quinta-feira, 3 de abril de 2025

DIFERENÇA ENTRE NÃO CORRER RISCOS E PISAR O RISCO



Bruno Lage, treinador do Benfica, deixou Florentino e Bruma de fora, a equipa dormitou quando chegou ao 2-0 e pensar no clássico quase custava pontos.
Um lateral-esquerdo a fazer de lateral-direito, um médio-defensivo emergente e um ataque novinho em folha. Bruno Lage, treinador do Benfica, poupou, ou experimentou, claramente a pensar no clássico de domingo com o FC Porto.
O técnico tinha dito que o foco era total, que só o Farense interessava, mas a equipa escolhida não dizia exatamente a mesma coisa. Florentino Luís, em risco de suspensão por causa dos cartões amarelos, ficou de fora, Bruma foi para o banco, ele que tem sido um dos melhores do Benfica em 2025.
O inovar, porém, rapidamente deu frutos e o Benfica depressa foi à procura do golo, com o primeiro lance de perigo a nascer de cruzamento da direito do lateral-esquerdo Samuel Dahl. O domínio era tal que o golo parecia apenas uma questão de tempo. E assim foi. Ao minuto 7, contra-ataque bem desenvolvido e Akturkoglu, em linha com a linha da bola, a empurrar com facilidade para o fundo da baliza algarvia.
O Benfica não levantou o pé e manteve o pedal a fundo, mantendo os algarvios à distância, mantendo a pressão e quase marcando novamente através de Pavlidis, que apareceu em posição de marcar, mas não conseguiu. Evitou Velho, mas a bola saiu pela linha de fundo. Era o minuto 18 e o jogo parecia um passeio no parque para os encarnados.




Dava praticamente para tudo, tão fácil estava, tão macia era a oposição do Farense e do seu setor defensivo. Um pontapé de canto dos algarvios rapidamente se transformou no 2-0: Trubin agarra a bola e com o pé direito lança Akturkoglu, este foge ao marcador e cruza para a área, Pavlidis domina, vira-se e atira para golo, com Artur Jorge a assistir da primeira fila.
O Benfica, porém, adormecia a pensar no FC Porto e Menino acordava, obrigando Trubin a trabalhar duas vezes. O Farense crescia, a águia dormitava e de um canto favorável aos algarvios nasceu não o 3-0, mas o 2-1. Cabeçada de Tomás Ribeiro a um metro da linha de golo.
O Benfica não era a equipa focada no Farense que Bruno Lage prometera ser quando saiu para o intervalo. Voltaria, pois, mais sério e concentrado e com Leandro Barreiro no lugar de Renato Sanches. Depressa o Benfica ameaçou e depressa o Benfica marcou, com bela jogada que culminou com passe de Pavlidis para Akturkoglu. O grego, em plena área, sem marcação.




Estava, ou assim parecia, tudo fácil outra vez. E outra vez o Benfica iria cometer o mesmo erro, subestimando o Farense, acreditando que o jogo estaria ganho. Os algarvios, teimosos, lutando pela vida, aceitaram o convite de uma equipa demasiado descontraída e reduziram mais uma vez, com belo cruzamento de Poloni para Rony Lopes.
Akturkoglu e Di María criaram perigo, confirmando regresso do Benfica ao jogo, mas o 3-2 dava para desconfiar e permitia ao Farense sonhar. As águias, zangadas, pediram penálti aos 72' — António Silva foi pisado por Pastor — e lançaram Belotti e Schjelderup para refrescar, mas o perigo estava do outro lado: cabeçada de Tomané e Trubin salvava o dia.
Aurnes já pisava terrenos de um lateral-direito, Dahl estava na esquerda, mais adiantado. Pode muito bem ser um daqueles casos em que um lateral joga melhor como médio. O jogo estava de tal forma fora de controlo que o Benfica e o Farense poderiam marcar ou sofrer. Trubin viu amarelo por demora a repor a bola em jogo aos 90+2'. E isso diz quase tudo.
DESTAQUES:
O melhor em campo: Akturkoglu (nota 8)
Jogo muito completo do internacional turco, que parece recuperado do abaixamento físico que o afetou, depois de um início de época fulgurante. Mesmo assim, terá estado tempo demais em campo, porque ajudou bastante Carreras no processo defensivo, e a partir dos 75 minutos começou a ser evidente que o avançado do Benfica queria, mas as pernas já não correspondiam. A tudo isto há que juntar dois golos, em que mostrou frieza e eficácia, e umas quantas assistências que rasgaram a defesa algarvia. Trata-se de um jogador que se sente bem com espaço nas costas dos defesas, mas que, ao mesmo tempo, tem qualidade técnica para manobrar em espaços reduzidos. Foi chamado à direita do ataque após a saída de Di María e manteve-se, dentro das limitações físicas que denotava, ligado ao jogo.




7 – Trubin – O guarda-redes ucraniano teve de mostrar serviço de qualidade para os estragos na sua baliza não serem maiores. Pelo menos em três ocasiões (22, 30, 42) foi um gigante ao evitar que os algarvios gritassem ‘golo!’. Sem hipótese nos golos sofridos, teve o seu ‘highlight’ no passe teleguiado para Akturkoglu, que esteve na base do segundo golo do Benfica.
5 – Dahl – O jovem sueco até começou a partida de forma empreendedora, mas cedo começou a perceber-se que a ala direita do Benfica se mostrava demasiado vulnerável defensivamente, quer pela ‘ausência’ de Di María nesse particular, quer pelas funções mais no miolo do terreno confiadas a Aursnes. Podia ter marcado aos 46 minutos (boa mancha de Ricardo Velho) e acabou o jogo a defesa/médio esquerdo, quando Carreras passou a juntar-se mais a Otamendi.
6 - António Silva – O internacional português fez um jogo de menos a mais. Depois de um início demasiado hesitante e pouco autoritário, foi crescendo no jogo e acabou por ser mais vítima que réu nos golos do Farense. Aos 70 minutos sofreu, dentro da área de rigor algarvia, um pisão que inacreditavelmente não foi sancionado com uma grande penalidade.
6 – Otamendi - Não foi pelo capitão que o Benfica passou por alguns calafrios e terminou a partida a pedir a hora. Excelente nas antecipações, teve de aplicar-se a fundo nos duelos com Tomané, um jogador experiente que sabe usar o corpo muito bem. Aos 22 minutos teve de dar o peito às balas, para evitar males maiores de um remate de Tomané.
5 – Carreras - O lateral galego fez um jogo muito mais em quantidade do que em qualidade, mostrando em muitas ocasiões dificuldade em acertar com o ‘timing’ para largar a bola. Acabou a ajudar Otamendi e António Silva, quando o Farense procurava o ‘Hail Mary’ que lhe valesse um ponto.
5 – Renato Sanches – Chamado a atuar como trinco, posição que não é a sua, já que se trata, por natureza, de um transportador de jogo, Renato começou manifestamente a não querer complicar, não se desposicionando e jogando a um ou dois toques. Na fase final da primeira parte percebeu-se que estava desconfortável e acabou substituído ao intervalo.
5 - Kokçu - Prometeu mais do que entregou. No começo da partida esteve disponível e ativo, indo buscar jogo à zona dos centrais, mas foi Sol de pouca dura, já que se apagou progressivamente, revelando pouca dinâmica e baixa intensidade. Aos 90+3 desperdiçou, por esgotamento, um contra-ataque prometedor.
7 – Aursnes – O dinamarquês é pau para toda a obra, tanto apoia o ponta-de-lança, como joga a lateral direito ou surge a fazer assistências letais (como a que realizou no golo inaugural). Foi o jogador que mais sentiu, por ficar desamparado e com demasiada área para cobrir, o regresso de Di María e a ausência de Florentino.
5 – Di María - O campeão do Mundo não sabe jogar mal, mesmo quando o faz a passo. A bola sai dos seus pés sempre redonda e em várias ocasiões realizou assistências de enorme qualidade. Mas tudo isto foram pormenores, porque nos pormaiores revelou falta de ritmo e condição física, não foi o ‘influencer’ que costuma ser e, do ponto de vista defensivo, entregou muito pouco.
7 – Pavlidis – Excelente jogo do avançado grego, que esteve bem nas tarefas que lhe eram pedidas: a dar a primeira luta à saída de bola do adversário; a oferecer, após grande trabalho, um golo a Akturkoglu; e a assinar um momento de enorme qualidade na jogada do segundo golo encarnado. Nitidamente confiante, um dos destaques da equipa encarnada.
5 – Barreiro – Fez a segunda parte a trinco, substituindo Renato Sanches, e sentiu as mesmas dificuldades coletivas do seu companheiro, em função da desarticulação defensiva da equipa. Foi generoso, mas esteve longe de fazer a diferença.
5 – Belotti – Entrou aos 75 minutos quando o Benfica estava mais preocupado em não sofrer do que em marcar. Com pouca bola e menos espaços ainda, valeu essencialmente pelo que lutou.
6 - Schjelderup – Muito ativo no flanco esquerdo, ajudou, em várias ocasiões, a que o jogo se passasse longe de Trubin.
– Amdouni – Entrou no lavar dos cestos para refrescar a direita.

Sem comentários:

Enviar um comentário