segunda-feira, 16 de março de 2026

RUI COSTA TEM A PALAVRA

 


Estamos a nove jornadas do fim da temporada-zero de José Mourinho no Benfica. A bola está nos pés de Rui Costa, que terá de optar entre um projeto de longo prazo e a vertigem da fuga para a frente. Nos tempos do ‘maestro’, era certo e sabido que o passe seria certeiro. E agora?

É sempre imprudente, quando falamos de futebol, avançar previsões demasiado estreitas, porque não faltam exemplos de improbabilidades que desmentiram as ‘odds’. No entanto, creio que não estarei a ir longe demais se disser que o Benfica tem entre cinco e dez por cento de possibilidades de ser campeão nacional, e entre vinte e cinco e trinta de terminar em segundo. Para chegar a estes números não possuo quaisquer bases científicas de suporte, apenas um ‘feeling’, pessoal e logo subjetivo, que radica no calendário de cada um dos três primeiros e nas sensações que têm deixado.
Será, pois, avisado, que os encarnados (seguindo o lema «espera o melhor e prepara-te para o pior») comecem a trabalhar na temporada de 2026/27, partindo do princípio de que vão jogar a Liga Europa, ou seja, conhecendo as balizas que irão definir o investimento, e sabendo que podem planificar a preparação sem condicionalismos de pré-eliminatórias e ‘play-offs’. Se estes passarem a estar na equação, será, na ótica encarnada, por uma boa causa…
E há Mourinho, um dos melhores treinadores do mundo, que já afirmou a sua disponibilidade para dar corpo a um projeto no Benfica que vá para além da espuma dos tempos.
Será justo que se considere 2025/26 a época-zero de José Mourinho no Benfica, porque já apanhou o comboio em movimento e, essencialmente, porque teve de se adaptar a um plantel que não escolheu. Se, para 2026/27, não lhe faltarem com a estabilidade, e lhe derem os meios (mais na lógica de se enquadrarem no modelo de jogo que pretende, do que olhando para a questão dos custos…), o Benfica não só ficará mais perto do sucesso, como lançará bases para a continuidade que tem faltado.
O percurso do Benfica, nesta fase, não pode considerar-se entusiasmante, embora, ao longo da época, tenham surgido alguns vislumbres do que é possível vir a acontecer, assim os dirigentes mantenham a cabeça fria e acreditem na forma de lá chegar: os jogos, na Luz (onde o Benfica poderá ter hipotecado a Liga ao empatar com Santa Clara, Rio Ave e Casa Pia – juntando-se a estes ‘desastres’ o empate em Tondela) com o Nápoles e, sobretudo, com o Real Madrid, foram francamente bons e podem ser considerados pontos de partida interessantes.
Se Rui Costa tiver lucidez analítica e convicções fortes, tem condições, talvez as melhores de que já dispôs, para dar corpo a um Benfica estruturado, consistente e coerente, capaz de marcar época no futebol nacional.
PORTUGAL NA UEFA
Escrevi, no início da época que, em função dos pontos que Portugal ia perder face à Bélgica no ranking da UEFA (e isso era matéria confirmada), havia a forte possibilidade de vermos a nossa posição enfraquecida no final da temporada. Quando nos vimos sem representantes na fase de grupos na Liga Conferência, o cenário agudizou-se, e só não se tornou verdadeiramente dramático porque aos belgas, com a eliminação do Anderlecht às mãos do AEK, aconteceu o mesmo.
Vieram os jogos e as contribuições de Sporting, FC Porto, SC Braga e Benfica não só revitalizaram as nossas hipóteses, como potenciaram a ambição de recuperar uma posição, relativamente aos Países Baixos (que implodiram!) no ranking da UEFA. Agora, façam o que fizerem leões, dragões e guerreiros, Portugal já garantiu mais um representante na Champions de 2027/28, uma extraordinária notícia para o nosso futebol.
O alerta que fiz no começo da temporada veio a manifestar-se manifestamente exagerado. Enganei-me, e ainda bem que assim foi. Não quer isto dizer que os problemas estruturais do nosso futebol profissional tenham desaparecido, apenas foram, durante algum tempo, varridos para baixo do tapete. Enquanto não se arranjar solução para a revitalização da ‘classe média’, e não houver uma maior aproximação entre orçamentos, andaremos sempre com o coração nas mãos. Não vejo que a primeira situação possa ser resolvida sem uma requalificação dos quadros competitivos; nem que a segunda não dependa da venda centralizada dos direitos televisivos. Não acredito que os clubes queiram a primeira, nem que a centralização venha a verificar-se em termos que mudem seja o que for. Por isso, a luta continuará, numa lógica de três grandes e um outro a crescer, enquanto os restantes emblemas, propriedade de grupos económicos, na maioria mais interessados nas contas do que na coerência do projeto desportivo, vão tentando, mais do que viver, sobreviver.
Há demasiados clubes desenraizados, pelo afastamento dos adeptos provocado pelo mercantilismo, e outros que sobrevivem apenas como barrigas de aluguer. Nesta hora de júbilo pelo facto de passarmos a estar mais bem representados na Champions, talvez não seja pior aproveitar o astral positivo para abordar, com seriedade, todas estas questões, e procurar soluções que vão para lá do umbigo de cada clube.
MUNDIAL 2026
Terei sido a primeira voz a alertar para os efeitos da guerra no Médio Oriente sobre o Mundial de 2026. Ao dia de hoje, a dúvida não reside apenas em saber quem tomará o lugar do Irão. É pertinente questionar se (mesmo com a Gronelândia no congelador, passe a redundância) não haverá outros países dispostos a não estar na América do Norte (e se a Espanha, um dos mais fortes candidatos ao título, disser ‘não’?). E mais: o recente caso da recusa, por parte das autoridades norte-americanas, de vistos a dez jogadores do Mount Pleasant, da Jamaica, que iam disputar um jogo da CONCACAF com o LA Galaxy, não pode ser já um sinal do que está para acontecer, com jogadores, dirigentes, jornalistas e adeptos?
FREDERICO VARANDAS
Sem surpresa, o presidente do Sporting foi reeleito por esmagadora maioria. A estabilidade regressou a Alvalade (muito devido à forma como a questão das claques foi resolvida – honra a Varandas - e ainda à revolução de veludo levada a cabo por Ruben Amorim e Hugo Viana, a que acresceu uma gestão financeira rigorosa – honra a Francisco Zenha -, o rendimento desportivo permitiu, não só no futebol, que os leões voltassem a ser liderantes, e tudo isto teve como consequência não só o aumento da ocupação do estádio de Alvalade como também a mudança das cores das contas do clube, que passaram do vermelho ao verde. Quando pegou no Sporting, ainda iam altas as labaredas do incêndio provocado por Bruno de Carvalho, Varandas demonstrou coragem; à coragem seguiu-se um processo de aprendizagem durante os anos de Marcel Keizer; a cereja no topo do bolo foi o ‘all in’ que representou a contratação de Ruben Amorim ao SC Braga. «E se correr bem?», perguntou então o treinador? Correu mesmo muito bem! E o Sporting, no pós-Amorim, soube preservar as bases do trabalho e manter-se a um nível muito alto (a derrota na Noruega, um epifenómeno, em nada desmente a realidade abrangente atrás descrita).
Faltará, ainda, a Varandas, e talvez isso seja conseguido no mandato que agora inicia, um contributo maior para a normalização das relações entre os principais clubes. Trata-se de um elemento essencial para o desenvolvimento da indústria do futebol que não tem, forçosamente, de colidir com os interesses do Sporting.
José Manuel Delgado, in a Bola

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