terça-feira, 9 de setembro de 2025

V. GUIMARÃES: E DE REPENTE... A CRISE

 


Ainda agora isto começou e já o Vitória está em crise. Magnífico. Uma equipa em construção, um plantel e um treinador rejuvenescidos e com futuro, ou seja, a tal «primeira época do resto das nossas vidas» com que intitulei o meu escrito de antevisão da época, a 29 de julho e já nos mergulhámos em crise. Disse, então, que este plantel se tratava da «construção do Vitória não do imediato mas do futuro próximo… saibamos ter a paciência que estes processos sempre implicam e iremos, estou certo, colher os frutos que merecemos». Usei uma palavra maldita: paciência. António Miguel Cardoso, no final do jogo que deu um empate contra o Arouca, veio anunciar que não continuaria no cargo caso o Vitória não consiga atingir esta época o 5.º lugar. Magnífico. Até que enfim que temos um Presidente exatamente como tantos adeptos aspiram, que a cada início de campeonato mais titubeante, manifeste que abandona. O nosso antigo treinador Zoran Filipović usou celebremente a expressão haraquiri que, sendo embora um ritual samurai, é utilizada para identificar as pessoas ou comunidades que conseguem ser os maiores inimigos de si próprias.

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Vamos a factos. O Vitória operou aquilo que se designa no futebol como uma revolução no plantel. Até eu, que acompanho muito lateralmente tudo o que extravase a bola a saltar em campo, percebi isso claramente olhando para as contratações, suas posições e suas idades. De quando em vez, terminado um ciclo de sucesso (como creio ser indiscutível ter sido o nosso), as equipas operam estas revoluções. É obviamente questionável a necessidade de o fazer mas digamos que é aceitável que se faça. Nisso, aquilo de que discordo é que uma revolução de plantel seja feita em simultâneo com alteração de treinador — e isto independentemente da valia de quem venha; por me parecer fazer falta um elemento de estabilidade do passado. Custa-me imenso assistir à saída de referências como Tomás Handel ou Tiago Silva mas uma coisa é certa: quando a decisão gestionária/desportiva seja de fazer a tal revolução, é evidente para todos que isso não pode ocorrer mantendo as principais figuras do período que termina. E convém não me esquecer que atletas com contrato só saem se com isso estiverem de acordo.
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Outro facto. Os adeptos do Vitória estão habituados a identificar os novos jogadores, a já os ter visto jogar e, com isso, gerar natural expectativa em os ver com a branquinha. O que não acontece com quase nenhuma das atuais contratações. É natural que isso gere alguma desconfiança e eu não sou diferente dos demais. Mas nisso só tenho uma solução: confiar em quem as fez, se me merecer essa confiança. Quando vieram para Guimarães Pedro Barbosa (Freamunde), Hernâni (Atlético), Bebé (E. Amadora), Ghislain Konan (ASEC Mimosas), Adama Traoré (Melbourne), Edmond Tapsoba (Leixões), Dalbert (Ac. Viseu), entre outros, não eram nem conhecidos nem vinham de clubes que fizessem adivinhar a sua qualidade. Mas tiveram-na. E um clube com as condições financeiras do Vitória tem de procurar pescar em águas desconhecidas. Penso que António Miguel Cardoso já nos deu razões bastantes para confiar nas escolhas que foram feitas num passado recente. E não tenho dúvida que os sócios do Vitória concordam comigo pois é essa a única leitura a fazer dos últimos resultados eleitorais. Penso que temos de confiar e fazer contas no final.
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Por último: a estabilidade. Sou um defensor acérrimo da estabilidade se acompanhada de projeto e resultados (financeiros e desportivos). Penso ter sido isso que os sócios manifestaram nas últimas eleições. Até consigo compreender o impulso do Presidente do clube de procurar afastar a pressão que está a ser colocada sobre um plantel e equipa técnica jovens, colocando-a sobre si próprio, mas acho que as suas declarações correm o risco de produzir o efeito inverso ao por si pretendido. Porque a criação de incerteza na sua continuidade ressuscita a chamada política vitoriana e toda a turbulência que acompanha as ambições pessoais de tantos, quando estamos saídos de umas eleições clarificadoras. O cumprimento dos mandatos é igualmente uma responsabilidade, pelo que penso dever ser clarificado não estar em causa a realização de eleições ao final de cada época menos conseguida; ou tornámo-nos no clube mais instável de todos. E penso ainda — aliás apelo — a que os adeptos deste histórico clube deem a estes atletas e a esta equipa técnica o tempo e o apoio de que necessitam para provarem o que valem. Não sejamos os maiores inimigos de nós próprios. Confiemos em quem nos governa, alguém que ainda há pouco reconduzimos, e deixemos os rapazes jogarem à bola.
André Coelho Lima, in a Bola

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