Autor: ISAAC JALÓ, 17 ANOS, ESCRITOR/ESTUDANTE
15 de Maio de 2002,
Quarenta e cinco minutos de jogo no Hampden Park em Glasgow. A partida corre sob o tempo de desconto na iminência do soar do apito de Urs Meier para fechar a primeira metade do jogo. Roberto Carlos tem a posse do esférico rente à linha lateral; procura jogar para o companheiro, Solari; toca e foge, rompendo assim o corredor esquerdo em velocidade; Solari entende o movimento do camisola 3 do Real Madrid e sem muita ciência, mas com muita elegância e serenidade, efectua um passe comedido a Roberto Carlos; Carlos, sem mirar e na tensão dos instantes finais do primeiro tempo, pressionado pela oposição de um adversário, lança a bola, em balão, para a grande área; a bola, redondinha, leva o seu tempo a descer e Zidane lá está, à espera de recebê-la. O francês finca firmemente o pé direito no solo e, após calcular com precisão a descida da bola, alça a perna esquerda pontapeando a bola para o fundo das redes do Bayern Leverkusen, fora do alcance do guardião Butt. É golo! Zidane corre eufórico e os seus companheiros perseguem-no. Mas que promenor de altiva classe, mas que momento de magia! Uma tradução imácula de magnânimidade criativa!
Seriam estas as palavras que marcariam as mentes e corações de milhões de madristas espelhados pelo globo terrestre. O grande momento de fascínio espontâneo produzido pelo enormíssimo Zinedine Zidane acabaria por selar o resultado final e determinar o vencedor da Liga dos Campeões 2002. E mais uma para o Real Madrid. Mais uma… após outras oito. O gigante espanhol, imperador europeu e mundial, clube de reverência, de prestígio, de enormidade estupenda produzida ao longo dos anos por cavaleiros de alvura no traje. Figuras como Raúl, Salgado, Ronaldo, Casillas, Roberto Carlos, Figo, Zidane e muitas outras, davam continuidade ao legado merengue e mantinham toda a honra e peso do nome. Real Madrid, colector máximo do troféu de maior reconhecimento na Europa, mas essa mesma Europa tornou-se num tabu para o seu maior conquistador e a frustração bateu às portas do Santiago Barnabéu. Os anos foram passando até que lhes foi diagnosticado o azar. Uma herança de grandiosidade via-se estagnada na memória de um passado que não se replicava no presente. Com o passar dos anos, o insucesso tornara-se num hóspede constante.
Na cabeça, sustem-se a imagem de ontem, dos muitos quilogramas de prata refulgente com orelhas grandes a ser erguida por craques como Di Stefano, Paco Gento, ou Puskás. Sustem-se a imagem do imperialismo blanco pela Europa fora, a jogar, a maravilhar e a conquistar. Los Blancos, Los Merengues, Hala Madrid! Assim fora, de 1956 a 1960, o Real Madrid conquistava cinco títulos consecutivos, não havia quem se impusesse a tão intrépido emblema. Deu-se um recesso no domínio à medida que outros clubes se assomavam na Europa. Mas em ’66 lá vinha o Real para aclamar a sua 6ª conquista na história. Seis em dez anos! Seis em dez… Mas o futebol europeu muda, reinventa-se e depois de largos anos de conquista, surgem os britânicos e os holandeses com o seu futebol total, e o alemão da Baviera, os britânicos novamente, os surpreendentes, e daí em diante um misto autêntico, a Liga dos Campeões torna-se propriedade de entidades múltiplas e o Madrid, por vezes aqui e acolá na prova, acaba negrejando-se na história, serena a dominância, desfigura o imperialismo que tanto se tinha feito imagem de marca. Mas em 1998, trinta e dois anos após a última conquista, o Real Madrid volta a erguer o título de campeão da Europa, o sétimo da história. O feito repetia-se na última Liga dos Campeões do século XX com uma vitória sólida frente ao rival doméstico, Valencia, e o nono título, o último em anos, ser-lhes-ia atribuído numa bela tarde de Primavera, em Glasgow, após um volley esotérico de Zinedine Zidane ter seduzido o mundo.
O que se evidenciou como um parque de diversões, tornou-se aos poucos numa geena. O futebol mudou muito, dizia e muito bem, o ex-técnico dos Red Devils, Sir Alex Ferguson. Vários factores condicionaram as alterações vistas nesta prova de calibre, a Liga dos Campeões. Dificilmente voltaria a ser a competição em que qualquer um poderia ganhar com um tanto de factor surpresa e um toque de genialidade individual ou colectivo.
Em 2003, os dados foram relançados, mas o Real ficou a um passo de repetir a final quando a Juventus os sacudiu para fora da prova nas meias-finais. Já em 2004, o Mónaco, que viria a ser finalista vencido nesse mesmo ano, despachou os Merengues ainda nos quartos-de-final. Os anos seguintes seriam de tormento para o Real Madrid, era o tabu europeu, um pesadelo multiplicado por seis anos. Por seis anos consecutivos viram-se eliminados numa fase precoce da prova. Isto na era do futebol moderno, do novo século, dos novos astros e das novas técnicas. E o grandiosíssimo Real Madrid, de 9 pares de orelhas grandes a ostentarem o Santiago Barnabéu, ausentava-se na festa. Primeiro por obra do Arsenal, autor do fenomenal recorde de invencibilidade na Premier League que na respectiva época ainda ecoava pela europa fora. Seguiu-se o Bayern Munique do eterno Oliver Khan, o AS Roma, o Liverpool e o Lyon por fim. Todos eles a amaldiçoarem consecutivamente o rei, outrora imbatível, todos eles a ridicularizarem e a desmancharem o blanco predominante na Europa, todos eles nos oitavos de final.
Com o passar dos anos, agravar-se-ia uma certa preocupação em relação à seca europeia do Real Madrid. Os melhores jogadores do mundo iam chegando, ano após ano, à capital espanhola para blindar o Real Madrid e levá-los muito mais além, mas os resultados não correspondiam as expectativas. Nem mesmo um plantel blindado de superestrelas conseguia furar a grande barreira, a muralha que limitava o clube madrileno aos oitavos-de-final. Até que chegou José Mourinho. Mourinho, el mister Mourinho, el salvador, pensaram. O melhor treinador contemporâneo, e até mesmo da história, tinha que ser a solução. Mas eles que se desenganassem. Mourinho conseguiria quebrar a maldição dos oitavos-de-final… seis anos depois, mas o mesmo limitar-se-ia às meias-finais. Esteve próximo, bastante próximo contra o Borussia Dortmund em 2013, mas faltou-lhe uma ponta de sorte.
Agora cabe a Carlo Ancelotti, com todos os recursos à disposição, a missão de concretizar um sonho que já se faz longo, um sonho que se tornou numa obsessão.
Sem comentários:
Enviar um comentário