram maravilhados com o chapéu de Cristiano Ronaldo que concretizou o segundo golo da selecção liderada, e bem, por Fernando Santos. A festa de muitas famílias - e de muita juventude universitária trajada a rigor - percorreu, numa alegria contagiante, as bancadas de um Estádio, o de Alvalade, que voltou a acolher a selecção de todos nós. Este espírito de selecção é uma conquista da Federação e da sua empenhada estrutura directiva. O seu marketing é dos melhores de Portugal. A sua comunicação motivante é uma referência em Portugal. E a sua estrutura, com profissionais de excelência, merece um prolongado aplauso. Acredito que amanhã, em Kiev, Cristiano Ronaldo marcará frente à forte equipa da Ucrânia e será determinante, uma vez mais, para uma vitória da nossa selecção. Três pontos que permitirão, estou convicto, que Portugal termine esta fase de grupos no primeiro lugar. O lugar devido à selecção campeã da Europa em título e vencedora da primeira edição da Liga das Nações. O que sabemos é que esta dupla jornada da fase de grupos já permitiu e permitirá conhecer muitas selecções - diria que muitas das habituais presenças - que marcarão presença nesse Europeu de  múltiplas sedes que será o Europeu de 2020. Pela minha parte direi que estive com a Família em Alvalade. E como os meus netos a abraçaram-me, em festa contagiante, três vezes. E, amanhã, com amigos do coração, do coração que já vibrou em Vilnius, estarei em Kiev. Com o sonho de ver Portugal vencer e a fé de assistir, ao vivo e a cores, ao golo 700 do capitão, que nos orgulha, da selecção de Portugal: Cristiano Ronaldo!

2. O futebol por vezes é revolucionário. Quarenta anos depois da Revolução Islâmica de 1979 quatro mil mulheres iranianas puderam assistir ao jogo, e à goleada,entre o Irão e o Camboja, encontro da fase de grupos asiática de acesso ao Mundial do Catar. Sabemos que foram quatro mil no meio de 74 mil. Como lemos que nos últimos anos muitas mulheres se disfarçaram de homens para terem acesso a diferentes estádios do Irão, realidade que o cineasta Jafar Panahi retrata num interessante filme com o sugestivo título Fora de Jogo. Na semana em que ficámos a saber os diferentes prémios Nobel - da Paz à Literatura, entre outros -, importa referenciar esta exigência - que, de verdade, foi, no caso de não se efectivar, uma ameaça de suspensão de participação em eventos internacionais - da FIFA. E a luta pelo acesso das mulheres iranianas aos estádios - e, aqui, por excelência ao emblemático Estádio Azadi - é, também, uma forma de luta das iranianas pela igualdade. Também aqui vale a teoria dos pequenos passos. Por ora quatro mil lugares esgotados em apenas uma hora. Por enquanto apenas em jogos internacionais para impedir sanções da FIFA, que teve a coragem, diria ousadia, de interferir na vida interna de um Estado. Já que para algumas poderosas vozes da Revolução Islâmica esta autorização leva ao pecado. Por isso na passada quinta feira Teerão viveu um dia revolucionário. Em razão do futebol e da tenacidade da sua organização cimeira, a FIFA!

3. Depois desta dupla jornada de selecções teremos finalmente, o regresso às competições internas. Com a consciência que só  domingo eleitoral perturbou o regular funcionamento do prévio calendário do futebol profissional. No mais está-se a cumprir tudo aquilo que todas as instâncias do futebol - todas! - acordaram. E acho estranho que alguns não se recordem determinados a criar todas as condições para a suspensão, temporária ou definitiva, da Taça da Liga. E, e para além do foguetório a que assistimos, vamos viver a primeira eliminatória da Taça de Portugal em que participam, em principio com o estatuto regulamentar de visitantes, os grandes nomes do futebol português. E, assim, a partir da próxima quinta-feira teremos dois jogos de Taça em canal aberto, o que evidência o desígnio federativo de potenciar o futebol para todos. E, assim, a prova rainha pode determinar, por razões televisivas - e, logo, por determinantes motivos financeiros que, no limite, pagam o orçamento de uma época (ou até mais) - que o estatuto de visitantes se transforme, num instante e por encanto, na situação de visitado. De jogar fora pelo sorteio passa-se a jogar em casa em razão da televisão. São boas notícias para todos. E, acredite-se se, que o espírito do regulamento não se viola. Adapta-se às circunstâncias. Dos tempos e dos estádios necessários. Para a transmissão que fera, aqui, milhares de euros! E certas audiências!

4. Permitam que referencie uma extraordinária entrevista do director geral do Liverpool, o campeão da Europa em título e o líder da Liga Inglesa: Peter Moore. Afirmou ele, em Madrid, que o êxito do Liverpool se baseia no «socialismo»! Sim escrevi bem! Não do socialismo político puro mas sim do socialismo no sentido da solidariedade. Tendo presente que Liverpool tem uma identidade própria, com uma forte tradição operária e com um porto que é uma das referências da abertura ao mundo! E o futebol da equipa de referência de uma cidade que a música, e um grupo extraordinário, levou a todo o mundo também se expressa, com a liderança de um socialista alemão - Jurgen Klopp - na ideia de trabalhar em conjunto, de passar a bola e movimentar-se, de assumir, tal como uma canção da década de sessenta do século passado, a poesia em movimento! A reflexão deste homem do marketing global - que regressou a Inglaterra após quarenta anos de êxitos nos EUA (da Sega à Microsoft, até à Electronic Arts) - merece ser lida por todos aqueles que querem construir, de verdade, projectos vencedores e que sabem que a indústria do futebol exige ousadia e criatividade e que não pode ignorar as exigências dos novos tempos e, logo, das novas gerações que têm de ser conquistadas para o futebol! Na certeza também que, sem esquecermos por vezes a palavra paciência, se «compares bons jogadores melhoras a equipa, se melhoras a equipa conquistas títulos e se conquistas títulos crescem as receitas»! Vale a pena ler Peter Moore neste tempo de pausa do futebol doméstico! Sem esquecermos essa viagem, de tons diferentes, entre Kiev e Teerão!"

Fernando Seara, in A Bola

SOBRE FALAR ANTES DE PENSAR


"Falar antes de pensar: sai ar da boca e produz linguagem antes de ser activado o funcionamento do cérebro

- Em que sítio deve estar a cabeça?
- Como?
- Em que sítio deve estar a cabeça de um sujeito?
- Por mim, em cima.
- Em cima. Onde? Aqui?
- Exacto.
- Acima do coração?
- É uma bela posição relativa, parece-me.
- Mas se vossa excelência fizer o pino...
- Sim?
- O coração fica acima da cabeça. Se continuarmos a considerar o solo como referência.
- Exactamente, pelas minhas contas é isso mesmo.
- Chão, cabeça, coração, tronco, pernas e pés.
- Pés lá em cima.
- Sim. Up.
- Portanto, não devemos fazer o pino...
- Não.
- ... se queremos manter a racionalidade.
- Isso.
- Por mim, não faço o pino por razões bem mais práticas: não me quero partir todo.
- Pois. Mas dizia: a cabeça sempre acima do coração. Uma questão de hierarquias, excelência.
- Podemos ter instintos e raiva, mas acima disso: o pensamento, a racionalidade. É isso?
- Isso mesmo.
- Porém há uma parte significativa dos humanos que parece andar com a cabeça e os pés trocados.
- Sim?! Porquê?
- Falam antes de pensar.
- Oh, mas isso...
- Falar antes de pensar: sai ar da boca e produz linguagem antes de ser activado o funcionamento do cérebro.
- Uuu, que horror. Parece a explicação do funcionamento de uma máquina.
- E é isso mesmo. O cérebro ainda está desligado e o sujeito já está a dizer uma quantidade enorme de frases.
- É como querer café antes de ligar a máquina que faz café.
- Exactamente, é isso mesmo, excelência.
- Falar antes de pensar.
- Querer café antes de ligar a máquina que faz café.
- Que síntese.
- Posso dar outro imagem?
- Pode, excelência.
- É como ter os pulmões, a máquina de produção do ar, acima da cabeça.
- Como? Explique lá isso, excelentíssimo.
- Repare, excelência, a linguagem oral não é mais do que ar que sai da boca numa forma mais ou menos organizada... alfabeticamente. Mas é ar.
- Ar, excelência, sem dúvida. Ar. Ar alfabetizado, mas ar.
- Ar, vapor, substâncias em estado gasoso.
- Isso.
- Portanto, excelência, falar antes de pensar é colocar o ar antes do raciocínio e é, no fundo, uma forma mental da fazer o pino.
- Uma forma mental de fazer o pino?
- Exacto. Vossa excelência, pode não fazer o pino fisicamente, mas se fala antes de pensar está a fazer psicologicamente o pino. Está a fazer intelectualmente o pino.
- Ou seja...
- Ou seja, vossa excelência está a pôr a sua cabeça quase ao nível dos pés dos outros.
- Uns centímetros acima do nível dos pés dos outros, mais exactamente.
- Isso mesmo.
- Há quem pense um metro e setenta, um metro e oitenta, acima do nível do solo. E há quem pense apenas uns centímetros acima do chão.
- Há o nível do mar como referência para as altitudes...
- ... E há o nível dos sapatos, como referência para a qualidade de um discurso.
- Abaixo e acima do nível do mar.
- Abaixo e acima do nível dos sapatos.
- Pois. Deixe-me pensar numa personagem...
- Pense, excelência.
- Numa personagem que sobe a uma alta monanha.
- Sim.
- Um enorme esforço para chegar até lá e depois, lá em cima, eis que o sujeito começa a falar e só diz banalidades.
- O corpo está mil metros acima do mar, mas o pensamento apenas dois centímetros acima dos sapatos. É isso, excelência.
- Exactamente.
- Não é uma questão de altitude exterior, mas de altitude interior.
- Um discurso rasteiro, portanto, é isto mesmo: um discurso ao nível dos sapatos do chão.
- Isso.
- Se querer subir o nível do discurso, não vale a pena subires a uma montanha, eis um conselho.
- Sim, não vale a pena um sujeito cansar-se."

Gonçalo M. Tavares, in A Bola

DO BERNARDO


"Eu sei que dizê-lo assim (ainda) pode parecer heresia mas, a cada semana que passa, Bernardo Silva vai-me causando (por outras vias e outros modos) o mesmo encanto que Cristiano Ronaldo á muito me causa - um encanto divino, um irresistível fascínio.
Causa-me esse encanto, esse fascínio, porque o Bernardo nunca joga encalhado em imperfeições, atrofiado e fastidioso. E assim parece sempre capaz de, num drible, num passe ou num remate, transformar uma pedra numa espada para atacar o paraíso - sem se perder por labirintos ou becos sem saída.
Causa-me esse encanto, esse fascínio, porque o joga preso a dúvidas ou a destrambelhos que lhe entortem os pés onde tem a cabeça em flor. E assim, parece sempre capaz de romper, sagaz, com o jogo rotineiro e chato, torto e desleixado, em que a sua equipa possa estar a cair, a arrastar-se.
Causa-me esse encanto, esse fascínio, porque o Bernardo nunca joga com as chuteiras em mendigar de brilhos ou fulgores. E assim parece sempre capaz de resolver complicações em seu redor, usando a bola com esmero, pondo, travesso, os adversários em desalinhos.
Causa-me esse encanto, esse fascínio, porque o Bernardo nunca joga com o corpo em vertigens como um acrobata bêbado a cair do seu trapézio. E assim parece sempre capaz de se distinguir sem nunca se extinga - ou sem nunca perder a tentação de procurar, esperto, a baliza alheia (para a alvejar por si ou, sobretudo, para a dar a alvejar a outro).
Causa-me esse encanto, esse fascínio, porque o Bernardo nunca joga sem deixar de puxar a sua equipa do lugar onde ela estiver para um lugar melhor, usando a bola com destreza (e sem a desprezar) no desbaratar dos muros que se lhe vejam no caminho. E assim parece sempre capaz de, num instante sorrateiro, a afastar (à equipa) de fatalidades ou de desgraças que a ameacem - através dos milagres que se vão soltando, sublimes, desse seu jeito de jogar à Messi, de jogar cada vez melhor à Messi."

António Simões, in A Bola

PRIMEIRAS PÁGINAS