Passou vagamente despercebida a entrevista de Nuno Catarino, vice-presidente do Conselho de Administração da SAD do SL Benfica, talvez porque o momento da época é mais dado a anseios de curto prazo e bolas que entram na baliza do que a explicações acerca de como chegámos aqui e para onde vamos agora. A entrevista deu-se em moldes que fizeram lembrar as comunicações periódicas de Domingos Soares de Oliveira, antigo co-CEO da SAD, mas o contexto atual não deve ser ignorado. A poucos meses de uma eleição fundamental para a vida do Benfica, a entrevista de Nuno Catarino teve contornos indisfarçáveis de pré-campanha eleitoral. Depois de a ver e rever, encontro algumas pontas soltas, destacando três temas que me parecem os mais importantes a reter.
Metas de Receita: ambição ou irrealismo?
É o número mais ambicioso desta entrevista. Segundo Nuno Catarino, o Benfica propõe-se atingir os 500 milhões de euros em receitas em cinco anos, juntando a esse aumento muito substancial de receitas uma redução da dívida de forma sustentável e uma diminuição da dependência da venda de jogadores. Ninguém se dirá contra esta meta, mas, atendendo à receita média dos últimos anos, a rondar os 250 milhões anuais, ao objetivo definido na entrevista e à confiança com que foi afirmado, seria oportuno que o modo de lá chegarmos fosse descrito com algum detalhe. Considerando as fontes de receitas conhecidas e o que se sabe do que vai sendo feito e dito nessas áreas, a única bala de prata que poderia fazer disparar as receitas passaria por aprofundar o modelo vendedor, agravando ainda mais as angústias de milhões de pessoas que, munidas do mais elementar bom senso, entendem que o Benfica existe para vencer e não para vender.
O administrador da SAD do Benfica fala numa redução da dependência desse modelo, pelo que o aumento das receitas terá de vir de outras áreas — receitas comerciais, merchandising, bilhética e patrocínios —, nas quais a evolução positiva dos últimos anos está, ainda assim, muito longe de tornar este objetivo realista. É mencionado pela enésima vez o naming do estádio, uma hipótese que ressurge pelo menos uma vez por ano, mas que aparentemente continua longe de se concretizar, sendo o motivo incerto. Se o Benfica fosse uma marca com a dimensão internacional que está ao seu alcance, há muito que o naming do estádio teria sido definido e transformado numa importante fonte de receita.
Em matéria de bilhética e receitas de matchday, pouco ou nada foi partilhado. Sabe-se do plano em curso para aumentar o estádio, mas também esse esbarra nos limites do que é possível extrair do ponto de vista da receita. Sem uma aceleração da inovação, será difícil conseguir um aumento de receita convergente com a meta traçada. Quanto ao merchandising, o pouco que se sabe indica um deserto de ideias quanto a uma visão integrada de marketing que catapulte o clube para os níveis onde outros gigantes europeus estão. Serão necessários mais caminhos que tragam para o presente uma marca carregada de história, capaz de apelar aos mais diversos públicos, potenciar geografias e mercados inexplorados e aprofundar as lógicas de fidelização dos adeptos, dentro e fora do estádio. Talvez muito esteja a ser feito nesta matéria, mas o que se viu até aqui não é suficiente e traduz importantes oportunidades perdidas.
Bem sei que a entrevista foi anunciada como contendo «um plano ambicioso» para atingir os tais 500 milhões, o grande soundbite resultante deste momento de comunicação, mas nada nas respostas dadas torna claro como iremos lá chegar, donde é possível inferir que as expectativas serão manifestamente exageradas, pelo contexto pré-eleitoral, ou inconclusivas, porque, de facto, não existe um plano concreto. Daqui até à desilusão vai um pequeno passo.
Direitos televisivos: as novidades e as más notícias
A entrevista de Nuno Catarino foi também uma oportunidade para pré-anunciar aos benfiquistas um segredo relativamente mal guardado: um aumento das receitas televisivas na próxima renovação de contrato com a NOS para as próximas duas épocas, até vigorar a tão afamada centralização dos direitos. Será um aumento relevante para as próximas duas épocas (no contexto do atual volume de receitas), mas a essas novidades devemos juntar as mais que prováveis más notícias.
O modelo de centralização previsto a partir de 2028, aliado ao declínio na valorização de produtos de qualidade superior ao nosso — vide direitos da Ligue 1 ou da Serie A —, torna a ideia de manter ou aumentar estas receitas, face aos níveis registados ao longo da última década, uma autêntica miragem. Se o cenário for como se prevê, facilmente poderemos excluir mais uma dimensão que, teoricamente, permitiria à SAD potenciar as fontes de receita existentes para se aproximar dos tais 500 milhões.
Sobre o que o modelo de centralização português representa, os protagonistas parecem esperar que algum milagre aconteça até ao dia em que for necessário discutir a qualidade da nossa Liga com eventuais interessados. Acontece que os interessados já disseram ao que vêm, e é difícil censurá-los. Vale a pena relembrar a entrevista de Jorge Pavão de Sousa, diretor-geral da DAZN Portugal, em que este explica o irrealismo da autoavaliação feita pela Liga, situada acima dos 300 milhões de euros. Talvez a tão almejada equidade chegue finalmente ao futebol português e sacrifique a competitividade do clube que mais fez nos últimos anos para valorizar o país fora de portas, um clube que representa estatisticamente a maioria dos adeptos de futebol em Portugal, um clube que, espantosamente, pouco ou nada tem a dizer sobre esta matéria, parecendo esperar por um milagre ou pela inevitabilidade que mais tarde se lamentará.
Cortes de custos e a história que não é contada
Nuno Catarino anunciou uma redução de 7% nos custos com pessoal e de 10% na rubrica de F Ascendentes FSE (fornecimentos e serviços externos). Por um lado, questiono o que norteou essa redução de custos com pessoal, para lá da mera ótica financeira. São referidas pessoas mais jovens para realizar o mesmo trabalho dos seniores que lá estavam, mas em nada isso garante objetivamente uma melhoria do output qualitativo da operação empresarial. A sensação que tenho, observando o Benfica a partir do meu lugar, é de que é necessário muito mais do que uma simples redução de custos para garantir os saltos de que o clube precisa nas mais diversas áreas que poderão aproximar-nos do salto quantitativo nas receitas e transformar a natureza vendedora que subjugou o Benfica ao longo da última década.
Em relação à rubrica de FSE, a entrevista é reveladora de algum desconforto com o tema, deixando por esclarecer, afinal, porque é que o Benfica tem gastos médios com FSE muitíssimo superiores aos de adversários internos e que comparam mal com clubes europeus situados no mesmo patamar financeiro, próximo dos 100 milhões em valor médio. À falta de melhores e mais transparentes esclarecimentos sobre o que está contido nesta rubrica (já desisti de acreditar nessa possibilidade), será importante perceber como irão estes gastos evoluir a partir daqui e se a redução de 10% sinaliza uma tendência para manter. O que sabemos, e isso é possível já extrair da gestão que trouxe o Benfica até aqui, é que o mandato atual se notabiliza por um desfasamento trágico entre a capacidade financeira do clube e o seu desempenho desportivo. Neste fosso que separa os euros arrecadados dos troféus conquistados está a realidade com que nos deparamos dia após dia: o reforço ou a erosão da identidade do Sport Lisboa e Benfica. O saldo não é positivo — e o anúncio de futuros risonhos não emenda o caminho errático que foi feito até aqui.
Vasco Mendonça, in a Bola