Esta etapa última do nosso campeonato era aguardada com especial expectativa porque podia, depois de algum tempo passado, permitir o regresso do Benfica ao mais desejado lugar da Liga. Se bem que à condição, esse seria o condimento extra que mexeria os dados da jornada, animando quem se aproximava e abanando quem há algum tempo se habituava à distância de segurança.
Para que este novo estar se verificasse, era obrigatório ganhar ao Boavista, equipa em processo de mudança radical, agora com um novo, mas experiente treinador. Uma equipa revigorada pela chegada de um numeroso contingente de malta madura recém-contratada. O Boavista não tem tempo a perder, daí a aposta em jogadores já naturalmente adaptados pelo seu percurso. Voltando ao Benfica e a Lage, quando a receita corre bem, cresce a tendência de a repetir. Foi o aconteceu com a equipa e sistema replicados dos Açores pelo treinador.
A repetição da ideia foi justificada, não só pelo conforto do lar, mas também considerando um Boavista ainda fragilizado, em comparação com a perspetiva anterior que o Santa Clara representava. Aproveitando a confiança que a onda açoriana provou, Samuel também regressou à baliza. António Silva e Tomás Araújo, os gémeos do setor recuado, rodaram outra vez. Parece um acordo de paz entre dois parceiros que lutam pelo seu território. Será que algum dia se separam ou irão marcar em dupla a história do clube que os formou?
Quanto ao trio de avançados escolhido, voltou a estar em destaque, com a disposição competitiva de Belotti a impressionar, assinalando com um golo uma noite feliz. A verdadeira alteração acaba por dar-se a meio, na indisponibilidade de Barreiro e Florentino, os dois fiéis soldados da companhia. Aursnes e Kokçu, duas armas pesadas do grupo, acabaram por ter que acrescentar esforço ao seu trajeto, embora um desgaste suavizado com a relativa oposição que o adversário colocou.
Agora, mais do que partilhar o lugar, os rivais disputam um sprint ainda longo e ombro a ombro. Do lado do Sporting, já vinha sentindo o respirar ameaçador da chegada anunciada do rival, sem a poder controlar. Já o Benfica vinha de trás para a frente, algo que sempre desgasta quem lidera e que, muitas vezes, beneficia o antes perseguidor pelo balanço psicológico adquirido. Conseguida a igualdade este impulso pode agora fazer diferença.
Recarga ou não?
Vem este tema a propósito das declarações recentes de Collina, antigo famoso árbitro italiano, que sugeriu o fim da recarga na marcação do penálti. Por ser novidade, soa a estranho. Mas as leis, porque são antigas, devem ser imutáveis? Na prática, é sempre uma façanha defender um penálti, mesmo que mal marcado, mas sofrer um golo na recarga é quase criminoso para o respetivo guarda-redes. A alegria intensa da defesa devia perdurar para contar aos netos e não acabar dois segundos depois em frustração.
O timing de entrada na área dos restantes jogadores é realmente confuso e de difícil avaliação, como também justifica Collina. E alguém sabe quem tem direito a estar mais perto da linha limite da grande área? Na dúvida, os empurrões sucedem-se para ganhar o melhor lugar e a linha da área serve de bloco de partida para a prova de velocidade mais curta e agitada que se conhece. Um desassossego.
Uma das regras já adaptadas, e bem, nos livres com barreira tem essa lógica. Ficou definida uma distância entre a barreira defensiva e a posição dos atacantes que procuram diminuir a visibilidade do guarda-redes. Ficou assim impedido o contacto físico e facilitada a arbitragem.
Circo e cortesia
Além da discutida recarga no penálti, outras nuances são invariáveis: o jogador que comete a infração nunca concorda, mesmo que a falta seja clara. Os colegas do faltoso, amontoados, fazem confusão e tentam destruir a marca de penálti. Enquanto isso, o guarda-redes faz bullying ao provável marcador, que agora já nem é o que agarra na bola. Finalmente, o marcador designado antecipadamente nem sempre é quem marca. Luca, avançado italiano da Udinese, no último jogo, apoderou-se da bola contra a vontade de todos os colegas, incluindo o batedor previamente escolhido e marcou o penálti de que a sua equipa dispôs, ainda na primeira parte. Mesmo fazendo golo, foi substituído, e bem, pelo seu treinador, logo a seguir, castigado pelo egoísmo e desrespeito pelas regras coletivas.
Para acabar em bem e de regresso à Luz, fica a exemplar decisão de Pavlidis, confirmando o seu espírito altruísta, cedendo ao pedido de Kokçu para ser ele a marcar a grande penalidade. Uma bonita e rara cortesia.
Rui Águas, in a Bola
Sem comentários:
Enviar um comentário