Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.
Tudo o que nos sai da cabeça para o papel reflete o momento em que nos encontramos, portanto esta nunca será uma crónica fluida, tal como o nosso dia a dia não o é.
Pensava eu que se iriam instalar novas rotinas diárias, capazes de nos trazer, ao fim de algum tempo, o equilíbrio emocional para viver o dia a dia com a lucidez que o momento exige. Não foi o que aconteceu. Essas rotinas ainda não se instalaram e talvez nunca se venham a instalar num contexto como o atual.
Sempre gostei de saber que caminho tenho de percorrer mesmo que seja duro e de dificuldade máxima, pois esse conhecimento ajuda-me a preparar para a caminhada. Hoje não sabemos que caminho nos espera, nem em que momento o começaremos a percorrer. Que tempos são estes? Não, não me quero lamentar, uma vez que sou um dos privilegiados que o vírus poupou (penso eu), assim como a minha família. Relativizem todas as minhas palavras, porque todos aqueles que infelizmente foram ou estão a ser afetados direta ou indiretamente são os que merecem toda a nossa atenção, e não aqueles que, no recato da sua casa, esperam que a onda gigante passe. Voltando ao caminho a percorrer, ninguém o conhece.
Os líderes estão a ser postos à prova, uns com uma presença mais assertiva que outros, mas todos a deixarem transparecer muitas hesitações na indicação da direção adequada. Não estávamos e não estaremos preparados para agressões como esta. O mundo tem exércitos terrestres, sistemas de mísseis e antimísseis, bombas nucleares, mas esqueceu-se que o perigo podia ter origem num simples ser, que nem, autonomamente, ser vivo é, e que subitamente pôs uma considerável parte da população mundial em casa, indiferente a todo esse armamento de ataque e defesa.
O futebol não é seguramente um mundo à parte como alguns querem fazer crer, portanto também teve de se recolher. Esta modalidade desportiva, apreciada por milhões de adeptos em todo o mundo, é servida por seres humanos cuja condição, como todos sabemos, é de erro e fragilidade. Perante esta condição tudo parou e com esta paragem foram-se as nossas motivações diárias: o treino, o jogo e tudo o que o envolve. Neste momento nada se sabe sobre o futuro. Que angústia!!!!!
Neste momento depositamos esperança naqueles que nos têm socorrido desde o primeiro segundo, nos profissionais de saúde e também nos investigadores, que procuram descobrir uma vacina tentando permanecer imunes às pressões. Muitos profissionais de saúde vivem há várias semanas sem as suas famílias, totalmente dedicados à profissão em situação de risco. Que exemplo nos têm dado? Exemplo de coragem e grande humanismo. Por aqui a vida vai-se levando, sozinho, é certo, mas sempre com a família por perto; diariamente em contacto com o Porto e Berlim. Quando o ar no apartamento se torna irrespirável, pega-se no carro, dá-se uma volta por Kiev a ouvir a música que nos acalma e quando se volta a entrar em casa já estamos um pouco mais oxigenados.
Vivemos o presente, com consciência cívica, mas sempre à espera de notícias que nos indiquem que direção o futuro vai tomar. Futuro que, pensamos e desejamos, nos traga as nove jornadas que faltam da Liga Ucraniana e os jogos que faltam na Liga Europa. Talvez esta época se ligue de forma direta à de 2020/2021; para situações de exceção, medidas excecionais. Resta-nos aguardar que o mundo se restabeleça e que os danos, que já são muitos, não se avolumem drasticamente de modo a que a Humanidade se possa voltar a equilibrar.
Grande Abraço para todos, sabendo que os 4000 quilómetros que nos separam jamais serão razão para deixar de olhar de forma cuidada e atenta para Portugal. Por último, se me é permitido, digo-vos o que digo sempre aos meus jogadores: tenham Responsabilidade, Respeito, Determinação e sejam solidários.
Luís Castro, in a Bola

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