quarta-feira, 25 de maio de 2022

CASHBALL...

 


PARABÉNS A TODOS!



 "Trinta e seis árbitros, sessenta e nove assistentes e vinte e quatro videoárbitros. No total, são 129 profissionais do apito e, pela primeira vez desde 2006, nenhum deles é português. A decisão da FIFA de excluir todos os árbitros portugueses do próximo Mundial de futebol confirma aquilo que qualquer espectador um pouco mais atento da Liga Bwin já suspeitava: a nossa arbitragem está profundamente doente.

Como é que aqui chegámos? Não é difícil identificar os culpados desta situação. São aqueles que gritam e esperneiam, que ameaçam e coagem, que tanto apregoam valores, mas que só se evidenciam pela sua falta de carácter. Mas são também todas as instituições que alternam entre a conivência e a cumplicidade, contribuindo para este desfecho que, quanto a mim, era previsível.
Aquilo que se passa neste momento no futebol português é demasiado grave para ser ignorado. È um campeonato inclinado, reduzido à sua insignificância entre VARs que mereciam um galardão em Hollywood devido ao seu talento para encontrar o frame certo e mais conveniente. Quando acontece uma vez, isso pode ser desculpado por simples incompetência. Agora quando acontece repetidamente, então só podemos suspeitar que seja algo bastante pior.
O Benfica não pode continuar a ser conivente com este triste espetáculo. Não pode estar disponível para negociar com quem tudo faz para prejudicá-lo. Não pode continuar a carregar às costas uma Liga que o procura humilhar. Até termos a garantia que serão nomeados árbitros estrangeiros para os jogos mais importantes da Liga Bwin, o Benfica não pode ter qualquer tipo de abertura a entendimentos com quem perpetua a podridão vigente no futebol nacional. Só uma rutura completa com as amarras que subjugam o nosso campeonato é que nos permitirá sair deste marasmo profundo.
Até lá, resta-nos comemorar esta distinção da FIFA que talvez sirva para os abrir os olhos aos mais incautos. Parabéns, senhor Fontelas Gomes pela sua década de trabalho na arbitragem portuguesa. Parabéns àqueles que há 40 anos criam um clima de medo de ódio e intimidação. Parabéns a todos aqueles que optam por fazer vista grossa, aceitando o sistemático enviesamento da verdade desportiva. Esta vitória é vossa!"

JORNALECOS A TENTAREM VENDER CACA À CUSTA DO BENFICA, TIRANDO O JORNAL DO PUTEDO QUE VIVE UMA REALIDADE ALTERNATIVA. ALTERNAM...


 

CASHBALL: A BOLA QUE ROLAVA NOS JOGOS DO SPORTING

 


"Quando surgiu o processo Cashball, poucos tiveram dúvidas de que estávamos perante um novo escândalo de corrupção desportiva, desta vez em tons de verde. Para quem acompanhava as modalidades e testemunhava os sucessivos benefícios de arbitragem ao Sporting, ainda hoje tão presentes, as provas tornadas públicas eram irrefutáveis. Tão cristalinas como as do Apito Dourado.
Foi, por isso, com profunda estranheza que, em 2019, vimos o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Andebol proferir o despacho de arquivamento do processo de inquérito. A decisão, rememoramos, foi tomada sem nunca se ter ouvido oficialmente os clubes prejudicados e fundamentada com a «ausência de indícios suficientes para determinar o prosseguimento do processo». No entanto, o CD da FPA deixou ressalva quanto à possibilidade de «reabertura do processo de inquérito, caso surjam ou se possa vir a aceder a novos meios de prova».
Ora, com o caso a seguir agora para julgamento, a não reabertura do processo de inquérito seria incompreensível, até porque há uma norma no Código de Processo Penal que obriga ou legitima o MP e qualquer juiz a dar a prova para efeitos de processo disciplinar desportivo. E matéria de facto para ser reapreciada não falta ao Conselho de Disciplina.
De acordo com o despacho do Tribunal de Instrução Criminal do Porto, em 2017, os empresários Paulo Silva e João Gonçalves, a mando de Gonçalo Rodrigues, ex-funcionário do clube leonino, tentaram subornar dois árbitros de andebol e um futebolista do Desportivo de Chaves. No acórdão é possível ler que Paulo Silva se dirigiu ao hotel Aquae Flaviae, onde o Desportivo de Chaves se encontrava a estagiar, para que o defesa-central Leandro Freire permitisse que Bas Dost «desenvolvesse livremente as suas jogadas, sem oposição», com a promessa de lhe serem pagos 25 mil euros (12.500 por cada jogo). Quanto ao Sporting, nunca chegou a ser pronunciado na acusação, assim como o ex-diretor-geral de futebol do Clube, André Geraldes, que foi ilibado das acusações de corrupção ativa. Algo insólito, incompreensível e escandalosamente inadmissível.
Vejamos: temos acusações de corrupção ativa, mas não há ninguém acusado de corrupção passiva. Corrompeu-se ou tentou-se (que configura igualmente um crime) corromper ativamente para beneficiar quem? Quando se tenta corromper é, naturalmente, para beneficiar alguém. Mas quem? Os empresários desportivos que estão agora acusados? Foi para beneficiar o ex-funcionário do Sporting, que na altura dos factos trabalhava no gabinete de apoio aos jogadores? Não nos parece.
Era, como é óbvio, para beneficiar o Sporting, mas o Sporting nunca foi constituído arguido neste processo. Mais um lamentável episódio do menino protegido da turma.
Querem-nos fazer crer que o processo Cashball nada tem a ver com o Sporting. Dois anónimos e um dirigente do clube eclético e moralmente superior de Alvalade compravam tudo o que mexia no andebol, no hóquei e no futebol, porém, sem ninguém do clube ou da SAD saberem. Com certeza com dinheiro herdado de umas tias, e sempre em exorbitância de funções. Já o Paulo Pereira Cristóvão, no caso Cardinal, exorbitava tanto que quase saiu da Via Láctea. O dinheiro perdoado pela banca também exorbitou dos bolsos dos portugueses, mas ninguém se insurge. Não se passa nada.
Perdeu-se totalmente a vergonha. Seja por corrupção, medo, clubismo - com as pessoas escolhidas a dedo - ou um pouco por tudo isso, já toda a gente sabe e, de certa forma, aceita silenciosamente que o futebol português é mais martelado que a WWE. Não há muito tempo até ouvimos o Frederico Varandas, presidente do Sporting, contar com desfaçatez: «Tenho na minha lista dois juízes-conselheiros do Supremo, um procurador da República, um juiz-desembargador. Acha que estas pessoas não vão fazer braço-de-ferro na justiça pelo Sporting?»
É isto a suspeição zero? É nesta justiça que querem que acreditemos? Na justiça dos amigos que fazem braço-de-ferro por certos interesses?
A comunicação social também é cúmplice deste logro. Durante meses entretiveram-se a reciclar pseudonotícias baseadas em alegadas “fontes” sobre processos que envolviam o Benfica, mas, aparentemente, não conseguem (ou não lhes interessa) ter acesso às fontes de processos que envolvem outros clubes. A tentativa de branqueamento é notória. Os ilustres comentadores da nossa praça que discutiam os processos dos emails e e-toupeira cheios de certezas, sobre o Cashball revelam-se mais ponderados. Ontem até ouvimos o Nuno Saraiva, que era diretor de comunicação do Sporting à data dos factos, dizer - sem rir - que, em abstrato, não faz sentido que Paulo Gonçalves, assessor jurídico, montasse o caso e-toupeira sem que a direção do Benfica soubesse. No entanto, Gonçalo Rodrigues, um funcionário do gabinete de apoio aos jogadores do Sporting, já montava, no caso Cashball, um esquema de corrupção no andebol e no futebol sem que a direção de Bruno de Carvalho soubesse de nada. A distinta lata seria genial, se não fosse também miserável.
Chegou o momento de dizermos basta. Basta desta pouca-vergonha. O Cashball é o maior escândalo do futebol português deste o Apito Dourado. Que tenhamos a capacidade de aprender com o passado a não cometer os mesmos erros no presente. É imprescindível recuperar a credibilidade das instituições do futebol e da justiça e erradicar a cultura do facilitismo, do compadrio e da incompetência que durante largos anos permitiu que a verdade desportiva do nosso futebol fosse adulterada, bloqueando o seu desenvolvimento. Basta!
Nós continuaremos a fazer a nossa parte para assegurar que a verdade desportiva regressa ao futebol português."

terça-feira, 24 de maio de 2022

FÉRIAS DOURADAS !!!

 


"Cumpre castigo nas férias, assim como Sérgio Conceição, e ainda goza com a cara de todos. É esta (in)justiça cobarde e subserviente que temos. E no inverno lá estará ele, à frente da claque ilegal da seleção, no Qatar. É Portugal a acontecer.
𝗔𝗦𝗦𝗜𝗡𝗘𝗠 𝗣𝗔𝗥𝗔 𝗔𝗖𝗔𝗕𝗔𝗥𝗠𝗢𝗦 𝗖𝗢𝗠 𝗜𝗦𝗧𝗢:
𝗨𝗡𝗜𝗗𝗢𝗦 𝗙𝗔𝗥𝗘𝗠𝗢𝗦 𝗔 𝗗𝗜𝗙𝗘𝗥𝗘𝗡𝗖̧𝗔!
TOCA A PARTILHAR!"

CADOMBLÉ DO VATA

 


"Síndrome da azeitona - narrativa a que o bêbado recorre quando se passa uma noite agarrado à sanita depois de beber um garrafão de tinto rosqueiro… “isto foi a azeitona que comi que me caiu mal”.
Exemplo aplicado ao futebol - depois de uma temporada pejada de erros de arbitragem, nenhum árbitro português foi nomeado para o Mundial do Qatar… “isto de certeza que a FIFA não gostou de ver os adeptos portugueses a criticarem tanto”, dizem os responsáveis do futebol lusitano.
Não se pode negar à partida que uma azeitona em cima de um garrafão de tinto rosqueiro não faz bem nenhum à saúde. Mas indesmentivelmente, a razão da má disposição não é essa. Da mesma forma, o escarcéu semanal por causa do trabalho dos Associados da APAF não ajuda ninguém, mas vamos dizer que a principal razão dos senhores do apito irem ver os jogos do Campeonato do Mundo não é a falta de qualidade deles, que salta aos olhos a um cego e respectivo cão guia?
A arbitragem portuguesa tem um problema sério e não é corrupção. É total falta de qualidade. Há só 1 árbitro com nível internacional de Elite Artur Soares Dias, que devido à arrogância de se achar acima do VAR e ao facto de nunca ter recuperado dos condicionalismos provocados pela invasão do Centro de Estágio de Árbitros, tornou-se num juiz ao nível do Gustavo Correia. É esta a altura em que o leitor pergunta “mas quem é o Gustavo Correia”?. E eu respondo “é um dos árbitros internacionais portugueses”. Tal como Vitor Ferreira e Miguel Nogueira. “Quem?”… Exacto. Um deles foi substituir um tal de Iancu Vasilica que deixou de ser internacional, porque desceu de categoria, para que se entenda o nível médio do “Portuguese international referee” como se diz lá fora.
Assim sendo, Soares Dias seria o único seleccionavel para ocupar uma das 10 vagas atribuídas a homens da UEFA, porque há 1 vaga para mulheres. Pelo que se vai vendo intra e extra muros, dificilmente não se encontra uma dezena de assobiadores mais competentes do que ele, o que me leva a concluir que o drama generalizado após saltarem para a vitrina as caras dos eleitos, não pode deixar de se considerar estapafúrdia. Portanto mais do que sacar de uma embalagem de azeitonas para justificar o que é limpinho, limpinho, sem necessitar recurso ao VAR, urge encontrar soluções para acabar com a vasta incompetência que grassa por quem apita nos relvados nacionais. E aí sim, dirigentes e adeptos podem fazer um mea culpa por tornarem o trabalho dos antigos homens de preto num inferno.
A falta de qualidade é como o sumo de uma laranja, mesmo que não se veja à partida, está lá toda. Verte-se é por todos os gomos com pelos condicionalismos colocado por semanas inteiras de criticas mais ou menos justificadas. Em Portugal ninguém sabe quem marcou o golo da jornada, mas todos têm na ponta da língua os lances polémicos dos jogos dos grandes. Há 25 anos atrás, se me perguntassem quem eram o Vital, o Wilson e o Sergio Cruz eu dizia logo que eram os esteios defensivos do Gil Vicente. Acácio, Dinis Sandokan e Eliseu? Beira Mar porra. Rufai, Paixão e Jorge Soares? Farense déb. Luis Felipe, Kau e Chimas? Não sabia, fui ver. Mas sei que tiveram um golo validado por 2cm na mesma jornada do SL Benfica - FC Porto.
Facilitava muito se olhassemos mais para o futebol jogado e menos para o apitado. Um bocadinho de rédea solta aos homens poderia ter bons proveitos. Se duvidam, façam uma experiência da próxima vez que forem com o carro à inspeção: quando o inspetor se dirigir pela primeira vez a vocês, digam-lhe bem alto na cara “foda-se, logo me calhou este em sorte. Puta de vida a minha. Vou ter de lhe pagar para ter o carro aprovado?”. Filmem e partilhem aqui se faz favor, para vermos o resultado."

LIGA NEGRA

 


"Caiu o pano sobre mais uma edição do campeonato nacional de futebol. Uma edição negra, que não deixa quaisquer saudades.

Deixa, sim, uma profunda preocupação quanto ao futuro próximo do futebol português - que parece ter andado para trás, rumo aos anos noventa do século passado.
Ao longo da temporada, o Benfica esteve muitas vezes aquém daquilo que deveria render, e tem muito para corrigir na sua equipa. Mas ficou por saber que classificação podia efectivamente ter obtido sem a interferência dos factores externos que, jornada após jornada, condicionaram e subverterem todo o rumo da prova.
Se isto não mudar, de nada adiantará contratar um bom treinador, ou um conjunto de bons jogadores. Mesmo se em campo formos melhores, fora dele continuarão a não nos deixar vencer.
É preciso que estejamos atentos, e que denunciemos, desde o primeiro dia, tudo o que condiciona as arbitragens em Portugal. È preciso obter, e expor, as respostas a várias perguntas: quem observa, quem avalia, quem promove quem, porquê, quando, que passado têm vários intervenientes, quais as suas ligações e interdependências, será que sofreram pressões ou mesmo chantagens, como se chega ao ponto de repetir, semana após semana, erros grosseiros sempre em prejuízo da mesma equipa.
Nos anos noventa não havia VAR. Agora há, mas parece ter-se tornado num instrumento de desresponsabilização generalizada. O trabalho do árbitro em campo é, e sempre foi, muito difícil. Para ser VAR basta saber as regras, ser honesto e ter bom senso, sendo claro que a alguns dos escolhidos para a função faltaram algumas daquelas virtudes."

Luís Fialho, in O Benfica

GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS

 


"Há imagens que nos reconciliam com o jogo, como as do adeus de Di María a Paris, futebolista singular que se afirmou no plural de uma equipa, génio e gregário ao mesmo tempo e sem paradoxo, quando perdeu velocidade ainda ganhou qualidade, percebeu que o jogo tem outros ritmos que não só o da vertigem, interrogo-me se faz sentido que o PSG o deixe partir já, mais ainda quando os colegas lhe reservam aquela guarda de honra no adeus, é porque gostam dele, de certeza, e o respeitam, homem e jogador, a aplaudi-lo e a abraçá-lo, como doutores de praxe, três dos poucos que a escala de génio permite colocar ainda acima de Angelito, Messi, Neymar, Mbappé, todos ali, dizendo-lhe como foi grande, entre afagos e sorrisos, ele de olhos humedecidos, a mulher na bancada em lágrimas, o futuro ainda lhe há de ter mais alegrias guardadas mas o que está feito é maravilhoso e acredito que só tem um adeus assim quem o merece, jogador e homem.
Também Guardiola deixou perceber lágrimas raras, abraçado a Lillo, velho guru que puxou para junto de si quando as convicções vacilavam, dois anos juntos e mais dois títulos de campeão, quatro em seis anos lá em Inglaterra, onde é mais difícil ganhar, porque, melhores ou piores, há sempre Chelsea, Arsenal, United, Tottenham (já agora, que recuperação notável num grande trabalho, mais um, de Conte) e acima de todos esses há o Liverpool, o melhor desde que deixamos de ver em campo ao mesmo tempo Dalglish e Rush, aquele par de senhores grisalhos que se mantêm juntos quinzenalmente, agora nas bancadas de Anfield, para aplaudir Salah e Mané, os sucessores, este Liverpool que será sempre o de Klopp, tão histórico o alemão já como Shankly, Pailey ou Fagan, e que duelo o do último domingo, podemos correr todo o planeta e não encontraremos parecido, como hão de passar décadas sem que vejamos outros City e Liverpool como estes, palmo a palmo, ponto a ponto, Pep e Klopp, treinadores para a lenda, ao mesmo tempo homens que fazem bem ao jogo, nas propostas que valorizam o talento técnico e o risco tático, gémeos falsos, equiparados na inteligência, na facilidade de discurso com que distinguem o essencial entre sorrisos e ironia boa, e tanto fair play, do autêntico, daquele que autoriza que o rival também tenha mérito, inveja disso, do melhor futebol do mundo, que é o que tem saído da cabeça de cada um deles e dos pés dos que eles escolhem.
Quero destacar isso, os pés dos que eles escolhem, de dois em particular, Thiago Alcântara e Gundogan, um filho de arte brasileira, exagero bom no apuramento dos genes face ao pai Mazinho, mais o filho de imigrantes turcos nascido em Gelsenkirchen apenas meio ano antes, já apagaram ambos as velas dos 31, que andem por cá mais algum tempo, vê-los jogar é dar razão a Cruijff outra vez: "o futebol é joga-se com a cabeça e as pernas estão lá apenas para ajudar". Sobre Thiago escrevi aqui há menos de um par de anos, quando era menos unânime porque ainda não tinha sido escolhido por Klopp, que não há médio centro que me encante mais, talvez só Modric mereça o cotejo, falavam-me dos médios do Liverpool pela intensidade, pela pressão, pela capacidade nos duelos, desfilavam Fabinho, Henderson, Keita, Milner, pareceu-me sempre que faltava ali classe, deixou de faltar, Klopp foi buscar o homem que antecipa as soluções todas, que vê mais campo apesar de precisar de menos, revejam aquele toque para Mané no primeiro golo aos Wolves, está lá tudo, perceber melhor (o jogo), decidir mais depressa (o que fazer), executar na perfeição (o passe), tudo o que o jogo tem de melhor: inteligência, intuição e arte. E pensar que há um ano apenas tantos me queriam convencer de que Jorginho ou Kanté mereciam a Bola de Ouro. E se perguntasse há dois dias: entre Pogba e Gundogan, quem escolheriam? Interrogo-me,sabendo a resposta da maioria, que decompõe homens em fatias como se não fosse o todo que mais conta, Gundogan não é alto, nem rápido, nem grande driblador ou rematador, e todavia faz tudo bem, sobretudo pensa bem e passa bem, e passa bem na hora mais difícil mais difícil, quando a pulsação acelera e pares de pernas se aglomeram, descobre os atalhos todos, para fazer passar a bola e para passar também ele próprio, invisível para os rivais rumo ao destino da baliza, valorizam-no ao menos por isso, pelos golos, por essa qualidade de juntar frieza e qualidade de execução (o que é ter golo, afinal?), o City só é campeão porque tinha para lançar o homem com nome de medicamento e que evitou a mais dura das ressacas, tome um Gundogan que isso passa, passou a depressão, fez-se a festa, melhor que tê-lo lançado na substituição certa é tê-lo, simplesmente, tê-lo ali, no grupo e pronto a jogar, fazendo das lágrimas sorrisos e destes lágrimas outra vez, mas felizes."

A MECÂNICA DO FRACASSO


"Talvez seja o estádio, juntamente com o do Restelo, aquele que ofereça ao fotógrafo o ângulo mais sugestivo para fixar, em singular harmonia de contrastes, um bilhete postal de rara beleza: a tomada de perspectiva do belo castelo de Leiria a partir de um dos lados do Dr Magalhães Pessoa constitui uma feliz simbiose entre o arrojo da modernidade e a insuperável linha arquitectónica do famoso castelo a que, no imaginário popular, vem associada a errância amorosa do Lavrador, ou Rei Poeta, o grande Rei D. Dinis. Estou em crer que uma paisagem assim jamais escaparia à verve bucólica do poeta Rodrigues Lobo, à sensibilidade fina e marítima do lisboeta apaixonado por S. Pedro de Moel, o poeta Afonso Lopes Vieira, ou à alma arrebatada do poeta leiriense, José Marques da Cruz, falecido em São Paulo.
Não deixa, no entanto, de ser dolorosa e flagrante ironia que justamente esses dois estádios, Leiria e Restelo, sejam agora palcos episódicos de eventos raros e de circunstância, longe dos bailes de gala de outros tempos e de outros campeonatos.
Fixemo-nos no caso da União Desportiva de Leiria, clube fundado em 6 de junho de 1966 com a fusão dos clubes então existentes na cidade, para assinalar a sua meteórica ascensão ao primeiro escalão do futebol nacional, cabendo aqui evocar a ilustre figura de dirigente que foi Joaquim Marques, ele que há tão pouco tempo nos deixou e a quem o clube e a cidade tanto devem.
O clube pagou a inevitável factura da pressa: caiu algumas vezes na segunda, mas com uma particularidade de grandeza - reergueu-se sempre. Até se fixar na aristocracia do futebol doméstico sobretudo pela mão do astuto empresário do Alqueidão da Serra, João Bartolomeu que, ironicamente, nunca foi astuto o bastante para conquistar a adesão das gentes do Lis, apesar do relativo sucesso desportivo (um quinto lugar no campeonato, pelo menos um e uma final da Taça). Depois, bem, foi o que se sabe, com a cisão entre SAD e clube, com este a retomar a via-sacra dos começos. Pelo meio, o triste episódio da Marinha Grande, com a SAD a entrar em campo com 8 atletas.
Aproveitando a embalagem e bom desempenho do clube, logo apareceram os cucos até à actual situação de toda uma cascata de tentativas falhas do almejado regresso aos grandes palcos .
Este caso de consistente reincidência no insucesso por parte da União parece-me que reclama ser tratado à luz (?) da psiquiatria: faz lembrar as tias de Cascais falidas - nada resta que as reinvista da opulência e da glória de antanho.
Este simpático clube parece revolver-se na contradição, e nem a vizinhança de Fátima facilita o tão invocado milagre. Ou seja, no tempo da autocracia bartolomaica, havia equipa mas não havia público, agora, parece haver público, mas não há equipa que chegue para comover a intercessora das bodas de Caná, operando o milagre da multiplicação dos pães, para, assim, saciar a fome popular de sucessos.
Já vai, creio, em cerca de meia dúzia de tentativas geradas de tão ansiado regresso - e, quase sempre, uma queda do último degrau.
Admitindo eventuais erros de pura gestão desportiva, quem não os comete, o âmago do problema é bem fácil de identificar: a memória despótica do fracasso - dramático, porque quase sempre no fim da linha: isso mesmo, morrer custa (ninguém sabe quanto), mas morrer na praia custa muito mais (todos sabemos).
O insucesso repetido na sua tipologia situacional deixa um rasto, um sulco que canaliza uma compulsão homóloga no sentido da confirmação manifestativa daquilo que teimosamente nos fustiga a imaginação.
E mesmo que os actores sejam outros, tende a prevalecer esse “campo mórfico “. Que veicula a impressividade assediante da memória colectiva.
Meus amigos, para se ter sucesso não basta contratar bons jogadores e um bom treinador.
Contratem um bom coach ou um bom psicólogo e o milagre do sol talvez aconteça na próxima temporada.
Sem despiste das más memórias não haverá odres novos para o bom vinho!"

José Antunes de Sousa, in A Bola