domingo, 31 de janeiro de 2021

ACREDITEM SE QUISEREM!



 "Os japoneses possuem o provérbio “pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota.” Ditado que aportuguesámos para algo parecido com “na vitória comemora-se, na derrota aprende-se.” Diferente era a posição de Napoleão Bonaparte, o qual dizia que o vinho na vitória era merecido, na derrota necessário…

Se os provérbios expressam algo que vem de antanho, baseados no senso comum ou na experiência, também dão origem a muitas crenças. Mas se por um lado quem vê caras não vê corações, por outro a cara é o espelho da alma… ou se saber esperar é uma virtude, quem espera desespera…
Ao pretendermos, aqui e agora, complementar o artigo anterior (“Sobre as crenças…”), fazemos esta pequena abordagem inicial porque nas redes sociais proliferam os aconselhamentos sempre aos outros mas relatos na primeira pessoa são quase inexistentes. É a agenda motivacional – "Quando pensar que chegou ao seu limite, irá descobrir que tem forças para ir mais além!"; "O único passo entre o sonho e a realidade é a tua atitude!"; "Nunca é tarde demais para viveres os teus sonhos!". Inexistente algo do género “Vou mudar de mentalidade para mudar o meu comportamento.” Ou “Não farei ao meu vizinho o que não quero que me façam a mim.”
Acreditarmos que seremos infalíveis, que poderemos ultrapassar os nossos limites, que conseguiremos atingir a heroicidade, é um ferrete gravado nos desportistas a fogo desde tenras idades. Ferrete inamovível quando ancorado, como é usual, na pedagogia da dor: “no pain, no gain” ou “a dor é o que diferencia os campeões das pessoas comuns.” Tanto a comunicação social como as redes sociais ampliam a formação destas crenças sem se preocuparem se são produto do nosso conhecimento ou se, efectivamente, são confirmadas pela ciência, isto é, se são verdadeiras.
O ser humano acredita – faz fé – numa ideia em primeira instância e só depois apresenta a justificação para essa crença. E muitas vezes acredita só no que quer acreditar independentemente da sua justificação ou da sua veracidade. Acreditar num conceito, numa ou outra ideia, é um impulso intuitivo e por isso mesmo a ausência de análises, de reflexões e de um espírito crítico geram preconceitos e vieses cognitivos. E deveremos estar atentos porque só há ‘influencers’ porque há os ‘influenced’...
Na esteira de Maria Luísa Soares (1), “embora algumas crenças não estejam sob o domínio da nossa vontade e nos submetamos a elas como a um conjunto de hábitos herdados ou adquiridos mas de um modo quase instintivo, isso não significa que não as possamos reavaliar, rever: elas não são totalmente irreversíveis e a revisibilidade constitui, de facto, um instrumento apropriado para compreender os diferentes tipos de crenças e as diferentes relações entre elas.”
A crença de que “pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota”, não será só uma prerrogativa dos desportistas. Também o é dos dirigentes desportivos e dos políticos. Que o diga Orwell (2) quando afirmou que “o segredo da governação consiste em combinar a crença na nossa própria infalibilidade com a capacidade de aprender com os erros cometidos.”
Recorrendo ainda a Maria Luísa Soares (1), o desejo humano de que as opiniões coincidam com os factos só pode ser satisfeito pelo método científico. “Só o método científico tem a prerrogativa de fazer com que as nossas opiniões coincidam com os factos, porque não são determinadas por nenhum factor humano, mas por uma ‘permanência externa’, algo sobre o qual o nosso pensamento não tem qualquer efeito, algo que afecta ou pode afectar qualquer ser humano. Essa ‘permanência externa’ garante um consenso, que ultrapassa a fronteira da opinião meramente individual e assume o carácter objectivo da verdade pública.” Verdade pública: uma noção que exige um acordo sobre assuntos concretos e reais com características inteiramente independentes das nossas crenças sobre eles.
Assim, só o método científico – com a dúvida, a incerteza e a falibilidade – poderá produzir conhecimento. Não o poderão produzir crenças injustificadas, infundamentadas ou não apoiadas em evidências verídicas… Ainda segundo a mesma autora, “a definição clássica de conhecimento como crença verdadeira justificada aponta para uma dupla relação do conhecimento com a da justificação e com a da verdade.”
Se nos preocuparmos em reflectir um pouco sobre o que tem sido a evolução da nossa sociedade somente nas últimas décadas, verificaremos que temos sido objecto de lentas mudanças na nossa forma de vida, imperceptíveis, às quais nos vamos acostumando ou até absorvendo sem delas darmos conta. Factos há que nos poderiam espantar há poucos anos e que aceitamos hoje em dia porque foram pouco a pouco sendo futilizados e hoje apenas incomodam uns poucos e deixam muitos na mais completa indiferença.
Em nome do progresso, da sustentabilidade, da estabilidade económica, da ciência e da tecnologia (normalmente esquece-se o lucro!), são pressionadas e esmagadas as liberdades individuais, a dignidade, a capacidade de raciocinar e de reflectir… e até o objectivo de viver. Estas arremetidas têm sido efectuadas lenta mas inexoravelmente, com a permanente cumplicidade das vítimas, submissas, acríticas, manipuladas, subservientes.
Já não há previsões para o nosso futuro desportivo e ou social e tudo reside numa enorme incógnita. Mas se continuarmos a acreditar no infundado só estaremos a ampliar essa incógnita.
O despejar contínuo de informações pelos ‘mass media’ – que não é conhecimento –, a desinformação constante, as ‘fake news’, o politicamente correcto e as crenças disseminadas pelos discursos que circulam nos meios de comunicação preenchem os cérebros daqueles que, sem uma capacidade de análise crítica, tudo aceitam, tudo absorvem e tolhem-lhes a possibilidade de distinguirem umas coisas de outras e toldam-lhes o raciocínio… Os ‘mass media’ e as redes sociais fazem o seu papel! Criam crenças injustificadas. Produzem ignorância e obscurantismo. E não é “perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”, porque, recorrendo a Sophia de Mello Breyner, eles sabem exactamente o que fazem. 
“Não há impossíveis.” Não há? Não, mas há altamente improváveis. “Ultrapassa os teus limites.” Ultrapassa? Não, os limites existem exactamente para serem limites, para não serem ultrapassados. 
Winston, a personagem principal de «Mil novecentos e oitenta e quatro» (2) resolveu, de facto, o enigma: “se ele pensar que paira, e se ao mesmo tempo eu pensar que o vejo pairar, então a coisa de facto acontece.”"

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