sábado, 27 de junho de 2020

DIFERENÇAS


"Não deixa de ser paradoxal que, no momento em que Portugal é escolhido como palco da realização da fase final da Champions League, estejamos a assistir a um dos piores campeonatos nacionais de que há memória. Dos jogos à porta fechada ninguém tem culpa. Mas infelizmente são um facto, que retira cor e som aos espectáculos.
Além da falta de ambiente nos estádios, temos um desfile interminável de clubes-fantasma (sem adeptos, sem dinheiro, sem alma, e naturalmente mais enquadráveis nas divisões secundárias), orientados por treinadores agarrados e tácticas ultradefensivas em busca do 'pontinho', e deparamo-nos com arbitragens dignas da banda desenhada - como a que assinalou uma das grandes penalidades mais grotescas de que me recordo, precisamente no último Desp. Aves - FC Porto.
Quanto aos candidatos ao título, nem o Benfica nem o FC Porto têm sido brilhantes. Muito longe disso. Creio mesmo que este FC Porto é um dos mais fracos das últimas décadas, enquanto o Benfica também anda bastante longe do fulgor evidenciado, por exemplo, na ponta final da temporada passada. Há, porém, uma enorme diferenças entre ambos: enquanto o Benfica atravessa apenas uma crise exibicional e resultados que se limita ao que se passa dentro do relvado, os nossos rivais nortenhos têm em mãos problemas bem mais profundos, que tocam em aspectos estruturais do clube, onde não falta intervenção da UEFA, cortes salariais e tudo o mais que o tempo nos dirá. Veremos quem ganha este campeonato. Mas o que para nós é um desafio fundamentalmente desportivo, para eles trata-se de vida ou de morte. Estejamos atentos."

Luís Fialho, in O Benfica

O MARTELO DE NIETZCHE VIII


"1- Neste tempo em que os dirigentes das diversas instituições políticas e desportivas, tudo indica, já não acreditam nos princípios e valores do desporto servindo-se dele como qualquer ditador da américa latina, recomendo a leitura do livro de Bernard Yanez intitulado “Deux visages du fascisme: Coubertin et Hitler”. E porquê? Porque a emoção da estética dos grandes eventos desportivos, desde o seu anúncio até à condenação dos heróis vencidos, embebeda os políticos populistas e ilude os cidadãos incautos. Até Pierre de Coubertin, já no final da sua vida, falido, doente e desconsiderado pelos franceses, deixou-se ir na cantilena da neutralidade política do desporto e acabou por fazer um frete aos nazis. E logo ele que, muito para além da pedagogia, foi o primeiro homem a ter uma visão política do desporto. Ele foi o primeiro político do mundo moderno a descobrir e a utilizar o poder do “soft power”. A sua posição relativamente aos Jogos Olímpicos de 1936 custou-lhe o Nobel da Paz. Coubertin viria a falecer no ano seguinte sem assistir ao desencadear da guerra pela besta Nazi que viria a acontecer em 1939.
2- Grande entrevista a de Manuel Brito o presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP). Duas páginas do desportivo A Bola (2020-06-16) com cinco extraordinárias fotografias uma delas 20x21 cm o que em quaisquer circunstâncias impõe respeito. Eu que por interesse profissional comecei a organizar um dossier sobre doping precisamente em 1969 ano em que Joaquim Agostinho foi desclassificado da volta a Portugal (ainda hoje não compreendo como é que os marretas do apoio médico não foram responsabilizados) ao ler a vasta entrevista acabei por ficar a perceber ainda menos porque é que o Governo trocou Rogério Jóia que vinha a fazer um trabalho excelente por Manuel Brito.
3- Da entrevista do presidente da ADoP ficou-me o sentimento da sua mais completa inutilidade na medida em que se umas das medidas pomposamente anunciadas por Manuel Brito já vinham do tempo de Rogério Jóia as outras, não tinham qualquer interesse. E, por isso, a dita entrevista, para além da excelente estética das fotografias com expressões faciais de grande autoridade, fez-me recordar o ensaio intitulado “Shooting an Elephant” de George Orwell.
4- Relativamente ao ensaio “Shooting an Elephant”, George Orweell, enquanto funcionário administrativo na Índia colonial britânica, foi colocado perante a situação de ter de abater um elefante sem nenhuma necessidade de o fazer. O problema, explicava ele, era que toda a gente estava à espera que ele abatesse o elefante. E concluiu o relato do acontecimento confessando que só matara o elefante para não fazer figura de tolo.
5- A metáfora do “Shooting an Elephant” de George Orwell levanta uma das questões mais interessantes para a teoria da gestão na era da comunicação de massas em que vivemos. Um burocrata administrativo sente-se na obrigatoriedade de mostrar serviço só porque toda a gente espera que ele o faça mesmo que não tenha nenhum serviço especial a mostrar. Manuel Brito não matou um elefante, mas matou uma entrevista. Porque, ninguém percebe minimamente qual foi o objectivo da mesma. O que se esperava era um esclarecimento cabal acerca da ADoP, quer dizer, o que é que anda a fazer, com que resultados e a que relação custo / benefício. Pelo contrário, a entrevista circunscreveu-se ao ciclismo (com uma breve passagem pelo futebol) e, bem vistas as coisas, não serve para nada a não ser para, em grande medida, relatar aquilo que já vinha do tempo de Rogério Jóia e isso já nós sabíamos: (1º) Os processos dos ciclistas já vinham do tempo de Rogério Jóia; (2º) Os contactos internacionais relativos ao passaporte biológico já vinham do tempo de Rogério Jóia; (3º) A lei nº111/119 que regulamenta a acção da ADoP já vinha do tempo de Rogério Jóia; (4º) Os casos do futebol também já vinham do tempo de Rogério Jóia; (5ª) A intervenção da ADoP na Volta a Portugal já vinha do tempo de Rogério Jóia; (6º) Os controlos fora das competições já vinham do tempo de Rogério Jóia, só que, agora, e esta é a única novidade, em tempo de Covid-19, estão suspensos. Por mim, concluo que tal como George Orwell foi obrigado a matar o elefante porque toda a gente estava à espera que ele o fizesse, assim também Manuel Brito foi obrigado a “matar a entrevista” porque toda a entourage política estava à espera daquela morte anunciada. Entretanto: (1º) Perdeu a oportunidade de demonstrar a bondade da decisão política do Governo de o nomear em substituição de Rogério Jóia; (2º) Não foi capaz de provar a sua superior competência relativamente à de Rogério Jóia, antes pelo contrário e; (3º) Não vale a pena tentar uma segunda oportunidade a fim de criar uma primeira boa impressão até porque ela não existe.
6- O Regime Jurídico das Federações Desportivas (Decreto-Lei n.º 248-B/2008 de 31 de Dezembro), a fim de acabar com os abusos dos excelentíssimas líderes dinossaúricos que se apropriaram do desporto nacional, determinou a limitação de mandatos num mesmo órgão de uma federação desportiva. O problema é que em Portugal existe a “figura jurídica do esquema” que pode ser definida como o processo expedito para, de uma forma perfeitamente legal, ultrapassar os constrangimentos da lei fazendo com que, em termos práticos, ela deixe de existir. Em conformidade, no mundo do desporto, para além de qualquer réstia de vergonha, está instituída a figura do Testa de Ferro que, do ponto de vista formal, dá a cara para que alguém, mais ou menos na sombra, exerça realmente o poder. Mas o que mais entristece em tudo isto é haver uma sociedade que, do ponto de vista ético-moral, aceita viver com tal estado de coisas sabendo que tudo isto acontece à custa do dinheiro dos contribuintes.
7- Da educação física aos jornais ninguém pode agora vir armar-se numa donzela virgem liberta de quaisquer responsabilidades pelo estado caótico em que o desporto nacional se encontra. A educação física, desde princípio dos anos noventa, funciona de acordo com uns programas escolares que, na concepção da sua superestrutura, são completamente anacrónicos. Os resultados estão à vista: os cidadãos, do ponto de vista desportivo, de uma maneira geral, são incultos quando não incultos e boçais. Pelo seu lado, a jusante, os jornais, porque perderam a paixão e o encanto do passado, procuram satisfazer mais os instintos primários do que a inteligência emocional dos seus leitores. Ora, se o que se passa na educação física e nos jornais, a curto prazo, pode garantir alguma sobrevivência, a médio e longo prazos só pode garantir o colapso. Vive-se num círculo vicioso: Os jornais não alimentam a educação e a cultura desportivas dos leitores porque os programas de educação física não proporcionam nenhuma educação e cultura desportiva aos jovens portugueses e como os programas de educação física não incutem uma cultura desportiva aos jovens portugueses estes também não compram jornais.
8- Há muito que tenho para mim, praticamente há quase trinta anos, desde que trabalhei com Eduardo Miragaia e Octávio Ribeiro no então Gabinete do Desporto Escolar ao tempo de Roberto Carneiro que existe uma possibilidade de conjugação de interesses estratégicos entre a educação física e o jornalismo. O problema é que estamos perante duas classes profissionais excessivamente corporativas que se julgam detentoras da verdade que elas próprias constroem pelo que recusam qualquer opinião de ordem externa. Todavia, os jornais não se leem sem leitores e o desporto não se desenvolve sem jornais. Ora, é a juventude que estabelece a ponte entre estas duas realidades. O problema é que os programas de educação física do ponto de vista da sua superestrutura são um desastre social e os jornais do ponto de vista da sua afirmação entre a juventude são outro.
9- Nos momentos de crise é de fundamental importância voltar às origens, aos valores seminais, aos projectos que estiveram na origem de tudo o que viria a acontecer. O momento do arranque da educação física na era moderna foi, certamente, o ano de 1762. O protagonista o médico naturista de nacionalidade suíça, de seu nome Jacques Ballexserd (1726-1774) e o meio o livro publicado naquele ano intitulado “Dissertation sur l'Éducation Physique des Enfans, Depuis Leur Naissance Jusqu'à l'Âge de Puberté” onde, numa perspectiva eminentemente cartesiana e higienista, Ballexserd, utilizando pela primeira vez o termo educação física, estabeleceu um conjunto de recomendações higiénicas para o desenvolvimento das crianças e dos jovens até à puberdade. Nas suas recomendações incluiu os “exercícios dos jogos” que deviam fazer parte do processo educativo. A fim de se estruturar uma ideia devidamente fundamentada sobre aquilo que se deseja para o futuro, talvez não fosse mal pensado regressar-se às origens, a Ballexserd e aos gimnasiarcas do século XIX até chegarmos a Pierre de Coubertin já em finais do século e ao grande projecto desportivo à escala do Planeta que se viria a desenvolver durante todo o século XX. Quanto aos jornais, para além do Gymnasta cuja primeira edição surgiu em 1878, os desportivos, tais como O Sport, O Sport Velo e, entre outros, o Tiro e Sport começaram a surgir a partir dos anos noventa do século XIX. Eles foram os principais promotores do espírito desportivo na passagem do século XIX para o século XX. Hoje, são representados pel’ A Bola, o Record e O Jogo mas já sem o esplendor do passado ao tempo em que os jornais sentiam responsabilidade pelo desenvolvimento do desporto e, por isso, tinham um negócio. Quer-me parecer que agora funcionam mais com um negócio que pouca ou nenhuma capacidade têm de influir no desenvolvimento. Em consequência, estão perante a contingência de ficarem sem um negócio porque ele não é alimentado a montante.
10- Não existem soluções simples, rápidas e eficazes. Vivemos tempos de: (1º) Volatilidade em que tudo muda frequentemente de forma; (2º) Incerteza em que o estado de dúvida é permanente; (3º) Ambiguidade em que os problemas sugerem diferentes caminhos para a sua solução; (4º) Complexidade que exigem líderes capazes coordenarem e integrarem equipas constituídas por especialistas de diferentes saberes. O problema é que os líderes já não são o que outrora costumavam ser."

A CHAMPIONS


"A realização da final 8 da Liga dos Campeões em Lisboa é uma grande vitória para Portugal. A mais prestigiada competição europeia de clubes vai resolver-se no Estádio da Luz, e isso deve orgulhar-nos a todos. Depois das finais do Campeonato da Europa, em 2004, e da final da Liga dos Campeões, em 2015, o nosso estádio volta ser o palco de um grande acontecimento desportivo. Um evento que vai pôr Lisboa e Portugal no mapa. Trata-se, sobretudo, de uma grande oportunidade para a divulgação do nosso país numa altura de crise profunda, com graves danos para vários sectores de actividade, sobretudo o turismo. Aqueles que tanto têm criticado esta escolha da UEFA não têm noção da relevância desta competição. Vão estar em Lisboa as melhores equipas europeias e os melhores jogadores do mundo. Entre as equipas que disputaram os oitavos de final, as apuradas para os quartos de final e aquelas que estão na luta por atingir esta fase, existem vários jogadores que jogaram no Sport Lisboa e Benfica. Na baliza, Oblak (At. Madrid) e Ederson (M. City). Para a defesa, seria possível forma um quarteto com Nélson Semedo (Barcelona), Wutsel (B. Dortmund), Garay (Valência) e João Cancelo (M. City). No meio-campo, um trio de excelência: Gonçalo Guedes (Valência), Bernardo Silva (M. City) e Ángel Di Maria (PSG). Na frente de ataque, outro trio fantástico: Rodrigo (Valência), Jovic (R. Madrid) e João Félix (At. Madrid). Seria um 4x3x3 de luxo. O que só prova a qualidade dos jogadores que representaram o SL Benfica nesta década e que nos permitiram conquistar a hegemonia do futebol português. Os 19 títulos conquistados, desde 2009, provam a excelência do trabalho feito quer na prospecção, quer na formação."

Pedro Guerra, in O Benfica

SOMOS TODOS MULHERES


"Nesta semana vamos imaginar. Vamos imaginar que somos profissionais de uma determinada área e temos de discutir o valor do nosso salário. Mecânico, médico, empresário, trabalhador por conta de outrem, não importa. Vamos imaginar que alguém acima da nossa entidade patronal decide que eu, você ou nós não podemos ganhar mais do que 550 mil euros por ano, cerca de 40 mil euros/mês se incluirmos subsídios de férias e de Natal. É um belíssimo ordenado, atenção. E quem dera à imensa maioria da população poder ter esse dinheiro a entrar na conta todos os meses, mas imaginemos que valemos ainda mais, que outra empresa nos quer contratar e subir a parada. E que isso não é possível porque alguém decidiu que, por uma questão de igualdade entre empresas, tem de ser criado um tecto salarial. E que esse limite de pagamento é aplicado só aos funcionários do género masculino.
É isto que se está a passar no futebol feminino em Portugal, podem para de imaginar. Esta é a realidade. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) determinou um tecto nos salários das jogadoras, e estas já admitem avançar para tribunal, criando também o manifesto Futebol sem Género, assinado por quase 150 atletas, a exigir igualdade de género em Portugal, e só cerca de 5% delas recebem mais de 1000 euros por mês.
A FPF defende-se com a necessidade de equilibrar o futebol português, mas será esta a melhor forma? Um primeiro passo poderia ser a garanta de um salário digno para as praticantes, uma base mínima, em vez de um tecto. Tendo em conta que cerca de um terço das praticantes profissionais da divisão principal em Portugal não recebe para jogar à bola, que tal combater essa injustiça? Ma seu compreendo... não é fácil ver um projecto como o do SL Benfica triunfar, dar cartas e servir de exemplo. Mais vale tentar já cortar a possibilidade de outras estrelas internacionais vestirem a camisola do Glorioso."

Ricardo Santos, in O Benfica

CADA VEZ MELHORES!


"Vivemos, como nos habituámos a ouvir dizer, uma normalidade possível. Esta normalidade possível há de um dia ser uma recordação, e a bola rolará livremente dos relvados das multidões aos recreios das escolas, e daí às esquinas das ruas das cidades como às praças das aldeias, a todos envolvendo na sua magia agregadora. Mas, para já, temos ainda de actuar com inteligência e responsabilidade, não deitando a perder o que tão arduamente conquistámos enquanto nação. Por isso, recorremos à imaginação e levamos ao limite o uso as novas tecnologias, redobramo-nos em contactos individuais e acompanhamos os nosso jovens caso a caso, casa a casa, família a família. E eles dizem pronto! Reconhecem a importância que lhes damos e agradecem o carinho que lhes demonstramos, tentando fazê-lo com acções e resultados, não com palavras fáceis. Como nós, sentem que há que vencer, que passar por cima deste inimigo invisível e cruel, que demonstrar a nós próprios e aos outros que não baixamos os braços perante a adversidade, e que temos fibra para encontrar nela força e estímulo para seguir em frente, no caminho da superação e do sucesso.
É bem essa a atitude que encontramos nos jovens dos nossos projectos e, muito concretamente, do projecto 'Para ti Se não faltares!', desde a primeira hora. Por isso os indicadores de frequência, comportamento e sucesso não só não baixam como melhoram globalmente a cada trimestre escolar, consolidando os resultados porque este projecto de combate ao absentismo e abandono escolar é reconhecido dentro e fora de portas.
Os nosso jovens são o nosso orgulho porque cada vez estão melhores, e o Benfica, pela acção privilegiada da sua Fundação, tem que ver com isso!"

Jorge Miranda, in O Benfica

PRIMEIRAS PÁGINAS DA LIXEIRA JORNALEIRA TUGA


sexta-feira, 26 de junho de 2020

UM AVISO A VIEIRA


Em Assembleia Geral com ponto único, Sócios do Sport Lisboa e Benfica votaram, nesta sexta-feira, o orçamento ordinário de exploração, o orçamento de investimentos e o plano de atividades elaborados pela Direção, bem como o parecer do Conselho Fiscal, para o exercício de 2020/2021.
RESULTADOS DA VOTAÇÃO
Sim 47,79%
Não 48,28%

Abstenção 3,93%
A reunião magna – que respeitou todas as normas de higiene e segurança indicadas pela Direção-Geral da Saúde, tendo em conta o panorama de combate à propagação de infeção por COVID-19 – teve início às 15h00 e decorreu até às 22h00. A votação dos associados foi feita presencialmente no Pavilhão n.º 2 do Complexo Desportivo Estádio do Sport Lisboa e Benfica, por via eletrónica (estiveram disponíveis dez "urnas", devidamente distanciadas – 2 metros – entre si).

O NEGÓCIO ROUBOU A ALMA AO BENFICA (1)

"Não costumo alongar-me muito sobre a vida do meu clube porque o vivo apaixonadamente. E quem vive apaixonadamente alguma coisa tem o sangue a correr forte nas veias e facilmente se deixa levar pelas emoções, que inocentemente resvalam para discussões estéreis nas redes sociais que, regra geral, dão azo a quebras de amizade e ao insulto fácil. Essa é, por isso, a forma que arranjei para ser um pouco mais racional neste assunto: remeter-me ao silêncio. Só que já não dá mais. E nem falo só deste catastrófico fim de época. Falo de um rol de situações, confusões e maroscas que nos colocam consecutivamente nas parangonas dos jornais. E sim, eu sei que o Benfica vende muito e que parte delas são puras invenções ou notícias para encher chouriços, mas outras há que não. Começa a tornar-se demasiado evidente o desnorte de uma estrutura que se tornou amorfa e resolveu abdicar de um projecto desportivo para desenhar uma visão mercantilista que não olha a meios para atingir os seus fins.
É, por isso, até porque se aproximam umas eleições, a altura certa para darmos o nosso contributo e a nossa opinião sobre o assunto. Nos dias que correm, os clubes tiveram (e bem) de se profissionalizar e implementar uma visão empresarial para que pudessem sobreviver, crescer e desenvolver-se. Até aqui, Vieira e a sua direcção fizeram tudo muito bem. O problema foi depois. Um clube de futebol nunca será uma empresa normal. Por aqui mexe-se com emoções, com risos e choros, com amor de deixar tudo na hora do jogo. Aqui beija-se a camisola com uma profundidade inexplicável, sofre-se de uma forma implacável e quando é bom, meu Deus, leva-nos ao céu. É, por isso, tão importante ganhar, mas não basta ganhar, é preciso que a alma e a mística do clube nos envolvam e nos deixem orgulhosos. É por isso que, mesmo que nos últimos seis anos o Benfica tenha ganho cinco títulos nacionais, isso não é suficiente.
Nestes quatro anos de mandato, a direcção do Benfica rebentou completamente com a equipa de futebol, vendeu os melhores jogadores e para o lugar destes trouxe um comboio de outros de qualidade duvidosa. Muitos deles nem chegaram a treinar. O clube tornou-se um entreposto de jogadores com ligações estranhas a clubes paraguaios e polacos. Tentou-se vender a ideia de que só com os jogadores da formação se lutaria por títulos europeus quando, na verdade, estes jogadores precisam de outros mais experientes para crescerem, e não da mediocridade vigente, que lhes faz perder a confiança. Custa ver plantéis depauperados e desequilibrados numa altura em que o rival se encontra em grandes dificuldades financeiras – uma oportunidade perdida para se criar uma verdadeira hegemonia, à custa do vício do negócio. Prometem-se grandes conquistas e depois faz-se gala de que, se não fosse a covid, os nossos dois melhores jogadores estariam vendidos. Areia para os olhos e mentiras atrás de mentiras, gozando com os sócios através de estratégias de comunicação gastas.
Queremos de volta a nossa alma que a cegueira do negócio roubou. Nós, que vos levamos ao colo para todo o lado, que enchemos as bancadas dos sítios mais distantes e longínquos, que abdicamos de muito para ter um lugar no estádio ou para comprar um bilhete. Nós, que queremos passar uma mística aos nossos filhos que os faça sonhar todos os dias como nós um dia sonhámos. Estamos fartos de yes-men que corroem o nosso amor, de gente sem qualidade. Temos vergonha dos Pedros Guerras que nos representam na televisão e das sucessivas campanhas que têm feito para nos iludir. Façam o que nos prometeram e devolvam o nosso orgulho e a nossa chama imensa com um projecto desportivo que nos devolva a imagem que um dia tivemos lá fora. O Benfica é nosso e há de ser. Vêm aí eleições, espero eu com vários candidatos e projectos distintos. Está na hora de esta incomparável massa associativa tomar decisões e escolher para onde quer ir. O que temos não chega. Queremos mais. Sem medos. Somos Benfica."

DO DEZ A ZERO AO DESCALABRO

"Bruno Lage está na iminência de ser despedido um ano e meio depois de assumir o cargo, após a demissão de Rui Vitória. 16 meses depois de vencer um jogo por 10-0, 15 meses depois de recuperar de uma diferença de 7 pontos com uma reviravolta no Dragão, 13 meses depois de ser Campeão com uns inacreditáveis 103 golos, 10 meses depois de conquistar a Supertaça com uma manita histórica ao Sporting e 5 meses depois de ser líder com 7 pontos de avanço e uma 1ª volta praticamente perfeita. Como isto aconteceu?
Bruno Lage foi um amor de verão como muitos de nós tivemos na nossa adolescência. Não sabíamos bem onde aquilo ia parar, mas foi belo, foi intenso, foi eterno enquanto durou. Nada apagará essas memórias. Tínhamos um treinador jovem, moderno, que só falava de futebol, que reestruturou um onze perdido apostando em João Félix, promovendo Ferro, Florentino e Gabriel e colocando Pizzi na direita, onde mais rende. E o Benfica voou. Oh se voou! Vivemos o mais parecido a que os portistas terão sentido com José Mourinho e André Villas Boas. Que com este jovem íamos conquistar Portugal, a Europa e o mundo! Só que tal como nos amores de verão, o inverno chegou. E a relação foi-se esmorecendo.
Muito por culpa de Bruno Lage. Que tendo dado um título milagroso à "estrutura" não se soube impor no verão exigindo os reforços que o plantel precisava e Jorge Jesus costumava conseguir. Aceitou o papel de "team player", treinador de estrutura e em vez de garantir que chegava a alternativa a Vlachodimos que publicamente pediu, ou um lateral direito, um trinco ou o segundo avançado que substituísse João Félix e Jonas, concordou, nem que por omissão, que o plantel fosse reforçado apenas com dois pontas-de-lança semelhantes a Seferovic, que já lá tinha. Lage foi até mais papista que o Papa e para agradar à estrutura resolveu colocar jovens do Seixal na Liga dos Campeões. É inacreditável pensar que Tomás Tavares a determinado momento levava 270 minutos na Liga dos Campeões e 23 minutos no campeonato. Que a única estreia de David Tavares na equipa principal tenha sido num jogo contra o Leipzig, na estreia da fase de grupos.
Lage falhou no reerguer do Benfica Europeu, mas nem foi por tentar. Foi mesmo porque abdicou de tentar! Já o tinha feito o ano passado na Liga Europa, diga-se, rodando constantemente a equipa nesses jogos e deixando os titulares para o campeonato. Essa falta de ambição é imperdoável, mas o pior veio nos últimos meses, com uma incapacidade gritante de evitar que o barco fosse afundando. A gestão dos pontas-de-lança é sintomática: rodando-os na fezada que algum haveria de marcar golo e muitas vezes lançando os três ao mesmo tempo, numa táctica kamizaze digna dos treinadores básicos do "Football Manager".
Chegámos então à situação actual, com um Benfica à deriva, com uma incapacidade gritante de jogar futebol, com um registo de resultados digno do Vietname (o período do clube entre 1994 e 2004) e prestes a perder o campeonato para o FC Porto mais fraco que há memória.
Mas paremos para pensar noutra coisa. A culpa é só de Bruno Lage? Não. Não mesmo. Há culpas no cartório também para presidente, jogadores e adeptos. Comecemos por Luís Filipe Vieira: um tipo que já assumiu por mais que uma vez que de futebol nada percebe, mas que continua arrogantemente a querer assumir a pasta, somando insucessos atrás de insucessos. O que seria dos 17 anos de Vieira se não tem acertado em Jorge Jesus, que foi quem lhe deu balanço para a maioria dos títulos que ganhou? Vieira não tem qualquer política desportiva para o futebol do clube que não seja formar e comprar jogadores para vender e gerar dinheiro. Repare-se: há quanto tempo o Benfica não gasta dinheiro num lateral direito? E porquê? Simples, porque laterais direitos não geram vendas avultadas. Mas que equipa sobrevive com esta política desportiva? Para se ganhar troféus tem que se ter titulares fortes em todas as posições. No entanto, Vieira foi desinvestindo cada vez mais na equipa de futebol para abrir espaço para os craques do Seixal, mas ao mesmo tempo vende-os passado 6 meses. E então chegamos à situação actual em que não temos craques estrangeiros nem formados.
E ok, não há craques, só há jeitosos, mas sejamos claros: o plantel do Benfica actual tem mais que obrigação de ganhar a Santa Clara na Luz. Tem mais que obrigação de conseguir mais que 2 vitórias em 12 jogos. Os jogadores também têm que assumir a sua responsabilidade. Têm os ordenados mais elevados da História do clube, nem em layoff estiveram no período de quarentena e têm que dar mais do que têm dado. Muito mais. Nenhum de nós sente que eles estão a deixar a pele em campo, que estão a terminar os jogos frustrados como nós terminamos. Faltam líderes, faltam Homens a esta equipa.
Só que cheguemos à introspecção: nós adeptos também temos culpa. Primeiro porque adormecemos à sombra de alguns títulos e permitimos ao presidente actual alterar os estatutos de modo a que seja quase impossível tirá-lo de lá. Um presidente que se sente intocável, que acha que só sairá do Benfica quando ele muito bem entender e que não sente nunca o lugar em perigo, obrigando-o a correr atrás do prejuízo. Que nestas próximas eleições não se dignará a participar em debates e proibirá que o canal do clube possa expor as ideias dos outros candidatos. Mas a maior falha é esta: somos adeptos do maior clube Português, que tem o dobro dos adeptos dos outros clubes, o dobro dos sócios, durante muito tempo o dobro dos títulos e não nos comportamos como tal.
O Benfica devia ser como o Bayern na Alemanha ou a Juventus em Itália e no entanto aceitamos de forma passiva que o Benfica continue a perder campeonatos de forma regular para um FC Porto que até aos anos 80 nem cócegas nos fazia. Somos pouco exigentes, não respeitamos nem reconhecemos a grandeza, a História e a mística deste clube. Não somos dignos herdeiros de Cosme Damião, Eusébio, Coluna ou do antigo 3º Anel, daquele Tribunal da Luz que até Nené assobiava. Imagine-se contar a um Benfiquista dos anos 60, 70 ou 80 que o clube iria só vencer 3 Taças de Portugal em 20 anos ou que iria perder títulos de forma constante para o FC Porto? Levávamos um estalo na cara e obrigavam-nos a ir para a entrada do estádio falar com o presidente e ao campo de treinos dar uns calduços nos jogadores, enquanto a situação não estivesse resolvida.
Lage irá naturalmente cair, mas é importante que comecemos a olhar mais para a floresta e menos para a árvore. O clube de Cosme Damião, Eusébio e Coluna, o mítico Sport Lisboa e Benfica, o gigante de Portugal e da Europa, tem de parar de dar abébias aos seus rivais, estruturalmente menores, única e simplesmente por incompetência."

ANDRIJA ZIVKOVIC: REFORÇO FORA DE ÉPOCA

"A derrota caseira por 4-3 frente ao CD Santa Clara veio aumentar, ainda mais, a crise que o SL Benfica vive por estes dias. Se o campeonato já estava comprometido, as exibições recentes da equipa não auguram o melhor desfecho desta época desportiva.
Num momento em que o Benfica se encontra a disputar dois troféus (campeonato e Taça de Portugal), o plantel está muito aquém do esperado, não conseguindo obter os resultados que podia e devia.
Há, no plantel, vários jogadores que não têm sido aposta de Bruno Lage, tal como Andrija Zivkovic. O sérvio é um jogador bastante interessante e pode ser um bom reforço interno para atacar aquilo que falta da temporada. O jovem sérvio não tem sido aposta de Bruno Lage por opção do técnico setubalense.
No SL Benfica desde 2016, Zivkovic tem sido um jogador que tem passado por alguns contratempos com o clube da Luz. Mais recentemente, o Benfica tentou vender o atleta, mas o ex-Partizan recusou-se a sair do clube a qualquer custo. A verdade é que Zivkovic aufere um dos salários mais altos do plantel do Benfica, sendo dos que menos dá à equipa no que toca a resultados desportivos, mas, ainda assim, é tempo de tentar reabilitar este jogador.
Dotado de uma técnica anormal, “Zivko” poderia ser muito mais do que aquilo que é. O extremo é um jogador tecnicamente evoluído, tem um pé esquerdo bem acima da média e seria, sem qualquer dúvida, uma boa adição para o Benfica.
No decorrer do jogo frente ao Santa Clara, Lage fez entrar Zivkovic para o lugar de Gabriel e pode-se considerar que Zivkovic correspondeu àquilo que lhe foi pedido, embora o desfecho não tenha sido aquele que era pretendido. Entrou, desequilibrou, jogou e fez jogar.
Zivkovic já não jogava desde o encontro frente ao SC Covilhã, a contar para a Taça de Portugal, há pouco mais de seis meses e não era aposta de Bruno Lage. O treinador do Benfica não contava com o jogador e voltou assim a integrar o mesmo nos seus planos para o que resta da temporada. 
Usualmente é colocado a jogar numa extremidade do campo, embora possa pisar terrenos mais interiores. Zivkovic seria uma boa opção para render Pizzi e Rafa, sobretudo o primeiro, que está claramente em quebra de rendimento. No plantel são vários os jogadores que podem jogar a extremo, mas penso que nenhum tem as qualidades de Zivkovic, ou melhor, aquilo que Zivkovic pode dar à equipa a nível técnico.
Andrija Zivkovic é um talento raro e a sua carreira profissional tem sido um autêntico desastre. O facto de ter feito o contrato da sua vida muito jovem (todos os anos o seu salário aumenta até que chegará a cerca de cinco milhões de euros) poderá ser uma das razões para o insucesso do jogador. Ainda assim, a qualidade está lá, faltando apenas a força de vontade de lutar por um lugar no XI."