sexta-feira, 3 de abril de 2020

O PASSADO TAMBÉM CHUTA: RUI COSTA



"De quando em vez, os deuses do futebol enviam para a Terra verdadeiros génios que possuem um toque de bola que não pode ser chamado outra coisa senão divinal. Rui Manuel César Costa é um desses exemplos. Lenda do futebol nacional, e do Sport Lisboa e Benfica, Rui Costa é daqueles casos unânimes, um daqueles de que é impossível não gostar.
Dono de um drible de outro mundo, curto e veloz, senhor de um remate forte e portentoso, criador de passes de fazer inveja a qualquer médio desta e de qualquer outra geração. Senhoras e senhores, o “Maestro” era tudo isto!
Ver Rui Costa a jogar era como ver poesia em movimento, um daqueles jogadores em que o dinheiro do bilhete era bem gasto, pois para além de ver futebol, ainda se tinha direito a um espectáculo de magia. E que bom era ver tal coisa! Um 10 puro, como já não se vê hoje em dia.
No glorioso esteve (apenas) três anos no plantel principal, depois disso teve de mostrar o seu génio por terras italianas, para onde se transferiu para representar a ACF Fiorentina. Por lá chegou, viu e conquistou o coração dos adeptos “viola”.
De Florença mudou-se para Milão para representar o AC Milan, fazendo parceria com nomes como Paolo Maldini, Andrea Pirlo, Shevchenko, Filippo Inzaghi e Clarence Seedorf. Nomes incontornáveis da história do futebol italiano e europeu.
Com o passar dos anos, e com o término da carreira como jogador a aproximar-se, Rui Costa voltou ao “seu” clube. Tinha então 34 anos e mais duas temporadas pela frente.
Na Luz, mesmo já sendo um veterano, mostrou que a qualidade não havia desaparecido e realizou um desfecho de carreira incrível. A título de exemplo, na sua última temporada como profissional, o “Maestro” disputou 45 partidas e apontou 10 golos.
Mas havia chegado o dia em que os relvados perdiam um pouco de magia. Foi a 11 de maio de 2008 que o internacional português se despediu definitivamente da carreira de jogador profissional de futebol.
Fora dos relvados, o craque nascido na Amadora, ingressou na estrutura do SL Benfica, onde desempenha o cargo de administrador da SAD encarnada até ao dia de hoje.
No total foram 780 as oportunidades que os adeptos tiveram para ver Rui Costa a espalhar o seu charme e classe pelo relvado. Em 780 jogos como profissional marcou não só 121 golos, como a memória dos amantes do desporto-rei.
No seu palmarés conta com dez troféus conquistados entre Portugal e Itália. Ao serviço dos encarnados conquistou um campeonato nacional e uma Taça de Portugal. Em Florença conquistou mais três troféus: duas Taças de Itália e uma Supertaça italiana. Milão foi onde mais conquistou, tendo vencido uma Liga dos Campeões, uma Supertaça Europeia, a Serie A, a Taça de Itália e mais uma Supertaça italiana.
Na selecção nacional portuguesa, Rui Costa perfilou-se como uma das peças fulcrais do meio campo, até à chegada de Deco, pertencendo à famosa “Geração de Ouro”. Também ao serviço da selecção das “quinas” o “Maestro” conquistou, tendo sido fundamental na conquista do Mundial de sub-20 em 1991 que se disputou em Portugal.
Rui Costa era, então, o “Maestro” e cada jogo era um recital. Um jogador que certamente deixa saudades a quem teve oportunidade de o ver jogar. Era diferenciado e foi, sem qualquer dúvida, um dos melhores jogadores a passar pelo Sport Lisboa e Benfica."

MENSAGEM DO DIRECTOR DO JORNAL "O BENFICA"


"Vanguarda cívica.
Estranho combate, este, em que ao homem comum não é exigido mais do que cumprir uma completa inacção e observar o mais absoluto recato. Como se, afinal, fosse possível que indivíduos, famílias, comunidades ou países pudessem escapar, por milagre, à ameaça da inexorável pandemia…
Da inconsciência inicial acerca da natureza e do poder maléfico do vírus que por toda a parte foi apanhando os países desprevenidos e impreparados, passar-se-ia a uma conjunção de incredulidade geral: a inaudita virulência progredia a uma velocidade tal que, fosse onde fosse e fossem quais eles fossem, os recursos disponíveis cedo deixavam de parecer suficientes para conter ou retardar o pesadelo.
Agora, mais de um terço da humanidade se encontra em confinamento mais ou menos assumido; e, apesar disso, a peste continua a disseminar-se insidiosamente, afinal devastando de modo implacável todas as condições de vida, em todas as geografias.
Inseguros, frágeis e indefesos, alguns – os que continuavam entretidos com as pequenas incidências e competições do quotidiano – só demasiado tarde se dariam conta das fatais vulnerabilidades dos sistemas de defesa individuais e colectivos.
Em todo o caso, em órgãos de Estado, como em entidades públicas em que o espírito comum já era forte, houve quem, aqui e ali, tendo sabido ler os sinais que chegavam do extremo oriente, pôde tomar a tempo algumas providências que um realismo prospectivo deles decorrente logo aconselhavam.
Os sólidos canais de relação que a pulsão universalista do Sport Lisboa e Benfica estabelecera com a grande nação chinesa durante a última década, terão certamente sido contributivos para que a Direcção de Luís Filipe Vieira tivesse percepcionado a gravidade do cenário desde os primeiros dias de Março, antes de qualquer outro clube em Portugal, de modo a assumir um primeiro prudente conjunto de informações e medidas. Poucos dias depois, o Benfica anunciava uma segunda leva de resoluções mais abrangentes e firmes, cujo impacto se revelaria determinante além das fronteiras da Família Benfiquista, e terá ficado como um novo exemplo da vanguarda cívica que o Benfica sempre representou na sociedade portuguesa.
Fosse pela capacidade de mobilização dos recursos adequados, fosse pela determinação adoptada em todas as instâncias do Clube e do Grupo empresarial – e em especial na Fundação, como nas Casas do Benfica – ou, até mesmo, ao nível das próprias estruturas competitivas que naturalmente se mantêm em situação de confinamento, o conjunto de medidas adoptadas desencadeou e fortalece o mesmo solidário sentimento geral da responsabilidade social que os Benfiquistas sempre avocam nos momentos mais difíceis da nossa História contemporânea.
Carlos Moia, o responsável da Fundação Benfica, sintetizou de forma lapidar o contexto em que vivemos no Clube: "O Benfica reagiu com força, músculo financeiro e dimensão. É admirável a grandeza deste Benfica que, perante a enormidade deste embate universal, mobiliza todas as suas energias e actua a uma só voz, directo, incisivo, grande!"
E, se nestes momentos, nos sentimos talvez verdadeiramente "todos juntos" como nunca, porque, por enquanto, ainda é mais urgente estarmos todos no "mesmo clube", já ninguém tem dúvidas de que, no dia de amanhã, sairemos deste pesadelo ainda mais fortalecidos, mais solidários e mais úteis. Ao Benfica. E a Portugal.

José Nuno Martins"

A ALIMENTAÇÃO E A EXCELÊNCIA DO ATLETA


"Já Pitágoras na Grécia antiga defendia que os atletas deviam ter uma alimentação específica para atingir as suas façanhas olímpicas. Em vez da dieta tradicional mais rica em hidratos de carbono com figos, cerais e queijo, Pitágoras introduziu alimentos ricos em proteína como a carne.
Nos tempos modernos, de modo a optimizar os seus desempenhos, os atletas são assediados por diferentes padrões alimentares, como as dietas vegan, paleo, ceto e alimentos pobres em hidratos de carbono. 
Actualmente, considera-se que um padrão alimentar de excelência envolve diversidade de práticas alimentares, permitindo sustentar o treino e a competição, considerando os três pilares da nutrição desportiva: especificidade, periodização e personalização.
Afinal, o que é que os atletas devem comer? Esta especificidade resulta do tipo de esforço, isto é, das necessidades metabólicas das diferentes modalidades desportivas. Por exemplo, se se trata de um jogador de futebol, que realiza repetidos sprints de alta intensidade, este tem de ter especial atenção à ingestão de creatina, de forma a repor as reservas musculares de fosfocreatina entre sprints. Em provas de meia-distância de poucos minutos, a subida de acidez muscular é um problema que pode ser mitigado pela ingestão de bicarbonato de sódio ou beta-alanina.
Quanto à periodização, a nutrição tem de acompanhar os objectivos do treino, considerando que todos os dias são diferentes. O atleta talvez necessite de uma maior ingestão de hidratos de carbono e calorias num dia de treino intenso, em comparação com dias de treino mais leve.
Uma outra forma de periodização nutricional envolve a disponibilização deliberada de poucas reservas de energia, que vão promover maiores e melhores adaptações ao nível celular. No entanto, aumentam o stresse, desenvolvendo o risco de doença e de fadiga, pelo que esta estratégia só traz benefícios se for periodizada.
A nutrição desportiva mudou muito nos últimos anos. Personalizar a alimentação dos atletas de elite é primordial, uma vez que estes são diferentes de todos os outros atletas, não apenas porque treinam mais, mas também porque têm traços genéticos específicos para a modalidade, pelo que não respondem da mesma forma que a maioria dos atletas. Esta personalização deve considerar as expectativas, as experiências anteriores de sucesso e insucesso e também a interacção específica das biomoléculas existentes na alimentação com o organismo de cada um dos atletas. Por exemplo, a suplementação com o sumo de beterraba, que aumenta a capacidade de captação de oxigénio, não é tão eficaz nos atletas de elite, devido à diferente composição das suas fibras musculares resultante do grande volume de treino.
Em conclusão, uma alimentação de acordo com os três pilares da nutrição desportiva, ser específica, periodizada e personalizada, pode não tornar um atleta mediano num atleta de elite, mas, garantidamente, se não assegurar estes princípios, o atleta que poderia vir a ser de elite nunca passará de um atleta mediano."

FUTEBOL À PORTA FECHADA


"Futebol à porta fechada: tem pairado no ar essa possibilidade nos últimos dias. O momento é de grande incerteza e engloba todas as áreas da sociedade. O futebol não foge à regra e em Portugal, como por toda a Europa, tudo se encontra em suspenso, à espera que a tempestade passe.
Com a confirmação do adiamento do Campeonato Europeu de Futebol para 2021, abre-se uma janela para se poderem disputar as restantes dez jornadas da Primeira Liga, que Pedro Proença, presidente da Liga de Clubes, admite realizar, ainda que à porta fechada. Contudo, estará sempre dependente do que decretarem as instâncias governamentais sobre a matéria.
Para já, a hipótese em cima da mesa é terminar a temporada a 30 de Junho, pelo que é nesta janela de três meses que tudo tem que acontecer. Na óptica de Pedro Proença é fundamental que se termine a época desportiva, de modo a serem apurados os campeões da liga e perceber-se quem sobe e quem desce, para que depois a temporada de 2020/2021 possa decorrer dentro da normalidade.
Actualmente apenas um ponto separa FC Porto e SL Benfica na classificação, com os dragões no comando da liga. Mais abaixo, SC Braga e Sporting CP disputam o último lugar do pódio, separados por quatro pontos, lugar que dá acesso directo à Liga Europa. Na luta europeia encontram-se ainda Rio Ave SC, Vitória SC e FC Famalicão. Abaixo da linha d’água estão CD Aves e Portimonense SC, que há muito fazem contas à vida,e que são nesta altura os principais candidatos à descida. E agora? 
O campeonato está parado há mais de três semanas e as equipas impedidas de treinar, pois também estão sujeitas às medidas de isolamento social, pelo que a preparação física dos jogadores é sobretudo de cariz individual. São por isso levantadas algumas questões quanto à condição em que aparecerão os atletas, que dificilmente terão margem para uma espécie de pré-época, uma vez que o calendário será seguramente apertado.
Na jornada 25, o campeão nacional Benfica recebe o CD Tondela no Estádio da Luz. Com uma média de 52 479 espectadores por jogo, as águias são líderes do ranking de assistências na liga. O chamado “Inferno da Luz” costuma ser arma importante para empurrar a equipa para a vitória, um ambiente efervescente e por mais que uma vez elogiado tanto pelos próprios jogadores, como por adversários. Os restantes oponentes do Benfica em jogos em casa são: Santa Clara, Boavista, Vitória SC e Sporting. O dérbi que marca o fim do campeonato e que pode ser decisivo no desfecho final será também jogado sem público, o que em jogos desta natureza pode muito bem ser decisivo.
Com 35 625 espectadores em média por jogo, o Porto segue no segundo lugar do ranking de assistências e conta receber no Estádio do Dragão: CS Marítimo, Boavista FC, Belenenses SAD, Sporting CP e Moreirense FC. Em 12 jogos disputados em casa, o Porto apenas perdeu contra o Braga, na altura orientado pelo agora treinador dos leões Rúben Amorim, o que demonstra bem a força dos azuis no seu território. Com as bancadas despidas de público será interessante ver se mantêm a mesma consistência, com especial destaque para a jornada 32, um clássico à porta fechada. 
O Braga é apenas sexto no ranking de assistências, com uma média de 10 587 espectadores por jogo, no entanto é um clube muito acarinhado pela sua massa associativa. Há duas jornadas que podem ser decisivas para as contas finais do campeonato, a 28 e a 34, com Vitória SC e Porto como respectivos adversários. A rivalidade entre os de Braga e Guimarães é sobejamente conhecida e representam por norma jogos escaldantes, com a atmosfera criada pelo público a transferir-se para o rectângulo de jogo. Também aqui será interessante perceber o comportamento de ambas as equipas em resposta ao silêncio nas bancadas.
O Sporting, terceiro deste ranking, com uma média de 30 234 espectadores por jogo, poderá ser o clube que, no plano teórico, retira maior vantagem da situação. Para além das supramencionadas deslocações às casas dos dois maiores rivais, a próxima jornada ditou a visita a Guimarães, com os leões frente a frente à turma de Ivo Vieira, equipa que com uma assistência média de 16 910 espectadores se posiciona como quarta classificada no ranking, sendo o Berço tradicionalmente um terreno difícil para as equipas adversárias.
Este cenário é, claro, hipotético e está dependente dos mais diversos factores. A acontecer, colocará todos os adeptos agarrados às televisões, em suas casas, sozinhos ou com as suas famílias. Terá de ser assim, pela segurança de todos. Há ainda a questão das receitas de dia de jogo, que sem adeptos é inexistente, mas os prejuízos de não se terminar a temporada serão seguramente maiores do que haver futebol à porta fechada.
Com o prolongamento do estado de emergência, as pessoas continuam limitadas no que podem fazer e a possibilidade de ter futebol seria uma boa forma de se manterem entretidas. É um tema que certamente continuará a marcar a actualidade desportiva e em breve deveremos saber mais novidades sobre o assunto."

PRIMEIRAS PÁGINAS DO JORNALIXO TUGA


quinta-feira, 2 de abril de 2020

OS ÓTARIOS NÃO ACABAM ASSIM...


"Ginésio era um daqueles fulanos com jeito para tudo, embora tivesse sido preferível que não tivesse tido jeito para certas coisas

Dois caipiras e um colono italiano chegam a São Paulo. Perdidos na cidade grande, pascácios por natureza, deixam-se enganar por um malandrim que lhes vende um ’bonde’, que é como eles por lá chamam aos eléctricos. «Lá vem a lua por detrás da pimenteira/Já me dói o céu da boca de beijar moça solteira», ouvia-se na banda sonora do filme que contava essa história dos caipiras e do colono italiano e que tinha o título de Acabaram-se os Otários. Na vida real, os otários eram um só, um desgraçado de um mineiro burro que achou por bem gastar todo o seu dinheiro na aquisição de um ‘bonde’ a um caviloso sem escrúpulos. Isto passou-se em 1929 e Ginésio Soares de Arruda Junior tinha assinado o primeiro filme sonoro da história do cinema brasileiro.
Ginésio era um daqueles fulanos que tinha jeito para tudo, embora assim à distância até fosse de agradecer que não tivesse tido jeito nenhum para algumas coisas, como a música sertaneja, por exemplo, da qual foi um dos precursores sem ter percebido a devido tempo que estaríamos todos um pouco melhor sem ela.
Em Acabaram-se os Otários, Ginésio não se contentou em ser realizador. Como eram precisos dois caipiras, fez questão de ser um deles. A imagem colou-se-lhe ao pêlo como o chapeuzinho de palha se lhe colou à cabeça. Sentiu-se bem como parolo e só não se tornou num porque já o era desde o dia em que nasceu, em Campinas, no dia 28 de maio de 1898.
Não vale cair no exagero de dizer que Ginésio se limitou a ser caipira como caipiras eram os seus programas na_Rádio Tupi, de São Paulo, ou o seu grupo de teatro Genésio Arruda e Sua Gente. Se em 1929 fez o primeiro filme falado em portuguez, assim mesmo com Z, como anunciavam os cartazes, dois anos mais tarde saiu-se com outra novidade que deu brado por todo o Brasil: dirigiu Campeão do Futebol, com Otília Amorim, a cantora de Desgraça Pouca é Bobagem –
«Jurei, que nunca mais na vida
Havia de querer ninguém
Mas você veio sem piedade e compaixão
E entrou como um raio de sol
Pela janela aberta do meu coração»
– e Paraguassu, o tal que tinha o céu da boca dorido de beijar moça solteira mas ainda teve o descaramento de entoar:
«Foi num beijo verdadeiro
Que trocamos, o primeiro
A selar o nosso amor
E depois desse momento
Só me deste de tormento
Me tornaste um sofredor».
Convenhamos que é preciso pachorra para tanta caipirice...
Vem a calhar a pergunta: que fazem estes dois caipiras, Otília e Paraguassu, num filme sobre futebol? Estariam melhor em Acabaram-se os Otários, não se desse o caso de Paraguassu já ter passado por otário na película referente. Basicamente, limitam-se a cantar musiquinhas pouco imaginosas ao longo de uma espécie de biografia dos melhores jogadores brasileiros até à época. Biografia sim, mas bastante ficcionada. Ginésio tinha mais alma de palhaço do que de director. Talvez tenha sido esse o motivo para convidar gente com nomes tão estrambóticos como Araken Patusca, do Santos, ‘Ministrinho’, do Palestra Itália, ou Tuffy, o guarda-redes do Corinthians.
Friedenreich não podia faltar, mas esse nem era por causa do nome esdrúxulo, filho nascido de um imigrante alemão e de uma nega fulô que lhe servia de empregada, e sim porque todos o consideravam o melhor dos melhores. Além do mais era um actor nato, coisa que Genésio só conseguia ser através de papéis nos quais pudesse enrolar a língua e repetir a palavra aperreado para aí uma dúzia de vezes.
Arthur Friedenreich foi, sem dúvida, a estrela maior de Campeão do Futebol. Jogava então no São Paulo e estava à beira de tomar uma das decisões mais difíceis da sua vida: alistar-se no exército paulista para combater, de espingarda na mão, a ditadura de Getúlio Vargas. Foi sempre uma figura do espectáculo, até quando alisava a carapinha à custa de brilhantina para fazer de conta que era branco em vez de mulato. Diz a lenda que Fried, ‘El Tigre’, marcou 1329 golos ao longo da sua carreira. E que nunca falhou um penálti. O próprio alimentava esses número como quem dá milho a um canário. E dizia: «Uma mentirinha nunca fez mal a ninguém».
Já Pedro Sernagioto, que ganhara a alcunha de ‘Ministrinho’ por ter tomado o lugar de outro grande ponta-direita chamado Giovanni del Ministro, transferiu-se para a Juventus, de Turim, enquanto Araken Patusca de Oliveira abandonou o futebol para trabalhar num laboratório de produtos químicos antes de se tornar jornalista e escrever um livro com o título Os Reis do Futebol. Também daria um bom filme. Aliás, todos eles deram um filme. O filme do caipira Genésio. Infelizmente para todos eles o filme além de ser fraco foi do tempo do sonoro. Teria sido melhor vê-los em silêncio. Mesmo com a desesperante voz de Paraguassu ao fundo, em tremeliques de pinga-amor:
«Já tudo dorme, vem a noite em meio
A turva lua vem surgindo além
Tudo é silêncio; só se vê nas campas
Piar o mocho no cruel desdém».
Mais caipira era impossível. Campas e tudo."

ERAM CINCO EM SOMBRA DA TARDE!


"Organizou-se para obter verbas para a construção do Estádio da Luz. A I Corrida de Touros Sport Lisboa e Benfica, no Campo Pequeno. A chuva não afastou o entusiasmo. Salvação Barreto, que estava na moda por ter pegado uma fera no filme Quo Vadis, em exibição em Lisboa, quis repetir a façanha e teve ordem de prisão.

Vítor Gonçalves gostava de touradas. Era um jogador de classe. Primeiro como avançado puro, depois recuando um pouco no campo, tornando-se um médio de personalidade rara.
A sua paixão maior era a bola. Depois vinha a arena.
Quando o Benfica cumpriu 25 anos, foi um dos entusiastas pela garraiada promovida na velha Praça de Algés. Nessa tarde, Vítor estava feliz como nunca.
Não sei se, como dizia Garcia Lorca eram 'las cinco em punto de la tarde'.
Sei que a garraiada foi comandada pelo tenente-coronel Ribeiro dos Reis. Foi uma estreia, sim. Mas algo para repetir-se.
Goste-se ou não se goste, a tradição do touro está aí, na alma portuguesa. O Benfica não poderia fugir a esse chamado. Como não podia fugir ao chamado do Lorca, porque tem entranhada na existência um mundo de poesia: 'Ay, qué terribles cinco de la tarde! Eram las cinco em sombra de la tarde! Las heridas quemaban como soles!'.
Cinco em sombra da tarde. Nenhum de nós consegue fugir ao apelo do poema. Mesmo que as feridas queimem como sóis...
No dia 26 de Outubro de 1952, os dirigentes do Benfica decidiram ir ainda mais além. Organizaram a I Corrida do Sport Lisboa e Benfica. A receita reverteu em favor da construção do Estádio da Luz. O assunto era para ser levado a sério. Não se tratava de qualquer chinfrineira. De tal ordem, que o Benfica - SC Braga para o campeonato nacional até foi antecipado. Leiam, leiam: 'Não sofre dúvidas: acontecimento e dos maiores, esta formidável corrida de toiros que se efectuou no Campo Pequeno para o fundo de construção do novo estádio e parque de jogos do Sport Lisboa e Benfica'.

Festa e cadeia
Era a última corrida da época. Sublinhava a partida para o México do matador Manuel dos Santos. Cavaleiros: Simão da Veiga, João Branco Núncio, José Rosa Rodrigues e Francisco Sepúlveda; espadas: Manuel dos Santos, António dos Santos, Joaquim Marques e Francisco Mendes; moços de forcados: Amadores de Lisboa, com Salvação Barreto como cabo. 'Cartel primoroso que só o Benfica conseguiu organizar neste final de época. Todos os aficionados estão de parabéns, como também estão todos os adeptos do grande e popular clube português, que, uma vez mais, percebeu como é amado pela população de Lisboa'.
Não importava sol ou sombra. Nem foi caso para isso, porque desatou a cair uma chuva miudinha, irritante, daquela a que o povo gosta de chamar de molha-tolos.
Francisco Sepúlveda montante o Gama com laivos de pertinácia, sempre de frente para a fera, sem medos, com alegria e sem demoras. Mereceu a ovação. Tremenda ovação.
Manuel dos Santos, em trânsito para Tijuana, houve-se com um novilho de estadão, bicho largo, ancho, com a valentia e o pundonor que a afición lhe reconhecia, exponde-se com a capa e a muleta, deixando o bicho aproximar-se, quase lhe tocando de raspão, para arquear as costas, fugindo-lhe aos cornos cortantes, adornando-se em molinetes, entrando a matar al encuentro. Os sócios do Benfica ergueram-se para a despedida. O México esperava por ele.
Os pormenores tiveram fascínio. Leiam, leiam: 'Nuno Salvador Barreto, que em Lisboa está a pegar um touro desembolado num filme que se exibe três vezes ao dia (era o Quo Vadis, recordam-se?), quis repetir o facto ao vivo, e o representante da Direcção-Geral dos Espectáculos levou o seu zelo ao excesso de requerer a sua imediata prisão, que deveria, pelo menos, ser retardada para o fim do espectáculo para não privar o público do que estava anunciado, as pegas, porque o seu grupo, privado do cabo, que é a cabeça, ficaria acéfalo se não se tivesse, naturalmente, retirado'.
Há sempre uns figurões que gostam de impor a sua autoridade, por mais bacoca que seja. Salvação Barreto foi posto em liberdade pouco depois, mas impedido de assistir ao jantar oferecido pela direcção do Benfica na Adega Mesquita.
Entrou Francisco Mendes, acenderam-se as luzes do Campo Pequeno, que a tarde ia longa. O touro estranhou e baralhou-se. Perseguiu, aqui e ali, a própria sombra e estragou e baralhou-se. Perseguiu, aqui e ali, a própria sombra e estragou o trabalho do toureiro. Depois, no seu jeito de bem muletear, garantiu os aplausos de uma gente alegre.
Bem a chuva estragaria a noite do Benfica.
'Todos os cavaleiros, toureiros e forcados amadores brindaram ao Sport Lisboa e Benfica, cujos adeptos devem ter ficado satisfeitos com a gente dos touros sempre pronta para tudo que contribua para as boas relações da família portuguesa'.
Os touros, esses recolheram aos curvos, vermelhos de feridas em fundo negro.
O povo continuou a festa, aqui e ali, um pouco por toda a parte. A tarde não tivera futebol, mas fora popular como poucas..."

Afonso de Melo, in O Benfica

"LEVÁNTATE E MIRA LA MONTAÑA"


"Da minha varanda não se espreitam montanhas. Apenas o rio, os campos de arroz, às vezes o voo longo dos bandos de flamingos. Se me debruçar, espreito a solidão, hoje sem chuva. Algo veio aí para tornar todos os dias domingos. Alcácer tem as águas-furtadas espreitando a tristeza dos outros e já nem os cães uivam à noite porque, na sua intuição de cães, compreenderam a frase de Omar Khayaam: “Nem todas as tuas lágrimas apagarão a palavra escrita”.
Não, a palavra escrita nunca se apaga. Talvez por isso escreva, pode ser que me leias e não esteja, afinal, sozinho por entre muros brancos e pessoas que não vejo e só adivinho para lá das paredes. O tempo passa devagar como é próprio dos domingos, mesmo deste domingo que o não é. Ontem já foi tão longe, não foi? E, no entanto, olho o rio correndo para a foz e parece-me um dia normal. Se calhar, é esse o problema: é parecerem todos dias normais (vá lá, domingos normais) e estarem ao mesmo tempo carregados de mortes já morridas e outras mortes ainda por morrer. Como uma promessa sinistra neste fim de tarde em que o Sado vai consumindo a luz e as estrelas surgem, uma a uma, para fazerem desenhos no céu.
O sorriso moreno dos teus olhos devia levar-me de braços abertos às montanhas.
“Levántate y mira la montaña
De donde viene el viento, el sol y el agua
Tú que manejas el curso de los ríos
Tú que sembraste el vuelo de tu alma”, cantava Victor Jara. Era uma canção de crença. “Levántate y mira la montaña, coño!” Mirar a montanha é descobrir a miragem mais bonita que a noite seja capaz de inventar. Reconheço constelações de cor, e a escuridão do espaço faz delas poemas inteiros. Mesmo que não rimem.
“Levántate y mírate las manos
Para crecer, estréchala a tu hermano
Juntos iremos unidos en la sangre
Hoy es el tiempo que puede ser mañana”.
Não é tempo de apertar a mão de ninguém. Nem mesmo de irmão para irmão. Mas, acredita, ainda voltarei atrás para devolver o abraço que te devo."

PRIMEIRAS PÁGINAS DO JORNALIXO TUGA