quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
LANÇAS APONTADAS BENFICATV :: 1 FEV 2017
AINDA LÍDER...
O Benfica está a atravessar uma notória má fase. Não há, aliás, equipas que sejam imunes a períodos mais negativos. Aqui ao lado, o Real Madrid, depois de dezenas de jogos a ganhar, foi eliminado da Taça do Rei pelo Celta e perdeu na Liga.
No Benfica, a situação é tão mais estranha quanto, agora, tem mais jogadores à disposição, ainda que as lesões continuem a surgir a um ritmo pouco compreensível. O jogo no Bonfim foi cinzento, de uma lentidão exasperante, sem a chama de que o golo era a natural consequência. Há jogadores que aparentam estar fisicamente nos limites. Nem serve de desculpa o jogo na passada quinta-feira, pois sete dos que jogaram em Setúbal não o fizeram contra o Moreirense. Visto de fora, dá a sensação que a equipa perde concentração, sem que nada o justifique. Por outro lado, é visível que as equipas menos fortes têm encontrado o antídoto para o modo de jogar do Benfica. O futebol da equipa tem sido demasiado previsível, ainda mais agora quando o único jogador selvagem do plantel, Gonçalo Guedes, foi transferido. E tem havido também alguma falta de fortuna em momentos - chave dos últimos encontros.
Até há razões de crítica sobre o aparente concerto de más arbitragens que vêm acontecendo, mas não vale a pena pensar que foi só por isso que não se venceu ou houve dificuldades.
Há pela frente um necessário trabalho de recuperação física, mental e psicológica, quando faltam 15 jornadas, cada vez mais decisivas.
O Benfica continua líder. E a ter todas as condições para vencer este campeonato. Haja competência capacidade para ultrapassar o que foi o frio mês de Janeiro.
Bagão Félix, in a bola
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
O BENFICA TEM DE APRENDER A SER MAIS RESPONSÁVEL
"Quem gosta de teorizar sobre o riso costuma falar numa tese que diz que o humor é tragédia mais tempo. O que até é capaz de fazer algum sentido, dada a quantidade absurda de tiradas sobre o 11 de Setembro, anedotas sobre a relação de Hitler com os judeus, ou a própria passagem de Del Neri pelo FC Porto que também é, por si só, uma piada.
É uma adaptação desta fórmula que uso para defender que confiança é irresponsabilidade mais tempo. Ok, vá, e sucesso. Se não houver sucesso, admito, é apenas irresponsabilidade.
José Mourinho, por exemplo, poderia ter feito como todos os outros treinadores e prometer apenas lutar pelo título quando se apresentou no FC Porto, mas foi irresponsável e garantiu que o iria ganhar. Como, efectivamente, ganhou, foi confiante e não maluco.
Fernando Santos, já agora, teria sido bem mais ponderado se dissesse apenas que, depois de empatar com Islândia e Áustria, Portugal ia tentar passar a fase de grupos. Foi irresponsável e garantiu que só vinha no dia 11. E veio, o que deu jeito até a quem estava à procura de um nome para um espaço de opinião. E a um país que procurava ganhar, finalmente, alguma coisa, numa segunda ordem de importância.
Ora, vem isto a propósito do Benfica de Rui Vitória, que vive o momento mais duro da época, depois de ter andado muito tempo de mãos dadas com a irresponsabilidade. Quase sempre, mas não só, por necessidade - leia-se lesões - mas sempre com uma ousadia extrema que encantava porque resultava.
Ricardo Araújo Pereira, insuspeito benfiquista, chegou mesmo a dizer o óbvio, tantas vezes difícil de sair: «Se me dissessem que íamos à Rússia [Zenit] ganhar, tendo como centrais Samaris, que nem sequer é central, e Lindelof, eu não acreditava.»
Quem o condena? Basta olhar para algumas das figuras recentes do Benfica e perceber onde estavam no início da época passada. Ederson chegava do Rio Ave, Nelson Semedo da equipa B, Lindelof ainda por lá andava, tal como os, entretanto, transferidos Gonçalo Guedes e Renato Sanches. Aliás, a forma como o, agora, jogador do Bayern Munique se afirmou, colou a equipa ao meio e ajudou a levá-la ao título, assentou, disse a generalidade da crítica, numa certa irresponsabilidade, própria da juventude, que, acrescento agora eu, se veio a traduzir em confiança.
A parte mais curiosa é que, esquecendo Clésio (e aposto que consigo seguidores para esta causa), todas as apostas de Rui Vitória resultavam. O Benfica perdia jogadores, substituía-os por outros e, incrivelmente, ficava mais forte. Um qualquer fenómeno que tem uma parte de mérito inequívoco do treinador, outra do talento natural do intérprete e outra ainda de um lado transcendental que só é possível em quem está com confiança.
E isto da confiança pega-se. Contagia. Convence-nos que o mundo tem dono e somos nós. Durante todo aquele tempo, a confiança vestiu de encarnado. Havia teorias para tudo. Guardiola destacava, por exemplo, a eficácia defensiva, mas era na frente que mais impressionava. Acima de tudo, de qualquer ideia ou plano, havia qualidade. Muita. Ora, quando à confiança se junta qualidade, o resultado só pode ser óptimo. Foi na época passada. Parecia encaminhado para isso na actual. E, de repente, um abanão e tudo muda.
Chegam as dúvidas. Desde a dupla investida de sucesso em Guimarães, o Benfica só ganhou ao Leixões e Tondela, viu a vantagem de sete pontos passar a apenas um, permitiu que um rival que já empatou este ano cinco jogos seguidos voltasse a depender de si para chegar ao título e, de caminho, perdeu a Taça da Liga, uma conquista crónica, para o menos candidato dos finalistas.
Está tudo perdido? Longe disso, como é óbvio. Continuo a defender o mesmo que aqui escrevi há umas semanas: mesmo tendo achando que o Sporting estava melhor apetrechado no início da época, o falhanço de vários dos reforços leoninos faz do Benfica, inequivocamente, o grupo com mais soluções. Terá, insisto, de ser bastante incompetente para não ser campeão, mesmo tendo perdido quase toda a vantagem que tinha.
Durante o tempo em que a confiança vestiu de vermelho havia solução para tudo. O que nunca houve, parece-me, foi uma alternativa clara à qualidade individual em que sempre assentou o futebol encarnado. Ter os melhores ajuda. Ter os melhores confiantes é vitória quase certa. Ter os melhores com dúvidas exige resposta de grupo. Que ainda não se viu.
É esse o passo que o Benfica vai ter de dar nos próximos tempos, sobretudo se o FC Porto, o rival mais próximo, continuar ali tão perto.
O Benfica já não é a equipa confiante que trocava meia dúzia de jogadores e não se notava. Que lançava miúdos e ficava mais forte. Talvez porque, ao contrário da época passada, não teve margem para irresponsabilidade. Pelo contrário: ficou cedo na frente e com o peso cinzento de carregar às contas o rótulo de favorito claro. A palavra irresponsabilidade perdeu o ‘ir’.
E responsabilidade assusta bem mais. Sobretudo porque, quando se lhe junta o tempo, não costuma traduzir-se em confiança. Quanto muito, vira lógica. Que, já se sabe, quase nunca tem piada.
A não ser, talvez, se lhe derem tempo."
VAMOS FALAR DE ARBITRAGEM...
Em Portugal, a arbitragem do futebol profissional carece de ser melhorada em alguns aspetos - nomeadamente na magna questão das notas dos árbitros - mas é incomparavelmente melhor qo que aquela que vigorou durante os anos tenebrosos do Penafielgate, dos quinhentinhos, do Apito Dourado e do Apito Final. Durante muitos anos - e houve árbitros que não devem ser metidos no mesmo saco! - era perfeitamente razoável desconfiar da natureza dos erros do apito, que, como ficou demonstrado, eram mais do foro da criminalidade organizada do que da incompetência.
Hoje, os tempos são outros e é preciso fazer essa justiça aos árbitros e aos seus dirigentes. O erro, que acontece, é fruto em muitos casos de alguma inexperiência (há árbitros lançados demasiado cedo às feras), noutros das limitações próprias da forma como se arbitra. Mas há um terceiro elemento que deve ser aqui denunciado, porque tem passado impune e prejudica a serenidade que os juízes de campo deveriam ter para dirigir os jogos. Os árbitros, o elo mais fraco de todo o processo, têm sido vítimas de pressões exarcebadas (que chegaram ao cúmulo de ameaças físicas a Artur Soares Dias), servindo muitas vezes de bodes espiatórios de culpas alheias, sem que lhes seja dado o devido respaldo. Pressionar e coagir os árbitros tornou-se uma espécie de desporto nacional, de impunidade garantida. Se queremos uma arbitragem melhor, então defendam-se, em todas as vertentes, os árbitros, dando-lhes condições para um desempenho cabal da sua missão. E isso, por falta de coragem das entidades de supervisão, não tem, de todo acontecido...
José Manuel Delgado, in a bola
UM AZAR DO KRALJ
Já nos toparam, Benfica. Agora, é tomar 10 comprimidos para a azia prescritos por um Azar do Kralj.
Os autores de Um Azar do Kralj estão a dar tudo pelo clube deles. Martin Luther King, picanha, Marco Borges e um supergante estão entre as curas para a maleita pós-Setúbal
1. O DÉJÀ VU
Muitos leitores terão sentido um estranho déjà vu causado pela disposição técnico-táctica do Benfica ao longo das últimas semanas. Que estranho… O que é que isto nos faz lembrar? Jogadores ansiosos, previsíveis, incapazes de virar um resultado. Pois é, pá! Vocês lembram-se daquela equipa sem uma ideia de jogo a quem a malta deu um número invulgar de novas oportunidades na época passada? Estão a ver ou não? Às tantas perdemos contra o Arouca, estávamos a meio de Agosto e o Carmo e a Trindade já tinham ruído. Ainda não? Às tantas o treinador ia à sala de imprensa, dizia que se fosse fácil não era para nós, um gajo irritava-se, passava o resto da noite a discutir se era melhor contratarmos o Marco Silva ou o Bielsa. Nada? Depois passaram-se uns meses e fomos tricampeões. Eeeeeexactamente. Essa equipa! Estávamos a ver que não se lembravam.
2. O BIG BROTHER
Agora mais a sério: “E é quando eu vejo pá, que o tempo tá a apertar pá, e que há aí palhaços pá, que falam falam falam falam falam falam pá, mas não os vejo a fazer nada pá, não é?, aahhhh, é pá, já me começo sei lá pá, começam-me realmente já... já a dar cabo da cabeça né?, e... pronto, é pá não, não sei, se calhar é do cansaço, pá não, pode ser também, pode ser que seja do cansaço também, eu é pá, eu tenho calma pá.” Espantoso como as palavras de Marco Borges, estrela da 1ª edição do Big Brother Portugal, continuam a fazer tanto sentido 17 anos depois. Tem havido muita conversa sobre a superioridade do Benfica. Demasiada, ao ponto de já tresandar a bazófia (tu aí, não te auto-excluas). E qual é o problema? Em parte nenhuma, já que poucas pessoas com um pingo de honestidade intelectual neste país duvidam da justiça da actual liderança no campeonato. Direi exactamente o mesmo no dia em que Porto ou Sporting ultrapassarem o Benfica na classificação. Por outro lado, quando a superioridade começa a equivaler a exibições em velocidade de cruzeiro, como se o tetra fosse um acontecimento inevitável, quando se exagera em experiências a montar o onze titular, quando o nosso treinador demonstra alguma passividade a agir sobre os acontecimentos no relvado; e, acima de tudo, quando a nossa ideia de jogo parece voltar ao bola-nas-alas-e-fé-em-Deus que tantas alegrias nos deu no início da época passada, é pá, não sei, se calhar é do cansaço, eu tenho calma pá, mas o tempo tá a apertar pá, é que há aí palhaços pá.
3. O IMPOSTOR
Estamos a viajar com um caso sério de síndrome do impostor. É uma teoria interessante segundo a qual pessoas inteiramente capazes – geralmente das melhores que andam aí – duvidam de si mesmas e temem dia e noite vir a ser desmascaradas como a fraude que realmente são. O tratamento chama-se terapia da coerência e é uma espécie de nem tanto ao mar nem tanto à terra. Implica falar com um outro impostor licenciado em psicologia e especializado em tratar estas coisinhas. De certeza que temos um lá no Seixal. Esta pessoa dir-nos-á essencialmente para nos deixarmos de porcarias, que na verdade somos tão bons em determinados capítulos das nossas vidas quanto algumas das nossas acções dão a entender de acordo com a realidade dos factos e até de acordo com a percepção de muitos dos que nos rodeiam – e que, acima de tudo, não vale a pena dramatizar. Os benfiquistas estão há 1 época e meia a tentar fugir dos seus adversários directos com receio de que um dia se descubra que nunca fomos assim tão bons, que afinal não chegámos a recuperar da saída do JJ, que este tricampeonato é um engano, que o tetra é uma ilusão patética. Tudo isto é um efeito indirecto de traumas gerados por algumas crises das últimas décadas, mas também uma consequência retorcida da estratégia do Sporting, que vai tentando ganhar títulos com a ajuda do nosso antigo treinador, com requerimentos à federação, e com níveis incríveis de choro. Às vezes olho para o campo e dá-me a sensação de que tanta água mole está a furar, e que a única terapia coerente passará por primeiro ganhar, depois ganhar e finalmente ganhar.
4. SOPAS E DESCANSO
No Pizzi No Party. É preciso dar descanso a este homem; isso ou melhores condições para desempenhar o seu trabalho. Esta é uma das posições em campo que mais nos pareceu ter sido positivamente influenciada pelo trabalho de Rui Vitória, e que agora parece exigir a sua intervenção urgente. É que, mestre Rui, fomos topados. E agora? Ontem voltámos a ver o nosso miúdo ser acossado por indivíduos de verde e branco – cenário aterrador ao qual não estamos habituados – quase sempre sem o apoio necessário para fazer o que faz melhor: colocar a bola no espaço que separa o meio-campo da defesa adversária e com isso dar início ao nosso carrossel ofensivo, um movimento perpétuo que tantas goleadas e golaços já nos garantiu. Por falar em verde e branco, se este bloqueio na nossa construção ofensiva já seria irritante contra um Sporting, imaginem contra um Moreirense ou um Vitória de Setúbal. Tenham paciência: o rapaz é objectivamente o jogador mais produtivo deste campeonato, mas não pode com uma gata pelo rabo.
5. ESTÁ A CHORAR?
Menos choro, malta. Tenho visto demasiados benfiquistas explicar a exibição de ontem em função de um erro da arbitragem no último lance do jogo. Há poucas coisas mais patéticas do que justificar a derrota de ontem com a arbitragem. Se Martin Luther King fosse vivo hoje, seria certamente benfiquista, e diria: “Meus amigos, eu tenho um sonho. É um sonho profundamente enraízado no Sonho Benfiquista. Tenho um sonho que vamos ganhar dez campeonatos consecutivos. Tenho um sonho que vamos manter os miúdos da formação mais do que 1 época no plantel principal. Tenho um sonho de que não seremos chorões. Acima de tudo, tenho um sonho de que, independentemente dos erros da arbitragem, continuaremos a levar esta merda toda à frente, dê por onde der. Agora parem lá de chorar e vamos ao Edmundo, passei a manhã a sonhar com a picanha.”
6. O SUPERAGENTE
Menos Jorge Mendes, mais Jorge Mendes. O nível exibicional de alguns jogadores e a especulação jornalística têm levado o Benfica a aparecer muitas vezes na notícia enquanto recipiente de propostas milionárias pelos seus craques. 8 em cada 10 vezes, essas alegadas propostas dizem respeito ao passe de futebolistas agenciados por Jorge Mendes. Reparem: nada tenho contra o grande capital ou contra Jorge Mendes, que aqui serve como metáfora do agente FIFA. Aliás, se os meus pais tivessem poupado mais ao longo da vida, também eu estaria agora a encomendar um daqueles quarenta Lamborghini Centenario que foram feitos. Mas é impossível que tanta telenovela não condicione jogadores como Nelson Semedo, Lindelöf ou outros que tais. Falemos por isso menos de Jorge Mendes, o empresário, e mais de Jorge Mendes, o sócio emigrante que vinha de propósito à Luz para ver o Guedes jogar. E, por este andar, vai ver o Carrillo.
7. OS VOUCHERS
A primeira versão deste produto pareceu ter sido um sucesso. Conseguiu imensa cobertura mediática, ajudou adeptos de outras equipas a explicarem o insucesso desportivo do seu clube e encheu o bandulho a meia dúzia de árbitros. Mas a verdade é que continuamos a depender exclusivamente da qualidade das nossas exibições, o que nos leva a crer que o produto não teve a eficácia desejada. Nestas coisas, o Benfica deve ter uma mentalidade startup e voltar à estaca zero. Se a malta da Apple tivesse ido de férias depois de lançar o iPhone 3, hoje não estaríamos todos a dar €700 por um telefone. Isso e haveria menos chineses a suicidarem-se lá na fábrica. Mas dizíamos: o que falhou neste produto, amigos? Como é que o podemos tornar melhor e mais eficaz? Será o valor da refeição? Devemos pensar num produto mais ambicioso e incluir outros serviços ou experiências? Por exemplo, o Porto oferecia viagens, pequenos almoços, a companhia insuspeita de mulheres. Não tenhamos vergonha de aprender com os melhores.
8. A BOÇALIDADE DOS PETARDOS
Petardos não são exigência. São boçalidade. Receber a equipa no Seixal é bom, receber a equipa no Seixal e atirar petardos é só estúpido. De certeza que foi só meia dúzia de adolescentes, mas ainda assim... Os pais que os metam na linha. Ou a polícia, vá. Mas mantenha-se a exigência. O grande perigo de não se exigir nada é que, no final, podemos mesmo acabar com um grande nada. O que seria um nadinha deprimente.
9 . O VÍCIO DO JOGO
Há um livro chamado “Addiction By Design” que é uma descrição fascinante do vício do jogo. A antropóloga Natascha Schull passou algum tempo a estudar o comportamento de jogadores de casino e assistiu a coisas fascinantes. Por exemplo, sabem porque é que algumas mulheres usam vestidos pretos quando vão ao casino em Las Vegas? Porque assim podem urinar mais discretamente sem terem de abandonar a slot machine, que não é qualquer uma, mas aquela slot machine que, dita o vício, está destinada a compensar a nossa perseverança patológica. E porque é que os viciados no jogo o fazem? A autora do livro explica. Certo, também é pela fortuna que podem ganhar, mas, muito mais importante, o viciado vive para os pequenos highs, para aquela pequena moca resultante de um pico de adrenalina recompensado com endorfinas. Podia ser uma slot machine, como uma nova finta do Rafa, um hat-trick do Mitroglou ou mais um lance genial do Jonas. É este o nosso vício e assim continuaremos, perseverantes, viciados neste Benfica que não quer outra coisa senão ganhar. E, sim, vamos continuar um bocadinho tremidos, sem abandonar o lugar no estádio ou no sofá, à espera dessa sorte que também nos tem faltado.
10. UM PEDIDO
E, pelo amor de Deus, tenham calma.
O BENFICA, O FICANOV E PUTIN
Uma das capas possíveis da próxima edição do Courrier Internacional poderá vir a ser algo como “Putin, o Tigre de Papel”. Ou seja o velho aforismo maoísta sobre os EUA talvez se aplique ao líder russo: aparenta um poder que na realidade não tem.
Procurei aferir a correção desta ideia com o meu amigo Miguel Monjardino que, além de ser um distinto professor de Relações Internacionais, é um benfiquista incondicional e que, tal como eu, estava em processo de digestão de um salmonete de Setúbal manifestamente azedo. Sobre Putin disse-me que, se é verdade que faz bluff, por outro, é dos raros líderes internacionais que arrisca numa altura em que ninguém quer correr riscos. Isso é uma das explicações para alguns sucessos que tem obtido, da Crimeia à Síria.
Que tem isto a ver com o jogo de ontem entre Setúbal e Benfica? Tudo! Depois de sofrer um golo fortuito esperava-se que o Glorioso fosse para cima do adversário e invertesse o rumo dos acontecimentos. Nada disso aconteceu. E quanto mais se caminhava para o fim do jogo, mais se insistia no futebol rendilhado, no toque de calcanhar, na finta espúria em vez do óbvio: chutar à baliza, muito e com força.
Podemos discutir se há razões específicas para o empate com o Boavista, a derrota com o Moreirense (parabéns aos heróis de Moreira de Cónegos!) ou a de ontem, com o Setúbal. Haver, há. E aquele lance sobre Carrilho, mesmo no fim, é penalti em qualquer lado, do Burkina Faso, ao Afeganistão ou à Antárctida.
Mas isso não desculpa o resto. Quando as coisas se complicam, esqueçam-se os rodriguinhos e centre-se repetidamente para a área. Chute-se constantemente à baliza e nada de trivelas: biqueiros na bola e com força. Alguma há-de entrar. Arrisque-se, como Putin! Jogue-se à Otto Glória: que importa sofrer três golos se marcarmos cinco ou seis?
Deste ponto de vista e como um clube não é uma empresa de Wall Street, tenho as maiores dúvidas de que a decisão de vender Gonçalo Guedes em janeiro tenha sido prudente. Nunca saberemos se no jogo de ontem teria marcado mas era uma carta fora do baralho, capaz de trazer genica e imprevisibilidade a um futebol frouxo e sem chama.
Quero crer que este foi o ponto mais baixo do ciclo de Inverno e que vêm aí coisas boas. Porque, meus caros, a jogar assim o Benfica não conseguirá ser campeão e não mereceria sê-lo se porventura lá chegasse neste registo.
Duas últimas palavras para os sportinguistas.
A primeira um abraço para o moço anónimo que ontem estava a ver o jogo no mesmo tasco que eu e me dizia: “Sou sportinguista e dá-me um gozo do caraças ver o Benfica perder. Mas da maneira que está o meu clube, nem que vocês perdessem os jogos todos a gente lá ia…”
A segunda para aqueles que dizem que gostam mais de ver o Benfica perder do que o Sporting ganhar. Nós talvez precisemos do Putin mas vocês estão à beira de contratar aquele búlgaro famoso que tem sido presença assídua em Alvalade: o Ficanov(e), topam?
Rui Cardoso, in Coluna Expresso
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