Era o regresso de Turim, onde o Benfica mesmo perdendo se bateu e discutiu o jogo como lhe competia, com a personalidade que é exigida a um grande clube. Sem conseguir os ambicionados pontos, o caminho era voltar a casa para cumprir a obrigação de vencer na receção ao vizinho Estrela da Amadora. Entre duas montanhas europeias difíceis de escalar, nada como um jogo mais acessível para lavar a alma da equipa e dos adeptos. Vitória clara, consolidada na segunda parte, com momentos felizes e um ambiente propício.
De volta ao campeonato, José Mourinho surpreendeu, e depois percebeu-se, porque já seria a hora de estrear o lateral de apenas 17 anos, Banjaqui. Por um lado, poder integrar mais um jovem de qualidade é sempre positivo e, ao mesmo tempo, permitir a Dedic algum descanso era conveniente. O lateral bósnio vem sendo um dos maiores dinamizadores da equipa quando se trata de atacar, sendo por isso uma arma fundamental para mais logo confrontar Carreras. Ao mesmo tempo, e não menos importante, o confronto com Vinícius Júnior espera-se duro, ou não fosse o internacional brasileiro um dos mais velozes alas do planeta.
Um duplo duelo que se espera interessante e que vai exigir de Dedic uma noite de grande concentração e desgaste. Muita responsabilidade, portanto, ofensiva e defensiva, para o lateral bósnio que, quem sabe, pode vir a significar a diferença neste histórico reencontro.
Noutro âmbito e em época de exageros vários, também linguísticos, vulgariza-se o termo épico, por nada de extraordinário, palavra que deveria estar reservada para momentos distintos e realmente especiais. Isto tudo para dizer que mais épico e perfeito não poderia ser o contexto do golo que fechou a vitória frente ao Estrela. À qualidade da primeira titularidade de Banjaqui, já só faltava mesmo uma assistência, e ela viria nesse inspirado momento. O que dizer do primeiro toque na bola de Anísio na sua inesquecível estreia, de verdadeiro cabeceador, a cruzamento do seu parceiro de carreira? Será que temos finalmente no Benfica um homem de verdadeira dimensão aérea? Promessa boa, mas sem pressa...
Na Luz viveu-se, então, um jogo diferente que trouxe lembranças boas de outros tempos, não pelo especial brilhantismo exibicional, mas pelos vários momentos especiais que proporcionou, um dos quais o regresso de Pavlidis à felicidade. Agora é a vez da Liga dos Campeões cuja qualificação é quase uma miragem, mas é ainda possível, dependendo desde logo deste confronto histórico, de boa memória, para honrar e tentar vencer.
Pela metade
A arbitragem está longe de ser o meu assunto preferido e evito sempre discussões estéreis, que são uma perda de tempo, quase sempre desvirtuadas pela tendência clubística de cada um. Mais uma vez, ninguém nega a grande dificuldade que arbitrar representa, mas também é impossível ignorar o fraco e ultrapassado critério da nossa arbitragem. Não é melhor quem apita mais. Eu sei que é uma ideia básica, mas por vezes quando se é mau de mais, é ao básico que se deve voltar. É uma regra da qual, quer equipas, quer jogadores, também por vezes se devem lembrar.
Quem lidera o jogo é o árbitro e tem a responsabilidade primeira de respeitar o público seja ele qual for, e não é parando o jogo consecutivamente que tal se consegue. Não é só uma opinião, porque são os factos e os números que o confirmam. O número de faltas e cartões ditam o tempo de jogo útil pela metade. A quem ainda tem dúvidas é comparar com outros campeonatos.
O último jogo na Luz é só um exemplo, como muitos outros, em que só se joga uma parte. Não tem a ver com um jogo específico nem com as respetivas equipas, mas com perfil triste e ultrapassado que importa inverter. Se a formação de árbitros é má como parece ser, que cada um dos árbitros tenha personalidade para individualmente fazer a diferença.
Alegria de mais
A emoção e a alegria de um golo decisivo obtido no final de um jogo toldam, por vezes, o discernimento do autor da proeza. É difícil de entender que alguém tire a camisola estando já amarelado, mas não é uma situação única e tendo jogadores mais experientes como intérpretes.
Desta vez aconteceu recentemente a João Fonseca, valoroso central da equipa B do Benfica, marcador do golo da vitória frente ao Chaves, já em tempo de desconto. Ter sido o segundo golo da sua carreira é uma relativa atenuante. Será admissível pela euforia de um goleador novato, mas só uma vez. Agora é fazer mais golos para compensar.
Sonhos
Vivemos tempos de crítica fácil, muita dela emitida por quem inveja o sucesso alheio e por quem gostaria de ter feito carreira, mas pouco sabe do que fala. Muito criticar e pouco valorizar é uma tendência bem lusitana e mais do que nunca atual.
A grande popularidade do futebol também resulta de ter sido jogado um pouco por todos na rua ou na escola, nem que seja a guarda-redes e em balizas de duas pedras. Que saudades dessa infância... O muito tempo que entretanto passou deixa na maioria dos antigos miúdos, agora graúdos ou velhotes, a ideia construída pelos sonhos de criança, que eram melhores com a bola do que na realidade foram. As memórias e os desejos retratam os diferentes caminhos da vida.
Rui Águas, in a Bola

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