Rui Costa tem de ser capaz de fazer aquilo que os adeptos não fazem: planear. Pensar a frio. Projetar o futuro quando o presente está a arder.
A noite da última quarta-feira foi memorável para o Benfica e para todos os benfiquistas. Ficará, certamente, marcada na história como uma das grandes noites europeias. Os jogadores foram enormes. Respeitaram e honraram a camisola do clube.
A realidade pode ser dura. Mas, como já disse anteriormente, por muito dura e difícil que esteja a ser esta época, os jogadores têm sempre de dar o máximo em campo. Na quarta-feira, não foi apenas isso que fizeram, como talvez tenham até excedido esse máximo. Mas se o jogo contra o Real Madrid levou os nossos corações ao céu, a verdade é que não nos deve tirar os pés do chão. E a realidade não é fácil.
A vida está difícil para os benfiquistas. Chegámos a janeiro e, desportivamente, já não há muito com que nos possamos entusiasmar. E quando digo já não há muito, estou a ser generoso. A verdade nua e crua é esta: infelizmente, penso que não haverá nada que se consiga festejar. É duro dizê-lo. Mas é a realidade. E nas Crónicas de Bancada sempre tentei partir daí, da realidade, por mais incómoda que seja.
Difícil para os adeptos, cansados de ver uma época a esvair-se antes do tempo, mas ainda mais difícil para quem dirige o clube. Para Rui Costa, em particular, estes são meses pesados. Não falo apenas das manifestações de descontentamento, mais ou menos organizadas, que surgem sempre quando os resultados falham. Falo de uma pressão mais profunda: a de presidir a um clube que não vive de boas intenções, vive de vitórias.
A vida está difícil para Rui Costa porque, perante maus resultados que seguramente o magoam tanto como a qualquer adepto que sofre na bancada, tem de ser capaz de fazer aquilo que os adeptos não fazem: planear. Pensar a frio. Projetar o futuro quando o presente está a arder. E não é simples. A desilusão pesa. A crítica desgasta. A urgência empurra para decisões rápidas. Mas dirigir um clube como o Benfica obriga a separar emoção de estratégia, ruído de substância, instinto de método.
Há decisões para vários horizontes. Para amanhã. Para daqui a dois anos. Para daqui a uma década. Decisões financeiras, desportivas, infraestruturais. Um clube grande vive permanentemente nessa tensão entre ganhar já e preparar o que vem depois. No Benfica, essa tensão é particularmente cruel, porque o passado não dá tréguas e a história pesa sempre no presente, condicionando escolhas e reduzindo margens de erro.
No longo prazo surge o Benfica District, certamente o projeto mais ambicioso desta Direção. Uma aposta de enorme dimensão, pensada para modernizar, criar e rentabilizar infraestruturas, garantindo sustentabilidade futura. Os erros neste tipo de projetos raramente se veem de imediato. Mas quando aparecem, anos depois, costumam sair caros. Muito caros. Rui Costa começou bem ao tornar o processo o mais participado possível. Apresentou-o em campanha, levou-o à Assembleia Geral, colocou-o a sufrágio, abriu a votação à distância, permitindo que mais sócios interviessem numa decisão estrutural. Isso é positivo. Transparência e participação nunca são excessivas num clube desta grandeza. Mas num projeto desta escala, tão importante como começar bem é acabar melhor ainda.
No médio prazo, houve a negociação dos direitos televisivos para os próximos dois anos. Aqui importa sublinhar um facto: o Benfica garantiu o valor mais alto alguma vez atingido em Portugal neste tipo de contrato. Esteve bem. Houve quem recordasse as declarações de Rui Costa durante a campanha, quando falou na fasquia dos 70 milhões de euros por época. O valor final ficou abaixo. Mas convém não ser ingénuo. Quando se lidera uma negociação deste calibre, não se revela o valor pelo qual se está disposto a aceitar. Inflacionar o valor pretendido faz parte da estratégia. É normal. É correto. Acho que Rui Costa esteve bem.
Resta o curto prazo. E aí já não há espaço para grandes teorias. O curto prazo chama-se próxima época. E a próxima época tem de ter um objetivo claro: ser campeão.
E, para isso, não basta trocar peças. É preciso olhar para o que falhou este ano sem medo de ferir suscetibilidades. Falhou a capacidade de decidir jogos com regularidade, falhou a consistência competitiva, falhou a resposta quando a equipa foi contrariada. E falhou, sobretudo, a sensação de inevitabilidade que um Benfica forte impõe, a ideia de que, mesmo num dia cinzento, a equipa encontra forma de vencer. Essa cultura não nasce do discurso. Nasce de escolhas coerentes, de um balneário alinhado, de liderança técnica respeitada e de um recrutamento que privilegie caráter e rendimento, não apenas potencial de revenda. Se a próxima época é para ganhar, então cada euro tem de ser gasto como se fosse o último e cada minuto de trabalho tem de ter propósito. E quem for escolhido tem de sentir o peso da camisola, não o conforto do contrato.
Na próxima época, o investimento no plantel terá de ser mais contido e mais inteligente. A margem para errar desapareceu. Vai ser necessário ser cirúrgico nas entradas e lúcido nas saídas. Cada contratação terá de contar, não pelo nome, mas pelo impacto.
Esta segunda metade da época tem de servir também como laboratório para o futuro, uma pré-temporada longa feita em competição, onde se percebe quem aguenta a pressão, quem cresce com a responsabilidade e quem apenas sobrevive de episódios. Não é um exercício simpático, mas é indispensável.
Tudo isto terá de ser feito em simultâneo. Com pressão. Com ruído. Com impaciência à volta. Mas é isso que distingue quem lidera de quem apenas reage.
A vida está difícil, sim. Para os benfiquistas que sofrem na bancada. Até para os que escrevem crónicas. E para quem tem a responsabilidade máxima de decidir o rumo do clube. No Benfica nunca foi fácil. Talvez seja precisamente por isso que cada escolha pesa tanto. Porque aqui não basta competir. Aqui queremos ganhar sempre. Sempre.
Hugo Oliveira, in a Bola

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