quinta-feira, 14 de junho de 2018

A INFÂNCIA ENTRA EM CAMPO


"Começo a celebrar na próxima quinta-feira doze anos. Isto porque levo a sério a hipótese aventada pela revista Líbero numa campanha publicitária: nós, os homens, amadurecemos mais devagar, só celebramos o nosso aniversário de quatro em quatro anos, aquando do Mundial.
Nasci em 1974, com um par de semanas não me foi possível acompanhar o que se passou na Alemanha. Na Argentina cumpri o meu primeiro aniversário e se guardo recordações desses dias é porque, mais tarde, vi, vezes sem conta, as imagens de jogos com jogadores de calções e fintas curtos, cabelos desgrenhados em relvados e espaços circundantes caóticos, com demasiada gente a circular por ali. Espanha é, para mim, o mito fundador, uma madalena proustiana, misto de amargura e felicidade incontida, à qual regresso quando tenho dúvidas sobre a minha devoção. Então, as esporádicas televisões a cores tinham tons mais quentes e foi nesse calor que descobri o futebol bossa nova do Telê Santana, destilado, passe arredondado e condenado a falhar, romanticamente. Formei-me com uma derrota. No México já caminhava e as memórias indeléveis de tardes passadas a rever jogos gravados em velhas cassetes Beta levaram-me, muito tempo depois, a regressar a esses dias, reescrevendo a história dos meus heróis de Saltillo, no "Deixem-nos Sonhar". Não falhei nenhum Mundial, mas os primeiros amores são mesmo os que ficam, e quando penso em todos as outras fases finais, é por relação a Espanha e México que as meço.
Se um Mundial é aquilo que nele vemos e o lugar de onde o vemos, alimenta também uma história paralela. Guardo uma memória vívida de muitos dos jogos de todos os Mundiais. Sei onde os vi, quem estava comigo e recordo o som mágico de dias quentes, com a televisão ligada a dar jogos infinitos (por favor, não permitam a fase final prevista para o inverno do Qatar). Verão, futebol, férias. Um tripé sentimental em que me formei, por cima do qual corre uma história paralela e incidental: as derrotas e os perdedores, mas, também, os equipamentos berrantes que nos fazem sonhar; o cabelo do Valderrama; o Maradona a perseguir meia-equipa belga; o cromo do Whiteside em 1982; o Falcão a celebrar de braços abertos; de novo o Maradona, perto do abismo, a gritar junto à câmera; o Baggio a falhar um penalty; pior, o Sócrates a falhar um penalty; melhor, derradeiro momento glorioso, o Zidane a despachar o Materazzi.
Destes doze anos que levo, sei que o Mundial não é sobre futebol. É sobre atitudes, formação de carácter e ideais. É a nossa infância que entra em campo."

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