segunda-feira, 13 de julho de 2026

CENTRALIZAÇÃO: DISTRIBUIR RECEITAS OU CRIAR VALOR?

 


A internacionalização da Liga Portugal não pode limitar-se à venda de direitos televisivos. Exige estratégia comercial global, presença digital, parcerias internacionais e uma marca forte.

Portugal continua obcecado com a centralização dos direitos audiovisuais. O debate resume-se quase sempre à mesma pergunta: quem recebe quanto?
Mas essa é apenas uma pequena parte da equação.
A verdadeira questão deveria ser outra: que futebol profissional queremos construir para as próximas décadas?
Hoje, no futebol profissional da I e II Liga, já não competem clubes. Competem sociedades desportivas, quase todas detidas, total ou parcialmente, por investidores privados e, em muitos casos, por capital estrangeiro. É esta a realidade do setor. Ignorá-la é discutir o futuro com os olhos postos no passado.
Ao mesmo tempo, importa ter coragem para discutir o atual modelo competitivo. Portugal dificilmente dispõe de mais de uma dúzia de sociedades desportivas com dimensão financeira, infraestruturas, massa adepta e capacidade de investimento compatíveis com uma I Liga verdadeiramente competitiva no contexto europeu. Talvez tenha chegado o momento de repensar a organização das competições profissionais, reforçando a qualidade da I Liga e criando uma II Liga mais aberta, sustentável e atrativa para investidores, patrocinadores e adeptos.
O Governo e a Autoridade da Concorrência justificaram a centralização com a necessidade de reduzir as diferenças entre as maiores e as menores sociedades desportivas portuguesas. Esse objetivo pode ser legítimo.
Mas, se o Estado entende que deve reduzir desigualdades dentro de Portugal, porque não demonstra a mesma preocupação em reduzir o enorme diferencial competitivo entre as nossas sociedades desportivas e os seus principais concorrentes europeus?
Queremos aproximar internamente quem mais fatura de quem menos fatura, mas continuamos a aceitar que as maiores sociedades desportivas portuguesas concorram em clara desvantagem fiscal, regulatória e económica perante a maioria das ligas europeias.
É aqui que deveria começar o verdadeiro debate.
Falar de centralização sem discutir o modelo competitivo, a fiscalidade do futebol profissional — IRS, Segurança Social, IRC e IVA —, os seguros de acidentes de trabalho, os lugares em pé nos estádios, a venda de álcool, as receitas das apostas desportivas, o combate à pirataria audiovisual e a simplificação regulatória é discutir apenas uma pequena parte do problema.
Todas estas matérias representam dezenas de milhões de euros por época. O seu impacto potencial é muito superior ao de alguns pontos percentuais na distribuição dos direitos audiovisuais.
Mas criar valor significa também vender melhor o futebol português.
Portugal continua excessivamente focado no mercado interno quando o verdadeiro potencial de crescimento está além-fronteiras.
Existem milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelo mundo. São potenciais consumidores de transmissões, plataformas digitais, merchandising, turismo desportivo e experiências ligadas ao futebol português. Continuamos, porém, sem uma estratégia clara para chegar às comunidades portuguesas de primeira, segunda e terceira geração.
Ao mesmo tempo, a internacionalização da Liga Portugal não pode limitar-se à venda de direitos televisivos. Exige uma estratégia comercial global, presença digital, parcerias internacionais e uma marca forte.
Existe ainda uma dimensão que raramente é discutida.
Num futebol cada vez mais global, a contratação de jogadores deixou de ter apenas uma componente desportiva. Tem igualmente uma dimensão estratégica e comercial.
Sem colocar em causa o mérito desportivo, a presença de jogadores provenientes de mercados como os Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, México, Brasil ou países africanos pode aumentar significativamente a visibilidade internacional da Liga, abrir novos mercados para os direitos audiovisuais, atrair patrocinadores e aproximar milhões de novos adeptos do futebol português. As grandes ligas compreenderam esta realidade há muito tempo. Portugal continua, em larga medida, a ignorá-la.
As maiores sociedades desportivas são também aquelas que mais contribuem para a economia nacional. São as que pagam mais salários, mais IRS, mais Segurança Social, mais IRC, mais IVA, mais seguros, mais investimento na formação, mais emprego qualificado e maior projeção internacional para Portugal.
Não são apenas empresas de futebol. São ativos económicos, sociais e culturais estratégicos.
O caso da SL Benfica Futebol SAD ilustra bem esta realidade. Atualmente arrecada cerca de 52 milhões de euros por época em direitos audiovisuais negociados individualmente. Com a centralização poderá perder parte desse valor. Mas se, em simultâneo, fossem implementadas reformas estruturais nas matérias anteriormente referidas, o impacto económico positivo poderia compensar largamente qualquer redução nas receitas audiovisuais.
Existe, contudo, uma dimensão praticamente ausente do debate.
A empresa Liga Centralização, criada para gerir os direitos audiovisuais, poderá futuramente abrir parte do seu capital a investidores ou fundos especializados na indústria do desporto. Existe hoje enorme liquidez internacional disponível para investir no futebol.
Essa entrada de capital pode representar uma oportunidade histórica para modernizar infraestruturas, acelerar a transformação digital, internacionalizar a Liga, reforçar a competitividade das competições e criar valor para todas as sociedades desportivas.
Mas há uma regra básica em economia: primeiro cria-se valor; só depois se vende uma parte desse valor.
Alienar parte do capital da Liga Centralização antes de tornar o futebol português mais competitivo será, muito provavelmente, vender barato um ativo com enorme potencial de valorização futura. Será permitir que investidores capturem uma riqueza que deveria ser criada, em primeiro lugar, em benefício das sociedades desportivas e do próprio futebol português.
A centralização pode ser uma excelente oportunidade.
Mas apenas se fizer parte de uma verdadeira reforma estrutural do futebol profissional português.
Caso contrário, passaremos anos a discutir como repartir um bolo demasiado pequeno, quando aquilo que verdadeiramente deveria preocupar-nos é como tornar esse bolo muito maior.
O futuro do futebol português não se decidirá apenas na forma como distribui riqueza.
Decidir-se-á, sobretudo, na sua capacidade para a criar.
Jorge Ribeiro, in a Bola

FALAR DE ANTÓNIO SIILVA E LEMBRAR SVILAR



 O Benfica tem em mãos um assunto delicado: o que fazer com António Silva? Deixar andar, renovar e emprestar, ou vender? Uma coisa é certa: falta confiança ao jogador, que está a desvalorizar-se. Vamos ver se o clube da Luz aprendeu alguma coisa com a forma como tratou Mile Svilar, hoje um dos melhores guarda-redes do mundo, que na Luz só perdeu tempo.

MILE SVILAR, 26 anos, guarda-redes titular da Roma, com quem tem contrato até 2030, está, ao dia de hoje, cotado como um dos melhores guarda-redes do Mundo. Svilar foi um dos maiores erros do Benfica no século XXI. Melhor dizendo, a forma como o clube da Luz manejou o seu desenvolvimento desportivo, foi desastrosa. Chegado ao Seixal com 17 anos, bastava olhar para a forma como jogava para se perceber que estava ali um predestinado, que era preciso fazer crescer sem pressas, dando-lhe confiança através de uma entrada gradual na equipa principal, ou, como sucedeu com Oblak e Ederson, fazendo-o rodar noutros clubes. Os guarda-redes, para quem os erros são sempre ‘fatais’, precisam de aprender a viver com eles, e a Svilar não foi dada, em tempo devido, essa possibilidade. Depois de ter sido o guarda-redes mais jovem a estrear-se na Champions (Benfica,0-Manchester United,1) com 18 anos, a 18 de outubro de 2017, e de, em Old Trafford, ter tido uma noite infeliz, foi-lhe tirado o tapete e retirada a confiança. Seguidamente, andou a perder tempo na Luz, até que em 2022 rumou à Cidade Eterna onde veio a suceder a Rui Patrício na defesa das redes dos ‘giallorossi’.
E por que razão estou a recordar Svilar? Porque, com António Silva, o Benfica encontra-se numa encruzilhada em que deve tomar decisões importantes. É público e notório que, depois de uma entrada triunfal, com Roger Schmidt, que o levou a campeão nacional e ao Mundial do Catar, o rendimento do defesa central encarnado tem sido cada vez mais errático, denotando falta de confiança e sendo responsável por falhas comprometedoras. Por isso perdeu a titularidade para Tomás Araújo, esteve ausente da América do Norte e não está a ter o mais promissor dos inícios de temporada.
Abrem-se três vias ao Benfica:
Mantém António Silva no plantel (está na última época de contrato) e deixa que o destino marque a hora; renova contrato com António Silva e coloca-o, fora do País, por empréstimo; ou, pura e simplesmente, vende os direitos desportivos do jogador a outro emblema, recebendo aquilo que o mercado determinar.
A escolha de um destes caminhos depende do estado de alma do jogador e daquilo que o Benfica pensa de uma eventual regeneração que inverta o plano inclinado em que se encontra.
Em minha opinião, para jogador e clube, a pior opção será a primeira, porque nenhum deles controlará a narrativa. A segunda é uma forma séria do Benfica dizer que acredita no regresso de António Silva à sua melhor versão. A terceira, a mais pragmática, será a que evitará que o clube corra riscos e que o defesa faça ‘reset’ à carreira.
Com a quantidade de jogos que tem no horizonte próximo, do ponto de vista do Benfica, este assunto pode ser tratado durante o mês de agosto, o que não obstacularizará qualquer que seja a decisão, nem prejudicará o jogador. O que não deve fazer é o que fez com Svilar, em que perdeu tudo, rendimento desportivo, investimento e, até, credibilidade como um dos clubes do mundo que melhor sabe fazer crescer os jovens.
PS1 - Uma nota mais, relativamente ao Benfica e ao crescimento dos jovens: Daniel Benjaqui, nascido em Lisboa, defesa-direito de 18 anos, campeão da Europa e do Mundo de sub-17 por Portugal, não engana, o futuro pertence-lhe. Fazê-lo crescer até atingir o tremendo potencial que tem, passa a ser responsabilidade de Marco Silva. Acredito que Benjaqui esteja em boas mãos.
PS2 - José Mourinho acreditou em Andreas Schjelderup numa fase difícil da vida do jovem norueguês, evitou a sua saída do Benfica, fê-lo crescer em confiança, testemunhou como o extremo foi importante para os encarnados na fase final da época, e terá sido com orgulho que viu o extraordinário golo que marcou à Inglaterra e, sobretudo, o compromisso defensivo que revelou, uma das teclas mais batidas pelo atual treinador do Real Madrid na interação com Schjelderup. Special One.
JORGE JESUS nunca teve medo de desafios, e foi através de uma notável capacidade de se reinventar que esteve seis épocas seguidas no Benfica (mais, só Janos Biri, entre 1939 e 1947); foi ainda o destemor que o levou a aceitar liderar o Sporting durante o consulado de Bruno de Carvalho e, cumprido esse ciclo, que começou melhor do que acabou, resolveu aderir a projetos no estrangeiro, sendo o trabalho no Flamengo aquele em que brilhou com maior intensidade. De permeio, cometeu o erro de regressar ao Benfica, uma passo que estava destinado, inevitavelmente, a um estatelanço ao comprido, como aliás sucedeu.
Campeão em Portugal, Brasil e Arábia Saudita, vencedor da Libertadores e duas vezes finalista da Liga Europa, Jorge Jesus, aos 71 anos, não tem de provar nada a ninguém enquanto treinador. O futebol português conhece-o muito bem, nas muitas virtudes e em alguns defeitos, há décadas, não tendo constituído surpresa a sua escolha para suceder a Roberto Martínez. Porém, é minha convicção que Jesus, na liderança da Seleção Nacional, vai ter o maior desafio da sua carreira, não só porque não tem experiência na função, mas sobretudo devido às múltiplas situações que terá de resolver, até ter uma equipa em que se reveja estabelecida.
Depois de 36 anos de carreira, tendo dirigido, alguns por mais de uma vez, 16 clubes diferentes em quatro países, Jorge Jesus já viu de tudo e o seu contrário, e experimentou, nas diversas fases da sua vida profissional, todos os sistemas possíveis e imaginários. Como, enquanto selecionador, não terá problemas de plantel, JJ pode adoptar um sistema base, construir variáveis, e a partir daí proceder a convocatórias que encaixem no que pretende. Felizmente para ele (e para nós, enquanto adeptos da Seleção), a clubite tem cada vez menos interferência no ambiente da turma das quinas, caso contrário, aí sim, Jesus teria um problema, especialmente porque os benfiquistas não gostaram que fosse para o Sporting, e os sportinguistas não gostaram que tivesse regressado ao Benfica.
Quanto aos propósitos anunciados na apresentação como selecionador nacional, Jorge Jesus disse tudo certo, não fugiu a nenhuma questão e foi coerente no plano que apresentou. Vinculado ao que afirmou, deve levar a teoria à prática, tendo como único objetivo o sucesso de Portugal, e sabendo que será julgado pelos resultados que obtiver. Mas, depois de uma vida inteira no mundo do futebol, JJ sabe-o melhor do que ninguém, e, tendo como propósito estar à frente de Portugal no Mundial de 2030, terá consciência de que os testes intercalares - duas Ligas das Nações e um Campeonato da Europa - são de capital importância, não só porque a Seleção Nacional tem um estatuto a defender, como ainda porque a fasquia que a FPF lhe impôs está bem alta.
Aguardemos por setembro e pela primeira convocatória para termos uma ideia do que vai na cabeça de Jesus, que deverá fazer escolhas assertivas perante a abundância de valores acima da média que tem à disposição. Para já, o passado de Jorge Jesus no futebol justifica que, mais do que dar-lhe o benefício da dúvida, tenhamos certezas quanto aos méritos que possui. Se Jesus continuar a ser Jesus (e assim o creio), manter-se-á com convicções fortes (que por vezes escalam para teimosia), preferindo ir ao fundo com as suas ideias, do que flutuar com as ideias dos outros. É esse Jorge Jesus que faz falta a Portugal.
José Manuel Delgado, in a Bola

As notas da primeira aparição pública do Benfica | TEMA DO DIA

                 

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