sábado, 31 de janeiro de 2026

BENFICA: MOURINHO SOBRE O SEU EIXO

 


Treinador venceu uma noite europeia na Luz, mas sobretudo venceu a batalha interior: a de recentrar convicções, aceitar outro caminho e reconciliar-se com a própria grandeza

Mourinho está de parabéns. Que noite! Que jogo! E não é fácil para ninguém, muito menos para quem já ganhou tanto, ir ao encontro das críticas enquanto, pelo menos, coloca em pausa convicções fortes. Reconhecendo, ainda que sem verbalizá-lo, que há outro caminho. Um talvez mais condizente com a cultura do clube que representa. Mesmo que a atração constante pelo lado estratégico — que lamentou não poder utilizar, devido aos jogadores que tinha disponíveis, na antevisão — o obrigue a luta interior constante, ganhá-la também o colocará mais de acordo com a própria grandeza.
Barreiro deixou de ser 10, a não ser em situações pontuais e estratégicas quando é preciso pressionar mais à frente ou ser mais coeso a defender, o que já é admissível. Assim, também Sudakov pode partir de posicionamento mais central para outros em que consegue desequilibrar com maior facilidade. Não receber a bola de costas, quando a saída é pressionada, é ajuda considerável ao ucraniano e ao processo coletivo. Deixá-lo andar entre linhas é a bolsa de criatividade de que os demais podem beber.
Por sua vez, Schjelderup teve finalmente alguma continuidade sobre a esquerda. E aproveitou-a. Provou que pode ser bastante útil e que precipitados são todos os que têm apontado para o fim da estrada na Luz. Prestianni soma compromisso defensivo à irreverência própria dos quase 20 anos, faltando-lhe apenas golos e assistências para que fique a tiro diante da concorrência com Bruma e Lukebakio, a meu ver muito mais unidimensionais ou até individualistas e a significarem uma inversão na evolução da equipa. Os dois, norueguês e argentino, mostram também que é possível defrontar e derrotar gigantes primeiro com dois extremos, depois com dois franzinos e inseridos num contexto de quatro unidades declaradamente ofensivas.
Mourinho ter-se-á perguntado várias vezes: e quem é que defende? Talvez os ventos das últimas tempestades lhe tenham soprado: «Os outros…»
Além disso, e ainda que não esteja completamente convencido, particularmente quando os adversários tentarem aí estrangular os encarnados, também o duplo-pivot se mostra diferente. Não diria mais complementar, mas pelo menos mais abrangente e dinâmico, mais coeso também e, como tal, mais capaz de suster a frente de ataque.
A noite europeia foi mágica. Épica! Com epicentro na Luz, as réplicas foram arrasadoras em Espanha e sentidas fortemente em Itália e, obviamente, Inglaterra. Aos 90+7', com mais dois em campo, a precisar de um golo, uma falta a meio-campo e os gritos para que a equipa subisse levaram a que Trubin crescesse até à área contrária e, entre a rarefeita defesa madridista, escrevesse história. O triunfo, por ter sido contra quem foi, mas sobretudo por ter sido como foi — sem medo, com o peito inflamado por coragem, e a pensar sobretudo em atacar a baliza de Courtois — tornarão certamente o festejo de Mourinho ainda mais viral do que aquele que deixou rasto em Camp Nou, quando eliminou o Barcelona a não deixar jogar. Para o treinador, que pode achar que a estética pouco interessa, foi excelente. Não há má publicidade, mas nada como um triunfo assim para restaurar a aura perdida de um dos melhores da história. Não mostrou que está vivo: mostrou que está de volta. E isso é muito melhor.
Por muito que ache piada ao discurso humano do técnico, que o torna ainda mais português — a parte das varandas e do suicídio talvez esteja um pouco para lá dos limites do bom senso, porém depois de um jogo daqueles e com a adrenalina no máximo há que entendê-lo —, preocupa-me que continue a jogar para os comentadores, analistas e jornalistas, que sinta que tem algo a provar-lhes a cada jogo, sobretudo quando as críticas são construtivas e não questões pessoais ou até, como sentencia o povo, de inveja do seu sucesso. Tem de provar sim a si próprio que pode realmente transformar o clube, provavelmente sozinho, ocupando também o espaço de uma direção que nunca sabe bem o que fazer.
O Benfica que deixou a Luz depois do jogo com o Real é a primeira grande manifestação de algum tipo de rumo nos últimos tempos. Emocionalmente, pode até significar o restabelecer da ligação neural que sempre Mou criou com os jogadores. Mas o próprio também poderá ajudar. Está mais perto daquele com quem vibrámos no passado quando ao serviço de FC Porto, Chelsea, Inter e Real, do que o outro que voltou à Luz.
Também não posso concordar com os que agora aparecem a reclamar respeito pelo ídolo. Respeitá-lo começa precisamente por não confundir aquele que chegou da Turquia com a grandeza do seu passado, e exigir o que idolatrámos de volta. Bem sei que as muitas lesões condicionaram a mudança de estratégia, porém tem o mérito de não se encolher a um canto em posição fetal e assumir jogar olhos nos olhos. Trazer esse Mourinho de volta, mesmo que seja apenas uma pequena parte dele, justifica tudo o que ouvimos em troca. Todos sentimos gratidão pelo que fez pelo futebol português, no entanto, isso não o torna inimputável.
Claro que o técnico acredita (ou faz passar que acredita) que não mudou nem um pouco. Aliás, avisou que não iria mudar antes de começar a fazê-lo, controlando assim a narrativa. Tê-lo no banco também é isso. Até aquele «Benfica é o meu país, fazer isto com o meu clube...» com que se descaiu junto da imprensa internacional, sabendo que teria impacto por toda a nação benfiquista — como os próprios gostam de se autointitular — que vai capitalizar como ninguém. Muitos adeptos terão esquecido já as Taças, o campeonato e que, mesmo que os encarnados passem o play-off, ainda só fará o mesmo que Lage antes. Pouco interessa, o momento é seu.
Mourinho sabe, como os críticos, que precisa de consistência. Talvez a noite épica seja o mesmo «quase» que bastou a Rui Costa para segurar Lage, mas dificilmente será suficiente para dar os objetivos como cumpridos. O que não é condizente com alguém da sua dimensão. De qualquer forma, se a noite louca da Luz significar mesmo o início de algo grandioso, fica já aqui o meu cumprimento, com a respetiva vénia: bem-vindo de volta, Special One!
Luís Mateus, in a Bola

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