sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

ARBITRAGEM PORTUGUESA E HUMOR



 Como recentes intervenções dos responsáveis da arbitragem me levaram a recordar um episódio de Seinfeld e a sátira dos Gato Fedorento sobre Marcelo Rebelo de Sousa e o aborto.

Se o humor é demasiado sério para se levar a brincar, não podem levar a mal que intervenções dos mais altos responsáveis da arbitragem portuguesa, em defesa do setor, me tenham conduzido a um episódio de Seinfeld ou à sátira dos Gato Fedorento sobre a posição de Marcelo Rebelo de Sousa em relação ao aborto há muitos anos. Quer dizer, em primeiro lugar, que posso estar mesmo a ficar velho, e isso interessa nada a quem esteja ler, mas também que a realidade nunca está tão distante da ficção.
Vem isto a propósito da justificação do presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves, para suspender os programas na televisão (nos quais se explicava e justificava algumas decisões dos árbitros) «porque o nosso futebol não está preparado». No que me diz respeito, pouquíssimo para o grande esquema das coisas, muito obrigado. Compreende-se que o ambiente seja nada favorável a árbitros, que estes se sintam desconfortáveis, que todas as semanas se fale de arbitragens, já teremos mais dificuldades em compreender é como é que recuar depois de promessas de transparência e clareza pode ajudar. E que a justificação seja a impreparação dos outros para ouvir, aceitar ou perceber os árbitros. Se a moda pega, noutras áreas da sociedade, é uma chatice. Para não dizer um desastre ou coisa bem pior.
Luciano Gonçalves fez-me recuar, então, a um episódio de Seinfeld, no qual George Costanza percebe que a namorada está a acabar com ele quando lhe diz: «Não és tu, sou eu.» Essa personagem absolutamente brilhante, que diz ter inventado essa desculpa para acabar relacionamentos amorosos, insiste ser ele o problema. Até a namorada concordar. A cúpula dos árbitros não precisou de tanto ou tão pouco — somos nós que estamos impreparados para ouvi-los ou compreendê-los. Ponto final.
E, reconheço, às vezes é mesmo difícil. Se por um lado Luciano Gonçalves diz que não há jarra para quem erra, por não poderem os árbitros ser castigados, por outro há forma de penalizá-los para eles perceberem o que não pode acontecer, por exemplo não serem nomeados para jogos. Não é a mesma coisa? Ou há aqui mais que me está a escapar?
Em lugar de sair de cena, os árbitros deveriam prosseguir o caminho de reconhecimento do erro e ser claros na comunicação. Em novembro, por exemplo, o diretor técnico nacional de arbitragem, Duarte Gomes, considerou que foi mal assinalado um penálti contra o Benfica com o Casa Pia, por mão de António Silva. Apresentou argumentário, consciente ou inconsciente, de que se tratava de um erro claro e óbvio, para depois se acrescentar que o VAR não teve margem suficiente de clareza ou evidência para chamar o árbitro e indicar-lhe o erro. Há um erro do árbitro? Sim. Mas pode-se fazer? Sim. Mas há um erro? Sim. Mas pode-se fazer? Sim. Não vos faz lembrar nada? A mim lembrou-me a sátira dos Gato Fedorento sobre a posição de Marcelo Rebelo de Sousa em relação ao aborto, em 2007. «O aborto é proibido? Sim. Mas pode-se fazer. Só que é proibido? Sim. O que é que acontece a quem o faz? Nada», brincou Ricardo Araújo Pereira.
Nuno Paralvas, in a Bola

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