segunda-feira, 6 de julho de 2020

POUPANÇAS!!!

                                 

"Desejamos ao Petit um grande convívio na festa de celebração do campeonato na casa do Sérgio Coação no final de Julho. As churrascadas com ambos são frequentes e a de há dois anos foi à grande, pelo que percebemos que o Petit tenha escalado um 11 vergonhoso como o que fez ontem no Calor da Noite. A vontade era tanta que pela primeira vez na história de um campeonato uma equipa se apresentou sem Guarda Redes suplente no banco.
Aquele que é o melhor trio atacante, deixou todos de fora. Cassierra, Licá e Silvestre Varela. Estes 2 últimos nem no banco.
Gonçalo Silva também não jogou. Os 2 laterais mais utilizados, um estava castigado e o outro o Petit decidiu poupá-lo. Assim como o Show.
Ricardo Ferreira foi titular, deve ter sido o segundo ou terceiro jogo que fez em 2 ou 3 anos.
Ao todo, foram 7 jogadores titulares que Petit trocou. No fundo, tudo para que o seu Presidente Rui Pedro Soares conseguisse jantar ontem.
Liga da vergonha total!"

" APARECEU O SPORTING, NÃO DEU. APARECEU O PORTO, NÃO DEU. SÓ FALTAVA O BENFICA E ESSE ERA GIGANTE"

"Jogou na formação do Grêmio com Ronaldinho Gaúcho. Foi para a Finlândia e estreou-se na Liga dos Campeões aos 17 anos. Chegou à Segunda Liga portuguesa em 2000 e em seis anos estava no Benfica, mas o regresso de Rui Costa “atirou-o” para a Grécia. Aos 30 anos foi para o Chipre, onde se tornou herói e, talvez, no único campeão como jogador, treinador e director… na mesma época. Tudo isto, na mesma hora em que Marítimo e Benfica, dois dos clubes em que se destacou em Portugal, jogavam para a Primeira Liga. Eis Gustavo Manduca, em exclusivo, em entrevista ao Bola na Rede.

– Do calor brasileiro à neve finlandesa –
Quando é que começaste a jogar futebol?
Ui, pergunta difícil…

Então e em clubes, já mais organizado?
Ah assim fica mais fácil [risos]. Fui para o Grêmio com 13 anos. Antes, dos 11 aos 13, estive no Criciúma, mas ainda era escolinha e no Grêmio já foi um passo maior. Ia à seleção, era um clube maior…

Ficaste três anos no Grêmio, mas muito cedo foste para a Finlândia. Como apareceu essa oportunidade?
Eu tinha saído do Grêmio. A equipa era fortíssima, tinha Ronaldinho Gaúcho, Anderson Polga, Gavião e eu não jogava. O grupo era muito forte, fomos campeões brasileiros e tudo, mas é engraçado: saí porque não tinha espaço na equipa, mas de todos os 40 miúdos que jogavam ali só demos certo o Ronaldinho, eu e o Polga. O resto jogou em clubes menores, acabaram a carreira logo, muitos não chegaram a profissionais… Coisas do futebol. Então vi-me forçado a arranjar um novo desafio e surgiu a possibilidade de fazer um teste na Finlândia, nem tinha nada acertado. Era um clube grande na Finlândia, o Helsínquia, e eu ia ficar duas semanas à experiência, numa residência, até ver se me davam contrato profissional. Foi difícil porque naquela altura não se sabia nada do futebol finlandês, sem cultura de futebol e uma diferença de clima gigantesca: saí do Brasil com 32 graus e quando cheguei lá estavam 20 graus negativos. Nunca tinha visto neve na vida, cheguei ao aeroporto estava tudo branco e pensei: «Meu Deus, que vim aqui fazer».

Como era o futebol na Finlândia?
Era um futebol duro, forte fisicamente, pouca técnica, muito contacto e por causa destas transições verão-inverno, joga-se muito em campos fechados, aquecidos e sintéticos. Hoje qualquer um joga em sintéticos, de certeza que quando jogas uma peladinha aí em Portugal com amigos é num campo sintético, mas naquela época de 1997… Aqui no Brasil não existiam sintéticos, nunca tinha pisado um. Ou era pelado ou era relvado… ou estrada! Então quando cheguei nos sintéticos a bola travava imenso, era muito difícil. Mas eu era novo, 17 anos e correu bem. Destaquei-me logo e eles ficaram comigo.

Foi por causa desses obstáculos que acabaste por ser emprestado?
Não. O que aconteceu é que eu era um jovem de 17 anos numa equipa profissional, que lutava todos os anos para ser campeã no campeonato finlandês e não tinha muito espaço para jogar. A ideia foi emprestar-me a uma equipa de segunda para ganhar experiência e ritmo, só que eu fui para esse clube – que era o Atlantis – e era horrível a estrutura deles: tinha de levar a roupa para lavar em casa, os campos eram maus, eles eram muito ruins a jogar à bola. Passado duas semanas voltei, chamei o Luiz Antônio, meu colega que era mais experiente e traduzia, e disse-lhe «olha, quero falar com o treinador. Fazes a tradução?» ele respondeu: «Vamos lá». Cheguei ao pé do treinador, o Antti Muurinen, que ficou muito conceituado depois daquele trabalho e veio a ser seleccionador finlandês, e disse «professor, qual foi a sua intenção de me emprestar ao Atlantis?». Ele falou: «A minha intenção é que você cresça». E eu disse-lhe «então deixe-me treinar com vocês porque ali estou a desaprender a jogar futebol» [risos].

E quando voltas para o Helsínquia, estreias-te na Liga dos Campeões com 18 anos.
O que aconteceu, João, é que eu voltei e era o mais jovem do clube juntamente com o Mikael Forssell, que deves conhecer porque passou pelo Chelsea, Wolfsburgo, fez uma bonita carreira e foi um dos jogadores finlandeses com maior destaque da história. Como éramos os mais jovens, acabava o treino e eu e o Forssell pedíamos ao treinador para ficar a treinar mais e todos os dias ficávamos mais uma hora a treinar, passávamos a bola, um cruzava e o outro rematava, fazer remates de longe no campo todo e divertíamo-nos. E o Antti Muurinen ficava a ver-nos das escadas, mas nunca dizia nada, até que chegou o dia em que qualificámo-nos para a Liga dos Campeões e ele tinha de fazer a lista de 25 jogadores – o nosso clube tinha 30 profissionais e mais nós os dois jovens – e ele reuniu toda a gente e disse: «Pessoal, foi difícil fazer esta lista, mas eu não posso deixar o Gustavo e o Mikael fora da lista. O que eles fazem é um exemplo para todos. Eles querem crescer e eu vou ajudá-los a crescer». Acabámos por ser os mais novos da Liga dos Campeões, num ano em que calhou-nos o Benfica, PSV Eindhoven e Kaiserslautern.

Era mesmo isso que te ia perguntar. Três meses antes de vires para Portugal, ficas no banco no estádio da Luz frente ao Benfica. Que te lembras desse jogo?
Exactamente. Lembro-me que ficou 3-3 ou 2-2, mas lá na Finlândia tínhamos ganho. Era o antigo estádio da Luz e a equipa era forte, com João Pinto, Calado, Preud’Homme. Fizemos um excelente jogo e empatámos, o que para a nossa equipa, na única vez que uma equipa finlandesa chega à Champions, era um feito histórico. E para mim, menino, estar ali presente – ainda por cima com destaque na imprensa porque eu e o Mikael éramos os mais jovens – mesmo sem jogar era uma festa. Mesmo que levássemos cinco estava tudo bem mas vamos lá e empatámos… Para nós foi gozar o momento.

Acreditavas na altura que podias chegar a um clube como o Benfica?
Eu vou ser sincero… acreditava. Com os meus amigos, já dizia «eu vou jogar num grande» e eles riam-se de mim. Uma vez fui ver um jogo do FC Porto em Madrid. Demorei três horas de carro para ir de Chaves a Madrid. Fomos ver o jogo da Liga dos Campeões e disse para eles «eu ainda vou jogar aqui um dia» e eles riam-se de mim: «estás maluco? Tu jogas no Chaves, na Segunda Liga de Portugal. Jogar aqui no Bernabéu?». Depois joguei lá e até marquei um golo. Eu sempre tive o foco de jogar num grande.

– Da Finlândia para Felgueiras –
Como é que acabas por vir para Portugal?
Vim para Portugal para o Felgueiras através do Manuel Barbosa, que era um empresário conceituado na altura. Ele apresentou-me um projecto para subir de divisão, o Diamantino Miranda era o treinador, tinha jogadores como [Fernando] Meira, Pedro Mendes, Lixa, Rui Pataca, Paulo Sérgio… a equipa era forte, só com jogadores jovens. Foi muito boa a experiência. Depois a minha carreira desenvolveu-se em Portugal: nessas equipas pequenas como Felgueiras, Esposende, depois no Chaves já era uma equipa que lutava para subir à Primeira Liga, mas nunca conseguimos.

Voltemos ao Felgueiras: fazes meia época de grande nível, mas depois desapareces na época a seguir. O que aconteceu?
Quando comecei a segunda temporada aqui em Portugal, as coisas não correram bem, não estava a jogar. Fomos obrigados a procurar novos ares e aí surgiu o Esposende, clube pequeno que estava para descer. Fui para lá e correu bem, em 11 jogos fiz 7 ou 8 golos e foi dali que dei um passo para o Chaves.

E foi no Chaves que conseguiste estabilidade pela primeira vez na carreira sénior…
Foi quando me afirmei mesmo. Tive uma sequência de jogos, de crescimento. Também cheguei jovem ao Chaves, tinha 20 anos. Ainda era um menino.

Marcou-te a passagem por Trás-os-Montes?
Com certeza. Foi uma transição importante para a minha carreira. Até então, não me consegui destacar no Felgueiras, fui emprestado ao Esposende, onde tive meia época fantástica e aí surgiu o Dito, que foi treinador do Chaves com o Lemos Ferreira a adjunto, que me convidaram para ir para lá, que era um clube tradicional, de Primeira Liga, uma estrutura melhor, numa cidade que vive muito o futebol. Como era jovem, foi muito importante, dos 20 aos 23 anos formei bastante o meu carácter como jogador, cresci bastante.

O Tony Silva, que jogou contigo no Chaves, disse numa entrevista que só recebeu 16 dos 40 meses que jogou lá. Também te aconteceu o mesmo?
Não, não tive esse problema. Quando saí do Chaves para o Paços de Ferreira, deviam-me dois meses, mas depois pagaram-me, não me ficaram a dever nada. Não tenho esse motivo para reclamar.

Depois de Chaves, vais para a Primeira Liga no Paços de Ferreira. Um salto na tua carreira, mas foi uma época difícil para o clube…
Imagina, eu a penar cinco anos na Segunda Liga, a lutar para chegar à Primeira, e consigo dar esse saltinho para o Paços de Ferreira, numa equipa estruturada, com pessoas sérias, que vivem para o futebol. Aquele Paços que todos conhecem: um clube sério, mas as coisas não correram bem em termos de equipa. Para mim foi bom, joguei bastante, tive uma época razoavelmente boa, não foi fantástica, mas foi uma boa época para primeiro ano na Primeira Liga. A equipa cai de divisão e eu fiquei arrasado, lutei para chegar lá e estar de volta à Segunda Liga… Aí, nas últimas semanas de mercado, apareceu o Marítimo que me comprou ao Paços de Ferreira, era o Cajuda o treinador, e dei um saltinho melhor.

– Explosão na Madeira e passaporte para o Benfica – 
A esta hora estão a jogar duas equipas especiais para ti: o Marítimo e o Benfica. Ainda acompanhas as equipas?
Sim, com certeza. Tenho amigos nas duas equipas, mais no Marítimo, e estou sempre a acompanhar.

Foi no Marítimo que acabaste por explodir, com 10 golos em 36 jogos. O que é que o Marítimo te deu para apareceres nesta forma?
Quem me deu foi Deus e o que me ajudou a crescer foi a minha experiência, ter passado por aquilo que passei. Eu ia-me agarrando em cada oportunidade com unhas e dentes, dando o meu melhor, trabalhando, passava as dificuldades – alguns treinadores melhores ou piores – e fui crescendo nesse aspecto. Quando cheguei ao Marítimo encontrei uma equipa bem estruturada, com bons jogadores, a equipa era boa. Tínhamos o Marcos, um dos melhores guarda-redes em Portugal, o Van der Gaag na defesa, laterais bons – Briguel e Eusébio – tinha Wênio e Chaínho no meio-campo, Alan, Léo Lima, Pena. Era uma equipa forte, com um monte de pessoal experiente como Lino e tal. Um treinador cascudo e tradicional como o Cajuda, que sabia lidar com o grupo e era bom líder. Então cheguei e senti-me em casa e as coisas começaram a correr bem logo do início.

Começas logo a marcar ao Glasgow Rangers na Taça UEFA e ao Sporting em Alvalade.
Foi, foi. Lembro-me que nesse jogo com o Glasgow Rangers jogámos muito, com o Sporting a equipa jogou muito e não só: quem vinha à Madeira jogar levava sufoco. Ganhámos ao FC Porto, acho que empatámos com o Benfica e éramos sempre uma equipa cascuda. Mas lembro-me que ainda no primeiro ano houve interesse de clubes, o FC Porto esteve interessado, o Sporting esteve interessado, até chegar o Benfica.

Chegou a haver propostas?
Chegou a haver contactos, mas não sei porque razão as coisas não deram. Falava-se que não tinham chegado a acordo com o clube. Não houve acordo, mas houve certamente contactos porque chegaram a ligar para mim pessoas do FC Porto. Fiquei frustrado na altura porque não deu certo, até que chegou a segunda época, continuei bem e apareceu o Benfica. Aí falei: «desta vez tem que dar certo, senão… Aparece um, não dá. Aparece outro, não dá. Só tenho mais esse agora e esse é gigante. Esta oportunidade não posso perder».

Que Benfica é que encontraste?
O Benfica ainda estava na Liga dos Campeões e bem, no campeonato estava a penar, tinha sido campeão no ano anterior e tinha aquela pressão do título e era uma equipa em transição em termos de estrutura. Naquela altura ainda treinávamos no estádio Nacional ou no estádio da Luz, não havia campo de treinos. Apanhei essa transição e logo a seguir começa o Seixal, outro tipo de projecto e estrutura. Mas era uma equipa muito forte e que fez uma Liga dos Campeões muito boa, chegou aos quartos de final – perdeu só para o Barcelona e ainda eliminou o Liverpool nos oitavos – mas no campeonato não conseguiu o objectivo, que era ser campeão.

Como foi trabalhar com o Ronald Koeman?
Foi bom, óptimo. Foi ele que pediu a minha contratação e ele recebeu-me bem. No meio ano que estive no Benfica joguei 13 ou 14 jogos a titular e dois ou três como suplente. Joguei praticamente sempre com ele, numa transição gigantesca: saio do Marítimo e pego no Benfica de caras. Talvez não tive o impacto que as pessoas esperavam mas dentro da realidade da minha capacidade… Lembro-me que tinha de matar um leão por dia nos treinos para jogar, não dava para esperar porque os jogadores eram muito bons, tinham talento nato. Eu tinha o meu talento e capacidade mas não relaxava, eu dava tudo e dei tudo. Enquanto estive ali, joguei sempre, até à entrada na nova época, em que apareceu o Fernando [Santos].

– Da Luz para a Grécia e da Grécia para o… Chipre –
Entra o Fernando Santos e acabas por sair. Chegaram a explicar-te porquê?
Sim, sim. O Fernando Santos foi fantástico comigo. Na pré-temporada na Suíça, o Benfica chega a acordo com o Rui Costa para voltar, era para vender o Simão mas não sai, acerta para continuar com o Miccoli e tinhas Simão Sabrosa na esquerda, Geovanni e Miccoli na direita, Nuno Gomes no ataque e sobrava a posição 10, que era onde eu jogava e disputava o lugar com o Karagounis. De repente vem o Rui Costa e ele [Fernando Santos] chama-me e diz: «Gustavo, eu sei que no ano passado jogaste, deste-te bem, mas está a voltar o Rui e vai ficar mais difícil para jogares». E o [Fernando] Santos estava a voltar do AEK de Atenas e disse-me: «o AEK está a precisar de um jogador como tu. Já vi as tuas qualidades e vai ser bom para ti ires para lá, jogares numa equipa que joga a Liga dos Campeões e que te pagam mais que aqui. Queres ir um ano por empréstimo com opção de compra?». Analisei a proposta e aceitei esse desafio, mas foi um acordo mútuo e considero ser uma mudança positiva e não negativa.

O teu impacto na Grécia está à vista e o AEK accionou a opção de compra. Destacaste-te logo no início?
Não, foi difícil no início. Eu não falava bem inglês na altura, culturalmente foi bem diferente porque tinha estado em Portugal oito anos e estava habituado à cultura portuguesa, mas na Grécia é diferente: o trânsito, calor, um fervor muito grande no campo, os adeptos a irem ao centro de treinos com fogos [de artifício]… Então precisei de uns meses para me adaptar ao clube e à vida também, porque o Benfica tinha uma estrutura boa e gigantesca, enquanto o AEK estava numa transição de estrutura. Foi difícil no início, mas depois dos primeiros dois, três meses a coisa começou a andar. Recebi muito carinho das pessoas, dos adeptos, do clube, comecei a jogar bem, comecei a falar inglês e a comunicar melhor, a família adaptou-se. Foi uma maravilha.

Que recordações guardas desses quatro anos no AEK?
Tenho muito boas recordações: disputei duas Ligas dos Campeões, duas Ligas Europa, teve um ano em que fomos campeões mas perdemos o título na Federação, deram pontos ao Olympiakos porque puniram outra equipa e acabaram por levar o campeonato. O futebol na Grécia é vivido muito intensamente, o fanatismo é uma coisa gostosa para quem gosta de futebol. Tive experiências muito boas, com o meu filho a nascer lá e correu sempre bem, só o meu terceiro ano, em que perdi seis meses por causa de uma lesão, é que foi mais penoso, mas os outros foram bons.

No teu último ano na Grécia marcas sete golos e fazer 40 jogos. Porque é que acabas por sair para um campeonato como o do Chipre?
Olha, já estava com 30 anos e entrou a crise na Grécia. No AEK estávamos com seis meses sem receber e com uma instabilidade muito grande não só no clube, como no país. Queriam renovar comigo mas a reduzir para menos de metade o meu salário, surgiram outras equipas – Grécia, Turquia, Alemanha – até que aparece o APOEL. Tinha ouvido falar bem do clube, que estava numa fase crescente, tinha participado no ano anterior na Liga dos Campeões. Era um clube pequeno sem expressão no futebol, mas ofereceram-me três anos com o mesmo contrato que tinha na Grécia e, por ser um clube sério e terem feito um esforço grande para me levar, fizeram-me pensar com carinho. Até tinha propostas melhores na Turquia, mas pela estabilidade familiar, decidi que ali era o lugar para continuar a minha carreira e hoje vejo que foi um dos passos mais acertados da minha carreira.

E é no Chipre que acabas por ganhar os teus primeiros títulos…
Sim, acho que tinha ganho uma Taça da Finlândia no Helsínquia, mas a ser participante ativo foi ali.

O que também se destaca são muitas participações europeias, principalmente o golo da vitória do APOEL frente ao FC Porto em 2011/2012. Lembras-te desse jogo?
[Risos] É óbvio. Não só me lembro desse jogo, como dessa temporada que foi, sem dúvida, a mais marcante da minha carreira. Ali, já com 31 anos, acabo por ter uma participação muito importante, numa competição tão importante como é a Liga dos Campeões. Antes no AEK, tinha jogado na Champions, ganhámos ao Milan mas não passámos de fase, já no APOEL fiz quatro golos, inclusive contra o FC Porto, nos oitavos de final contra o Lyon e nos quartos contra o Real Madrid no Bernabéu. Foi uma época inesquecível.

– Campeão como jogador, treinador e director… Na mesma época –
Depois ainda fazes mais três anos no Chipre, mas és obrigado a terminar a carreira por causa de uma lesão.
Exacto. Sentia que podia jogar até aos 40, a cada ano sentia-me melhor, não só fisicamente, como em experiência dentro de campo. Em 2014/2015, quando sofri uma lesão e sou obrigado a terminar a carreira – tenho dores até hoje no tornozelo – estava com sete golos no campeonato, também na Liga dos Campeões contra o Ajax e tinha sido o melhor em campo contra o PSG. Estava numa óptima forma com 34 anos, mas a lesão estragou os planos.

Estavas preparado para abandonar o futebol?
Para ser sincero, estava. Sentia-me bem fisicamente e dentro de campo, mas já estava satisfeito com a minha carreira e cansado da rotina do futebol. Já tinha dois filhos, estava a precisar de mais tempo com a família e psicologicamente já estava a relaxar. Pela minha performance em campo, podia jogar tranquilo até aos 38 e bem, mas psicologicamente já tinha parado.

Deixas os relvados, ficas como director desportivo mas acabas por treinar a equipa no final da época. O que aconteceu?
Devo ser a única pessoa no mundo que foi campeã como jogador, director desportivo e treinador [Risos]. Tive essa lesão e tentei recuperar, fui para a Alemanha, Holanda… Tentei mas não deu, fiquei três meses a penar. Depois o presidente chamou-me e disse «olha, eu confio em ti, se quiseres renovamos mais um ano contigo lesionado ou passas para director desportivo». Achei que era uma boa oportunidade e em Março desse ano [2015] assumi o cargo. Mas foi um trabalho muito difícil, que não tive prazer em fazer porque tive de lidar com muitos amigos: passei a ser o patrão e tive de decidir quem fica, quem sai e quem tinha de dar a notícia era eu, mesmo que não fosse minha decisão. Foi difícil demais não misturar as coisas… Eu consegui, mas muitos jogadores passaram a ter problemas comigo.

E pior deve ter sido quando passaste mesmo para treinador.
Faltavam dois jogos para acabar o campeonato – mais a final da Taça – e o presidente chama-me para uma reunião depois de uma derrota, estávamos um ponto à frente no campeonato e íamos jogar contra o segundo. O presidente disse «Gustavo, garantes que com este treinador vamos ser campeões?», e eu disse que não posso garantir, porque no futebol tudo pode acontecer. E ele: «Não era isso que queríamos ouvir, se não podes garantir então o treinador sai e ficas tu à frente da equipa». Nem tinha a licença UEFA C, mas eles fizeram um jeito, puseram um adjunto, e assumi a equipa.

Foi por causa disso que acabaste por sair do APOEL?
Não. Nós empatámos o primeiro jogo 1-1, no segundo jogo vencemos 4-0 e fomos campeões e na final da Taça ganhámos 4-1 e fomos vencedores. Só que não podia continuar como treinador e voltei para o cargo de director e levámos o Domingos Paciência para treinador. A meu ver, ele fez um bom trabalho, mas houve uma pressão muito forte na equipa técnica, porque estávamos qualificados para a Liga dos Campeões e calhou-nos o Astana – que na altura não tinha tradição europeia – e deram por certa a ida à Champions. Fomos ao Cazaquistão e perdemos 1-0 num jogo equilibrado e começou logo a fazer-se “barulho”. Quando jogámos em casa, estávamos a ganhar 1-0 e com possibilidades de fazer o segundo golo, só que aos 88 minutos fazer o empate em contra-ataque, matam a eliminatória e ficamos fora da Liga dos Campeões. Naquela noite, a direcção decidiu mandar o Domingos embora sem o meu consentimento e começaram os problemas porque o presidente – que tinha a autoridade para fazê-lo – despediu-o sem a minha presença. Se me chamasse, não teria havido problemas, mas aí começou a nossa divergência.

Que fizeste depois de sair do APOEL?
Finalizei o curso de treinador UEFA A, fui convidado para treinar uma equipa da segunda divisão lá do Chipre – o Othellos – para terminar o curso e era um clube com pouca estrutura, diferente do que estava habituado. Criaram um projecto em cima de mim, a achar que com o meu nome iam chegar à Primeira, mas tínhamos 13 jogadores, salários em atraso… Depois completei o curso e voltei ao Brasil com a família, porque não tive tempo de descansar desde que terminei a carreira.

Arrependeste de alguma coisa na tua carreira?
Olha João… A única coisa que posso dizer que tenho algum arrependimento foi ter aceitado ser director do APOEL. Foi uma experiência boa, mas não me fez bem, foi muito “atropelado”, não tive suporte. Teria feito diferente hoje, descansava um pouco, preparava-me um pouco mais aceitar esse desafio. Agora sou empresário com um grupo italiano, o meu filho joga no Torino e estamos a morar na Itália e é um trabalho que me deixa mais de acordo com o que acho bom. Estou envolvido com o futebol, ajudo os jogadores e tenho tempo com a família, sem perder os meus princípios.

Chegaste a ter a possibilidade de voltar a Portugal?
Não, não. Até porque o futebol português – tirando os grandes – é uma vitrine muito boa, mas depois o nível financeiro baixa muito em Portugal. Há outros países que te oferecem uma estrutura melhor financeira e chegas numa idade em que isso é importante. É difícil estar a ganhar 40 mil e ires ganhar 8 mil. Nunca existiu uma oportunidade concreta e boa.

Quem vês como o próximo Manduca no campeonato português? A dar um salto para um grande?
Ah não consigo dizer. Há muitos jogadores jovens, com bastante talento e qualidade, mas são coisas do futebol. Olha o meu caso: do nada as coisas foram correndo, num foi para o Paços, do Paços fui para o Marítimo e em ano e meio estava no Benfica. As coisas correm rápido, não dá para responder.

Para terminar, digo-te que acabou o Marítimo-Benfica. Ganhou o Marítimo 2-0.
Ganhou o Marítimo? Fico feliz e triste ao mesmo tempo. Tenho um carinho muito grande pelos clubes onde passei, hoje mais pelo Marítimo porque o José Gomes foi meu treinador no Paços de Ferreira, ele chegou a ir para o APOEL… E o Briguel é director, chegámos a jogar juntos. Tenho um relacionamento mais pessoal, enquanto o Benfica é um gigante, que tem sido campeão e está bem, mas com esta derrota fica difícil a cinco jogos do fim."

PRIMEIRAS PÁGINAS DA LIXEIRA JORNALEIRA TUGA


domingo, 5 de julho de 2020

UM AZAR DO KRALJ

seu rosto de contentamento perante a vantagem de 3 golos sem resposta fez lembrar um daqueles vídeos das redes sociais em que vemos uma pessoa surda que recupera a audição ou consegue ouvir pela primeira vez. Já não nos lembrávamos da sensação prazerosa que era controlar uma partida de futebol. Foi muita comoção.

André Almeida
Esteve bem no lance do primeiro golo, permanecendo atento à jogada e aproveitando o erro de Helton Leite, um excelente guarda-redes que será agora obrigado a procurar clube noutro país ou até, quem sabe, uma nova profissão, isto não obstante ter evitado uma goleada de proporções bíblicas com algumas excelentes defesas. Os mais doentes do nosso futebol dirão que é assim que se fazem as coisas, escusando-se a explicar porque é que o Benfica não comprou os guarda-redes das partidas anteriores, deixando o suborno para uma deprimente noite de sábado semanas depois de o título ter sido entregue numa bandeja. E também não lhe chamarão suborno nem corrupção, sob pena de serem processados por difamação. Farão o que fazem sempre. Deixarão um aroma pestilento no ar e continuarão a arremessar a mesma lama de onde saíram, tentando sujar toda a gente menos os acusadores.

Rúben Dias
Exibição discreta sem grandes culpas no golo e segurança quanto baste para fazer face a um adversário mansinho. Mais meia dúzia de jogos assim e talvez o presidente consiga recuperar uma daquelas propostas de 100 milhões.

Jardel
melhor intervenção da noite fê-la na flash interview em que dedicou meia dúzia de palavras importantes e merecidas ao mister Lage. Pena que dentro de campo não tenham sabido aplicar essas palavras, por razões que a razão desconhece.

Nuno Tavares
Segurança na defesa e 1 assistência para golo anulada, mas aqueles cruzamentos continuam a dar tesão, o que é significativo se considerarmos que a massa adepta vive um período de manifesta disfunção eréctil.

Pizzi
Seja bem aparecido, Luís Miguel! Saiu do bolso em que os últimos adversários o colocaram para aparecer novamente a marcar e a assistir. Veremos se veio para ficar, mas a jogar assim talvez consigamos evitar a humilhação de ter que ver o calendário do Sporting até ao final da época. De resto, é difícil exigir mais quando não sabemos quem é que vai dar o treino amanhã.

Weigl
Não sei se sentiram o mesmo, mas ontem vi-o falhar um passe durante a primeira parte e fiquei em estado de choque. Já não julgava possível.

Gabriel
Meia dúzia de passes teleguiados que quase nos fizeram esquecer a miséria exibicional das últimas semanas. Quase. Enfim. Continua até nos esquecermos de vez.

Cervi
Ok, enganei-me. Afinal o Nuno Tavares consegue fazer o corredor sozinho.
Sobre Helton Leite: os doentes vão deixar um aroma pestilento no ar enquanto arremessam a lama do sítio de onde vieram

Chiquinho
Não pareceu padecer do stress pós-traumático que se instalou em alguns colegas nas últimas semanas. Pode tornar-se um jogador importante nesta recta final. Quem sabe não há mais jogador do que vimos até agora? Eu acredito.

Seferovic
Não sei se fica quando chegar o Pochettino. Ou o Cavalo Branco.

Vinicius
De ViniGol a ViniVar em poucos segundos, mas ainda assim melhor do que o colega suíço. Veremos qual deles nos vai desiludir no próximo jogo.

Rafa
O seu primeiro sprint no jogo vai ser submetido ao Papa Francisco para ser aprovado como milagre. Quando alguns já temiam que não voltasse a caminhar, dada a versão algo prostrada com que fomos presenteados nos Barreiros, eis que Rafa surgiu pleno de vigor mostrando que ainda terá alguns anos de futebolista profissional em si.

Samaris
Entrou para dar alguma frescura física e ajudar a segurar uma vantagem confortável, o que permitiu evitar a proverbial discussão sobre se precisamos de ter mais gajos com eles no sítio como o Samaris. Na verdade o que precisamos mesmo é de jogar mais à bola e meter a bola na baliza, conforme aconteceu ontem.

Jota
Estamos perante um caso de gestão vulgarmente denominado como “não copulas nem sais de cima”. Um dia alguém há-de explicar-nos para que raio serviu a deprimente rubrica semanal “5 minutos de Jota”. Até lá, continuamos todos - nós e o jogador - a perder tempo."

O URUBU DO FRANGUEIRO DE PÁDUA


"Zvonko Monsider fugiu da Jugoslávia de Tito e aprendeu com Guttmann a ser um trota-mundos. Mas era perseguido por uma sombra.

Os brasileiros gostam de dizer que sobre a trave de cada baliza pousa um urubu. Negro, tétrico, espera que os guarda-redes se tornem cadáveres, mesmo que cadáveres adiados. Todos os guarda-redes morrem de vez em quando atacados por outra ave, o frango. Sim, o frango não voa, mas pode ser assassino. Quando é assassino em série, como nos filmes, chamam-lhe peru. E o urubu lá no alto, pousado na trave, atraindo a infelicidade na sua pose soturna de velho juiz conselheiro.
Zvonimir Monsider era um daqueles guarda-redes capazes de fazer a felicidade de qualquer urubu. Chamavam-lhe Zvonko, como diminutivo, mas não havia nada de diminuto nele. De tempos a tempos, a imprensa apelidava-o de Tigre, e aí o urubu ficava longe e era apenas ele, Zvonko, e a sua pequena glória. Em 1950, Zvonko Monsider estava em Pádua. O seu treinador era um húngaro trota-mundos:_Béla Guttmann. Diziam que era um mago. Com Guttmann até o o pobre Pádua podia sonhar em ser campeão de Itália. Lutou por isso, ombro a ombro com a Juventus e o Torino, durante a maior parte do campeonato de 1949-50. Mas até os magos têm as suas fraquezas. Uma série de oito derrotas consecutivas fizeram Guttmann cair do plinto da estátua que estavam dispostos a erguer-lhe nessa cidade do Veneto que disputa com Lisboa o orgulho de ser dona de um frade franciscano que andou com o menino-Deus ao colo. Pior: acusaram-no de ter recebido luvas no negócio de empréstimo feito pela Lazio e que trouxera Zvonko de Roma. O mago foi proibido de treinar durante seis meses pela federação italiana e rumou ao ainda mais modesto Triestina. Monsider só jogou sete vezes pelo Pádua. Saiu com Guttmann e foi para a Hungria, para o Hungaria, levando atrás de si a fama de frangueiro. O Frangueiro de Pádua.
Armando Nogueira é um dos grandes cronistas da língua portuguesa. Um daqueles cronistas solitários como um guarda-redes que tem um urubu pousado na trave sobre a sua cabeça. Nessa solidão de cronista, escreveu: «Diante do olhar pretensamente isento do cronista, desfilam o lírico, o patético, o cômico, o grotesco, o trágico, o sublime. Na batalha do esporte, o homem ama, glorifica, odeia, castiga e perdoa. O que me fascina no futebol é a incerteza do jogo. E tudo que é jogo é lúdico. Tudo que é lúdico é poético»."

SOBRE CHIQUINHO

"No dia de ontem surgiu um comentário nas redes sociais do Lateral Esquerdo perfeitamente normal em função da forma como o grande público olha para o jogo.

"É incrível como é que uma pessoa pode achar se um bom entendedor de futebol quando diz que Chiquinho tem mais qualidade que Pizzi. Aliás quando alguém afirma que Chiquinho é jogador para jogar num candidato ao título está tudo dito"

Tendemos a olhar para o jogo sem o perceber para lá do golo ou do último passe, e naturalmente que para (quase) todos fará sentido que Chiquinho tenha menos qualidade que Pizzi.
O que poucos entenderão é que para que esse último passe ou remate surja é necessário que a equipa tenha fluência no seu jogo ofensivo. Mais, para que uma equipa vença um jogo essa fluência é necessária. É praticamente obrigatório para quem quer vencer de forma sucessiva que tal esteja presente. São precisos muitos golos todos os jogos para compensar dezenas de perdas de bola que expõem a equipa e não só a impedem de chegar à baliza adversária, como permitem ao oponente crescer no jogo. Contra atacar, retirar tempo de jogo porque tem a bola fruto dessa perda.
Pequenos gestos incorrectos, relacionados com incapacidade para perceber o envolvimento e incapacidade para se ser eficiente tecnicamente quer na recepção quer no passe, emperram todo o jogo ofensivo da equipa.
E para que se possa ter alguém incapaz de ajudar com essa fluência, com esse jogo que se quer que aproxime a equipa da baliza adversária sem estar constantemente a voltar para trás porque alguém perdeu a bola, ou porque alguém não a perdendo recebeu mal, ou passou mal, mesmo que esse passe encontre o colega (mas no espaço errado, para o pé errado…) esse alguém tem obrigatoriamente de compensar com uma tremenda eficácia na zona de finalização.
É isto que separa Pizzi de Chiquinho. Os números enganam os menos atentos. Pizzi precisa efectivamente de marcar muitos golos (e marca-os!) para compensar tudo o resto no seu futebol. Já Chiquinho aproxima o Benfica de ganhar a cada toque que dá na bola, mesmo que não apareça nesses números.
Se ofensivamente as diferenças são notórias e óbvias, defensivamente mais se nota a diferença de nível entre um e outro. Por um lado podes sempre sair para o ataque porque nunca dará recuperação e o espaço tardará a ser fechado, do outro mesmo que não um primor, há disponibilidade para.
Para haver números é preciso quem alimente esses números. Se não forem alimentados não há. Já o contrário acontecerá sempre. Se alguém alimentar, os números surgirão. É como formar uma equipa com onze Mários Jardel.
Acredita que cada um dos onze faria quarenta golos por ano, ou será que num um deles chegaria aos cinco?
A simplicidade na forma eficiente com que toma cada decisão e permite ao Benfica chegar consecutivamente ao último terço, ou ai a ter condições para fazer golo, sem nunca expor a sua equipa aos seus erros por forçar a que tal aconteça, tornam Chiquinho o jogador mais diferenciado do Benfica, e o grande erro de Bruno Lage na presente temporada, que o tirou da equipa depois de um longo período só de vitórias com o médio / avançado em campo.
Enquanto uns forçam e perdem dezenas de bolas para ter um lance de notoriedade, outros fazem tudo bem. Colocam a equipa à frente da sua própria “fama”, mesmo sabendo que depois nem sempre têm o devido reconhecimento.

Dados WyScout:
Chiquinho
– 2 Perdas de Bola
– 88% Passes Certos
Pizzi
– 13 Perdas de Bola
– 77% Passes Certos
Dados sempre passiveis de desvirtuamento – Passe Certo nem sempre é um Passe Certo, se não vai para o espaço certo, para o colega certo, para o pé certo do colega certo! Não há dados que marquem ainda as más recepções que impossibilitam a equipa de criar."

O MARTELO DE NIETZCHE IX


"1. Vítor Serpa foi condecorado no passado dia 29 de Junho pelo Sr. Presidente da República com a comenda da Ordem de Mérito. Jornalista há quase cinquenta anos e líder do jornal A Bola há vinte e oito anos, Vítor Serpa na linha daquilo que já havia sido o seu pai o jornalista Homero Serpa, é uma figura ímpar no desporto nacional. Ao longo dos cinquenta anos do exercício da sua profissão de jornalista falei circunstancialmente com ele três ou quatro vezes. Assim sendo, a consideração e admiração que por ele tenho e que, agora, me apraz registar, nada tem de pessoal ou emocional, pelo contrário, tem tudo de impessoal e racional. Em primeiro lugar, considero e admiro Vítor Serpa, pelo facto de ele ser, há 28 anos, director de uma entidade privada da economia do lucro que pelo que tem de responder não só a todos aqueles que lidera bem como a uma administração que superintende o jornal. Em consequência, ele é avaliado, todos os dias, todos os meses e todos os anos, o que lhe confere um estatuto de elevada competência porque, se assim não fosse, o mercado já o tinha afastado do lugar que ocupa. Num Sistema Desportivo que ignora o que é uma avaliação independente e nunca nenhum dirigente é responsável por coisa nenhuma Vítor Serpa é um exemplo. Em segundo lugar, considero e admiro Vítor Serpa pelo seu amor à democracia que é a liberdade de opinião. Colaboro n’ A Bola (on line) há vários anos, já publiquei na mais plena liberdade dezenas de artigos de opinião praticamente todos politicamente contundentes. Quer dizer, na linha da democracia liberal republicana, o jornal A Bola tem uma chancela de liberdade de opinião que lhe é garantida pelo seu diretor. O que, nos tempos que correm, não é fácil. Em terceiro lugar, considero e admiro Vítor Serpa porque, sendo ele um amante do futebol, não é por isso que deixa de ter uma visão politicamente descomprometida no que diz respeito ao desporto nacional onde o futebol se integra. As suas crónicas do “Porque Hoje é Sábado” são, de há muitos anos a esta parte, a prova semanal da sua visão, ideologicamente descomprometida, do desporto nacional numa perspectiva global. Delas respigo títulos como, por exemplo: “O desporto pelas ruas da amargura” (2017-08-13); “Política desportiva do Governo…. é bola!” (2017-09-16) ou; A Questão dos dirigentes em Portugal (2019-04-13)”. Todavia, nos últimos anos, a crónica que mais me tocou, na medida em que, de uma forma aberta, pôs em equação um dos principais legados de Pierre de Coubertin, foi a que, referindo-se aos Jogos Olímpicos, encimou com o título “O importante não é participar… é ganhar! (2016-08-17). É sobre este título que considero ser uma das principais premissas do legado de Coubertin que, com a devida vénia, me permito explanar um conjunto de argumentos que, a partir do pensamento de Coubertin, reforçam a tese de Vítor Serpa.
2. Para Pierre de Coubertin, os Jogos Olímpicos deviam ser um evento espiritual com o objectivo primordial de transformar os princípios, os valores, as normas, os procedimentos e os rituais olímpicos do agôn da Grécia antiga, numa certa religiosidade laica a fim de colocar o praticante desportivo moderno numa situação competitiva de superação pessoal e social em busca da excelência a que os gregos chamavam de areté. Não se tratava de participar, tratava-se de superar, de ultrapassar limitações, de competir até ao limite em busca da vitória com um sentimento que na sua dimensão transcendental, em termos competitivos, ultrapassava em muito o narcisismo terreno que anima o espírito competitivo dos atletas dos nossos dias. E, por isso, Coubertin foi um contemporâneo do futuro.
3. A frase “…o importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar, mas sim participar…” não é da autoria de Coubertin. É da autoria de Ethelbert Talbot, bispo da Pensilvânia (EUA). Foi proferida num sermão dirigido aos atletas numa cerimónia religiosa realizada na Catedral de Saint Paul a fim de atenuar os conflitos competitivos que estavam a acontecer entre atletas ingleses e americanos nos Jogos Olímpicos de Londres (1908). Coubertin limitou-se a aproveitar a ideia do bispo e reconstruiu a frase de acordo com o seu pensamento: (1º) Substituiu os Jogos Olímpicos pela luta que é a vida; (2º) Substituiu a palavra participação pela palavra combate. E disse: “L' important dans la vie, ce n'est point le triomphe mais le combat; l'essentiel, ce n'est pas d'avoir vaincu mais de s'être bien battu” / “O importante na vida não é triunfo, mas o combate; o essencial não é ter conquistado, mas ter lutado bem”. Assim, Vítor Serpa levou à estampa do desportivo de maior prestígio nacional o verdadeiro pensamento de Coubertin que, por motivos, hoje, bem conhecidos, foi completamente deturpado. Na realidade, se bem quisermos interpretar o pensamento de Coubertin, na linha da posição de Vítor Serpa, nos Jogos Olímpicos “o importante não é participar… é ganhar”.
4. Para Coubertin, se o espírito democrático da promoção do desporto devia ser universal (“todos os desportos para todos”, dizia ele), o espírito dos Jogos Olímpicos devia ser conduzido pela excelência competitiva dos eleitos e não pela fragilidade dos praticantes de base ou intermédios. Todavia, ao longo de mais de cem anos, a generalidade dos dirigentes políticos e desportivos tem-se utilizado da frase do Bispo Talbot sem qualquer rigor deturpando o pensamento de Pierre de Coubertin. E os resultados têm sido desastrosos. Felizmente, de vez em quando, há quem como Vítor Serpa tem o conhecimento e a coragem de dizer que “o importante não é participar… é ganhar!”. O problema é que os doutos dirigentes olímpicos não se dignam ouvi-lo. Em consequência, as Taxas de Descarte de jovens desportistas em países como Portugal atingem valores escandalosamente superiores a 90% na medida em que, “como o mais importante é participar” a esquizofrenia do aumento do número de atletas das Missões Olímpicas, para além de não premiar a qualidade, promove a mediocridade e destrói a prática desportiva de base de Sistemas Desportivos geridos por gente ignorante e, do ponto de vista ético-moral, insensível.
5. A este respeito também Thomas Bach presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), com a sua famigerada Agenda 2020, na linha dos seus antecessores, demonstrou não ter tido a capacidade para apontar os caminhos de futuro para o Movimento Olímpico internacional. E, agora, constrangido por uma crise à escala global que provocou a implosão dos Jogos Olímpicos, anda a correr atrás dos acontecimentos sem ter a certeza de nada e de coisa nenhuma. Quer dizer, foi capturado pelo gigantismo de um evento que deixou de poder ser objecto de qualquer espécie de previsão, planeamento ou controlo minimamente credíveis. E porquê? Porque os dirigentes políticos e desportivos nunca perceberam que na linha do pensamento de Pierre de Coubertin, para além de todos os desportos deverem ser para todos, conforme recordou Vítor Serpa, nos Jogos Olímpicos “o importante não é participar… é ganhar!”. Quer dizer, o Espírito Olímpico deve privilegiar a qualidade e não a quantidade estabelecendo uma relação virtuosa entre os praticantes de base e os de elite que se designa por Nível Desportivo.
6. Relativamente aos Jogos da XXXII Olimpíada, para além de todos os problemas desportivos, económicos, financeiros, jurídicos e sanitários, segundo uma informação veiculada pela “Inside the Games”, surgiu mais um problema que, certamente, será o maior de todos. Mais de metade (51,7%) dos moradores de Tóquio deseja o cancelamento ou adiamento dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Ora, como se sabe, um novo adiamento para 2022 é uma hipótese que já foi rejeitada por Thomas Bach. À parte de qualquer teoria da conspiração, esta informação surge assim como que a preparar a opinião pública para o cancelamento dos Jogos da Olimpíada de Tóquio. Porque, quanto mais se protela a decisão definitiva mais problemas vão surgir. Só 15,2% da população apoio a realização dos Jogos à escala tradicional. Mas também há aqueles (31,1%) que defendem a realização em 2021 de uma versão dos Jogos Olímpicos simplificada. O problema é, em cima da hora, saber quem (desportos, eventos e atletas) vai ser simplificado, quer dizer, excluído. A minha recomendação é simples: Tenham em consideração a premissa de Vítor Serpa: Nos Jogos Olímpicos “o importante não é participar… é ganhar!”. Aos Jogos não se vai para participar, quer dizer, para fazer número. Aos Jogos deve-se ir para competir de igual para igual e, se os deuses assim o quiserem, vencer. Para que tal possa acontecer os países devem ter uma política pública verdadeiramente séria em matéria de desporto.
7. Entretanto, para uma versão simplificada dos Jogos, já surgiram mais de duzentas ideias o que só por si expressa a dimensão e complexidade das decisões a serem tomadas. Está-se perante problemas de ordem operacional no quadro do Programa dos Jogos bem como no domínio logístico que Thomas Bach, finalmente, já percebeu que se trata de um "enorme quebra-cabeças em que todas as peças têm de encaixar" sem que elas estejam todas identificadas. A filosofia d’ ”o importante é participar” conduziu os Jogos Olímpicos a uma dimensão gigantesca que, por paradoxal que possa parecer, acaba por ser uma afronta às condições de vida e de prática desportiva em quase todos os países do mundo. A memória da imagem da população de uma favela do Rio de Janeiro a ver ao longe a luzes do fogo de artifício da Cerimónia de Abertura dos Jogos do Rio (2016) representa bem quanto o Movimento Olímpico moderno, construído por Coubertin para a generalidade das pessoas, se afastou delas.
8. A actual crise veio alertar para quanto o COI e a generalidade das Federações Internacionais (FIs) e dos Comités Olímpicos Nacionais (CONs), hiper estandardizados nas suas regras, concentrados e maximizados nos seus processos, centralizados nas suas decisões e progressivamente cada vez mais especializados nos seus eventos, estão impreparados para desencadear um processo de mudança à escala mundial porque aquelas organizações vivem na incoerência olímpica do paradoxo entre a qualidade e a quantidade. Sabem que a qualidade que desejam promover não se coaduna com a quantidade que, por razões de marketing são obrigados a assumir. Hoje, como refere Vítor Serpa, “o importante é vencer” e esse sempre foi o espírito de Coubertin. Para quem o “mens sana” de Juvenal era “uma máxima excelentemente higiénica, mas nulamente atlética”.
9. Considerando as dúvidas e hesitações de Thomas Bach quando teve de tomar a decisão de adiar os Jogos da XXXII Olimpíada e os posteriores desentendimentos com o Governo japonês, percebe-se que o COI está a viver uma das maiores crises de sempre. E tudo isto resulta da incapacidade demonstrada de compreender o Movimento Olímpico moderno a partir da lógica desencadeada por Coubertin na metáfora que ficou conhecida como a Pirâmide de Coubertin: “Para que cem se dediquem à cultura física, cinquenta têm de praticar desporto; Para que cinquenta pratiquem desporto, vinte têm de se especializar; Para que vinte se especializem, é necessário que cinco se mostrem capazes de realizar proezas extraordinárias”. Quer dizer, como refere Vítor Serpa, não se trata de participar trata-se de competir para vencer.
10. Do ponto de vista da organização do futuro, é necessário fazer ver a muitos membros do COI, bem como a muitos líderes das FIs e CONs que têm de deixar as mordomias do convívio com os deuses do Olimpo e regressarem ao planeta Terra. Assim que chegarem recomendo-lhes que, para começar, assumam a premissa de Vítor Serpa “ o importante não é participar… é ganhar!” e dela saibam tirar as devidas conclusões na certeza de que o Olimpismo é uma filosofia que, de acordo com a Pirâmide de Coubertin, deve colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento humano."

A LAGE O QUE É DE LAGE

"Poucos treinadores nos últimos anos despertaram sensações tão díspares como Bruno Lage ao serviço do Benfica. No campeonato a história é conhecida: recuperou com 18 vitórias uma vantagem de 7 pontos em 19 jogos, jogando na casa dos 5 primeiros e foi campeão. Voltou a repetir a marca na época seguinte até à derrota no Dragão, onde curiosamente viu diminuir a mesma vantagem de 7 para 4 pontos. A partir daí soma um dos piores registos da história benfiquista.
Afinal, o que se passou? É a pergunta que todos tentam responder. Nestas coisas não acredito em respostas completas e definitivas. Mas, naquilo que ao jogo diz respeito, vale a pena tentar perceber o que mudou.
Nos últimos anos anos a frase é recorrente nas formações de treinadores “o modelo de jogo é algo inacabado”. Comecemos por aqui: Lage pegou na equipa em Janeiro de 2019 numa altura em que o Benfica jogava duas vezes por semana e, por força da campanha na Liga Europa, assim foi durante 3 meses. Não havia, portanto, grande tempo para treinar. Muito genericamente Lage apresentou as seguintes novidades: apostou bastante na transição ofensiva, em muitos jogos, abdicando frequentemente que 3/4 jogadores, alas e avançados, baixassem para o último terço a defender (ou ficando até em posições mais adiantadas) o que dava uma capacidade de progressão impressionante no momento em que ganhavam a bola. Por outro lado, os alas andaram em posições interiores tornando recorrente a formação de um linha de 4 jogadores entre linhas com os avançados, e não esquecendo os passes longos a variar corredor dos médios centro, nomeadamente Gabriel, que aconteceram mais vezes.
Não sendo obrigatório, estas mudanças deram naturalmente origem a um jogo acelerado e mais repartido no domínio, porque quem com poucos defende para rapidamente atacar com muitos faz a bola andar mais próxima das duas balizas. A muita presença de jogadores entre linhas, em ataque posicional, potenciou bastantes passes verticais para essa zona. Além do mérito próprio, foram visíveis as dificuldades dos adversários em contrariar esta matriz (no caso das transições nota para as excepções que foram Tondela e B-SAD num encontro analisado aqui). De uma forma ou outra, o Benfica acabava sempre por resolver os jogos até porque os resultados positivos fazem sempre acreditar no sucesso.
Então o que mudou? Voltemos à frase “o modelo de jogo é algo inacabado”, sustentada também na lógica de que os adversários com mais observações e análises minuciosas acabam por conhecer melhor a nossa equipa, o que requer uma evolução própria e mesmo quem ganha regularmente terá de apresentar novas soluções. No jogo jogado talvez tenha sido este o maior pecado de Bruno Lage . O caso paradigmático são os jogos no Dragão. Em 2019 O Benfica foi capaz de aguentar 90 minutos a defender com 6 e 7 jogadores à entrada da sua área e soltar os alas e avançados nas costas da 1ª pressão do Porto, criando assim muito perigo. A estratégia em 2020, no mesmo estádio, foi semelhante mas já o adversário estava bem melhor preparado para o momento da perda de bola e também sabia como atacar e aproveitar os espaços decorrentes desta ideia defensiva.
Todas as equipas do mundo têm características com pontos fortes e fracos. Será sempre a dose que faz o veneno. Uma equipa que goste de circular a bola com paciência se não reconhecer no momento certo as linhas de passe mais adiantadas, arrisca-se a não progredir. Bem como, no caso do Benfica, quem prefere forçar entre linhas mais cedo, se não cria engodo antes acaba por somar perdas de bola. E o que antes era um jogo um pouco partido mas controlado, passa a desligado sem tempo para associação com o portador da bola a ser demasiadas vezes precipitado. É nestas fronteiras que muitas vezes se joga o trabalho de um treinador. Realçar constantemente no jogo aquilo em que somos bons, não dar espaço a que fraquezas apareçam muitas vezes. Com algum azar à mistura, e a enorme desvantagem que foram as bolas paradas, Lage, que dominou este aspecto na perfeição em 18/19 não o conseguiu em 19/20.
“Nós os marxistas somos muito bons: das últimas 3 crises mundiais, previmos 5”
Na ânsia de explicar o ciclo negativo do Benfica há várias teses. Uma das mais populares é a ausência de João Félix. Foi muito influente, o seu substituto mais directo até estava bem mas nem jogou muito tempo devido a lesão/opção (Chiquinho) e aquela posição é chave para o modelo implementado. Tudo verdade mas não é suficiente para explicar tudo.
Há quem duvide da responsabilidade de Lage no sucesso do ano passado. Este raciocínio tem, desde logo, que responder a duas perguntas: o que mudou para a sequência de vitórias ter começado com este treinador, não sendo ele protagonista? E, nesta tese, se o treinador em 2020 é o mesmo e não teve influência antes, o Benfica começou a não ganhar porquê? O princípio da análise que nem sempre o resultado corresponde ao nível exibicional tem as suas vantagens. Há mesmo derrotas e vitórias mentirosas, não se prolongam é por um ciclo de 38 jogos divididos de igual forma em duas épocas ( interrompido somente por um empate e derrota para o campeonato). Quem faz ouvidos moucos a um registo destes entra num bom conforto intelectual que é directamente proporcional à sua preguiça: os treinadores que ganham a jogar como eu gosto têm sempre mérito, os que eu não gosto não têm grande responsabilidade no sucesso. O mesmo se aplica a quem enuncia sempre as limitações, esquecendo que as virtudes são suficientes não para vitórias pontuais, mas sim para ciclos positivos alargados.
Vários autores do Lateral Esquerdo escreveram um livro sobre o Benfica enquanto Lage foi treinador em 18/19. Naturalmente os elogios foram muitos mas também sempre houve consciência das questões passíveis de melhorar no modelo (algumas expressas no livro): a excessiva dependência de quantos jogadores ficavam na frente em transição ofensiva, a limitação (imposta ou natural) de Vlachodimos a jogar com os pés, e de à mínima pressão jogar longo, tornando a 1ª fase mais exposta ao condicionamento adversário ou o alinhamento da linha defensiva, que demasiadas vezes deixou a desejar, aspecto essencial para quem quer defender com poucos à entrada da sua área. O ponto é que a estas questões foram sobrepostas outras positivas de forma regular (à excepção da Liga dos Campeões onde as fraquezas foram mais evidentes)
Bruno Lage teve obviamente mérito na forma como levou o Benfica ao título. Em circunstâncias adversas trouxe as ideias certas ( as possíveis também?) para o contexto em que encontrou a equipa. Fez o plantel acreditar até pela humildade que demonstrou “são os jogadores que estão a fazer de mim treinador”. Na gestão do grupo talvez não tenha sabido lidar com o facto de os jogadores mais influentes deixarem de ser os melhores, mas isto já é entrar no campo da especulação. Leva uma das melhores e piores sequências que um treinador do Benfica já fez. Ignorar qualquer uma delas não fará justiça ao seu trabalho.

Declaração de interesse: sou (orgulhosamente) co-autor do livro “O Efeito Lage” que aborda a época de Bruno Lage como treinador do Benfica na época 18/19"