Encarnados com onze quase totalmente novo venceram o Milan na 1.ª jornada da Liga Europa. Grande exibição, grande resposta!
Marco Silva avisou, em conferência de imprensa, que teria de rodar a equipa não só a pensar no desafio de campeonato de domingo, em casa do FC Porto, mas também tendo em conta a condição física dos jogadores. A revolução esperada em Itália acabou por ser maior do que se previa: o treinador do Benfica manteve apenas dois jogadores no onze inicial relativamente ao último jogo (frente ao Gil Vicente) — Tomás Araújo e Banjaqui.
Não fugiremos à verdade: foi um novo Benfica aquele que subiu ao relvado de San Siro para jogar com o Milan na 1.ª jornada da fase de liga da Liga Europa. Uma nova estratégia, um desenho tático muito maleável, diferentes protagonistas, mas com a mesma fome de vitória, muito organizado, competente e solidário.
As águias entraram bem melhor que o Milan, a conseguir pressionar a saída de bola dos italianos e, depois, com grande capacidade para reagrupar atrás e bloquear uma forma de jogar que pareceu muito próxima daquela que nos lembramos de Ruben Amorim no comando do Sporting. O Benfica não teve problemas em defender na linha do seu meio‑campo, fazendo recuar Kaminski para lateral e assim montar uma linha de cinco defesas — Banjaqui, Circati, Tomás Araújo, Karouani e Kaminski.
Aursnes juntava‑se para tapar o jogo interior e os italianos pareceram ter sido surpreendidos pelas ideias que o Benfica ia colocando em campo. Mal ganhava a bola, a equipa encarnada procurava sair em ataque rápido, com Sudakov a tentar a ligação e beneficiando a velocidade de Kaminski e a profundidade de Lukebakio, com Durán no papel ingrato de segurar o central ao meio.
Foi assim que, logo aos 15 minutos, numa jogada construída desde atrás, com Aursnes para Banjaqui e depois para Lukebakio, este último deu o primeiro sinal de perigo, com um remate à figura. Apenas um minuto depois, Kaminski correu pela esquerda, ultrapassou três adversários e a bola sobrou para Lukebakio, que, com o movimento que lhe é característico (do flanco para dentro), rematou em arco para o primeiro golo do jogo, inteiramente merecido pela equipa portuguesa.
Hutchinson ia dando sinais de ser o mais inconformado no Milan, mas a concentração de Aursnes e a fisicalidade de João Palhinha iam resolvendo potenciais problemas. O Benfica continuava a ser a melhor equipa: a defender, a atacar e a manter a bola. Foi sem surpresa que, em lance de insistência de Kaminski, Sudakov rematou ao poste. O Milan parecia desnorteado e, aos 30’, Kaminski poderia ter feito o segundo golo, se tivesse aproveitado melhor um enorme passe de Lukebakio.
Perto dos 40 minutos, o Milan empurrou mais o Benfica e Trubin foi chamado a mais tempo de intervenção, mas a primeira parte foi do Benfica, que dominou, controlou e transmitiu belos sinais para a segunda parte do jogo.
O Milan entrou no segundo tempo com duas alterações — Gila e Pulisic — e uma postura mais agressiva, explorando melhor os flancos e aumentando a pressão sobre o Benfica. Aos 50 minutos, De Winter teve uma oportunidade clara para empatar, mas rematou mal, com a bola a sair tresloucada por cima da trave de Trubin. Sorte para os encarnados neste lance, mas que foi justificada pela forma solidária como a equipa defendeu, conseguindo minimizar a supremacia italiana que se fazia sentir.
Apesar da pressão do Milan, o Benfica continuou a responder com saídas rápidas para o ataque. E foi numa dessas transições que o San Siro voltou a ficar sem respiração: grande passe de Sudakov para Kaminski, remate bloqueado, a bola sobra novamente para os encarnados, novo passe preciso de El Karouani e Kaminski não falha — segundo golo do Benfica! Um golo bem construído, que deixou os jogadores do Milan sem reação e reforçou a vantagem encarnada num do palco de enorme exigência.
Ruben Amorim lançou Diego Moreira, jovem formado no Benfica e que no jogo anterior do Milan, em casa da Lazio, tinha marcado dois golos. A ideia era que o avançado de nacionalidade belga e portuguesa voltasse a mexer com o jogo — e acabou por suceder. Aos 61 minutos, Trubin segurou um remate perigoso de Pulisic, o Milan começava novamente a criar mais problemas, o que levou Marco Silva a reagir: entraram Prestianni e Leandro Barreiro para os lugares de Sudakov e Aursnes. Um meio-campo fresco, com mais capacidade para travar uma batalha na qual, diga-se, o Benfica nunca esteve realmente por baixo.
Com o jogo mais partido e o Benfica a sofrer mais, Marco Silva voltou a mexer: saiu Kaminski, entrou Schjelderup; Jhon Durán deu lugar a Pavlidis. Posição por posição, mas com protagonistas diferentes e um Benfica sempre competitivo. Aos 81 minutos, grande defesa de Trubin a um remate de Pulisic (sempre ele) e, apesar das alterações, seguiu-se uma fase de muito sobressalto junto à baliza das águias. Ainda assim, os encarnados conseguiram cerrar dentes e até tentar o terceiro golo — Lukebakio rematou com perigo já depois dos 80 minutos.
Foi preciso sofrer, mas novamente o Benfica manteve a confiança e a personalidade e conseguiu fazer história em Itália: venceu o Milan pela primeira vez (seis jogos, com dois empates, até esta quarta-feira). Foi a melhor equipa, merece o brilho na Europa.
Segue-se, agora, uma visita ao FC Porto no Estádio do Dragão, para um clássico agendado para domingo, 20 de setembro, às 20h30, em jogo da 7.ª jornada da Liga Betclic.
Nélson Feiteirona, in a Bola
AS NOTAS DOS JOGADORES DO BENFICA:
Polaco fez um pouco de tudo e foi dele (e de Lukebakio) a chama que começou por incendiar San Siro a favor do Benfica. Trubin preparado para voltar a ser titular, caso seja preciso. Banjaqui? Bah que se cuide...
7 Kaminski
Extremo-esquerdo, médio-esquerdo e até defesa-esquerdo, consoante as necessidades do Benfica. Aos 11', conduziu um contra-ataque que acabou por provocar o amarelo de Pavlovic e, pouco depois, foi dele a assistência para o golo de Lukebakio, ao variar o jogo da esquerda para a direita. Apareceu fulgurante na área a receber o cruzamento atrasado de El Karouani e desviar, fortíssimo, de pé direito, para o segundo golo. Um golo e uma assistência e constante capacidade para criar perigo pela esquerda.
6 Trubin — Mais de um mês e meio depois, ei-lo de regresso à titularidade. Primeiro tempo sossegado, sem grandes sobressaltos, a não ser um remate longínquo de Terracciano, desviado, em voo, com segurança pelo ucraniano. Teve depois alguns lances em que teve de intervir, quer com os pés, quer em cruzamentos largos. Sempre bem. Se estava enferrujado pela paragem, não se dava por isso. Aos 62’ defendeu um remate de Pulisic junto ao poste direito e, aos 82’, de novo Pulisic a obrigá-lo a defesa apertada para canto. Transmitiu segurança à equipa, sobretudo quando o Milan pressionou.
7 Banjaqui — Estreia na Liga Europa e logo a titular. E que bela entrada em jogo. Primeiro a defender a baliza de Trubin, como num corte, por trás, numa jogada de Cissé. Pouco depois, lançou muito bem Lukebakio sobre a direita, com o belga a rematar fraco à figura de Maignan. Belo corte sobre Diego Moreira perto do fim e destemido a atacar. Bah que se ponha a pau.
6 Circati — Terceiro jogo pelo Benfica, primeiro no onze inicial. Aos 18', teve um corte importante sobre Cissé que impediu o Milan de criar perigo e, aos 76’, novo corte imperial, desta vez sobre Pavlovic.
6 Tomás Araújo — Jogo seguro e prático, jogando à esquerda de Circati. Muito mais trabalho no segundo tempo, quando o Milan apertou um pouco mais, mas resolveu tudo sem problemas.
6 El Karouani — Doze minutos com a camisola do Benfica frente ao Moreirense e… titular com o Milan. Era quase um terceiro central a fechar o lado esquerdo da defesa quando o Milan atacava e Kaminski recuava e, se o Benfica tinha a posse de bola, atacava. Não muito, mas atacava, num estilo de jogador dos anos 70 e 80, com as meias quase coladas às botas. Viu o amarelo por falta sobre Chukwueze, aos 26’. Brilhante cruzamento para a entrada da pequena área, onde apareceu Kaminski a fuzilar a baliza de Maignan: 0-2.
6 Palhinha — Há mais de seis anos que não jogava na Liga Europa (SC Braga-Rangers, a 26 de fevereiro de 2020). Jogou basicamente como elemento de proteção defensiva à baliza de Trubin, embora, por vezes, ousasse aparecer mais perto da área de Maignan. Deu nas vistas, como de costume, pela capacidade quase infinita de lutar e correr.
5 Aursnes — Regressou à titularidade após 62 minutos frente a Aarhus (6’), Moreirense (24’) e Gil Vicente (32’), mas não foi ainda o grande Aursnes. Sem erros, como quase sempre, sem grande influência no jogo atacante, como quase nunca. Talvez a mais discreta águia em San Siro.
7 Lukebakio — Marco Silva, minutos antes do jogo, dissera que este jogo era o momento para o belga mostrar porque estava no Benfica. E Lukebakio, entre os 15’ e os 16’, mostrou a razão. Primeiro, após receber a bola de Banjaqui, rematou fraco e à figura de Maignan. Pouco depois, foi a vez de Kaminski lhe meter a bola no lado direito. E Dodi, como lhe chama o treinador, pegou nela e foi-lhe tocando, tocando, tocando, indo da direita para o centro e, ao sétimo ou oitavo toque, desferiu um remate por entre a única fresta que havia na defesa rossonera: golo. Aliás, golaço. Se Marco queria que ele se mexesse, ele mexeu-se; se Marco queria que ele fosse atrevido, Lukebakio foi-o. Contraste enorme da sombra que tem sido na maioria dos jogos. Muito influente no ataque, combinando movimentos interiores, remate e criação.
6 Sudakov — Não teve muita bola, mas, quando a teve, mostrou energia para criar perigo. Remate perigosíssimo ao poste direito (24’) e, pelo tempo fora, as virtudes (tratamento da bola) e os defeitos (demasiada inércia na hora do remate) que já lhe conhecemos.
6 Durán — Muito bem a jogar sem bola. Apareceu logo aos 4', tentando finalizar uma boa combinação do Benfica, mas o remate sofreu um desvio. Aos 35', surgiu um cruzamento de Bartesaghi que procurava Gonçalo Ramos, mas este não chegou à bola. Importante nos instantes anteriores ao segundo golo, quando percebeu que poderia estar em fora de jogo e deixou a bola seguir, sem lhe tocar, para El Karouani fazer o cruzamento para Kaminski.
4 Leandro Barreiro — Entrou para ajudar a equipa a gerir a vantagem e teve ainda a oportunidade para rematar, sobre a direita, mas perdeu demasiado tempo.
4 Prestianni — Pouco mais de 20 minutos em campo e impacto reduzido a uma decisão ofensiva pouco conseguida no único lance individual destacado.
- Schjelderup — Pouco tempo em campo sem qualquer oportunidade para marcar ou criar perigo.
- Pavlidis — Participação muito curta e sem impacto.
- Dahl — Sem tempo suficiente para avaliação significativa.
Rogério Azevedo, in a Bola







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