terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

TU ERAS A ESTRELA POR ENTRE OS ASTROS FINGIDOS!


"60 anos? Não acredito! Ninguém acredita! Como é que isso foi acontecer? Logo ao Chalana, que teve sempre um talento tão grande para ser criança!

Quando era pequeno, o meu pai ensinava-me poemas que eu aprendia de cor. Ele dizia que fazia bem à memória. Uma espécie de ginástica. Só muitos anos depois fiquei a saber que fazia bem à vida.
O Chalana é, como costuma dizer o povo, um rapaz para a minha idade. Um dia, entrei no Estádio da Luz numa tarde de domingo e vi-o. E, de repente, surgiu-me nítido de sol o poema de Miguel Torga.
Joga a bola, menino!
Dá pontapés certeiros
Na empanturrada imagem deste mundo
Traça no firmamento órbitas arbitrárias
Nas quais os astros fingidos
Percam a majestade.
Brinca na eterna idade
Que eu já tive e perdi
Quando por imprudência
Saltei o risco branco da inocência
E cresci
Chalana não tinha a imprudência. Por isso não saltou o risco brando. Ficou na inocência até hoje.
Depois comecei a escrever sobre Chalana.
Há tanto para escrever sobre Chalana.
Talvez me repita. Mas, aqui para nós, também o Chalana repetia de vez em quando uma finta. Era como se nos piscas-se o olho. A todos os que ficavam ali, entre o pasmo e a excitação, à espera do que poderia criar a seguir.
Em Manobras de Guerrilha, Bruno Vieira do Amaral escreveu igualmente sobre Chalana. Leiam-no. Há muito tempo que não lia o Chalana a correr. E como corria o Chalana! Vi tantas vezes jogar o Chalana, e assim, de repente, já não me lembrava de como era ler o Chalana a jogar. Há uma frase no meio da luz deste livro que fala da lúcida cicatriz. 'Lúcida Cicatriz!'
Chalana: 'Lúcida Cicatriz'. Podia ser. Podia tão bem ser.
Chalana fez 60 anos?! Não acredito. Ninguém acredita.
Lúcio Cardozo, jornalista brasileiro. No dia em que fez 50 anos, irritou-se: 'Não sei como isto me foi acontecer! Logo a mim, que tenho um talento tão grande para ser criança...'
60 anos? Como é que isso foi acontecer! Logo ao Chalana, que teve sempre um talento tão grande para ser criança!

Havia nele o duende...
Guardo a lembrança do Chalana na parede branca da memória.
Nós, nas bancadas da velha Luz, juntávamo-nos aos milhares, e ele corria livre sem que ninguém lhe pudesse tocar, como um fantasma, ou, melhor, como uma sombra que se desprendesse do corpo, assim à maneira de Peter Pan, o rapazinho que não queria crescer. Ele, rapazinho com barba de homem dos Evangelhos.
Chalana era um poema no lugar em que os outros não passavam de prosa.
'Joga a bola, menino...'
Garcia Lorca nunca viu jogar o Chalana, mas sabia tudo sobre o duente: 'A verdadeira luta é com o duende', dizia.
A verdade, meus amigos, é esta: Chalana podia ser o próprio duende!
Nunca vi outro jogador a dar, como ele, pontapés certeiros num mundo empanturrado de vaidades - ele, que é o jogador menos vaidoso que alguma vez conheci. Fintava a vaidade e fintava a verdade. Digo que fintava a verdade porque era, também, o rei da fantasia. Isto é, fazia fintas impossíveis, assim como quem vai e depois já não vai, a bola colada aos pés como se fosse presa por um elástico, de repente dava a sensação de que fugia ao seu controlo e, logo em seguida, regressava obediente e submissa, como o cachorrinho vadio de Nelson Rodrigues.
Lá no alto, sobre a relva, uma voz dizia, rouca do cansaço do espanto: 'És um deus escondido!'
Deus-Duende.
Leiam o Lorca e percebam como ele viu jogar o Chalana nos labirintos da literatura:
'Com ideia, com som ou com gesto, o Duende gosta das bordas do poço em franca luta com o criador. Anjo e musa escapam com violino ou compasso, e o Duende fere, e na cura dessa ferida, que não se fecha nunca, está o insólito, o investimento da obra de um homem'.
Eu não tenho dúvidas: Chalana e o Duende eram íntimos. Tão íntimos como Chalana e a bola. De uma intimidade excitante, quase sexual. Quem viu jogar Fernando Chalana, guarde-o na parede branca da saudade.
Toda a gente obedecia às suas órbitas arbitrárias: companheiros, adversários, público...
Os olhos fixavam-se na sua dança enlouquecida por espíritos, pelos seus bailados de Duende de Lorca, esse poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica. Nenhum filósofo seria capaz de explicar Fernando Chalana.
Só os poetas! 'Cada degrau que sobe na torre da sua perfeição e às custas da luta que trava com um Duende, não com um anjo, como se diz, nem com a sua musa'.
Quando Chalana joga, mesmo que apenas nas lembranças, deixem falar os poetas! Joga a bola, menino! E ele jogava... Perseguido por opositores fantasmagóricos, incorpóreos - atravessava-os a todos, por dentro e por fora, a bola sempre companheira, enlevada, encantada com a ternura dos seus pés esquerdos e dos seus pés direitos. E ia, ia sempre!
As pessoas levantavam-se dos seus lugares fascinadas pelo ilusionismo da sua passada leve, um tudo-nada acima da Terra, que é o que sucede aos imortais.
Vejo-o ainda. Ele não se repete.
Amigo Fernando: continuarás pela vida fora a ser a estrela por entre os astros fingidos!"

Afonso de Melo, in O Benfica

AVES? A ÁGUIA, A MELHOR


"Foi justa a vitória do Benfica? Claro que foi. No meio de outras aves, a águia foi a que voou mais alto e conseguiu chegar mais além.

No futebol há sempre a possibilidade de surgirem resultados inesperados. Por isso é tão querido dos adeptos espalhados pelos quatro cantos do mundo.
No entanto, não raras vezes acontece lançar previsões com base na avaliação das forças em confronto e que acabam por corresponder à realidade. Foi o que aconteceu ontem à noite na Vila das Aves. 
Sabia-se que a equipa comandada por Augusto Inácio havia recuperado de um período de incertezas para um tempo de estabilidade, que possui jogadores valiosos, que conta com três gajos (como diria Bruno Lage) no ataque capazes de provocar danos a qualquer defesa, que jogava com o apoio de um público indefectível em sua casa.
Mas, não obstante este feixe de dados interessantes, era ousado pensar-se que os avenses tivessem capacidade para provocar uma surpresa a ponto de vergarem os encarnados ao peso de uma derrota. 
No futebol há momentos. E este momento do Benfica permite avançar com a ideia de que o seu grupo está cada vez mais formatado para discutir a questão do título até ao derradeiro pontapé na bola, com os adversários que lhe estão mais próximos na classificação.
E para ainda mais dar corpo à ideia, a equipa lisboeta logrou marcar num dos primeiros lances do jogo. A partir daí, como haveria de reconhecer o próprio treinador de Vila das Aves, a estratégia preparada com tanto cuidado sofreu um rombo de consequências irreparáveis.
Foi justa a vitória do Benfica? Claro que foi. No meio de outras aves, a águia foi a que voou mais alto e conseguiu chegar mais além.
Veremos como se comporta a seguir, sobretudo tendo em conta que a deslocação ao Dragão se aproxima no tempo a passos largos. Pelo meio terá ainda de acertar contas com o Galatasaray e com Desportivo de Chaves, é verdade, mas é para a capital do Norte que começa já a virar-se o foco da Luz.
No pico do inverno, aproximam-se dias que prometem subidas de temperatura."

UM AZAR DO KRALJ


Que mito de Seferovic queremos destruir hoje? O do cepo? Ok. Tomem lá uma subtil chapelada e 18 golos pelo Glorioso (por Um Azar do Kralj)
Calma, que isto não são apenas elogios - são muitos elogios. Vasco Mendonça analisa, um por um, os jogadores do Benfica que bateram o Aves fora de casa, e deixa alguns reparos a Grimaldo e João Félix, avisa Rúben Dias e recupera uma expressão de um professor de Alverca do Ribatejo para definir Rafa: "Se fosse fácil, não era para ele"
VLACHODIMOS
Venceu inapelavelmente o duelo mantido com os jogadores do Aves, que bem remataram à baliza mas nunca pareceram incomodar. Às tantas até pareceu demais, com alguns adeptos do Benfica a pedirem a Vlachodimos que deixasse entrar uma ou duas para não espezinhar o adversário.
ANDRÉ ALMEIDA
Pareceu emocionalmente inseguro. Após um jogo bem conseguido de Corchia em Istambul elogiado por muitos adeptos, André Almeida apresentou-se com uma atitude muito "ai é? então está bem". Regressou ao seu merecedíssimo posto de lateral direito, sacou uma boa exibição a combinar no flanco com o amigalhaço Pizzi para participar muito activamente na construção ofensiva, conseguiu recuperar quase sempre para fechar o seu flanco, e, quando já todos aplaudíamos o seu regresso, certificou-se de que ficaria de fora no jogo seguinte, para nos castigar por termos apreciado o seu suplente.
RÚBEN DIAS
Centralão que se preze tem que cometer uma ou outra falta estúpida de vez em quando, mas o Rúben Dias às vezes exagera. Para roubar um lirismo a alguém que usou esta expressão com uma finalidade completamente diferente, dir-vos-ei que é a festa do futebol. Felizmente, até Hugo Miguel compreendeu isso e perdoou-lhe o segundo amarelo.
FERRO
O jovem central do Benfica tem cara de quem, por enquanto, aceita melhor reparos do que elogios. Os reparos permitem-lhe melhorar. Os elogios - justos - parecem confundir, desviam o seu olhar da bola, levam-no a sorrir em demasia. Talvez estivesse ainda a festejar o seu segundo golo na equipa principal quando subitamente um tipo do Aves fugiu à marcação de Ferro e seguiu na direção da baliza. Um defesa mais experiente teria abordado o lance de outro modo, chegando primeiro à bola ou deixando o avançado do Aves ser contrariado por Vlachodimos. Ferro, ainda a regressar da estratosfera, não deu essa oportunidade ao colega grego e acabou expulso. Felizmente tem aquela cara de aluno obediente de quem vai dar tudo para emendar o erro, até que as agruras da vida de defesa central lhe roubem o sorriso dentro de campo e façam dele o defesa central que promete vir a ser.
GRIMALDO
Não marcou no primeiro minuto, não fez uma única assistência e não acertou nenhum tiraço fora da área. Há semanas que não era assim. Veremos como é que Grimaldo recupera deste momento menos bom. Muita força, Alejandro.
SAMARIS
Do passe teleguiado que assistiu Seferovic para o primeiro golo aos inúmeros lances em que portentosamente liderou a recuperação de bola da equipa, passando pelo lance confuso na área do Benfica que termina com 30% dos adeptos de futebol do país a pedirem penálti por um suposto toque do braço na bola, é de facto inequívoco o magnetismo de Samaris. Neste Benfica de Bruno Lage, não é Samaris quem procura a bola, é esta que o persegue incessantemente em busca de carinho e afecto, de um abrigo, de alguém que a aceite por aquilo que é: um objectivo inanimado que também merece ser amado. Braço na bola? Tenham juízo.
GABRIEL
A cada momento em que o Benfica perde a bola, um novo lado espectáculo recomeça e vemos a equipa assumir uma posição de ataque, neste caso ao homem que tem a bola e aos colegas que, ingenuamente, pensaram que este jogo se jogava assim. Nada disso. Passem para cá a bola, dirá o colectivo benfiquista instantes depois. Gabriel é quem hoje melhor corporiza esta atitude, mas fá-lo com a humildade de quem está disposto a recomeçar as vezes que forem precisas, até ao dia impossível em que o nosso adversário simplesmente desiste e nos entrega a bola. É bonito de ver.
PIZZI
A dança de Pizzi no esquema tático de Bruno Lage, a um só tempo bailarino e coreógrafo, devia cobrar bilhete não na Vila das Aves, mas na Culturgest.
RAFA
Estão aquela nesga de tempo e espaço em que recebeu orientado, tirou um adversário do caminho e rematou ao poste mais distante? Aquele grau acrescido de dificuldade do primeiro ao último gesto técnico? É nessa vertigem que Rafa gosta de viver quando não está ocupado a explorar múltiplas combinações pelo meio, pelas alas, a vir buscar jogo atrás, a correr para recuperar a bola, enfim, já perceberam. Se fosse fácil não seria para ele. Esta frase do professor soa melhor agora.
JOÃO FÉLIX
Um ou outro excesso individualista não lhe farão mal enquanto for capaz de providenciar aos colegas as condições necessárias para fazerem os benfiquistas felizes. Ainda assim, admito que já tenho saudades de um golinho dele. Não, pelo contrário. Estamos a ficar bem habituados.
SEFEROVIC
Mais uma aparição repentina nas costas do adversário, com uma recepção que adianta ligeiramente a bola e nos perguntamos: ok, que mito acerca de Seferovic queremos ver destruído hoje? O do cepo? Ok, então tomem lá está subtil chapelada ao guarda-redes. Mito dizimado, como se ainda não tivesse sido. Próximo.
GEDSON
O seu grande defeito neste momento é não o termos visto estrear-se com Bruno Lage, mas sim com Rui Vitória. Isso faz com que o rapaz pareça um veterano no meio dos outros miúdos e em desvantagem face aos colegas que disputam o centro do terreno. Felizmente o treinador já se apercebeu disso e está aos poucos a inventar um novo lugar para Gedson, a desempenhar o papel que tem cabido a Pizzi. Ninguém vai tirar o lugar ao maestro na liga, mas pelos vistos foi por isso que se inventou a liga Europa. É aproveitar que ainda há muito Gedson para dar.
JONAS
Poucos minutos em campo. Qualquer dia está a engraxar as botas do Seferovic.
ZIVKOVIC
Ironicamente, os seus poucos minutos serviram para ficarmos a saber que Bruno Lage conta com todos, porque o treinador do Benfica fez questão de o dizer. Isto sim é um gajo às direitas. Perdão, um treinador.
Um Azar do Kralj

O 10-0


"No nosso país há polémicas por tudo e por nada. Um fulano qualquer abre a boca num programa de televisão e é logo uma polémica.

A última teve que ver com o 10-0 do Benfica ao Nacional. Gastaram-se horas e horas a debater se a “humilhação do adversário” não se voltaria contra o Benfica. Ou que o Benfica não tinha tido a grandeza de “deixar de bater” no Nacional quando ele já estava no chão. Etc.
Nunca vi polémica mais disparatada. A partir de que resultado os jogadores do Benfica deveriam parar de marcar golos? Aos 5-0? Aos 6-0? Aos 9-0 (para não chegar aos dois dígitos)? Com franqueza! O objectivo do futebol é marcar o maior número possível de golos ao adversário.
E é saudável que uma equipa não tire o pé do acelerador e queira sempre mais. Um dos defeitos do futebol português é uma certa tendência dos jogadores para se acomodarem ao resultado. Marcam um golo e recuam. Marcam dois e acham que já chega. E quando marcam três pensam que o jogo está ganho e não é preciso jogar mais. Já vi equipas estarem a ganhar por 3-0 e acabarem por empatar 3-3.
Ora o Benfica fez exactamente o contrário, mostrando saúde física e saúde mental. Até porque os golos marcados são um dos critérios de desempate no campeonato. Não se pode dizer que sejam totalmente desnecessários.
Permito-me ir mais longe e afirmar: se os jogadores do Benfica chegassem ao 5-0 ou ao 6-0 e deixassem de jogar, com pena do adversário, isso é que seria uma tremenda humilhação ao Nacional. Os jogadores do Nacional teriam razões para se sentirem desrespeitados. Seria como dizer-lhes: “Vocês não têm categoria para competir connosco, portanto não vamos bater em ceguinhos.” E o público teria razões para se sentir defraudado – porque pagou o seu bilhete (ou a sua quota) e quer ver golos, espectáculo, boas jogadas.
Além de que vitórias gordas como esta enchem o ego e dão uma nova confiança às equipas. Para já não falar nos recordes que todos gostam de bater. A verdade é que daqui a dez anos ainda se falará deste 10-0 ao Nacional.
A crítica que se fez ao Benfica deveria ter sido dirigida ao adversário – aos jogadores e treinador do Nacional. Eles é que se mostraram incompetentes, displicentes, pouco briosos. Um treinador, por piores jogadores que tenha, não tem de perder por 10-0 na Luz.
Julgo que Costinha, apesar do seu ar altivo, é um mau treinador. Já o mostrou várias vezes. E depois da humilhação que sofreu deveria ter-se demitido. É para aí que se deveriam voltar os olhos: para a incompetência confrangedora do Nacional, e não para a competência dos jogadores do Benfica. Estes limitaram-se a fazer a sua obrigação."

PRIMEIRAS PÁGINAS


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

DEPRESSA E BEM, SEM PERDER O NORTE...


Jogo tranquilo na Vila das Aves, vitória, FC Porto novamente a 1 ponto: o Benfica de Lage continua sem perder o norte, num jogo em que nem a expulsão de Ferro aos 64’ - e que cinco minutos antes até tinha marcado o 3-0 - beliscou aquilo que é, neste momento, uma equipa altamente confiante, mesmo nas performances menos cintilantes, como a que aconteceu nesta fria noite de segunda-feira.
Depois da aventura do jardim-escola encarnado em Istambul, Bruno Lage voltou a chamar a sua equipa-base para o campeonato, devidamente descansada das obrigações europeias. Tão descansada que só foram precisos 3 minutos para o Benfica se colocar na frente, sem dar tempo sequer para qualquer declaração de intenções do Desp. Aves. Samaris viu Seferovic a isolar-se da linha de defesas do Aves, colocou-lhe a bola e o suíço fez um pouco de magia: toque de peito para receber a bola pelo ar e um pequeno toque para fazer um mini-chapéu a Beunardeau.
Chapeau.
O golo madrugador não teve sequência destruidora, porque 10-0 não acontecem todos os dias, e o Benfica demorou impor o domínio que se esperava. Aos 15 minutos, uma jogada de combinação entre Pizzi e João Félix permitiu um remate perigoso ao miúdo e uma recarga a Seferovic, mas a partir daí os encarnados como que vestiram um papel que, por estes dias, já não é seu: demasiadas bolas longas, alguns passes e transições falhados, ligações que nem sempre saíram.

E foi curiosamente no seu pior período que surgiu o 2-0, mais um golo com finalização individual de fino recorte, mas que nasceu de uma bela jogada coletiva - e isto sim, é mais Benfica de Lage.
Aos 37’, Pizzi foi buscar uma bola à lateral esquerda, deu para Grimaldo e o espanhol passou rapidamente para João Félix. De primeira, Félix colocou na área onde Rafa, com um pequeno e essencial toque, deixou Jorge Fellipe pelo caminho. Seguiu-se um remate em jeito, fora do alcance de Beunardeau. Mais um bonito golo e o Benfica, ainda antes do intervalo e sem encher o olho, praticamente fechava o jogo.
Até porque a resposta do Desp. Aves na 2.ª parte foi ténue e o Benfica quase marcava logo aos 46’, num remate forte de João Félix que Beunardeau afastou para canto.
Nem 10 minutos depois, foi Vítor Costa a cortar no último momento uma bola que Seferovic já se preparava para encostar e aos 59’ surgiria mesmo o golo sentenciador: após um canto, o guarda-redes do Aves saiu mal e Ferro, entre uns quantos ressaltos contra outros quantos jogadores da casa, deu o toquezinho que se impunha para colocar ordem na jogada, num remate esquisito, em balão, mas que ninguém pode acusar de não ter sido eficaz.
Ferro, que leva dois golos em dois jogos seguidos no campeonato, ficou, apesar de tudo, ligado ao momento mais negativo do Benfica neste jogo: cinco minutos após fazer o 3-0, agarrou Derley à entrada da área e foi expulso.
Para este jogo em particular, a expulsão não aqueceu nem arrefeceu: o Benfica já ganhava por 3-0, o Aves não esboçava exatamente uma reação e o jogo estava, aparentemente, controlado. Mas para o futuro, aí sim, poderá fazer mossa: Rúben Dias é neste momento o único central disponível para Bruno Lage, que tem Jardel e Conti lesionados e, agora, Ferro castigado. Mas Lage resolve.
Problemas para pensar durante os próximos dias, porque neste o Benfica fez o que lhe competia. Marcou cedo, não sofreu mesmo nos momentos em que não jogou tão bem e soube matar na altura certa. E isto é a definição de uma equipa que sabe o que quer. Business as usual.

NOVAMENTE O SILVA


Gomes da Silva e as declarações de Bruno de Carvalho: «Até eu tive pena de Jorge Jesus»
Antigo 'vice' do Benfica não esquece contudo o que JJ "fez de mal" no e ao Benfica.
Rui Gomes da Silva dedica esta segunda-feira uma parte do seu artigo semanal no blogue 'Novo Geração Benfica" a Bruno de Carvalho, que sexta-feira apresentou o livro "Sem Filtro – As Histórias dos Bastidores da Minha Presidência". O antigo vice-presidente do Benfica revela que assistiu à entrevista de BdC na TVI e resume: "Até eu tive pena de Jorge Jesus... e ds meus amigos do Sporting".
No que diz respeito ao treinador, Gomes da Silva explica: "Pena de Jorge Jesus, que, merecendo - no meu critério - uma pena pesada por tudo o que fez de mal, no Benfica e, depois, ao Benfica, não mereceria tamanha castigo: o ter de aturar tanta loucura!"
Quanto aos adeptos leoninos refere: "Mais pena, ainda, dos sportinguistas meus amigos, que, nas conversas que tinham comigo, acreditaram tanto na solução como agora se esqueceram de a terem defendido".
Gomes da Silva diz ainda não esquecer nem perdoar os insultos de que foi alvo por parte de Bruno de Carvalho e de Nuno Saraiva, antigo diretor de comunicação do Sporting. "Já agora, ... nem os insultos, ... nem o tetra que ganhámos no tempo desta dupla", finaliza.
Gomes da Silva: «O Seixal jamais será capaz de fornecer todo um plantel»
Antigo dirigente do Benfica lembra que também é preciso "ganhar a Europa"
Rui Gomes da Silva considera esta segunda-feira no blogue 'Novo Geração Benfica' que "Bruno Lage merece todos os elogios" e que os mérito dos bons resultados da equipa da Luz se deve "quase por inteiro" ao treinador.
Gomes da Silva enaltece a "humildade do discurso" de Lage e acrescenta que merece os elogios "por ter mudado o que parecia evidente ser necessário mudar, pela capacidade de arriscar, por saber o que significa 'jogar à Benfica'!".
O antigo vice-presidente do Benfica deixa críticas a Vieira. "Cada vez mais, num processo evolutivo (haveremos de saber se bom ou mau), a estrutura do Benfica é ... unipessoal! Existe - para o bem e para o mal - e reduzida a uma única pessoa".
Gomes da Silva refere-se ainda ao facto de a estrutura do Benfica ter ficado incrédula por Lage apostar em tantos jovens frente ao Galatasaray.
"Sabendo que o actual técnico do Benfica não é louco e presumindo que terá obtido permissão para essa sua intenção de alguém, esse alguém só poderá ter sido o próprio presidente. Que achou por bem, percebemos agora, ... "não dar cavaco" aos outros.Pois se "a estrutura sou eu" ... terá pensado ele ... para quê ouvi-los .. quando sou eu que decido? E, se bem o pensou, melhor o fez!", frisa.
E no âmbito da formação escreve ainda:
"O Seixal - o Caixa Futebol Campus - pode e tem de dar muitos bons jogadores e soluções para a equipa principal ... mas jamais será capaz de fornecer todo um plantel! Há ... haverá, por certo, muitas e boas soluções que nos permitam pensar em consolidar a reconquista da hegemonia do futebol português! Mas, como ficou sempre provado, em todo o lado ... e muito mais com o exemplo gritante dos nossos rivais, só o Seixal não vai chegar para garantir esse domínio e, muito menos, para ganhar na Europa!"

In Record

A CHAMA IMENSA - BTV - 18 FEVEREIRO 2019

                                           

DE ISTAMBUL A GONDOMAR


"Como escreveu o escritor espanhol Francisco Quevedo «o que se aprende na juventude dura a vida inteira»

1. Comecei a escrever este artigo na manhã da passada sexta-feira em Istambul. Olhando para o Bósforo e sentindo a vibrar a cidade que liga a Europa e a Ásia. Na história também é referenciada como Constantinopla e nela encontramos, entre outros, o Obelisco de Teodósio, a Cisterna da Basílica (ou Palácio Subterrâneo) ou a emblemática Mesquita Azul, um dos marcos na história otomana. E foi em Istambul que, na chuvosa e fria noite anterior, o Benfica fez história. Por duas razões. Desde logo pela primeira vitória frente a clubes turcos. Depois, por Bruno Lage ter apresentado o onze inicial mais jovem entre as quarenta equipas que entre terça e quinta-feira participaram nos dezasseis e nos oitavos de final da respectivamente Liga Europa e Liga dos Campeões. E estou certo que com os jogos da próxima semana nestas duas competições europeias - com as outras oito equipas da Liga dos Campeões - continuará a ser o onze mais jovem deste momento das competições europeias. É uma grande notícia para o Benfica e, também, para o futebol português. A média de idades foi de 22,9 anos. E a seguir só Borussia Dortmund, Ajax e Dínamo Kiev. Com a particularidade deste clube ucraniano ter utilizado sete jogadores da sua formação e o Benfica e o Ajax seis. E, no polo contrário, deparamos, no que concerne ao onze inicial o Galatasaray, o Fernerbahçe, o Eintrach de Frankfurt, o Porto e o Inter de Milão com zero jogadores e o PSG, o Tottenham, a Lazio e o Nápoles, entre outros com apenas um jogador da respectiva formação. Constamos que os grandes e mais ricos clubes da Europa compram grandes nomes. Os clubes que, sendo grandes, estão em ligas periféricas se apostaram, em tempos próximos, em formação de qualidade estão a recolher os primeiros frutos de uma aposta consistente e estratégica. E acredito que esta aposta no Seixal e na sua Academia - em que importa salientar e cumprimentar a persistência, diria que por vezes a resiliência, de Luís Filipe Vieira! - permite que o Benfica, este Benfica, sem euforias e com efectivo realismo, possa sonhar, com plena legitimidade, num futuro sustentado e sustentável em termos de futuro próximo quer em termos internos quer em termos europeus. Ao recordar aquela espinha central no jogo da passada quinta-feira - Rúben Dias e Ferro, Florentino e Gedson, mais o João Félix e o Yuri Ribeiro - não deixei de enaltecer a coragem e a ousadia consciente de Bruno Lage - que esteve pouco tempo, mas com uma impressionante dignidade, no Sintrense quando  estive a liderar o Município! - e de sublinhar estes miúdos coragem que não se perturbaram com o ambiente, bem turco, de um Estádio em que cinquenta e dois mil turcos tentaram condicionar a equipa adversária e a espanhola equipa de arbitragem e a quase abafar o apoio e os aplausos de poucas centenas de portugueses(as), e entre eles e elas a simpática e eficiente tripulação da TAP que nos transportou de Lisboa a Istambul. Foi mesmo, em termos de futebol, um grande manjar. Depois de uma longa visita ao singular e único Grande Bazar. Bazar e manjar foram duas notas relevantes nesta visita do surpreendente jovem Benfica a Istambul. Com a esperança que na próxima quinta-feira, com a mesma sabedoria e sem nenhuma euforia, conquistemos, com todo o mérito desportivo, a passagem aos oitavos de final desta Liga Europa. Para já, e com este onze de Istambul, a Europa do futebol fixou, uma vez mais, os olhos no Benfica e, logo, no futebol português. O que implica o reconhecimento deste papel de verdadeiro embaixador do Benfica. Mesmo que tenha recebido, com um efectivo sentido de oportunidade a notícia da interdição do Estádio da Luz por quatro jogos na véspera deste jogo em Istambul. O sentido de oportunidade tem de ser entendido com efectiva consideração. E, logo, as cautelas que surgem e são solicitadas e, também, as calmas sugestões de alguns intervenientes que evidenciam uma estratégia de não confronto que só alguns distraídos não percebem ou porventura, não querem entender! Mas o essencial é que, amanhã, o Benfica, com o colinho dos seus milhares de adeptos, ultrapasse o Aves - agora liderado pelo sagaz Augusto Inácio - e continue a motivar toda a sua imensa massa associativa. Sabendo todos nós que a combinação entre a juventude e a sabedoria dos mais velhos - ou diria menos jovens! -  é mais do que meio caminho andado para ambicionada reconquista. Mas como escreveu o escritor espanhol Francisco Quevedo «o que se aprende na juventude dura a vida inteira». E este jogo de Istambul para estes jovens jogadores vai durar a vida inteira! Como a acrescento para nós! Do Bazar ao manjar no Estádio!

2. Gostaria de fazer uma anotação ao acórdão de 12 de Fevereiro de 2019 proferido pelo Pleno da Secção Profissional do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol e que impôs a sanção disciplinar de interdição do Estádio da Luz por quatro jogos e a sanção pecuniária de 28888 Euros. Sei que uma competente - competente e com grandes capacidades e sagacidade jurídicas - equipa de juristas apresentará uma providência cautelar de suspensão da eficácia de acto e não deixará de suscitar interessantes questões jurídicas, incluindo, digo-o, questões de não conformidade constitucional de normas - por exemplo do artigo 24.º - da Lei 39/2009 na redacção que lhe foi dada pela Lei 52/2013 de 25 de Julho. Fica prometida para um próximo artigo com a certeza que haverá tempo para descortinar da bondade dos argumentos que constam de um longo acórdão e de algumas pertinentes questões jurídicas nele ou abordadas ou outras, decerto por opção, não afloradas ou, até, suscitadas. Mas como escreveu George Sand «a recordação é o perfume da alma»! E nós no que concerne a recordações, incluindo jurídicas, já temos algumas... Que cada vez podem ficar mais tempo escondidas!

3. Duas notas finais. A primeira para sublinhar a goleada do Nacional ao Feirense. Não gostei nada, mesmo nada, de insinuações suscitadas a respeito do profissionalismo dos jogadores do Nacional. Cada um de nós já teve dias infelizes. Muito infelizes. Diria, assim, e acompanhando o grande Virgílio Ferreira que importa, por vezes, fecha «os olhos para não seres cego». A segunda para sublinhar a final d Europeu de futsal feminino que decorrerá no final do dia de hoje no esgotado e atractivo Pavilhão Multiusos de Gondomar. Tal como há quase um ano - foi a 10 de Fevereiro de 2018 - poderemos conquistar este Europeu. Voltamos a defrontar a Espanha e seria mais um grande momento da nossa Federação, do seu Presidente e de uma estrutura competente e eficiente. E um momento histórico para um grupo de jovens jogadores - como Janice Silva e Inês Fernandes, Ana Catarina e Pisko, Carla Vanessa e Jenny, entre outras e entre elas, e com os seus risonhos 18 anos, a benfiquista Filó! Também, aqui, se sente que «a mocidade é temerária». Mas há certa qualidade e há muito talento. E também intensa vontade e verdadeira fé. E «onde há vontade forte não pode haver grandes dificuldades»."

Fernando Seara, in A Bola 

OS BONS "FEELINGS" DE BRUNO LAGE


"A titularidade de Florentino em Istambul é a prova mais evidente de que Lage não aposta nos miúdos apenas por necessidade.

Terá Bruno Lage arriscado demasiado em Istambul? Talvez. Aliás, terão sido poucos os benfiquistas que não torceram, duplamente, o nariz nos dias que antecederam o jogo com o Galatasaray. Primeiro quando perceberam que Grimaldo, Pizzi e Jonas - curiosamente ou não (porque pode até servir para perceber um pouco melhor como mudou o Benfica e, também, o estado de espírito dos adeptos encarnados, nos últimos tempos) até mais pelos dois primeiros... - ficariam em Lisboa por preferir o treinador gerir a sua condição física para as batalhas que se avizinham; depois quando, conhecido o onze, voltaram a ouvir falar de Corchia (que até quinta-feira passada parecia não servir, sequer, para um jogo da Taça de Portugal contra uma equipa do Campeonato de Portugal) ou perceberam que a conversa da formação é, com Bruno Lage, muito mais do que uma fábula: Florentino a titular, prova mais evidente de que o novo treinador não aposta nos miúdos apenas por necessidade (Ferro entrou após lesão de Jardel) ou porque são tão talentosos que se torna difícil perceber como outros não o tinham visto antes (João Félix, pois claro). Se a isso juntarmos a titularidade de Yuri Ribeiro, Salvio, Gedson e Cervi - menos surpreendentes face aos nomes que tinham ficado fora da convocatória - a resposta é evidente: demasiado ou não, arriscou muito Bruno Lage, é um facto. Ou, pelo menos,, arriscou mais do que seria esperado por quem está de fora e tem, goste-se ou não, direito a opinião sobre estas questões do futebol em todos somos experts.
A verdade, contudo, é que ninguém sabe mais de uma equipa do que aqueles que com ela trabalham. Por muito que, por vezes, se torne difícil admiti-lo. Bruno Lage, e a sua equipa, teriam por certo em seu poder dados que os aconselharam a dar descanso a Pizzi ou a Grimaldo. E conhecerão melhor do que ninguém, de certeza, aquilo que valem Corchia ou Yuri Ribeiro, por muito que para quem foi vendo os poucos jogos em que tiveram oportunidade de se mostrar lhe custe a admitir haver ali valor algum. Ou o que pode fazer, por exemplo, um jogador como Florentino, que a maioria de nós tinha podido observar apenas em contexto competitivo bem menos exigente - na equipa B ou nuns minutos de uma partida fácil frente ao Nacional. Há, por isso, uma possibilidade que talvez nos tenha passado despercebida: que Bruno Lage tenha estudado ao pormenor este Galatasaray - ficámos a saber, no excelente trabalho do Rui Miguel Melo sobre o percurso do treinador do Benfica que A Bola ontem publicou, que era essa uma das suas funções quando com Carlos Carvalhal trabalhou em Inglaterra - e, juntado-lhe o conhecimento cada vez mais profundo do plantel que tem nas mãos, tenha percebido que aquele onze, que seguramente não nasceu de geração espontânea, chegaria para trazer para Lisboa resultado suficiente para permitir à equipa discutir a passagem aos oitavos da Liga Europa.
Essa é, aliás, a única hipótese que faz sentido, por duas razões. Primeiro, porque nunca Bruno Lage colocou no seu discurso em tom menos ambicioso. Pelo contrário, fugiu ao chavão, tantas e tantas vezes repetido por outros treinadores cá do burgo, de que o importante é o campeonato e garantiu ma equipa (e já sabia, de certeza, que seria aquela a equipa...) preparada para ganhar em Istambul. Segundo, porque me parece inconcebível que um treinador de um clube com o historial europeu do Benfica pudesse desprezar de forma tão evidente uma competição como a Liga Europa escolhendo um onze que não lhe desse garantias de relativo sucesso.
Arriscou Bruno Lage? Claro que sim. Mais do que seria expectável, isso é certo. Demasiado? O resultado diz que não. Não só conseguiu a primeira vitória do Benfica em solo turco, abrindo as portas da passagem aos oitavos de final, como ganhou, em jogadores que pareciam até agora proscritos, mais opções para o que falta jogar esta época. Detalhe que não deve, nem pode, ser desprezado. E embora nada disto faça de Bruno Lage um génio - tem ainda muito para ganhar para atingir esse estatuto -, diz muito sobre as suas ideias, até agora perfeitamente alinhadas com aquele que parece ser o projecto de Vieira. E com muitas (algumas históricas) vitórias à mistura. O que só pode ser um excelente sinal.

Em maré baixa está Marcel Keizer. Depois de um início entusiasmante, o holandês parece incapaz de retirar a equipa de uma espiral negativa que ameaça deixá-la fora das decisões em fase demasiado prematura da época. É difícil, até, encontrar uma explicação plausível para o que se passa no Sporting. Sendo verdade que ninguém esperaria milagres depois do que aconteceu no final da época passada e no início desta, é hora de alguém em Alvalade olhar para o futuro e deixar de usar o passado, mesmo que recente, como desculpa para o insucesso. O caminho é para a frente. Convém, por isso, que Varandas e a sua equipa percebam, primeiro, que rumo querem dar ao leão. Ou se o Sporting está, de facto, em condições de lutar de igual para igual com os seus rivais. E, depois, assumi-lo. Seja Keizer ou não a solução. Não convém é exigir-lhe mais e, logo a seguir, tirar-lhe Nani, um dos poucos jogadores acima da média no plantel, para poupar quatro milhões em ano e meio..."

Ricardo Quaresma, in A Bola