segunda-feira, 6 de abril de 2020

COVID: "EM NOME DA VIDA" - ORA


Neste centésimo artigo que em determinado momento os meus Bons e Estimados Amigos Diretor e sub Diretor do Jornal “A Bola”, respetivamente Vítor Serpa e Fernando Guerra, muito me honraram a periodicamente publicar na bola on line, matéria para a qual eu entendesse mais própria para o momento, (em especial na área do desporto ou outra para a qual lhe fosse associada), dando sequência ao que por mim foi referido no artigo anterior, eu proponho mais uma reflexão que o momento que para tal muito se nos exige.
Por coincidência (ou não) é publicado no decorrer dum tempo de quaresma, que para os crentes (como é o meu caso) se revela um tempo litúrgico de reflexão, oração, caridade, arrependimento, perdão e reconciliação fraterna.
E precisamente em plena semana santa, onde se celebra a vitória da vida sobre a morte de Jesus Cristo, que depois de escarnecido pelos soldados, em sofrimento atroz, com o rosto coberto em sangue por uma coroa de espinhos, vergastado, transportando a cruz a caminho do calvário, e nela foi cruxificado.
Que melhor exemplo de humildade ao oferecer a face ao odioso e ainda capaz de perdoar a quem tanto lhe infligiu a insuportável dor humanamente irresistível, mas, pelo facto da Sua ressurreição, dando ao mundo um sinal de esperança eterna!...
Neste contexto, usei três letras O.R.A. (OTIMISMO - RESILIÊNCIA - AMOR), que justificam os três elementos para os quais poderemos apostar numa dinâmica de intervenção qualificativa.
Contudo, e o tempo presente o potencia, não deixo cair em letra de fuga esta expressão O.R.A. de oração e olhando para dentro, tentar descobrir neste mundo transitório e passageiro o desejo de cada um, pela transcendência, encontrar o projeto do infinito.
Recorri para isso, ao pensamento do Cardeal Doutor D. Tolentino de Mendonça, poeta e escritor de singular exemplo de humilde civilidade, intelectual de referência, atual arquivista e bibliotecário da Santa Sé, conselheiro pontifício de Sua Santidade o Papa Francisco, escolhido para orientar o retiro quaresmal, que na sua extensa e obra de reflexão, criteriosamente bela, nos marca essa condição da disponibilidade para acolher os sinais de esperança através da oração.
Num momento tão exigente como este, que marcará a história do futuro, onde sentimos que mil abraços nos puxam para direções diferentes, onde mil vozes gritam urgência na conquista do essencial para viver, um vale de lágrimas nos afogam os sentimentos do amor pela vida, onde se torna fácil que a armadilha da conquista nos capture para uma agitação, que no fundo serve para ampliar a impotência e o medo, pedir pela ORAÇÃO a DEUS criador, para que nesta hora nos permita encontrar um sinal de confiança na resposta, e ajuda em ultrapassar estes momentos difíceis de desânimo, dúvida, cansaço, e reencontrar o direito a viver.
No poder da ORAÇÃO, continuando a seguir o pensamento de D. Tolentino de Mendonça, o espírito une-se à fraqueza do biológico e, através de DEUS /AMOR, nos dará forças para tocar no silêncio, e os nossos pés, com mais segurança são capazes de tocar na orla da Sua ausência e caminhar como mensageiros do tempo, sendo este medido segundo a segundo na ampulheta da vida e, tal como acrescenta Agostinho Hipo (sec. IV a.C.), o tempo presente das coisas passadas, o tempo presente das coisas presentes e o tempo presente das coisas futuras.
Dando agora significado a cada uma das letras evocadas de per si, O.R.A. abordo:
O. – OTIMISMO- começando por referir Winston Churchill (1874-1965) que nos descreve a diferença entre um otimista e um pessimista, em que um otimista vê uma oportunidade em toda a calamidade, e um pessimista vê a calamidade em toda a oportunidade.
O otimista é por natureza uma pessoa envolta dum entusiasmo cativante, denotando uma força irresistível, fazendo mesmo das oportunidades momentos soberanos para a concretização dos saberes, e no plano das ideias a capacidade de as tornar válidas pela sua aplicabilidade, como também refere Richard Bach (1936), em que qualquer ideia magnífica poderá ser importante, mas ao mesmo tempo insignificante caso não sejamos capazes de a colocar em prática.
O otimista tem a capacidade para se reinventar, nunca se escondendo na sombra das suas inquietudes, mas atrevendo-se e diferenciando-se para ultrapassar as dificuldades, vencendo-as. Pensando melhor, leva-o a agir com mais oportunidade de sucesso na transformação do sonho em realidade, construindo no seu mundo de sonhos um castelo, e como H. Thoreau (1817-1862), nos refere, se constróis castelos no ar, o teu trabalho não é em vão. É aí que devem ser construídos os teus castelos. Agora, não te esqueças, trabalha utilizando o ferro, a areia, o granito e o cimento para os sustentar. E o ferro e demais elementos são, nada mais, nada menos do que a dignidade, a coragem, o comprometimento, a honradez … e aí os teus castelos se transformam no suporte dos teus sonhos que te levarão ao sucesso.
O otimista nunca renuncia à conversão dos seus sonhos, por mais que seja o tempo que demorem a concretizarem-se e nessa paixão convertida no desejo de concretização, faz aumentar a criatividade e a inteligência, que tem o poder de facilitar o encontro das melhores opções para ultrapassar as mais vulneráveis questões.
Os otimistas fazem da perseverança o seu modelo de vida, têm melhor carater, o que lhes permite transferir para um patamar social o enriquecimento de padrões de melhor entendimento e aceitação.
Os pessimistas pelo contrário vivem de forma mais amargurada. Não acreditam neles próprios, carregam as ideias dum futuro como pesadelo, deixando-se asfixiar pelos obstáculos que vão encontrando pelo caminho.
Estamos num momento de reaprendizagem em cultivar uma ideia de futuro, ou novo estilo de vida, com base noutro elemento fundamental captação, que se chama:
R. – RESILIÊNCIA – essa teimosia saudável, como a capacidade de transformar a humilhação em glória, apresentando-se por vezes as angústias e as crises como base altamente significativa para se conseguirem estratégias de superação e assim, as circunstancias atuais da adversidade, como trampolim para obter a maturidade. Como refere Horácio ( 65-8 a.C.), a adversidade tem o efeito de fazer despertar os talentos que em circunstâncias próprias teriam ficado adormecidos.
O tempo meramente passa. Escapa ao nosso impulso racional retê-lo. Podemos fazer deste tempo de atribulação, atrocidade, penoso e conflituoso, uma arma de esperança para conquistar o futuro, porque quem é capaz de suportar tudo, atreve-se a tudo e quem vencer sem correr riscos, também triunfa sem glória, como nos refere A. Cury (1958) e viver é por vezes a necessidade de transferir a agonia em exaltação, sendo capaz de transportar na alma as pegadas da experiência vivida, no coração as causas para vencer e nos olhos as luzes duma renovada esperança.
Bem sabemos que as dificuldades dobram alguns homens. No entanto outros se vão reconstruindo, sendo importante avaliar a forma como caímos, mais importante, segundo Mandela (1918-2013), é refletir na maneira como nos devemos levantar, sabendo que não há sucesso que perdure, nem fracasso que seja eterno.
Como instrumento capaz de solidificar toda esta potência de energia vivencial, existe uma palavra mágica, que me atrevo a explorar, que é:
A.-AMOR – Como ficar indiferente às múltiplas fórmulas exemplarmente edificantes, tão ricas de conteúdo, de gente que coloca em circuito um estado de alma verdadeiramente solidário, com partilhas de excecional envolvimento comunitário?
Amigos mais distantes no espaço, mas mais próximos nos afetos. Famílias, que dão eco aos valores consagrados no sacrário da sua existência, onde juntos estabelecem códigos de resistência ao conflito e onde sobram olhares mais atentos, sorrisos mais ternurentos num tempo de reinvenção de atitudes capazes de usar a magia dos vencedores, reconstruindo projetos de vida que renovam a própria existência ao encontro da palavra mágica – AMOR.
E creio que é disto que muito precisamos. Estimular o AMOR, colocando-o na lista das prioridades e que pela sua potência criativa, tornará mais leve esta brisa que sopra … suave este tempo que voa … mais quente o amor fraterno que nos aconchega … mais bonito o olhar que nos abençoa … quando voltarmos a cruzar as nossas vidas.
FELIZ PÁSCOA – ALELUIA!...
José Neto: In a Bola

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