Dos 15 minutos à Benfica... à noite de castigo à José Mourinho. Com um mês de janeiro decisivo, os encarnados, mais que hotéis, precisam de um espaço para relaxar.
Em 1972, a 22 de março, após ter perdido 0-1 na primeira mão, em Roterdão, o Benfica precisava de anular a desvantagem na Luz para eliminar o Feyenoord e seguir para as meias-finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. A vencer 2-0, golos de Nené (6’) e Jordão (31’), as águias voltaram a ficar encostadas às cordas quando os neerlandeses reduziram, por Van Hanegem (75’).
Com reta final louca a acelerarem em quinta a fundo, os encarnados marcaram por mais três vezes em curto espaço de tempo, obra de Nené (82’ e 89’) e Jordão (87’), e triunfaram 5-1. E aí nascia o célebre 15 minutos à Benfica, expressão que depois sempre dispensou explicações. Era elogio puro, significava vertigem, domínio, autoridade — um jogo equilibrado podia transformar-se numa sentença definitiva em instantes. O poderio do Benfica decresceu ao longo das últimas décadas e hoje já não se ouve com a mesma frequência e entusiasmo.
Em 2026, a 6 de janeiro, o Benfica inaugurou um hotel com o nome do clube, num momento em que a equipa atravessa uma fase negativa, agravada pela derrota frente ao SC Braga nas meias-finais da Taça da Liga. A inauguração da unidade hoteleira na antiga sede da Rua Jardim do Regedor, no centro de Lisboa, foi apresentada como mais um passo na afirmação do Benfica enquanto marca global. Os benfiquistas aceitarão — e até aplaudirão — o crescimento estrutural, mas continuarão a medir a grandeza pela magia nas quatro linhas e pelos troféus conquistados com ou sem aquele quarto de hora imortalizado em épocas de verdadeiros monstros sagrados.
José Mourinho sabe que o futebol vive de resultados e que estes não têm acompanhado o peso do prestígio que o Benfica carrega. Às dificuldades no relvado somam-se raspanetes em público do special one aos jogadores — curioso para perceber que quota-parte de responsabilidades assumirá entretanto…
O discurso do técnico torna-se repetitivo e a eficácia da mensagem será testada durante este mês de janeiro em que se decidirá o futuro do Benfica na Taça de Portugal e na Liga dos Campeões, agora que qualquer partida da nossa Liga é também uma final tal a distância de uma dezena de pontos para o líder.
Dos 15 minutos à Benfica… à noite de castigo à José Mourinho. A decisão de pernoitar no Seixal depois do desaire com os bracarenses em Leiria, na quarta-feira, por muito que fosse justificada com a manutenção dos planos já delineados, foi manifestação de força de um líder que desejara logo na conferência de imprensa insónias ao plantel.
Seja no Benfica Campus, no 1904 Benfica Hotel ou nas respetivas casas, pouco interessará onde os jogadores vão dormir, desde, claro, que não adormeçam em campo como aconteceu na primeira parte com o SC Braga, entre outros exemplos na atual temporada, inclusive na recente visita à Predreira para o campeonato diante do referido adversário.
Talvez o próximo passo de Rui Costa devesse ser abrir um Benfica SPA, onde os encarnados possam relaxar após os infortúnios e encontrar energia positiva para recuperar os 15 minutos à Benfica de outrora. Porque, afinal, entre hotéis, comunicados e conferências, o único check-in que os adeptos exigem continua a ser o da bola dentro da baliza.
Paulo Cunha, in a Bola

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