segunda-feira, 16 de março de 2026

"CASUALS", MAS NÃO CASUAIS

 


A violência global baixou e isso é uma boa notícia, mas a violência sectária está a aumentar e é mais perigosa; os clubes estão obrigados a reagir de forma mais musculada e as cores pouco interessam

O mais recente levantamento de casos de violência no futebol em Portugal após a primeira volta do campeonato trouxe boas notícias. Afinal, de acordo com o Ponto Nacional de Informação Desportiva da Polícia de Segurança Pública, o número total de ocorrências diminuiu de 3.096 para 1.951 em comparação com o período homólogo.
Os números detalhados revelam queda acentuada no uso de pirotecnia (de 2.014 para 1.225 casos), registou-se uma redução nas ofensas à integridade física, nas injúrias e ameaças e nos incidentes de incentivo à violência, racismo e xenofobia, dados inquestionavelmente positivos.
Mas o mesmo relatório fala da expansão dos casuals, os adeptos considerados mais perigosos e violentos e que colocam em causa a segurança de uma maioria esmagadora que só pretende ir assistir ao uma partida de futebol.
Não é fácil parar este fenómeno. Os movimentos ultrapassam fronteiras locais e nacionais e o mais recente exemplo ocorreu em Madrid: por causa do comportamento de 30 elementos croatas com ligação às claques do Benfica (o uso da palavra claques não é erro), as forças de segurança espanholas carregaram sobre muita gente inocente.
Esta é uma das maiores injustiças dos movimentos de massas: quando a maioria orgânica é prejudicada por uma minoria pequena, mas com capacidade de organização e mobilização; quando um jogo é interrompido por pirotecnia excessiva em nome da afirmação de um grupo e não do clube que supostamente apoia.
Seja por receio ou por incapacidade, os clubes não têm feito tudo o que podem e devem para afastar de vez quem pouco contribui para o espetáculo e se serve (e pouco serve) o futebol. Atualmente há meios disponíveis para combater de forma mais eficaz quem prevarica mas não se vê uma resposta musculada dos dirigentes (em especial aos três grandes) a cada ato de vandalismo registado no estrangeiro e que tantas vezes tem prejudicado as respetivas equipas pela ausência de apoio (de todos, portanto)nas bancadas.
Pena é que este tema seja tantas vezes tratado de forma sectária, como se os ultras azuis fossem melhores que os vermelhos e verdes e vice-versa. Nunca me canso de dar este exemplo: há uns anos, num dérbi com o Torino, radicais da Juventus exibiram uma tarja que gozava com a tragédia de Superga. No próprio dia, o presidente Andrea Agnelli condenou veementemente a atitude de quem veste as mesmas cores. Tudo isto tem muito a ver, também, com a cultura.
Fernando Urbano, in a Bola

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