"Nos Portugal Football Globes entregaram-se ontem prémios para todos os gostos. Faltou apenas um, talvez o mais adequado à noite: Personalidade Mais Volúvel. O candidato estava lá, discursou e até explicou, com particular clareza, a razão pela qual o troféu lhe assentaria tão bem.
Em abril de 2024, quando ainda era candidato, André Villas-Boas defendia para Benfica e Sporting “uma relação de conversa para criar o melhor produto” e lembrava que “todos os clubes precisam de bons rivais e é preciso lutar pelo bem comum do futebol português” (22.04.2024). Em março do mesmo ano, explicava que o FC Porto se tinha tornado “um clube fechado, bairrista” e que 88% dos seus sócios estavam concentrados em Porto, Braga e Aveiro (08.03.2024). A solução passava por abrir o clube ao país.
Chegado à presidência, a conversa continuou. Em outubro de 2025, garantia que “os três presidentes não se podem ver uns aos outros, mas temos um caminho obrigatório a percorrer”. No mesmo mês, sobre a centralização, era igualmente cristalino: “somos apoiantes da centralização, o Benfica é o único que está contra” (10.10.2025). E, três dias antes, à porta dos Globes, tinha perguntado, a propósito da arbitragem: “Quem é o Calimero do Ano?” — acrescentando que “não queremos estar nessa posição e entrar no mesmo jogo dos outros” (07.10.2025).
Pois bem. Um ano depois, a centralização já não é exactamente uma diferença de opinião: é prova de uma “santa aliança entre Benfica e Sporting”. A relação entre os três grandes já não é uma via de diálogo: foi “um dois contra um”. E aquele FC Porto que tinha de se tornar mais nacional reaparece agora no papel de clube do Norte cercado por “clubes de Lisboa”.
Entretanto, convém não esquecer que Benfica e Sporting também tiveram a sua pequena experiência de “santa aliança”: não fosse, claro, uma certa final da Taça de Portugal, em maio de 2025, azedar a relação institucional entre Rui Costa e Frederico Varandas...
E quanto ao Calimero, a metamorfose também é interessante. Em 2025 era coisa dos outros. Em 2026, “o FC Porto tem de expor os problemas do futebol português quando acha necessário e relevante”. Há personagens que mudam de nome; outras limitam-se a mudar de papel.
Por tudo isto, ficou ontem uma injustiça por reparar. O prémio de Personalidade Mais Volúvel merecia existir.
E, para lhe entregar o troféu, talvez Pedro Proença. Há cerimónias em que a escolha do anfitrião também parece fazer parte do argumento."
Nazir Karmali, in Linkedin

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