quarta-feira, 31 de maio de 2017

WATFORD? WHAT FOR?


"Houve um tempo não muito distante em que o FC Porto perdia treinadores para o Chelsea, mas só depois de vencer na Europa e batidas as respectivas cláusulas de rescisão.
Foi assim com José Mourinho, em 2004, após conquistar consecutivamente Taça UEFA e Liga dos Campeões; tal como foi com André Villas-Boas, em 2011, na sequência do triunfo na Liga Europa – ambos foram também campeões nacionais, mas isso para os azuis e brancos chegou a ser quase tradição.
Mourinho e Villas-Boas saíram para um projecto ambicioso não só em termos financeiros mas também desportivos, mesmo assim sob a incompreensão de largos sectores de adeptos portistas, indignados, exclamando que, com exceção do orçamento (e projecção, vá), os blues de Londres eram em tudo inferiores aos da Invicta.
Agora, apesar de versões contraditórias, dá-se a novidade de que o FC Porto terá perdido um treinador para o Watford.
Watford?! What for?
Ao longo da última semana, boa parte da opinião pública tentou justificar por A mais B a lógica de um treinador preferir lutar pela manutenção na Premier League a lutar pelo título de campeão em Portugal e disputar a Liga dos Campeões.
Lamento discordar.
Espantar-me-ia se Jorge Jesus fosse alguma vez tentado a trocar o Sporting pelo Burnley ou se Rui Vitória estivesse a considerar uma proposta, vá lá, de um clube um bocadinho mais a meio da tabela, do género do Stoke City – ao qual, para não perdermos o devido enquadramento, o FC Porto emprestou Martins Indi ou despachou Imbula.
Mesmo considerando os mais de 100 milhões de euros que o FC Porto terá de encaixar para cumprir o fair-play financeiro e o previsível grande investimento em contratações que fará o Watford (e de todos os seus concorrentes, sublinhe-se), previsivelmente os dragões continuarão a ter um plantel de nível muito superior ao do clube inglês.
O que motiva então esta aparente opção? Provavelmente, o grau de exigência do Dragão para Vicarage Road.
Ao fim de quatro anos de seca de títulos e perante a impaciência dos adeptos, no Porto Marco Silva teria conviver com a pressão de ser campeão, tendo previsivelmente menos argumentos em relação pelo menos a um dos candidatos ao título. Além disso, teria de alguma forma de «dar o peito às balas» e arriscar a sua boa imagem cá na terra, comprometendo um eventual regresso a médio prazo a Portugal – por outra porta, evidentemente.
Marco Silva tem toda a legitimidade para definir as suas opções de carreira; tal como, deste lado, cada um de nós tem a possibilidade as analisar publicamente.
O problema está sobretudo no FC Porto, que não deveria sequer considerar como hipótese um treinador que ficasse inclinado a assumir um clube de fundo da tabela, por mais encanto que tenha a Premier League.
Se Marco Silva é cerebral, calculista até, Sérgio Conceição é sanguíneo e portanto mais propenso a arriscar trocar o conforto de três anos de contrato com o Nantes (que não só salvou da descida como guindou até ao 7.º lugar da Ligue 1) pela oportunidade de treinar o FC Porto.
Há também como hipótese Paulo Sousa, que tem sérias reservas por parte de um largo espectro de adeptos, justificadas pelo afastamento do futebol português, pela falta de afinidade com o clube e sobretudo pela facção interessada na sua contratação.
A cadeira de sonho, onde qualquer um se arriscava a ser campeão, perdeu a estabilidade, como agora tivesse o encosto partido e uma perna bamba.
No entanto, nesta amálgama de cogitações e dúvidas, acentuadas por uma semana inteira de indefinição, o FC Porto poderia, ainda assim, optar por alguém experiente, com um discurso ponderado, que já provou ser capaz de colocar equipas a jogarem bom futebol. Alguém conhecedor do clube e da realidade do futebol português, capaz de apostar em jovens e fazê-los crescer.
Mais até do que Pedro Martins, o FC Porto poderia optar por alguém como Luís Castro – que levou a equipa B portista à conquista da II Liga na época passada.
Independentemente de meia oportunidade numa época já perdida (2013/14), qual é então o problema do homem da casa?
Depois de quatro anos de fracasso desportivo, equívocos e escolhas falhadas não há força por parte de quem dirige para impor um nome que não seja minimamente sonante aos adeptos, cada vez mais desconfiados.
Esta fragilidade nas decisões, após erros sucessivos, a perda de influência no futebol português e o vislumbre de um beco sem saída em termos de alternativa tornam o contexto num problema bem mais profundo, que está para lá da simples escolha de um treinador.
Para encontrar soluções, mais do que falar da cadeira, há que, cada vez mais, olhar para o cadeirão."

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