Vila Nova de Famalicão. Concelho situado no Minho do país, com cerca de 134 mil habitantes. É com grande orgulho que faço parte deste povo caracterizado pela raça, pela honra e por muita ambição. Mais do que orgulhoso, sinto-me eternamente apaixonado pelo clube da minha terra. Muitas vezes é utilizada a expressão “não é desde sempre mas é para sempre”. No meu caso, ouso mesmo referir que é de sempre…para sempre.
O Futebol Clube de Famalicão faz parte da minha vida há 17 anos e, em todos estes anos, nunca vivi nada semelhante ao que estou a presenciar esta temporada 2014/2015 ao serviço do meu Vila Nova. Porém, e como em tudo aquilo que vale a pena nesta vida, não foi nada fácil chegar a este estado de grande alegria e grande esperança num futuro ainda mais radioso. Tivemos inúmeros percalços no nosso caminho. Momentos de humilhação, momentos tristes. É natural no ser humano, quando vivemos um presente glorioso, relembrarmos o momento mais complicado do nosso passado. Nos meus 17 anos vi o meu F.C. Famalicão a viver uma temporada na Divisão de Honra da A.F. Braga. A nossa história e a nossa cidade não mereciam que um clube tão grande caísse no marasmo nos campeonatos distritais, tão longe do lugar que ocuparemos na próxima temporada. Foram vendidas cadeiras, mesas, material de escritório de forma a poder cumprir à risca as exigências financeiras requeridas, para o clube não abrir insolvência (como por exemplo o Salgueiros). Famalicão, a nível desportivo, era uma cidade triste, muito triste. Mas a equipa não estava sozinha nesse ano que passámos na distrital. Recordo-me que fui ver todos os jogos fora de casa, tendo falhado um ou dois no nosso Municipal, e lembro-me que era uma invasão total em qualquer campo. Ronfe, Pico de Regalados, Porto D’Ave, Martim…foram todos alvos de invasões dos famalicenses, causando desde já inveja a muitas equipas dos campeonatos profissionais. Subimos com facilidade pois realmente não cabíamos em tão baixo escalão do futebol português. Apesar do título conquistado, a festa não foi feita porque Famalicão sabia, nós sabíamos, que o clube não podia cair e, principalmente, não podia acabar. Uma cidade precisa do seu clube e esse principio guiou-nos nesta fantástica temporada.
Para este percurso do Famalicão ocorre-me um pássaro. Sim, um pássaro, mas não era um pássaro qualquer, assim como nós não somos um clube qualquer. Fénix é um pássaro lendário da mitologia grega que possuía a característica única de renascer das suas próprias cinzas. Foi exatamente isto que o “Fama” fez, com uma direção empenhada em recuperar os adeptos que deixaram o clube nas dificuldades. Foram organizadas campanhas de todos os tipos para recuperar a credibilidade e a esperança no clube. Todas os clubes grandes têm uma mística e nós não somos exceção. Essa mística, a mística do Vila Nova, foi recuperada jogo após jogo, vitória após vitória. O caminho foi longo e tivemos várias pedras no nosso sapato. Recordo-me do momento menos bom em toda a temporada, ainda na primeira fase do Campeonato Nacional de Seniores, quando tivemos três derrotas consecutivas (Varzim fora; Oliveirense e Felgueiras em casa). “Todo o campeão foi um competidor que se recusou a desistir de lutar”. O Famalicão não desistiu e o momento da época, para mim, está na semana entre a derrota com o Felgueiras e o jogo da Taça de Portugal, frente ao Fafe. A meio da semana, a claque do Famalicão, os FamaBoys, invadiram o treino da equipa lançando uns fumos, tarjas e muitos cânticos de incentivo à equipa. O resultado foram 23 jogos consecutivos sem perder para o campeonato (até hoje). Regista-se apenas uma derrota nesse longo período. Foi para a Taça de Portugal, em Alvalade, quando mais de mil famalicenses pintaram Lisboa de azul e branco, mostrando-se ao país. Sem medo, com união e garra. Assim se fez este Famalicão.
Domingo tivemos, todos nós, o jogo das nossas vidas frente a uma brava equipa do Lusitano de Vildemoinhos. Num jogo sofrido, onde a natural ansiedade impediu de fazermos o habitual “rolo compressor”, foi nas bancadas que o destaque imperou, para além do golo de Palheiras. Foram quase 12 mil famalicenses que encheram o Estádio 22 de Junho. Acima de mais de metade da média de assistências de clubes da primeira liga, as constantes enchentes do Famalicão não surpreendem ninguém e fazer corar de inveja a muitos clubes que jogam entre os “grandes” do futebol português. Os gigantes dormem e acordam. O Famalicão era um gigante adormecido que acordou com uma incrível fome de vitórias.
Para muitos por este Portugal fora, o objetivo e o sonho estará alcançado mas nós sabemos, porque só nós sentimos assim, que o sonho não acaba aqui. A nossa paixão já subiu de divisão mas estou certo que será demasiado grande para a Segunda Liga. Dia do Vila Nova, ano do Vila Nova.
F.C. FAMALICÃO, 1931
Texto de António Sousa

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