Na grande maioria dos jogos, o início acaba por definir quem consegue vencê-los. Se a um começo hesitante do Benfica se junta um golo do adversário, duplicam as dificuldades da equipa e reforça-se a confiança de quem marca à primeira tentativa. Esta era uma oportunidade considerada única do Benfica reentrar na discussão do título, que seria travada, desde logo, por um começo pouco inspirado.
A possibilidade de conseguir a aproximação, já se sabia, passava pela vitória neste confronto direto. Quando se defronta o líder do campeonato e existe a obrigatoriedade de ganhar, já é uma perspetiva naturalmente incómoda. Se, como no caso, se sofre um golo logo no início, o abalo emocional acontece, quer dentro de campo, quer na bancada, com o típico arrefecimento do calor dos adeptos, arma sempre importante nos grandes confrontos. Marcar primeiro era naturalmente o objetivo, tendo em conta a realidade pontual, mas também pela dificuldade evidente que tem sido marcar golos a esta equipa do FC Porto.
O golo inicial, bem construído, resultaria do espaço criado pela descida de Gul, mas principalmente fruto do entendimento entre Varela e o veloz Froholdt. Com Otamendi atraído pelo deslocamento de apoio de Gul, o espaço foi criado e a ação de Trubin seria insuficiente para evitar um autêntico choque, que abalava todo um estádio. A superioridade dos dois médios do FC Porto frente aos seus homónimos do Benfica ficaria bem à vista neste lance decisivo. Se revirmos a imagem, Gabri Veiga estava também com espaço aberto, caso o passe tem saído na sua direção. Em todo o caso, uma jogada simples, mas eficaz, que marcaria o jogo e também a superioridade dos médios do FC Porto, face aos seus opositores diretos.
A primeira parte do Benfica não melhorou no tempo, não que a equipa não tenha tentado, mas pela precipitação e desinspiração geral somada à crítica desvantagem no marcador. Pior ainda ficou com o segundo golo adversário, numa distração defensiva difícil de entender, embora com a finalização do jovem ala do FC Porto a explicar o porquê da sua escolha para tão importante duelo. No Benfica, veio de Schjelderup o grito de revolta que assumiu e transfigurou a equipa na segunda parte. No FC Porto, o destaque maior para Varela pelo equilíbrio atrás e pela assistência para o golo logo a abrir o jogo.
O empate final acaba por ser insuficiente e um mal menor para o Benfica, que premeia o esforço, mas só atenua a natural desilusão. O facto de o jogo ter acabado com uma imagem suspeita na área do FC Porto, sem ser verificada pelo árbitro da partida, não apaga a desinspirada primeira parte do Benfica que cedo pareceu comprometer a necessária vitória. Entretanto, a vida não para e se por um lado os jogos continuam por dever histórico a ter que se ganhar, por outro, há pelo menos um importante segundo lugar pelo qual lutar.
Subir ou ficar
Sair ou ficar é muitas vezes um dilema do comportamento defensivo na zona central. Acompanhar o apoio frontal do atacante, não o deixando virar ou manter a posição na defesa à zona, é a questão. Se a desmarcação do adversário acontece nas alas, é menos arriscado o arrastamento do lateral e o seu desposicionamento. Ao contrário, na zona central, onde está a baliza e se sofrem os golos, acompanhar o avançado sem uma cobertura adequada na retaguarda pode criar um espaço nas costas que o adversário aproveite. O primeiro golo do último clássico ilustra bem este dilema posicional.
Entrar com tudo
Em contextos de grande dificuldade e urgência, é importante que os jogadores escolhidos para substituir os seus colegas entrem em campo bem preparados. É necessária uma boa ativação, responsabilidade de um dos técnicos assistentes, que permita a quem entra, poder ajudar imediatamente. As entradas de Lukebakio e Ivanovic, mesmo com pouco tempo para jogar, revelaram-se significativas, ambos participando diretamente nos dois golos obtidos pela equipa. Mérito dos próprios, mas também de quem dirigiu o respetivo aquecimento.
Pilar
Passado que foi o clássico e as exaustivas e múltiplas análises, nunca saberemos se com Aursnes em campo, as coisas teriam sido diferentes. A verdade é que a sobriedade e o equilíbrio do médio norueguês não tem, nem teve, paralelo nos seus colegas disponíveis para o setor intermediário. Jogar com dois médios obriga a uma coordenação quase perfeita entre eles, porque em certos confrontos as falhas não são disfarçáveis. A importância de certos jogadores de perfil mais coletivo e maduro só é verdadeiramente sentida na sua ausência. As lesões de Aursnes e Barreiro, a dupla preferida por Mourinho, fazem parte da vida dos atletas, mas vieram na pior altura.
Benfeitor
Vaidade e muito dinheiro foram características, que no passado, validavam o acesso de empresários à presidência de vários clubes do nosso futebol. O conhecimento específico e a cultura desportiva eram termos que dificilmente entravam no dicionário dos candidatos. O tempo passou, a sociedade evoluiu e assistimos agora a novos e diferentes fenómenos. Temos percebido investidores que prometem muito, mas que desistem a curto prazo dos seus bem-intencionados projetos.
Deixar os clubes em pior situação do que antes, é já um desfecho vulgar. Em relação a Marinakis, ilustre presidente do Rio Ave, não se contenta com um só brinquedo, sendo igualmente proprietário do Olympiakos da Grécia, sua terra natal, e do Nottingham Forest da famosa liga inglesa, clubes incomparavelmente mais poderosos. A aposta no emblema de Vila do Conde, bem mais modesto que os parceiros, faz recear o que se segue quando o senhor se cansar. Como definir a motivação deste tipo de presidente? Benfeitor não será com certeza.
Rui Águas, in a Bola

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