quinta-feira, 29 de março de 2018

O FILHO DA MULHER QUE ARDIA


"Dadá Maravilha parava no ar como um helicóptero ou um beija-flor. Foi uma das figuras mais extraordinárias do futebol

Houve dois aviões muito famosos em Lisboa, por sinal ambos sem voar. Uma destas idiossincrasias próprias deste país magnífico em episódios caricatos. Um deles era o avião do Mobutu, seráfico, imponente como um príncipe da ferrugem, fuselagem branca e verde amarelecendo ao longo de década e meia na sua mobilidade imperial, exibindo o orgulho pátrio: Republique du Zaïre. O outro, bar de alterne, à beira da estrada, na fronteira com os Olivais da nossa adolescência e servindo etéreos serviços femininos (talvez por isso disséssemos que pertencia à Companhia Olivalense de Navegação Aérea), testemunha de um caso macabro de uma bomba explodindo debaixo do lugar do condutor que, não por acaso, era o proprietário da aeronave sem horizontes.
Falei de aviões para ir aos helicópteros e não me recordo de nenhum helicóptero que tenha ficado para a história da capital. Mas recordo-me de um helicóptero que marcou a história do futebol. Chamava-se Dario José dos Santos. Por extenso Dadá Maravilha, o Peito d’Aço. Ele dizia de si próprio: «Só há três coisas que param no ar – o helicóptero, o beija-flor e Dadá quando está na grande-área para fazer golo de cabeça».
Que a infância de Dadá foi uma novela mexicana, isso é algo registado nos anais da história. Tinha cinco anos e viu a mãe suicidar-se. Procurou imitá-la uns anos depois, cortando os pulsos. Safou-se. Viveu num orfanato e dedicou-se a assaltos de rua. Gostava de roubar meninas. «A primeira vez que tive uma bola foi com o dinheiro que roubei de duas mocinhas. Mudou a minha vida».
Foi um jogador estranho em todos os aspectos. Grande, desengonçado, sem habilidade, trapalhão. E, no entanto, marcava golos em catadupa. Diz a lenda que só com a cabeça fez 499. Saltava lá na grande-área inimiga e esperava, sentado no ar, de perna cruzada, talvez bebendo um chopinho e comendo uma linguicinha com palito e tudo, pela bola obediente que empurrava para a baliza. Em seguida, ensaiava uma das suas frases sempre bombásticas: «Não existe golo feio; feio é não fazer golo». As frases fizeram tanto parte da vida de Dadá como os seus golos: «Tecnicamente eu era horrível. Não iria dar nas vistas só pelos meus golos porque eram todos fáceis. Então comecei a dizer frases. Elas me ajudaram a ser o que fui».
Dadá Maravilha foi um ponta-de-lança Robin Hood: juntou a rapidez ganha a fugir da polícia ao jeito de subir às árvores para entrar pelas janelas nos seus assaltos urbanos. Como nunca conseguiu aplicar um pontapé de bicliceta perfeito e irretocável, daquela beleza plástica com que Pelé os desenhava, inventou o velotrol. No Brasil, velotrol é um triciclo. E soltava mais uma frase: «Para mim, na área, é queixo no peito e queixo no ombro». E ficava lá, no ar, asinhas transparentes de beija-flor aqui, hélice de helicóptero ali, parado no espaço como um Mercúrio negro.
Dadá era provocador.
Não perdia a oportunidade para desafiar os adversários, picava o ponto da rivalidade, mexia com o jogo antes do jogo. Fazia apostas com os avançados contrários e dava nomes aos golos que iria marcar. Tinha os seus próprios momentos publicitários: «Com Dadá em campo não há placar em branco». E gostava de sair correndo em zigue-zague com o central atrás, tentando morder-lhe os calcanhares. «Foi assim que comecei a carreira de jogador. Um dia saí com um comparsa para roubar uma mercearia. Roubámos e saímos correndo em zigue-zague. O dono, que era português, pegou na caçadeira e atingiu o meu companheiro no pescoço. Morreu na hora. Consegui fugir. E decidi não roubar mais».
A vida de Dadá merecia um livro e Lúcio Flávio Machado fez-nos o favor de o escrever. Logo no primeiro parágrafo conta a dor que nunca saiu do peito d’aço do Beija-Flor: «Dona Metropolitana, que sofria alucinações, estava na cozinha preparando o almoço; Dario brincava ao lado dela. De repente, num gesto impensado e inesperado, ela jogou querosene por todo o corpo, ateou fogo e saiu correndo pela rua como tocha humana. Vendo aquela cena, na tentativa de acudir a mãe, o menino correu tentando abraçá-la. E num último ato, lúcido e fraternal, ela se desenvencilhou do filho, jogando-o numa vala à céu aberto. E foi de lá, dentro de um esgoto, que ele viu a mãe morrer totalmente queimada».
E repetiu sempre, a cada golo, a cada jogo, a cada festa que se seguia ao momento em que empurrava a bola para cada um dos mais de novecentos golos que marcou na carreira: «Sou alegre mas não sou feliz».
Parece que a rapariga que estava sentada no lugar do morto ao lado de José Gonçalves, o dono de O Avião, não sofreu uma arranhadura apesar da violência da explosão. Talvez fosse como Dadá – parou no ar porque Deus a levava ao colo."

O VALOR ECONÓMICO DO DESPORTO


"A Quantificação e o efeito multiplicador da organização de eventos de natação em Portugal.

A relevância axiológica do desporto deve ser compatível com a sua relativa importância e valorização sociais, num contexto onde as pessoas do século XXI são protótipos de uma exclusão real, nativos digitais, e vivem num mundo cujas estruturas sociais e económicas não conseguimos hoje vislumbrar completamente.
Este facto justifica a investigação em áreas cujas implicações não se resumem só e somente ao desporto enquanto prática sistemática. O estudo do impacto económico do desporto é relevante não só para quantificar a sua real dimensão, que se desconhece em pormenor, mas também para avaliar o efeito multiplicador para o sistema desportivo e catalisador de externalidades positivas para outras áreas e sectores de actividade.
Quando abordamos a questão do orçamento público e/ou semipúblico do estado no desporto, várias vezes é assumido o sofisma mistificador de que os resultados ficam aquém do esforço financeiro assumido pelo estado central. Desde logo duas questões são prementes: qual é afinal o esforço financeiro do estado, em sede de orçamento para o desporto? (1); de que retorno financeiro falamos quando discutimos os impactos? (2).
Em 2017, o orçamento para o desporto foi de 36 milhões de euros. Quando reportamos a origem deste financiamento verificamos que a grande maioria é resultante das verbas com os jogos sociais que com base no enquadramento legal (DL n.º 56/2006, de 15 de Março, alterado pelos DL n.º 44/2011, de 24 de Março e DL n.º 106/2011, de 21 de Outubro) atribui ao IPDJ (órgão que tutela o desporto em Portugal) cerca de 9.85% deste montante o que representou uma verba de cerca de 60 Milhões de Euros, da verba total arrecadada pelo Estado de arrecadou cerca de 650 milhões euros.
A questão que se levanta é saber se o desporto, com a importância social que tem em todos os domínios e para além dos retornos (não económicos e económicos), não justificaria um investimento, em sede de orçamento público, maior do que este verificado actualmente remetendo-o para o domínio do casuístico e dependente das adições decorrentes dos jogos sociais. Os resultados, estritamente económicos, são significativos, não só os relativos ao sistema desportivo, mas também os que decorrem das externalidades positivas para outras áreas de actividade, quer no contexto internacional quer nacional.
Na União Europeia (UE), o desporto constitui um sector económico de importância significativa, representando 1.76% do valor acrescentado bruto da EU, com uma quota parte nas economias nacionais comparável à dos sectores da agricultura, da silvicultura e das pescas combinados. No que diz respeito ao mercado de trabalho, o emprego relacionado com o desporto representa 2.12% do emprego total na UE. Na Inglaterra, o último estudo realizado pela “Sport England” publicado em 2013, concluiu que o valor económico do desporto, relativo a 2010 gerou um valor acrescentado bruto (VAB) de 20.3 biliões de libras, representando 1.9% do valor total, o que posicionava o desporto como uma das 15 indústrias de topo. Por outro lado o desporto e a actividade relacionada suportavam cerca de 440.000 empregos a tempo completo (ETC), representando 2.3% de todo o emprego em Inglaterra, sendo 65% derivados da participação no desporto e os demais 35% do consumo afecto ao desporto.
E em Portugal?
O Instituto Nacional de Estatística divulgou os resultados da CSD para o triénio 2010-2012, com três grandes conclusões: (1) o desporto representou em média 1.2 % do VAB; (2) representou 1.4% dos ETC da economia portuguesa; (3) a remuneração média na CSD excedeu em cerca de 5% a remuneração média nacional, com dimensão económica semelhante ao ramo da metalomecânica, informática, vestuário, arquitectura e engenharias e técnicas afins.
Para além destes indicadores directos, à escala nacional e europeia, há que quantificar o retorno que decorre da diminuição dos custos directos e indirectos com a morbilidade e/ou mortalidade decorrente de doenças hipocinéticas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) mais de 80% dos casos de doenças coronárias, 90% de diabetes tipo 2 e um terço das doenças de cancro poderiam ser evitadas pela alteração de hábitos alimentares, prática de desporto e actividade física e consumo de tabaco.
Considerando o Orçamento de Estado para 2016 e a distribuição percentual média das despesas de saúde por doença, a poupança efectiva nas despesas de saúde que resultaria de um incremento cientificamente sustentado das actividades desportivas seria de 1.349.930.075,00€. Indicadores idênticos são publicados pela Lancet, nas edições que revisitam as edições olímpicas (2012; 2014; 2016).
Os dados analíticos dos impactos decorrentes da organização de eventos desportivos são pouco conhecidos, porque existem poucos estudos, no contexto nacional. A propósito da etapa mundial de surf em Peniche, o estudo do Instituto Politécnico de Leiria de 2016 refere que os portugueses gastaram em média 38.48 euros por dia e os visitantes estrangeiros fizeram uma despesa diária de 148,70 euros com este evento que gerou 10.6 milhões de euros.
Outro exemplo é Ponte de Lima, que recebeu o campeonato nacional de maratona e tem vindo a apostar cada vez mais na canoagem. Estima-se que os eventos relacionados com a prática da canoagem dinamizam a economia local de forma muito significativa, especialmente nas áreas da restauração, alojamento e comércio, num valor aproximado anual na ordem dos 3 milhões de euros. O Golfe atrai estrangeiros, cerca de 300 mil turistas anualmente. Portugal recebe 120 milhões de euros em receitas directas.
E na natação?
Os dados eram desconhecidos. Foi nesta óptica que surgiu a necessidade de representar e quantificar o valor económico dos eventos organizados pela FPN dando resposta a duas necessidades: i) conhecer o que vale a marca FPN em termos de impacto para poder definir estratégicas de crescimento futuro ao nível do ajustamento dos cadernos de encargo da organização de competições nacionais; ii) ter a noção exacta da nossa dimensão para negociar a exploração comercial das nossas competições no mercado da sponsorização, merchandising e naming das competições.
Quando analisamos o último trabalho de investigação solicitado pela FPN à Universidade da Beira Interior, da autoria de Pedro Guedes de Carvalho, sobre esta temática verificamos que no conjunto do calendário competitivo nacional na natação com cerca de 30 provas (natação Pura, natação adaptada; natação artística, águas abertas, masters e polo aquático) a FPN:
1. Despendeu cerca de 353.000,00€ com aquisição de materiais de consumo diverso, serviços especializados de apoio, disponibilização de colaboradores, arbitragem, atletas e diversos;
2. O volume de despesa realizado pelos atletas, dirigentes e treinadores foi no global de 534.080,00€; 
3. O impacto directo que o público teve foi de cerca de 701.725,00€.
Considerando estes valores conclui-se que houve um efeito multiplicador cujo impacto global, das provas organizadas pela FPN em 2017, se cifrou na casa dos 3,5 M€, cujo efeito directo é fundamentalmente verificado na hotelaria, restauração e comércios locais.
Estes dados não incluem os resultados financeiros decorrentes da exposição mediática (media e redes sociais) que fariam multiplicar estas externalidades positivas. Está, por isso, mais do que justificado o investimento regional/local na organização de eventos pelo efeito multiplicador nas externalidades positivas que possui."

PRIMEIRAS PÁGINAS


quarta-feira, 28 de março de 2018

BENFICA ESTÁ NA FINAL DA TAÇA EUROPEIA!


FUTSAL
Águias, com uma exibição de classe e personalizada, venceram a experiente e profissional equipa italiana do Olimpus-Roma, por 3-7, após uma reviravolta espetacular. Final é quinta-feira, às 19h00, perante o Atletico Navalcarnero.
Já está! O Benfica venceu a formação italiana do Olimpus-Roma, por 3-7, e carimbou presença na grande final da Taça Europeia de Futsal Feminino. As águias estiveram a perder (2-0), mas fruto de uma exibição de classe, inteligente e muito personalizada, concretizaram a reviravolta no marcador ainda antes do intervalo.
Depois da vitória de ontem no jogo 1 da Taça Europeia de Futsal Feminino, prestigiante competição apoiada pela FIFA e que conta com a presença das campeãs nacionais dos seis países da Europa com maior força na modalidade, nova demonstração de talento e qualidade no jogo 2 realizado esta quarta-feira!
As comandadas de Bruno Fernandes até entraram em falso e, aos 6 minutos, já perdiam por 2-0, com os golos a serem apontados por Telma Santos e Galhardo, num tremendo aproveitamento de duas falhas defensivas das encarnadas.

Ora, perante a profissional e experiente equipa adversária, as Campeãs Lusas não se atemorizaram, bem pelo contrário! Com um apoio espetacular dos Benfiquistas nas bancadas, encaixaram os golos sofridos, reorganizaram tropas, cabeça no lugar… e partiram para uma reviravolta a todos os níveis espetacular!
Ainda antes do intervalo, Inês Fernandes e Fifó bisaram na partida e colocaram o Benfica a vencer – com justiça! – por 2-4.
No reatar, tremenda exibição! Que classe têm estas meninas! Perante o tudo por tudo das adversárias, o Benfica respondeu com personalidade e talento, gerindo, controlando e dilatando até ao final, com golos de Ana Alves e Fifó (2).
Com este resultado, o Benfica soma duas vitórias nos dois jogos disputados na Poule A e disputa a grande final amanhã, quinta-feira, às 19h00. Do outro lado da barricada estará a formação espanhola do Atletico Navalcarnero, que eliminou, na Poule B, as russas do MosPolytech (Rus) e as ucranianas do WFC- `IMS`. Mais uma equipa profissional e que é atualmente a detentora deste Troféu!

Festejos da equipa
No final do desafio, em declarações à BTV, Ana Catarina analisou o triunfo e perspetivou já o desafio de amanhã.







“Foi um jogo difícil, de nervos, entrámos praticamente a perder devido a duas falhas nossas. Depois, metemos a cabeça no sítio, começámos a fazer as coisas que sabemos fazer e, com raça, crer e ambição passámos para a frente do marcador”, começou por dizer a guarda-redes das águias.
Onde esteve o segredo para a reviravolta?
“Valeu o caráter da equipa e o talento individual!”, atirou de forma taxativa.
Olhando para a final de amanhã, não são esperadas facilidades, mas este Benfica vai deixar tudo em campo.
“Vamos encontrar outra equipa profissional, parte como favorita, mas isso não é uma desculpa caso não obtenhamos o resultado pretendido que é a vitória! Vai ser difícil, vai ser o nosso terceiro jogo consecutivo e elas tiveram hoje o dia para descansar. Agora, vamos desfrutar do momento, é uma chegada a uma Final e logo no ano da nossa estreia no Troféu, um Troféu que encaramos como uma Champions. Vamos colocar as nossas armas em campo e dar tudo vencer”, concluiu Ana Catarina.

AS LANÇAS APONTADAS - BENFICA TV HD - 28 MARÇO 2018

                                           

GONÇALO A CUMPRIR O DESTINO


O físico de sprinter e o espírito de lutador sugerem apenas sensações explosivas e vertiginosas; os blocos de partida para as loucas correrias a que se propõe podem estar à direita ou à esquerda, mais atrás ou mais à frente – o primeiro instinto é vê-lo mais como atleta pronto a ir ao fundo de si mesmo do que propriamente como futebolista, até porque a estética não ajuda quando arranca, de cabeça baixa, com a bola nos pés, aparentemente indiferente ao que o rodeia. Gregorio Marañón (1887-1960), médico, escritor e filósofo espanhol, não pensava no pontapé na bola quando verbalizou um dos grandes problemas do futebol nas últimas décadas: "A velocidade, que é uma virtude, cria um vício, que é a pressa." É precisamente na contextualização desse raciocínio que Gonçalo Guedes sustenta armas futebolísticas extraordinárias que o têm transformado numa das grandes figuras da liga espanhola. Ao contrário de outros, não é preciso dizer-lhe que nem todas as iniciativas acabam em golo; que há vantagens em jogar com os outros e a velocidade pode ser inimiga da precisão.
Por consistência tática, físico e talento, GG pode jogar nos dois flancos e iniciar a ação a partir de terrenos que o definem como extremo ou médio – está apto para o 4x3x3 e para o 4x4x2. Mas é tão abrangente e multifacetado que pode até evoluir na zona central, como ponta-de-lança puro ou como avançado mais recuado, estabelecendo ligação entre a equipa e o golo, à semelhança do que fez no Benfica durante os meses da época passada em que Jonas esteve lesionado. É um atacante de toda a frente ofensiva, por onde se move com visão e agressividade; que conquista pela entrega generosa mas só atinge o máximo quando toma decisões, a esmagadora maioria das quais contundentes. É um jogador para quem a travagem é tão importante quanto a aceleração; que não quer enganar, atropela; não lhe interessa chegar primeiro, mas chegar bem; parecendo simpático, não tem contemplações com os adversários.
Assumindo o perfil de constante detonador de armadilhas nos terrenos que pisa, GG assenta numa das principais armas dos jogadores de eleição: nunca tem urgência no que faz, mesmo quando dispara a 250 km/h, para galgar terreno e ultrapassar quem lhe surge ao caminho. Ao contrário de tantos outros, a velocidade supersónica de deslocamento, o frenesim dos gestos e os impulsos reveladores da obstinação que o comanda transportam a frieza necessária ao cumprimento da missão e a inteligência sem a qual o rasto de desgraça que para trás fica não teria consequências. No fim das loucas correrias, que deixam tudo fora do lugar, há sempre o momento das opções acertadas, refletidas e até estudadas. Não é normal que um cavalo selvagem deslumbrante conclua com a serenidade de um monge budista, que olha, vê, analisa e resume tanto esforço a um passe milagroso que deixa o golo à distância de um simples toque ou que ele próprio assina, tantas vezes com desvios subtis e surpreendentes.
Antes de despertar para a regular exaltação de um futebol superior, que conquistou Valência e o campeonato espanhol, GG revelou a consistência emocional de um jovem precocemente maduro, que entendeu cada missão tática que lhe foi concedida e nunca se diminuiu por lhe exigirem menos do que o talento criativo permitia oferecer. Picasso dizia que "a inspiração, quando chega, apanha-me sempre a trabalhar". A GG também nada lhe cai do céu: quando as musas acordam já ele está suado de tanto trabalhar para a causa como qualquer operário. Desde criança que ouve os elogios merecidos para a qualidade desde logo revelada. A sua grande vantagem foi saber interpretar cada passo da carreira até reunir condições para cumprir o destino de toda a vida: transformar-se num dos melhores jogadores portugueses.
A insatisfação
de Seferovic
Perdeu o lugar e, pior do que isso, tornou-se o 3º avançado da equipa
Seferovic não entende a opção de Rui Vitória. Como sempre acontece nestas circunstâncias, o suíço não se queixou para ouvir explicações mas para pressionar o treinador a mudar de opinião, tarefa normalmente condenada ao fracasso. Aliás, é evidente que as razões estão na mudança de sistema – e as táticas são um exclusivo do treinador. Perdeu uma boa ocasião para estar calado.
Bruno Fernandes
com boa resposta
O médio leonino não foi engolido pelo desacerto da Seleção Nacional
Bruno Fernandes foi, de entre aqueles que não estão garantidos no Mundial, quem melhor se expressou com a Holanda. É bom que o tenha feito porque, em comparação com as restantes opções, é o único médio a desempenhar a função de apoio ao avançado. Face ao desastre coletivo com a Holanda, seria injusto que alguém fosse riscado por isso. Mas há disponibilidade para enaltecer quem se salvou.
A convocatória
mais complicada
Se o Mundial fosse para a semana, Fernando Santos tinha muito que pensar
Abdiquemos de refletir sobre 11 (3 guarda-redes e 8 defesas) dos 23. Dos 12 que sobram, 8 estarão garantidos (William, Danilo, Moutinho, Gelson, Bernardo Silva, Quaresma, André Silva e CR7), pelo que só faltam 4. A sair do seguinte grupo: João Mário, Adrien, André Gomes, Manuel Fernandes, Bruno Fernandes, Gonçalo Guedes, Rony Lopes, Nani… Irra! Quem disse que o cargo de selecionador é fácil?
Rui Dias, in Record

MAIS BOLA, MENOS PALAVRAS


"Estamos na fase mais intensa, carregada de dúvidas, dada a aproximação do trio da dianteira, e todos eles com muitas dificuldades para superar.

Já cansados do alarido descabelado que grassa por aí, os verdadeiros adeptos do futebol anseiam pelo retorno do campeonato que neste fim de semana Santa cumpre a jornada 28 ficando, depois de cumprida, com apenas mais seis para atingir o termo do calendário.
Estamos, por isso, na fase mais intensa, carregada de dúvidas, dada a aproximação do trio da dianteira, e todos eles com muitas dificuldades para superar. É também talvez por isso que alguns continuam a entreter-se com jogos florais que, nalguns casos, visam apenas desviar as atenções de aspetos verdadeiramente mais importantes.
E, se é também verdade que alguns desses protagonistas estão a encarregar-se da degradação do negócio, os jogadores transmitem-nos uma imagem completamente diversa.
E daí continuarmos todos a acreditar que verdadeiramente importante é aquilo que acontece dentro das quatro linhas do jogo, donde nos chegam as emoções que confirmam o futebol como o melhor e maior espectáculo do mundo.
Benfica, Sporting e FC Porto (jogam por esta ordem) têm, aparentemente escalas diferentes de dificuldades. Só que o futebol tem-nos dado lições em número suficiente para que não incorramos na ideia de que há vitórias antecipadas.
As deslocações dos dragões e leões, mais estes, correm riscos de grau elevado.
Os portistas costumam ser felizes no Restelo, mas nada permite supor que o cenário se repita.
Já os leões vão à capital do Minho em busca da consolidação do terceiro lugar, mas ali terão de contar seriamente com um adversário que espreita a possibilidade de lhe roubar o lugar na tabela. E uma vitória dos arsenalistas serão decididamente um passo importante nesse sentido.
No estádio da Luz, o Benfica abre as hostilidades da jornada sendo anfitrião de outra equipa minhota, o Vitória de Guimarães. E mesmo tratando-se de uma equipa que procura vencer sempre, o conjunto de Rui Vitória terá de fazer pela vida, sem ficar à espera que o resultado acontece sem pouco ou nada fazer para o construir.
Esta é, pois, uma jornada que nos pode trazer grandes novidades.
E, mesmo depois de uma esgotante (para alguns) ronda internacional, será uma boa prenda de Páscoa se tivermos todos a oportunidade de assistir a desafios de futebol de grande qualidade."

CHEGA DE RUÍDO, REGRESSA A BOLA


"Depois de uma jornada de Selecções em que Portugal, nos AA e nos sub-21, mostrou uma incompatibilidade total com as primeiras partes (como os mais jovens a corrigirem, na metade complementar), regressa já a partir de amanhã (D. Aves - V. Setúbal) a Liga, que prosseguirá sem mais interrupções até à jornada 34. Depois de um interregno aproveitado para fazer subir o nível do ruído, a discussão passa agora para dentro das quatro linhas, as centrais de intoxicação vão ser obrigadas a dar algum espaço aos únicos artistas relevantes, jogadores e treinadores, e tudo será decidido na base do mérito (o VAR trouxe mais transparência ao futebol).
No entanto, seria ingenuidade a mais pensar que, até ao fim do campeonato e quando todos os jogos valem como finais, não vamos assistir a acções de terrorismo verbal, pressões mais ou menos encapotadas sobre os árbitros e a um indigna suspeição sobre os jogadores. Esta temporada de 2017/18, quiça por qualificar, por cá, menos um clube para a liga milionária, vai passar à história como o mais torpe e vil fora das quatro linhas de que há memória. Mas será que alguém retirará ensinamentos do cenário apocalíptico criado? Tenho dúvidas fundadas, há muitos anos, de que o futebol consiga autorregular-se a temporada em curso mais não fez do que aprofundá-las. Alguém, na chamada indústria doméstica do futebol, estará interessado em falar de coisas sérias? Por exemplo do valor irrisório das multas e do desrespeito pela disciplina caseira, em contraste com o temor reverencial da mão dura da UEFA? Ou da vigente regulação faz de conta das claques, que só existe para inglês ver?"

José Manuel Delgado, in A Bola

É O INDIVIDUO A MEDIDA DE TODAS AS COISAS?


"É de Protágoras (século V, a.C.), o mais célebre de todos os sofistas, a frase que os séculos subsequentes têm repetido: “o homem é a medida de todas as coisas”. Aliás, o relativismo céptico dos sofistas introduziu a liberdade e a tolerância, no exercício do espírito crítico. E, por isso, a História os saúda, como factor de progresso, como activos promotores de criatividade e excelência. Recordo, neste momento, o diálogo O Sofista. Platão exagera quando os aponta, unicamente, como mercenários da ilusão e do discurso mistificador.
No entanto, ao pôr a discussão, o discernimento intelectual à procura imparável da verdade e do bem e não ao serviço do ter e do poder, Sócrates é um nosso contemporâneo, principalmente para nós os que, diante da triunfante invasão do niilismo axiológico neoliberal, defendemos a existência de valores que, para nós, se apresentam como irrecusáveis. Há muito tempo já, Marx adiantou que a função da filosofia era transformar o mundo e não pensá-lo tão-só. Mas não esqueço o que Heidegger escreveu, a este propósito: o pensamento age, quando pensa. De facto, o pensar, na sua radicalidade, está sempre próximo da acção, dado que provém do real e a ele regressa. É na “experiência vivida” (sirvo-me de palavras de Merleau-Ponty) que o real verdadeiramente se conhece. Porque tentei criar uma tese que se afirma contra todos os dualismos (corpo-alma, razão-emoção, homem-mulher, senhor-servo, natureza-cultura, etc.) - sou em crer também que há uma “solidariedade primordial” entre o pensamento e a acção.
Do que venho de escrever se infere que, no campo político, a mais lógica posição de um pensamento actual é a defesa da igualdade de oportunidades, para todos os cidadãos, e a concomitante luta contra a desigualdade económico-social. Aumentou exponencialmente a riqueza de muitos e a pauperização da esmagadora maioria das populações. A tanto conduziram as políticas de Margareth Tatcher (1979-1990) e de Ronald Reagan (1981-1989) e… doutros mais! Hoje, não restam dúvidas que os modelos neoliberais falharam (e falham) rotundamente, no que à solidariedade diz respeito, sem políticas estatais de redistribuição. Faço minhas as palavras de Vladimir Safatle, professor do departamento de filosofia da Universidade de São Paulo: “O problema da desigualdade só pode ser realmente minorado por meio da institucionalização de políticas que encontram no Estado o seu agente” (A esquerda que não teme dizer seu nome, Três Estrelas, S. Paulo, 2012, p. 23). Os nossos últimos governos aceitaram, com maior ou menor aparato, a ideologia neoliberal, onde tudo se torna mercadoria, e a própria institucionalização de políticas contra a desigualdade cheirava ao mofo da “caridadezinha” capitalista. Também as filosofias da solidariedade, de Apel, Rawls, Ricoeur, Lévinas, Dussel, Derrida, Rorty e Van Paris, enveredando embora pelo trilho de um pensamento paciente, ainda não encontraram a política que lhes permita concretizar as suas normas morais. Entretanto a desigualdade cresce, a violência alastra e há gente que ainda não viu...
A ponto chegaram as coisas que várias questões se levantam: será que não vivemos num Estado ilegal? Se as desigualdades sociais e económicas se acentuam; se há mais guerra do que no tempo da “guerra fria”; se as máquinas partidárias de muitos partidos europeus funcionam, unicamente, no interesse do grande capital e no aumento do património da minoria possidente; se a economia institucionalizada só obtém bons desempenhos à custa do desemprego, da precariedade, da exclusão; se a Lei não parece igual para todos – não estão as políticas dominantes, feridas de ilegalidade? Jacques Derrida, no livro Força de lei (Martins Fontes, S. Paulo, 2007, p. 62) assinala que o Direito reproduz e reflete os interesses económicos e políticos das forças dominantes da sociedade. E não se referia ele a Portugal. Logo nos primeiros cem dias depois de eleito, como escreve o José Manuel Pureza, no DN, de 24 de Agosto último, “Hollande só desiludiu quem sobre ele criou ilusões (…). A suposta solidez do sonho hollandista dissolveu-se rapidamente no ar com as expulsões das comunidades ciganas e a resposta sem substância à ameaça de 8000 despedimentos pela Peugeot-Citroen e de 5000 pela Air France e pela Alcatel”. Enfim, como zelador da social-democracia em voga na Europa, Hollande não foi tão radical como o Dr. Passos Coelho, mas nunca o ouviremos, em inflamado discurso, contra as injustiças do capital...
Eu sei que há pessoas que, lidos os primeiros parágrafos deste artigo, logo dirão que estou a ser exagerado ou catastrofista. Demais, acrescentarão, convictos, que as anomalias que nos cercam não passam do anúncio da Quarta Revolução Industrial. Mas quem é que nos diz, reponto eu, que não estamos mais próximos da barbárie do que de uma civilização fundada sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade? “Sem me meter, aqui, por uma longa digressão pelo pensamento de Tocqueville, gostaria de recordar que este grande pensador do princípio da democracia insiste nos venenos que a democracia desenvolve nela mesma e contra ela mesma. Penso nomeadamente na análise de uma grande lucidez em que Tocqueville nos mostra o homem democrático a absorver-se na fruição da sua liberdade individual, deixando crescer um poder político, que se ocupa de todos os problemas comuns, longe da atenção dos cidadãos” (Maria Helena da Rocha Pereira, in José Eduardo Franco e Hermínio Rico, coord., Padre Manuel Antunes: Interfaces da Cultura Europeia, Campo das Letras, Porto, 2012, p. 41). O mais despudorado individualismo, no mais arrogante integrismo economicista; a indiferença perante a necessidade incontornável da salvação/emancipação da humanidade; a descrença na Ressurreição, ou seja, a descrença no que há de divino em cada um de nós, que nos permite a transcendência e portanto a certeza de que não há, para o ser humano, determinismo na História – são visíveis nas democracias liberais que nos governam.
Por seu turno, o desporto, na Escola e fora dela, tem os seus ídolos: atletas de grandes qualidades físicas e técnicas, alguns deles pagos com milhões, muitos milhões, de euros, mas que se mostram incapazes de trilhar uma senda de inquieta demanda da inteligibilidade do que fazem. Há um detestável grupo de dirigentes (não são todos, eu sei), nos “três grandes” do futebol nacional, incapazes de ter a peito o respeito devido aos clubes adversários, principalmente os que podem tirar-lhes o título de “campeão”. E ainda têm a seu favor a taramela laudatória de certos plumitivos que, por um vencimento chorudo no fim do mês, passam o tempo todo, ora a proclamar as excelências de quem lhes paga, ora a sujar de lama a cara uns dos ouros e a um tal ponto que é difícil imaginar que isto possa acontecer. A história do desporto sugere que as diversas modalidades se criaram como representações de batalhas simuladas, nas quais se erguem sempre opositores, adversários, reais ou simbólicos, que importa superar, vencer. A espectacularidade desportiva fomenta, portanto, um espírito belicista e, sob o império de alguns dirigentes e de certa Comunicação Social, de carácter mesmo fascizante. Não conheço nada de mais alienante, no tempo que nos foi dado viver, do que um certo desporto de altíssima competição que, por aí, se consome, onde são múltiplos e repetidos os escândalos financeiros, onde o “doping” e a violência parecem inevitáveis, onde o desporto tem uma função, sobre as mais: legitimar as taras do neoliberalismo triunfante.
É verdade – o desporto de altíssima competição contribui inevitavelmente à legitimação e estabilização do que há de injusto, na nossa sociedade, pelo seu individualismo sem freios; porque não se cansa de turibular os “Cristianos” e os “Messis”, enquanto um número significativo de futebolistas aufere vencimentos que mal chegam para os gastos habituais de uma família; porque canaliza o pensamento e a energia populares, em direcção a problemas que nada têm de essenciais (relembro, em Portugal, nalguns casos, a estúpida, porque exagerada, rivalidade Sporting-Benfica, ou Porto-Benfica). Já o escrevi inúmeras vezes: se hoje fosse vivo, Karl Marx diria, sem receio que...“o futebol é o ópio do povo”. Não devemos, no entanto, esconder que o aumento e a proliferação de formas desportivas competitivas não violentas representam, indiscutivelmente, um importante processo civilizador. Mas, porque pertenço a uma geração que hasteou a bandeira de um aguerrido inconformismo, em defesa de certos valores, não vejo esses valores respeitados por muita gente de relevo, no futebol português. E gente que merece o aplauso pasmado da esmagadora maioria dos sócios, designadamente os mais jovens e nómadas e rebeldes, rendidos a todos os demónios do mais inflamado caprichismo, o que pode significar que um futebol, de fortes características pedagógicas, continuará a ter, no futuro, rijos opositores.
O individualismo não é a medida de todas as coisas! Mas ele é um dos mitos da sociedade capitalista, ao lado de uma competitividade que não olha aos meios para conquistar os fins e de uma hierarquia que ajuda a que se mantenha a estrutura jerarquizada da sociedade, com os dualismos habituais corpo-alma e senhor-servo. As desigualdades parecem também eternas, no futebol que reproduz e multiplica um determinado tipo de sociedade. Enfim, a presença de determinadas pessoas num certo futebol não acontece, por acaso. Não há jogos, há pessoas que jogam. E portanto o futebol será o que as pessoas forem…"

EQUIPAS B VERSUS SUB-23


Depois de complexos estudos (!), a FPF lançou a ideia de um campeonato de Sub-23, idade tão flexível que até admite jogadores mais velhos.
Afinal tratar-se-á de uma extensão dos campeonatos de juniores, sem especial motivação competitiva, apenas para manter em actividade jogadores que ainda não justificaram transição para outros patamares, no próprio clube ou noutros.

Provavelmente será outro projecto falhado, como aconteceu há uns 15/20 anos, primeiro com os "clubes satélites" e depois com a 1.ª versão das equipas B que, competindo na antiga 2.ª Divisão B (3.º escalão nacional), não permitiram a desejada evolução dos jovens chamados, acabaram por descer de divisão e desaparecerem.

A actual versão, inicialmente com 6 equipas B, foi diferente: integradas na 2.ª Liga, o desafio tornou-se motivador para os jovens, "obrigou-os" a progredir e fê-los saltar rapidamente para o patamar superior; e as próprias equipas foram competitivas, apenas com duas despromoções em 6 anos (uma com imediato regresso) e até um campeão improvável, o FC Porto B, na época 2015/16.
Por isso, não se entende o aparente entusiasmo com que alguns clubes estão a encarar o abandono das suas equipas B, depois de o próprio presidente da Liga, Pedro Proença, ter revelado que "o futebol português não pode abdicar de mais de 275 milhões de euros da transferência de jogadores das equipas B desde 2012. No início de 2017/18 foram transaccionados mais de 132 milhões só com futebolistas que actuaram nas equipas B." (Record, 23-03-2018).
A título de exemplo, os convocados para os jogos da selecção com o Egipto e a Holanda que passaram pelas equipas B: André Gomes, André Silva, Bernardo Silva, Gelson Martins, Gonçalo Guedes, João Cancelo, João Mário, Ruben Dias…
Mas, apesar do que fica dito, temos de reconhecer que nem tudo será mau no projecto do Campeonato dos Sub-23; haverá é que o rodear de outros aliciantes, incluindo uma ligação directa com as equipas B. Passamos a explicar.
A 2.ª Liga será disputada por 18 equipas, devendo fixar-se o número de equipas B em 4.
Mantém-se o sistema actual, com 2 subidas à I Liga e 4 descidas: 3 para o campeonato de Portugal e a equipa B pior classificada, independentemente da posição na tabela, para o campeonato Sub-23, cujo vencedor ascende à 2.ª Liga.
Este sistema não impede os clubes de terem equipa B e equipa Sub-23; e irá permitir a outros emblemas da ILiga (Belenenses, Boavista, Setúbal, Marítimo, Rio Ave, etc.) virem a competir na 2.ª Liga com equipas B, alterando a rigidez da escolha inicial, que sempre foi objecto de crítica.
Ribeiro Soares, in Record