sexta-feira, 30 de março de 2018

O BOTÃO DA AUTODESTRUIÇÃO


"George Best foi um dos melhores jogadores de futebol de sempre, Norte-irlandês de nascimento, era tão fanático pelo futebol que nem a chuva impiedosa de Belfast o impediam de passar dias inteiros na rua com os amigos e, não satisfeito, a dormir com a bola. Com 15 anos, foi descoberto por um olheiro do Manchester United e não demorou muito a chegar à primeira equipa - dois anos depois, já lá estava. Tudo nele era atracção. Desde a fisionomia até aos cabelos compridos, passando pela forma enleada como passava pelos adversários, deixando-os desesperados pela impotência de o travar. Na loucura dos anos 60, foi considerado o quinto Beatle. Esteve nove anos na primeira equipa dos red devils, ganhou campeonatos de Inglaterra e uma Taça dos Campeões Europeus, em 1968, frente ao Benfica.
Nove anos podem ser muito ou pouco tempo, dependendo sempre da perspectiva. Mas foi ao suficiente para se criar uma lenda imortal. Depois de Manchester, foi sempre a descer, mas ainda com tempo para ganhar fama nos Estados Unidos. No entanto, o talento não foi o suficiente para lhe alimentar o ego e também o regou com muito álcool, imenso álcool. Pouco antes de morrer, deu uma entrevista deliciosa a Rogério Azevedo, em A Bola. «Em 1969 deixei as mulheres e o álcool. Foram os piores 20 minutos da minha vida», disse. Pouco depois, em Novembro de 2005, aos 59 anos, não resistiu a uma falência orgânica múltipla consequência de anos de alcoolismo.
Num excelente documentário produzido pela ESPN, reproduzido pela A Bola TV, um jornalista descreveu-o de forma singular: «Best nasceu com os botões de talento e o da autodestruição. Decidiu passar mais tempo com o da autodestruição ligado». Quando esta frase surgiu no ecrã, fiz uma analogia quase directa com o futebol nacional. Talento temos a rodos. Quando é que deixam de premir o botão da autodestruição?"

Hugo Forte, in A Bola

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