sábado, 4 de abril de 2026

O FUTEBOL PORTUGUÈS E O CHEIRO A LIXÍVIA PELA MANHÃ

 


O futebol português é a cena de Apocalipse Now revisitada todos os dias, sem um final feliz. O que teremos feito nós para merecer tão infernal castigo? E estes dirigentes?

Não sou o primeiro nem esta é a primeira vez que eu próprio uso a expressão de um dos melhores filmes de sempre e a devastidão que retrata para falar do calamitoso e comatoso futebol português. Quando Robert Duvall, na pele do Tenente-Coronel Bill Kilgore em Apocalipse Now atira, diante de um mar de destruição, aquele Adoro o cheiro a Napalm pela manhã, inala o perfume único da vitória a todo o custo, depois de mais uma colina carregada de Charlies ter sido bombardeada durante a noite e antes de avançar para a próxima.
Ele ainda não sabe que aquela sempre foi uma guerra perdida, nunca a irá ganhar, da mesma forma que os restantes tenentes-coroneis do futebol deste lado da barricada não se aperceberam que perderam a batalha antes sequer de darem o primeiro tiro, espero eu, em sentido figurado.
Porque, ao contrário dos norte-americanos, que voltaram a casa destruídos por dentro, mas apenas viveram novos combates nas próprias cabeças, os nossos, e nós com eles, terão de tentar sobreviver na mesma colina queimada, deixada infértil por décadas sem fim. Na verdade, iremos reviver essa cena todos os dias na Liga, como se fosse o nosso castigo no inferno. Basta Villas-Boas lançar as habituais rajadas em todas as direções. Quer ser o melhor filho adotivo que o pai que o renegou poderia ter e honrar um passado com glória, mas nem sempre com métodos honrados, como nos lembra a história, para provar valor a pouco mais do que uma memória.
O futebol português, esse produto que queremos vender lá fora para respirar melhor cá dentro, é uma colina queimada. Com napalm. Ou lixívia, se o estendermos a outras modalidades. O que se tem passado é uma vergonha. Regressámos aos anos 80, com altifalantes do novo milénio. Desrespeita-se a grandeza do clube que se representa. Não percebo. Onde se escondeu o bom-senso?
Varandas, já se percebeu, não gosta de deixar ninguém a jogar sozinho e, com ele em campo, o ruído não deixa ouvir mais nada. A não ser talvez, teclas furiosamente marteladas poucos metros a sul. E, talvez, Rui Costa a ligar a mandar disparar tweets e comunicados enquanto se distraem com o cogumelo nuclear e assim retirar daí algum ganho. É esta a liderança dos grandes. E para muitos deveriam ser os grandes, caso conseguissem caminhar juntos e a direito, a liderar os outros.
Nasci poucos meses antes do 25 de abril, fui embalado enquanto se trauteavam hinos da Revolução. Mas ao futebol esta nunca chegou. A guerra é eterna.
Luís Mateus, in a Bola

COMBINADOS

BENFICA-IMPRENSA 4 Abril GLORIOSO TENTA RECUPERAR ACTIVOS EM DIA DE NOVA VERGONHA ARBITRAL NA LIGA!🦅

                

ERIK LIRA, FABIO BALDÉ E NKOTA APONTADOS AO BENFICA: RUMORES POUCO FALADOS!

                 

🦅 O MELHOR PLANTEL DE SEMPRE NA HISTÓRIA DO BENFICA! 🦅

                

‘TOO FAR!’ 😬 Are Chelsea right to drop Enzo Fernandez & leave Cucurella unpunished? | ESPN FC

                

O QUE TÊM BEETHOVEN E SCHJELDERUP EM COMUM?



 Faz hoje 226 anos que a 1.ª Sinfonia se estreava em Viena. Foi arrasada pela crítica. Só que o verdadeiro poder está do lado de quem escolhe em quem acreditar: nos críticos ou em si mesmo?

A 2 de abril de 1800 — passam hoje 226 anos — Beethoven subia ao palco, em Viena, para estrear a 1.ª Sinfonia. O palco do Burgtheater. E, desde já esclareço, para evitar confusões, não era um restaurante de hambúrgueres... Certo é que a crítica arrasou a obra: demasiado inovadora, disseram, uma piada em jeito de desrespeito perante a ordem clássica das sinfonias. Beethoven, felizmente, não lhes deu ouvidos. E ainda bem. Se o tivesse feito, talvez hoje não existissem mais oito sinfonias, nem aquele momento absoluto que é o Hino à Alegria — escrito já quando o silêncio era, para ele, total.
O escritor norte-americano Elbert Hubbard (1856–1915) dava até um conselho: «Se não queres críticas, não faças nada, não digas nada e não sejas nada». Seria, acrescento eu, a mais deprimente das conceções existenciais: viver a vida de forma a que caiba numa lápide a assinalar a data de nascimento e de morte, num vazio de nada pelo meio.
Já Mark Twain (1835–1910), o autor de As Aventuras de Tom Sawyer, aconselhava a nunca darmos explicações a quem nos critica de forma mais dura e injusta. Quem gosta de nós não precisa dessas explicações; quem não gosta nunca vai mudar de opinião e apenas procura arsenal para novas críticas.
Na última terça-feira, falava com uma jovem a entrar no mercado de trabalho e a viver numa fase em que duvida se tem o que é preciso para vencer. Disse-lhe que a questão primeira não é saber se tem ou não o que é preciso; é saber se tem ou não a paixão e o prazer pelo que quer fazer. A segunda é entender que só vai onde quer se for a melhor versão dela mesma. A autenticidade pode até gerar antipatias, mas também muitas simpatias e apoios, e são estes que nos vão ajudar a seguir em frente. Terceiro conselho: nunca ficar afetado com uma crítica. Se é justa, aprendemos e agradecemos; se não é justa, vai para a pasta de spam… O que nunca pode acontecer — e acontece sempre — é esta reação tão humana de, ao fim de um dia com nove pessoas a elogiar-nos e apenas uma a criticar, ser essa a condicionar a qualidade do nosso sono.
Não sei o que Schjelderup pensou da vida há poucos meses, quando ouvia o próprio José Mourinho criticar a forma como jogava, como não defendia. Com janeiro à porta… a porta de saída estava escancarada. Três meses depois, é a imprensa catalã a falar de uma possível investida do Barcelona.
Schjelderup ouviu críticas justas e injustas. Saber a diferença entre ambas é um exercício que pode ser muito difícil. Seguir em frente é essencial. O tempo tem destas coisas e Schjelderup é apenas um entre tantos e tantos exemplos: não somos necessariamente como nos definem; não somos obrigados a cumprir um destino que outros traçaram para nós; em cada segundo há sempre uma segunda oportunidade para uma 1.ª Sinfonia. E restantes que queiramos compor.
Entre dedos que ficam e anéis que podem ou não ir, que fique o sorriso de quem faz o que faz por paixão e procura, na sua consciência — e não na validação externa —, a avaliação que faz sobre a vida. Não devemos temer o julgamento externo, só o julgamento feito no silêncio de nós mesmos.
Jorge Pessoa e Silva, in a Bola

A PROPÓSITO DE SPORTING E FC PORTO... "GUERRA É GUERRA"



 "Quem leu no comunicado publicado no sábado que o FC Porto é uma instituição com «um percurso e uma reputação amplamente reconhecidos» nem sabe bem o que pensar


O que se passou, sábado, antes do jogo de andebol entre FC Porto e Sporting fez-me recuar quase 16 anos, ao Algarve, onde encontrei Sven-Goran Eriksson, de bem com a vida, com o lastro de um percurso riquíssimo como treinador e gentleman. Conduziu os leitores de A BOLA pela carreira dele, especialmente pelas duas passagens pelo Benfica, que guardava no coração, e passou pelo balneário nauseabundo das Antas que recebeu os encarnados, em 1991.
Antes do jogo que o Benfica venceu por 2-0, com dois golos de César Brito, o treinador sueco contou que confrontou o presidente do FC Porto apenas com um desabafo. «Hey», soltou, ao mesmo tempo que, com as palmas das mãos para cima, abriu os braços. Disse Eriksson que ouviu: ‘Guerra é guerra.’ Estava tudo dito, não estava?
Não sei se por haver guerras que nos devem preocupar seguramente mais — agora que nos toca no bolso, depois de quase todos ignorarmos sem pingo de sensibilidade atrocidades sem fim à vista — poucas reações houve, até ontem, ao que se passou no Porto. Salvo honrosas exceções, claro. Haverá, entretanto, mais, mas tudo passará.
Para quem está habituado a que tudo se desvalorize, o que se passou no Porto no sábado terá, enfim, sido mais um episódio triste que o contexto da rivalidade servirá para diminuir. Podemos recordar os mais recentes — o árbitro Fábio Veríssimo denunciou que a televisão do balneário do Dragão passou, ao intervalo do jogo com o SC Braga, repetidamente, golo anulado ao FC Porto, além de um lance dele no torneio da Pontinha; ou as bolas escondidas por apanha-bolas no fim do clássico de fevereiro, para não falar das toalhas de Rui Silva.
Sobre o que se passou com o árbitro Fábio Veríssimo, para os mais desatentos, o FC Porto foi condenado pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol a pagar multa de 12.500 euros. Cada um tire as conclusões que quiser sobre o castigo. Mas alguém poderá arriscar que a piada se faz sozinha.
Para quem chegou até aqui, sabe que se fala das acusações do Sporting sobre o odor intoxicante no balneário que lhe estava atribuído no pavilhão do Porto, confirmado pela delegada ao jogo, Rosa Pontes, em declarações a A BOLA, e que obrigou os leões a equipar-se no corredor. O treinador do Sporting, Ricardo Costa, e o pivô Christian Moga precisaram de assistência médica. A delegada contou que o cheiro intenso lhe provocou «ardor e olhos vermelhos». O FC Porto, em comunicado, desmentiu «de forma absoluta, clara e inequívoca os relatos tornados públicos».
Já aqui tinha chegado quando tomei conhecimento de que o Ministério Público abriu um processo-crime para averiguação ao que se passou no pavilhão do FC Porto. Para todos os envolvidos, só pode ser boa notícia. Que se aproveite a oportunidade para que, desta vez, tudo fique bem claro, que se torne público o que aconteceu e que se aplique a lei, se for o caso, com força e sem olhar a quem. Já uma vez aqui escrevi que a transparência é o melhor desinfectante, embora alguns casos exijam produtos mais agressivos.
Escrevo sem saber o desfecho do que se passou nas audiências, ontem, entre a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, e os presidentes de Sporting e FC Porto. Não alimento expectativas positivas sobre resultados que esse encontro possam produzir, embora considere importante o passo, por ser o primeiro, que Frederico Varandas tomou.
Sobre o FC Porto, continuaremos à espera que a mudança prometida pelo novo presidente não tenha sido apenas um aroma de perfume fino que disfarçou por pouco tempo um odor insuportável. Quem leu no comunicado publicado no sábado que o FC Porto é uma instituição com «um percurso e uma reputação amplamente reconhecidos» nem sabe bem o que pensar."

Nuno Paralvas, in a Bola