sexta-feira, 24 de abril de 2026
BENFICA ARRISCA-SE A SER A MAIOR ESPINHA NA GARGANTA DE MOURINHO
As muitas coincidências com o que se passou em 2000. Uma vitória com Sporting que tudo precipita. Rui Costa hesita como Vilarinho? A semântica ainda vai estragar tudo...
A 20 de setembro de 2000, o mundo do futebol abriu a boca de espanto: José Mourinho foi apresentado por Vale e Azevedo como treinador do Benfica. Um jovem sem currículo chegava à Luz sob um manto de dúvidas e nenhuma certeza. Mais uma trapalhada de Vale e Azevedo?
Na altura, eu acompanhava a atualidade noticiosa do Benfica para A BOLA e a primeira coisa que me saltou à vista foi a forma como Mourinho projetava autoestima. Até alguma arrogância para quem ainda nada tinha ganho. Mas, no caso de Mourinho, era um fato que lhe assentava bem. As conferências de imprensa tinham conteúdo, já na altura falava dos jogadores, pedia mentalidade, criticava-os se fosse preciso – chegou a rasgar Sabry por ter demorado oito minutos a atar os atacadores antes de entrar em campo numa substituição – e provocou algumas críticas.
Mourinho mão entrou bem em termos de resultados: derrota no Bessa com o Boavista e empate em casa com o modesto Halmstads da Suécia, com eliminação precoce na Taça UEFA. Mas o discurso e a atitude cativavam e depressa se transformou para mim naquilo que os ingleses chamam de guilty pleasure. Irresistível. Como não gostar de Mourinho?
Uma vitória frente ao Sporting, por 3-0, no primeiro grande jogo da equipa, que deu de facto festival, levou Mourinho a pressionar o novo presidente, Manuel Vilarinho, a renovar logo contrato. Vilarinho que tinha assumido Toni, na campanha eleitoral, como escolha para treinador mas travou um pouco quando percebeu que Mourinho poderia ter algo de especial.
Foi o próprio José Mourinho quem reconheceu mais tarde que esticou a corda ao não dar grande margem a Vilarinho perante o ultimato. E Mourinho bateu com a porta. E alguns adeptos do Benfica, que já se tinham rendido ao treinador, invadiram a sala de imprensa com um garrafão de vinho em protesto com a Direção por ter deixado Mourinho partir. E desde esse dia se percebeu que para Mourinho ficara um amargo de boca e que, mais dia ou menos dia, haveria de voltar. Quando disse sim a Rui Costa, não pensou nada. Era agora que voltaria paracompletar uma missão.
Mais de 25 anos depois, Mourinho volta a vencer o Sporting e a mostrar uma ideia do que pode fazer com a equipa. Tal como então, gostava de ter um contrato de maior duração para poder trabalhar com um plano a passar do papel para o relvado. Tal como então gostaria de ouvir o presidente dizer algo diferente de ser um «não assunto» por ter contrato. Gostaria de ouvir Rui Costa dizer que ele é o melhor treinador que o Benfica poderia ter e que vai fazer tudo para que tenha condições de trabalhar, ser feliz e ficar muitos anos no Benfica.
Rui Costa não pode permitir que o silêncio ou o jogo de palavras seja lido como hesitação. Em 2000, o Benfica perdeu futuro por um braço-de-ferro desnecessário. Em 2026, o «não assunto» de hoje pode ser o não treinador de amanhã. A alguém com a dimensão de Mourinho é devido um sim ou um não claro, sem ses e sem mas… Nunca um talvez. Um sim ou um não, apenas, ambos legítimos. O inverso também é verdadeiro. A uma instituição com a dimensão do Benfica lhe é devida um sim ou um não, sem ses nem mas…
Mourinho regressou para pagar uma dívida e o tempo não deve ser gasto com semântica. E o Real Madrid pode mesmo estar a bater à porta de Mourinho. Até o treinador está incomodado, não quer que duvidem do quanto está com a cabeça na Luz.
Vinte e cinco anos depois, vários pontos em comum e um desfecho abrupto que se pode repetir. Se sair, Rui Costa será chamado a contas como Vilarinho? E ficará o Benfica como a eterna espinha na garganta de Mourinho? Que queria muito mmesmo voltar ao Benfica para, desta feita, ter tempo para vencer... Será que corre o risco de ser o one que, na Luz, voltou a não ter tempo de ser special?
Jorge Pessoa e Silva, in a Bola
ATENÇÃO! ESTES JOGADORES ESTÃO NA LISTA DE MOURINHO!
O LADO DIREITO DO MISTER | T2 | EP. 09 | O momento dos treinadores
quinta-feira, 23 de abril de 2026
DIREITOS TV: A RECEITA DO BOLO
No futebol português, há uma obsessão recorrente com o resultado final. Queremos mais competitividade, melhores audiências, estádios cheios e clubes capazes de ir mais longe na Europa. Falamos do bolo como se ele crescesse por geração espontânea, como se bastasse mudar a forma de o dividir para que, por milagre, ele aumentasse de tamanho. O problema é que insistimos em discutir a partilha antes de rever a receita.
A centralização dos direitos audiovisuais nasceu envolta numa aura quase messiânica. Foi apresentada como a solução inevitável para todos os males do nosso futebol: desigualdade competitiva, falta de atratividade da Liga, distância para os grandes campeonatos europeus. Liga Portugal, decisores políticos e parte significativa do discurso mediático alinharam numa solução única, importada de realidades profundamente distintas da nossa. Hoje, com o tempo a passar e os sinais de alarme a multiplicarem-se, esse consenso tornou-se uma armadilha.
Portugal não é Inglaterra, nem Espanha, nem Alemanha. Nem sequer é, em rigor, Holanda ou Bélgica. A nossa realidade clubística é singular e profundamente assimétrica: mais de 90% dos adeptos concentram-se em três clubes. Benfica, Sporting e FC Porto não são apenas clubes grandes — são fenómenos sociais, culturais e mediáticos que capturam quase toda a atenção, audiências e consumo emocional do futebol nacional. O SC Braga, com mérito desportivo e visão de futuro crescente, está na luta para romper essa barreira estrutural.
Ao mesmo tempo, a velha cultura clubística de bairro e de cidade foi-se esvaziando. Clubes históricos, enraizados em centros urbanos relevantes, desapareceram do mapa competitivo principal: Académica, Vitória de Setúbal, Beira-Mar à cabeça. A sua ausência não é apenas simbólica — é um golpe direto na capacidade de mobilizar públicos, gerar narrativas, criar rivalidades e maximizar assistências. Quem quer comprar um produto onde cidades médias e universitárias estão afastadas e onde muitos estádios vivem cronicamente às moscas?
É neste contexto que se insiste numa centralização pensada como panaceia. Mas os exemplos externos deviam servir de aviso, não de inspiração cega. O fiasco do contrato de centralização da liga belga e o colapso financeiro e reputacional da Ligue 1 francesa, com acordos irrealistas e operadores a recuar, mostram o perigo de sobrevalorizar um produto que não acompanha as expectativas criadas. O mercado não perdoa ilusões.
Há um dado que raramente entra na equação com a seriedade devida: o contributo decisivo dos quatro grandes para o ranking da UEFA. Portugal mantém uma posição europeia relevante porque Benfica, FC Porto, Sporting e SC Braga conseguem concentrar receitas suficientes para competir — com limitações, mas com dignidade — contra clubes de países com orçamentos incomparavelmente superiores e pontos de partida muito mais vantajosos. Retirar-lhes capacidade financeira em nome de uma competitividade artificial é um risco estrutural para o futebol português como um todo.
Sem esses pontos na UEFA, não há prémios, não há vagas europeias, não há visibilidade internacional, não há crescimento do tal bolo. Há apenas empobrecimento coletivo disfarçado de justiça distributiva.
Isto não significa defender um status quo imutável ou ignorar a necessidade de solidariedade. Pelo contrário. Mas a solução não passa por um modelo clássico de centralização que ignora as nossas idiossincrasias. Passa por pensar primeiro nos alicerces: redistribuição mais justa das receitas UEFA, reformulação dos quadros competitivos e investimento sério e obrigatório em infraestruturas.
É inaceitável que um clube da Primeira Liga jogue anos a fio em casa emprestada, como acontece com o Casa Pia. É incompreensível que o Rio Ave continue sem uma bancada que aparece nas transmissões televisivas. Quem quer comprar um produto que se apresenta incompleto, improvisado e visualmente pobre? A atratividade começa na credibilidade.
Os clubes com menos recursos precisam de critérios claros de desenvolvimento sustentável. Não podem continuar a ser empurrados para investidores em forma de D. Sebastião em nome de um sucesso imediato que raramente se concretiza. Esse caminho faz-se com mecanismos de solidariedade, mas ancorados em quem mais contribui efetivamente para a posição de Portugal na Europa. Não através de uma falsa competitividade que apenas retira recursos fundamentais aos motores do sistema e fragiliza o todo a médio e longo prazo.
A centralização, tal como está a ser pensada, arrisca-se a ser mais um caso de boas intenções e maus resultados. Um modelo rígido para uma realidade fluida. Uma solução única para um problema que exige nuance, diferenciação e coragem política.
Não é possível querer que o bolo cresça sem rever a receita primeiro. E enquanto insistirmos em copiar modelos alheios, ignorando quem somos e onde estamos, continuaremos a discutir a divisão de um bolo cada vez mais pequeno — convencidos de que o problema está apenas na faca.
Duarte Chastre, in a Bola
LEÕES SOFREM MAS PASSAM! SPORTING SEGURA 0-0 E VAI À FINAL 😱
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