sexta-feira, 27 de março de 2020

UM RAIO DE SOL NA ÁGUA FRIA


"Severino Varela tinha um pacto com a honra. O Boina Fantasma dava-se ao luxo de recusar ofertas irrecusáveis

Como de costume, Severino chegou pontualmente à estação de ferries de Montevidéu depois de ter percorrido La Marseillaise a passo estugado. Já a bordo viu um raio de sol saltitar na ondulação irritada do Rio da Prata e convenceu-se por dentro de que o dia seria feliz se pudesse guardar nos olhos aquela luz fugidia.
Severino gostava particularmente daquela travessia. Quase todos os dias ia e vinha de Montevidéu a Buenos Aires, cerca de quatro horas e meia no total, mas desde que aceitara trocar o Peñarol pelo Boca Juniors nunca lhe passou pela cabeça ir morar para a margem sul do rio. Isto passou-se em 1943, já Severino Varela Puente tinha 29 anos. Começara a sua vida de marcador de golos do River Plate de Montevidéu e, agora, dedicava-se a espinafrar o juízo aos defesas do outro River Plate, grande rival do Boca.
Quando desembarcou na Avenida Antártida Argentina, no cruzamento com a Cecilia Grierson, o céu de Buenos Aires estava aberto como um sorriso e nem uma nuvem projectava a mais pequena das sombras. Em seguida entrou no automóvel do seu companheiro Lucho Sosa, que viera buscá-lo, e seguiram ambos à taramela para La Bombonera, no Barrio de la Boca.
Era Setembro. Dia 26. O estádio encheu-se a pouco e pouco para o Boca Juniors-River Plate, aquele jogo que ninguém tem o direito de ignorar. Numa parede ali perto alguém escreveu. «Hasta los muertos aman el Boca». E as bancadas estavam tão repletas de gente que não havia quem duvidasse que até os mortos caminhavam lado a lado com os adeptos que se orgulham do seu lema: ‘La mitad más uno’. Enquanto encaixava meticulosamente a sua boina branca na cabeça, Severino dizia para si próprio: «O mais um sou eu».
Tinha um gosto especial naquela boina. Usava-a para diminuir os efeitos do impacto da bola cada vez que cabeceava. Dava-lhe um aspecto rebelde, libertário. E assustava os adversários quando surgia, de supetão, na grande área contrária para tocar a bola para a baliza em movimentos tão rápidos que davam a sensação de serem invisíveis. No River, os defesas atemorizados chamavam-lhe ‘A Boina Fantasma’.
Até dentro do campo, Severino era um homem livre. os treinadores permitiam-lhe essa liberdade para bem da equipa e ele usava-a sem parcimónia, galgando metros de terreno com a sua passada larga e elegante que terminavam em pontapés letais.
«Ser libre. Ya en su vientre mi madre me decía
’ser libre no se compra ni es dádiva o favor’».
Ao contrário da vontade dos hinchas caseiros, o River Plate marcou cedo. Demasiado cedo, até. Golo de Félix Loustau que, com Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Adolfo Pedernera e Ángel Labruna formou uma linha avançada que ficou para a história com o nome de ‘La Máquina’.
Nunca ninguém sobre porque é que Severino Varela se transformou no maior inferno da existência do River. A verdade é que mal entrava em campo, fervia porrada sobre o rapaz de Montevidéu. Valia tudo para pará-lo. E caçavam-no pelo campo fora a patadas como se fosse uma ratazana.
Nessa tarde, as canelas de Severino ficaram roxas de tanto apanhar. E ele tranquilo, sereno, sem replicar, sem queixas, sem lamentos, tal e qual um fantasma com a sua orgulhosa boina branca. Depois marcou encontro com a bola centrada pelo seu amigo Lucho Sosa à entrada da pequena área do River. Começou a correr mas sentiu uma angústia fina por dentro, Parecia que lhe espetavam no coração a agulha da desarmonia e ele era cumpridor dos seus deveres como poucos. Por isso atirou-se para a frente, voando baixinho, mergulhando como um peixe em águas que conhece de cor e salteado. Chegou precisamente à hora marcada. A bola entregou-se à vontade da boina branca do Fantasma e seguiu para o abraço das redes. Em seguida, Varela simplificou a tarde com um pontapé sem metafísica: 2-1. Era o seu quinto golo em seis jogos face ao River Plate. Tomou banho, penteou-se para trás com um pouco de brilhantina e Sosa foi deixá-lo junto ao porto para que apanhasse o ferry de regresso a Montevidéu.
Um dia, o Boca Juniors fez-lhe uma oferta irrecusável: pôs-lhe na frente um cheque em branco. Ele recusou. Era um homem de rotinas. Gostava do seu trabalho de escriturário e não pretendia demitir-se: «No quiero llevarme la plata que no puedo ganarme». Tinha um pacto inquebrável com a honra. Seis anos mais tarde voltou à Bombonera para ajudar do Boca Juniors que estava à beira de descer de divisão. A Boina Fantasma afastou todos os outros fantasmas. Atravessou o Rio da Prata de volta a casa. Não lava nem mais um tostão no bolso. Havia coisas que não tinham preço."

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