terça-feira, 5 de maio de 2026

SUDAKOV É UM HERÓI



Médio do Benfica podia ter ignorado, podia ter mentido, mas assumiu que realmente perdeu alguma da felicidade que tinha quando jogava futebol; é o primeiro passo para a recuperar
Teria sido muito fácil para Heorgii Sudakov não comentar as notícias vindas da Ucrânia que davam conta de que se sente «esgotado» e «cansado do futebol», que «não sente prazer a fazer aquilo que é a sua vida», segundo relatou o jornalista Mykhailo Spivakovsky, citando fontes próximas do jogador. Teria sido tão fácil ignorar, remeter-se ao silêncio, fingir que não tinha ouvido.
Ou até, talvez ainda mais fácil, atendendo à frequência com que tantos agentes no futebol o fazem, desmentir. Dizer que não, que é tudo mentira, que está entusiasmadíssimo na Luz, a amargar o banco, de onde não sai há quatro jogos, a ver José Mourinho preferir Rafa, Richard Ríos e Leandro Barreiro à sua frente...
Sudakov não foi pelo caminho mais fácil. Horas depois das notícias sobre o cansaço chegarem a Portugal, o médio do Benfica tratou de deixar uma mensagem nas redes sociais, onde explicava o que se passava.
Admitiu que «é normal sentir cansaço — tanto físico como emocional» e que todos os jogadores passam por «períodos difíceis». Não disse que estava farto do futebol, mas reconheceu não sentir «aquele prazer pelo jogo» que já viveu no passado. Garantiu que não iria desistir — «isso não significa que deixei de amar o futebol ou que pretendo parar» — e que iria «fazer tudo para ficar mais forte». Não tentou tapar o sol com uma peneira. E só por isso já é um herói.
Os problemas de saúde mental começam, finalmente, a ser falados no desporto. Esperar que um jovem de 23 anos saia pela primeira vez do seu país (ainda para mais em guerra), com altas expectativas, e não acuse a pressão do disparate de dinheiro que custou, ou não sofra quando as coisas não correm bem desportivamente, é uma ilusão perigosa.
Sim, Sudakov ganha mais que quase todos os que vão ao Estádio da Luz vê-lo jogar — mas não é imune à frustração, à tristeza. É óbvio que um jogador que desde o fecho do mercado de janeiro só foi titular num jogo, e suplente em 11, não pode sentir a mesma alegria a jogar.
O problema é como ultrapassar isso. Jogar sem alegria tira intensidade, brilhantismo, por isso as possibilidades de voltar a ser titular diminuem; mas sem ser titular, dificilmente é possível recuperar essa alegria...
Mas a época está quase no fim. A próxima é um começo quase do zero, sobretudo se sair da Luz (ou se ficar mas Mourinho sair). Sudakov ainda tem muito para dar ao futebol, e assumir que não se sente tão feliz como já foi no passado foi um importante primeiro passo.

Hugo Vasconcelos, in a Bola 

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