Os guarda-redes vivem sozinhos. Mesmo quando o estádio está cheio, mesmo quando a equipa ganha. Habitam um território estreito entre dois postes, como quem guarda um segredo que ninguém quer ouvir. Enquanto os outros correm atrás da bola para serem amados, o guarda-redes aprende cedo que o seu ofício é resistir. Cair. Levantar-se. Fingir que não dói.
Trubin sempre soube como seria. Aprendeu que a glória é um acidente raro e que o erro, esse sim, é um companheiro fiel. Um guarda-redes cresce a olhar o jogo de frente, como quem observa a vida por detrás de um vidro grosso. Vê tudo antes dos outros. O perigo, a mentira, o instante em que algo vai dar errado. E mesmo assim não pode fugir.
Naquela noite, porém, aconteceu uma coisa estranha. Daquelas que não aparecem nos manuais nem nas estatísticas. O jogo estava a morrer. O tempo escorria como um copo mal servido. E Mourinho, com o resto do banco, decidiu que já não havia regras a respeitar. Mandaram Trubin subir.
Um guarda-redes entrar na área adversária é sempre uma viagem a um país distante, Muitos veem-no como heresia. É o padre a abandonar o altar, o coveiro a deitar-se na cova. Mas Trubin não discutiu. Um guarda-redes não discute ordens quando o mundo está a acabar. Corre. Corre como quem foge de si próprio.
Enquanto avançava, lembrou-se de todos os outros. Dos guarda-redes que passaram a vida inteira sem marcar um golo. Dos que morreram anónimos, com as mãos inchadas e a memória cheia de remates defendidos que ninguém recorda. Pensou neles por um segundo apenas. E nada mais. Porque o futebol não permite nostalgia em zona de decisão.
A bola de Aursnes veio bonita, redonda, limpa. Veio como vêm as oportunidades verdadeiras. E Trubin saltou. Não como guarda-redes, mas como um homem que decide, por uma vez, não pedir licença ao destino.
O impacto foi seco. A bola encontrou a testa como se sempre tivesse sido ali o seu lugar. Depois, a rede. E depois o som. Um som que não era festejo, era libertação. Uma catarse, dessas que não se aprendem, só se soltam.
Durante alguns segundos, Trubin não soube o que fazer. Não sabia como se celebra um golo quando nasceu para evitá-los. Ficou parado, meio perdido, como se tivesse invadido uma festa errada. Os outros correram para ele. Abraçaram-no. Gritaram-lhe coisas que ele não ouviu. Porque os guarda-redes escutam o mundo de outra forma. Sempre à distância.
Mais tarde, quando tudo acalmou, alguém diria que foi épico. Outro diria que foi sorte. Os especialistas tentariam explicar com setas e percentagens. Trubin saberia a verdade: aquilo não foi um golo. Foi uma traição breve à sua condição. Um instante roubado a uma vida inteira de espera.
No dia seguinte, voltaria à baliza. Aos postes. Ao silêncio. Porque é aí que pertencem os guarda-redes. Mas ninguém lhe tira aquela noite. A noite em que deixou de ser o homem que impede uma história para ser, por uma vez, o homem que a escreveu.
Luís Aguilar, in a Bola

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