sábado, 29 de dezembro de 2018

UM RELÓGIO DE FLORES


"Colva - Enquanto o estranho pato preto mergulha, para se manter debaixo de água, às vezes quase meia hora, olho as lótus brancas que se espalham pela superfície e relembro a história antiga: a lótus vermelha abre as suas pétalas de manhã cedo, quando os camponeses vão para o trabalho, e fecha-as ao meio-dia quando eles se recolhem para o almoço; a lótus branca abre as suas pétalas ao início da tarde quando o trabalho dos camponeses recomeça e fecha-as quando anoitece e eles regressam a casa. Os camponeses de Goa trabalham à medida das horas de um relógio de flores.
Agora, a lua cheia estende-se sobre a imensidão da praia e do mar. “I’m feeling so alone that I can’t believe”, canta o David Gray no roufenho aparelho de som do Boomerang Bar ao qual a gente se habituou a chamar Malibu Beach. A clientela reduz-se a aves de arribação sem poiso certo: um australiano de cabelo longo, cara marcada por cicatrizes e gestos indecisos de álcool; um inglês gordo que explica alto coisas que ninguém entende; figuras abstratas, personagens incompletos de uma história ainda por escrever. Sob as sombras estreladas dos coqueiros, duas silhuetas femininas repetem as curvas e contracurvas do ritmo da música vagarosa. Absorvem-se uma na outra e em si próprias. Traços negros que a lua destaca na areia esbranquiçada, movimentos em “slow motion” que espreitamos na certeza absoluta de que um gesto, apenas um gesto, fará desaparecer sem retorno. Há na sua timidez a suave beleza das imagens escondidas. “I’m feeling so alone that I can’t believe”. Os braços levantados sobre as cabeças, os saris disfarçando as curvas dos corpos, as mãos desenhando Esses que o requebros das ancas repetem até aos pés. “Time after Time after Time...”. Debaixo da lua cheia, sob a protecção dos coqueiros, duas silhuetas dançam a canção da Índia..."

NO E-TOUPEIRA FUNCIONARAM AS INSTITUIÇÕES


"Houve curiosos derrotados no e-toupeira que não sendo partes processuais se apressaram a lamentar como se deles fosse o processo. Ou será que era? Ou será que sempre foi?

A vitória sobre o SC Braga no passado domingo, pelos números e pela exibição, foi um anti-depressivo natalício para o universo benfiquista. Foram três pontos que demonstraram que o Benfica pode ser de longe a melhor equipa da Liga. Nos jogos contra Vitória, Sporting, FC Porto e SC Braga foi de longe superior e mostrou ser melhor. Mas será campeão não a melhor equipa, mas a mais regular, e por isso exige-se consistência em todos os jogos para permitir uma sólida candidatura ao 37.º título de campeão nacional.
No jogo frente ao SC Braga houve uma demolidora atitude competitiva que fez acreditar na séria possibilidade de alcançar os objectivos esta época. Contra um SC Braga de topo, que tentou jogar no campo todo, houve sempre um Benfica superior que o resultado de 6-2 mostrou esclarecedor.
Hoje jogamos na Vila das Aves contra uma equipa perigosa e motivada. Há jogos importantes e há jogos decisivos. Hoje na Aves é decisivo, não há lugar para o erro, nem segunda oportunidade, hoje temos que colocar o Benfica a 180 minutos de um título que queremos vencer. Ficar hoje a pensar em Portimão é meio caminho para não correr bem nem hoje, bem em Portimão. Pelo contrário, entrar hoje à Benfica é meio caminho para resolver hoje e vencer na quarta no Algarve um jogo cheio de ratoeiras.
O Benfica não venceu por 30-0 o processo judicial vulgarmente designado e-toupeira apenas viu as suas justas e correctas pretensões serem conferidas pelo tribunal. Funcionaram as instituições e esclareceu-se aquilo que já ninguém duvidava. Mas se o Benfica não venceu, houve curiosos derrotados, que não sendo partes processuais se apressaram a lamentar e comentar como se deles fosse o processo. Ou será que era? Ou será que sempre foi? Se como se suspeita era assim, então todos esses que fazem pouco do sistema judicial perderam por 30-0, vencidos e esmagados pelo estado de direito.
Por deformação profissional, nunca comento processos judiciais dos quais não sou mandatário, mas não resisto a comentar lastimáveis comentários terceiros que quiseram depois da decisão tomada assumir o papel de emplastro da derrota na fotografia. Fica o ar choroso de quem fazia os directos do tribunal, e fica também o ar triste dos tristes que comentaram a decisão.
No Benfica queremos ganhar campeonatos dentro dos campos e não festejar despachos nem sentenças."

Sílvio Cervan, in A Bola

PRIMEIRAS PÁGINAS


ISTO É QUE OS DEIXA A ESPUMAR DE RAIVA E PEQUENEZ


EM FRANÇA, BENFICA VENDE MAIS CAMISOLAS QUE O REAL MADRID.
A Foot, loja francesa de venda de produtos desportivos, anunciou os resultados das vendas on-line de camisolas de clubes durante o último semestre (de maio a dezembro) de 2018.
O Benfica aparece no oitavo lugar, sendo a quinta estrangeira no top-10, sendo apenas superada por Juventus, Liverpool, Barcelona e Atlético Madrid. O Real Madrid aparece em 9.º numa tabela que tem o Paris Saint-Germain à cabeça.



NAS "MEIAS" PELA 10.ª VEZ


FUTEBOL
O Benfica garantiu o ponto de que precisava e qualificou-se para a final four da Taça da Liga.
Pela 10.ª vez em 12 edições da prova, o Benfica apurou-se para as meias-finais da Taça da Liga. Necessitados de apenas um ponto para aceder à final four, os encarnados empataram 1-1 no reduto do Aves e, como vencedores do Grupo A, vão enfrentar o primeiro do agrupamento C (discutido por FC Porto, Chaves e Varzim) no dia 22 de janeiro, em Braga.
Aves e Benfica não empataram minutos a avaliarem-se taticamente no arranque da partida, antes procuraram fazer valer os seus argumentos e começar a apontar às balizas. A equipa benfiquista podia ter-se adiantado no marcador aos 4' após um livre executado por Pizzi sobre a direita e continuado por cabeceamento de Jardel, mas Rúben Dias, de calcanhar, não conseguiu desfeitear o guarda-redes Beunardeau.
Derley, com um remate perigoso (7'), e Mama Baldé (8'), com fuga pela direita e cruzamento para corte de Rúben Dias, agitaram as águas na defensiva dos encarnados, mas estes não tardaram a tomar as rédeas dos acontecimentos, elaborando combinações ofensivas com o objetivo de visar as redes avenses


Zivkovic, aos 20', infiltrou-se na direita após passe curto de Pizzi e armou um tiro que fez a bola passar perto do poste do lado contrário. Após mais um par de ofensivas, André Almeida, aos 39', pareceu travado em falta por Jorge Fellipe na grande área do Aves, mas o árbitro Fábio Veríssimo não considerou que houvesse motivo para assinalar pontapé de penálti. Na resposta, em contra-ataque, Amilton esgueirou-se pela esquerda e concluiu a investida com um chuto para fora.
Antes de se esgotarem os primeiros 45 minutos, Yuri Ribeiro foi protagonista em subida à área do Aves, mas o cabeceamento, após centro de Pizzi na direita, foi detido por Beunardeau (43'). No lance seguinte, Zivkovic tocou curto para André Almeida e este arriscou um disparo de fora da área com o pé direito, mas não acertou no alvo (44').
Os encarnados deram sinais de querer aumentar a velocidade da circulação de bola e ser mais incisivos na dinâmica ofensiva no início do segundo tempo, mas o Aves foi mais certeiro e efetivo.

[GOLO: 1-0] Uma arrancada de Rodrigo pelo corredor direito gerou um cruzamento para Mama Baldé aproveitar na área, cabeceando sem dar hipóteses de defesa a Svilar (49').
Já com Jonas (rendeu Cervi aos 59'), o Benfica atirou para trás das costas as ameaças de Mama Baldé e foi à procura do golo do empate.
[GOLO: 1-1] Aos 70', Yuri Ribeiro alongou o ataque pela esquerda e tocou curto para Zivkovic, que ganhou o ressalto, acreditou, insistiu e cruzou à medida da receção e da conclusão de pé esquerdo de Seferovic.
Os últimos minutos do encontro foram discutidos, mas nenhuma equipa cedeu. No derradeiro segundo do encontro, Jonas ainda deixou Salvio (rendera Seferovic aos 85') em boa posição de marcar, mas o guarda-redes do Aves levou a melhor. O empate, que servia os intentos dos encarnados, foi mesmo o desfecho do desafio.
Onze do Benfica: Svilar; André Almeida, Rúben Dias, Jardel e Yuri Ribeiro; Fejsa, Pizzi e Gedson; Zivkovic, Cervi e Seferovic. 
Suplentes: B. Varela, Corchia, Alfa Semedo, Krovinovic, Salvio, João Félix e Jonas.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

ARGUMENTO IDIOTA...


"É uma pena que o sucedido com o adepto Bruno Simões não esteja a ter o impacto mediático que merecia. Não me espanta. Há muito tempo que denuncio, a existência, em certos meios informativos, de uma estratégia para causar danos na reputação do Benfica e dos adeptos do Benfica. Colocá-los na pele de vítimas não é bom para o negócio e muito menos para essa estratégia de desgaste do clube e dos seus adeptos. Só assim se justifica que alguns cartilheiros que estão bem identificados tentem justificar o que se passou na A1 com um problema de moralidade, num clube que já enfrentou problemas de extrema gravidade com actos criminosos de alguns dos seus adeptos. Porém, essa gente que escreve nos jornais e devia estar obrigada a um dever se isenção esquece alguns pormenores relevantes. Primeiro, que nos casos identificados de violência de adeptos do Benfica, houve crime e castigo. É assim que deve ser num Estado de Direito. Nos vários e repetidos crimes dirigidos contra adeptos benfiquistas, a sua equipa de futebol profissional ou até o seu presidente, houve crimes...de resto, nem castigos, nem culpados, nem responsáveis. Só impunidade.
Além do mais, ao questionar a moral do Benfica para reclamar uma actuação das autoridades, quem o faz está a enviar um sinal. O de que podem agredir e até tentar matar os adeptos do Benfica, porque, no fundo, o clube deve ser responsabilizado pelos crimes dos seus adeptos. Isto não é argumento sério. É um argumento idiota e tão criminoso como o acto de atirar pedras aos autocarros onde viajam adeptos do Benfica. Infelizmente é o que temos em alguma comunicação social. Verdadeiros tarados do ódio clubístico que andam a brincar com o fogo. Não é difícil identifica-los. Porque eles andam aí e o combate à violência no desporto também passa por combatê-los e, se possível, erradicá-los."

José Marinho, in Facebook

PS: O título deste post é da autoria do blogue

CHUMBOS!


"Sporting e SC Braga 'desceram à terra': muito duro e violento. Intenso brilho do Benfica (surpresa em hora H!) e de renascido Vitória

A 3 passadas do final da 1.ª volta, a anterior jornada foi muito curiosa: confrontos entre os 6 primeiros classificados (Rio Ave deixou de sê-lo). Por isso, teve extra de expectativa e importância. Não tanto o FC Porto - Rio Ave, porque no Dragão; muito especialmente em teste Benfica e SC Braga (directo despique com máxima ambição), Sporting e V. Guimarães (frente a frente potenciando definição de capacidades: um para conquista do título; o outro visando recuperar terreno, rumo ao objectivo 4.º lugar, campeão dos não grandes). Duros testes não se ficaram por meias tintas; houve rotundos chumbos e passagens com altas notas.

Chumbo n.º 1: Sporting. Pressentia-se ir ser o primeiro osso muito duro de roer no caminho do novo Sporting de Marcel Keizer. Vitaminado estava: só triunfos (8), 32 golos marcados, média de 4 por jogo! (mas também 9 sofrendo!...). No entanto, quanto a mim, fortes dúvidas se mantinham, suscitadas por passadeira verde: 5 jogos em Alvalade, e perante equipas com fraco peso (Chaves, Aves, Poltava, Nacional - ligeira excepção para Rio Ave, na Taça de Portugal). Nos 3 em casa alheia, houve peras dulcíssimas: Vildemoinhos e Qarabag... Ou seja: em 8 jogos, só o de Vila do Conde, para o campeonato, subiu no grau de dificuldade (muito bem superado). Teste perigosíssimo era o de Guimarães (vitorianos em notória escalada de rendimento: para além de terem pregado susto ao Benfica - 3-2, na Luz - e de terem ganho no Dragão - 2-3! -, 8 jornadas a fio sem derrota). Deu chumbo sportinguista - contundente, porque claríssimo! O Vitória foi sempre muito melhor equipa. Aplaudo Marcel Keizer, pela sua honestidade: não inventou desculpas, viu o jogo como todos vimos... - raridade nos nossos treinadores - e «temos de agradecer ao Renan por ser só 1-0». Cristalina verdade: mão cheia de grandes defesas, evitando goleada! Contraste: Douglas só uma vez teve de entrar em campo...
Dura descida à terra. Quiça mais preocupante que a derrota: firme bloqueio a Bruno Fernandes e a Bas Dost liquidou a linha de futebol sportinguista. Ausências de Nani e de Wendel notaram-se imenso - o que agrava ideias quanto a plantel...

Chumbo n. 2: SC Braga. Inesperadíssima goleada! Vencera Sporting e, com espectacular personalidade, exibira-se em grande nível no Dragão (derrota por tremendo azar: golo aos 90+3, depois de enviar 2 remates aos ferros). Que lhe dei frente ao Benfica?! Árdua eliminatória da Taça, triunfando em Setúbal, 4 dias antes, não justifica tal caos (Abel fez muito bem em tal não invocar). Dia péssimo acontece a muito boa gente. Imediato teste: nível de reacção e tão violento golpe. Certeza: na Luz, o SC Braga jogava tudo para manter quimera do título. Desaire - mesmo que fosse tangencial - deixa-o ultrapassado pelo Benfica e, sobretudo, a 6 pontos do FC Porto. Naturalíssimo adiamento do tão lindo quanto dificílimo sonho de António Salvador. SC Braga - bom plantel, mas não chegando aos de topo - a discutir pódio do campeonato e conquista de Taças já é muito bom!

Brilho: Benfica e V. Guimarães. Espectacular ressurgimento benfiquista, categórica confirmação de escalada vimaranense. Mau grado as facilidades que o SC Braga concedeu, muito mérito na exibição do Benfica. Veio dela substancial parte dessas facilidades. Alta qualidade, porque desta vez expressa em sistemático alto ritmo. Surpreendente, por tão conta a corrente dos últimos meses, foi! E, face ao que vinha sendo habitual, enorme contraste em matéria de eficácia! - galvanizando a equipa. Durante muito tempo, o Benfica criava inúmeras oportunidades de golo (não nos últimos jogos) e acertar na baliza era martírio. Em hora H - duelo crucial, afundando-se se não vencesse! - inspiração goleada chegou, e às catadupas! Nem tanto ao mar, nem tanto à terra... Os próximos episódios dirão.
Novo V. Guimarães está sendo excelente trabalho (mais um) de muito bom treinador: Luís Castro. Venceu no Dragão, vai agora em 9 jogos sem derrota. Pegou no Sporting, anulou-lhe os maiores trunfos, destrui-lhe organização, foi tão convincente que poderia ter goleado! Óbvia meta (difícil!): discutir especialíssimo título com eterno rival minhoto."

Santos Neves, in A Bola

AMPHILÓQUIO E AS SUAS CIRCUNSTÂNCIAS


"De cada vez que escrevo sobre Roma lembro-me do episódios da guerra das trattorias. Conto já de seguida. Salvo erro encontrei-o num dos livros de Dino Segre, ou seja, o Pitigrilli, um desses seres humanos abençoados com o dom magnífico e divino do humor. Talvez em A Loura Dolicocéfala, mas não vou jurar. Bom, havia portanto três trattorias numa das ruelas estreitas do Transtevere. Certo dia, o dono de uma delas resolveu abrir a guerra publicitária. Vai daí, colocou um cartaz à porta: «Este é o melhor restaurante do mundo!». Com ponto de exclamação e tudo. Ligeiramente irritado, o vizinho mais próximo recorreu igualmente à propaganda. Mas foi subtil. Limitou-se a uma frase de cariz assassino: «Este é o melhor restaurante da rua!».
O terceiro proprietário tinha, pelos vistos, uma noção das realidades muito mais concreta. Não virou as costas ao conflito da exposição. Lá terá pensado para com os seus botões que a escalada dos autoelogios atingira um ponto do não retorno. Então, para fugir ao ridículo, limitou-se a ser sublime. E o seu restaurante passou a exibir uma declaração simplista: «Aqui come-se».
Veio este arrazoado a propósito de Roma, para fugir aos estereótipos de Rosselini, Ana Magnani e Anita Ekberg a tomar banho na fonte de Trevi, mas eu queria era mesmo falar de Amphilóquio, o primeiro brasileiro a ser campeão do mundo de futebol, e da estranha equipa da Brazilazio. O som tem algo de familiar? Pois claro! É uma mistura entre Brasil e Lazio. Como vêem, Roma não caiu aí em cima por mero acaso, aos trambolhões do céu da imaginação.
Vou portanto até ao início da década de 1930. E à história de um rapaz brasileiro chamado Amilcar Barbury que apareceu na Lazio para tentar a sorte como jogador mas, tendo rebentado um joelho uns meses após a sua chegada, foi convidado para ocupar o lugar de treinador. Ora, este Barbury tinha sido precedido por dois outros compatriotas, filhos de emigrantes italianos do Brasil: Juan e Octavio Fantoni. Mas conhecidos por Ninão e Nininho. Convenhamos: formidável esta dupla - Ninão e Nininho. Tanto podiam ser músicos sertanejos como personagens do La Strada de Fellini. Lembram-se? Com o Anthony Quinn e a Giulietta Masina? Zampanó è Arrivato!!!.
Prossigamos na fascinante aventura do nunca mais acabar de brasileiros que começou a desaguar nas margens do Tibre nesses anos 30 em que a Itália se preparava para ser duplamente campeã do mundo de futebol. Depois de Ninão e Nininho, vindos do Palestra de Belo Horizonte, clube de italianos, claro está, atracou em Génova o vapor Conte Verde. Era o dia 22 de julho de 1931, um daqueles dias caídos no olvido mas fundamentais para a história daquele jogo inventado pelos ingleses em redor da redondez de uma bola, essa mágica senhora das paixões, como diria o Poeta da Montanha.
Viajavam nesse navio nada menos do que o tal Barbury, que viria a ser o técnico da Lazio, Pepe Rizzeti, do Palestra Itália de São Paulo, Del Debbio, um centro-campista do Corinthians, e o interior Tedesco, do Santos. No dia 6 de Agosto, é a vez do navio Duilio entrar no porto de Génova. Traz no bojo Rato Castelli, médio-centro, Demaria, ponta-esquerda, Serafini, ponta-direita, e um extremo azougado com um nome esdrúxulo: Anphilóquio Guarisi Marques, nascido em São Paulo, em 1905, de pai português e mãe italiana. No Brasil adquirira a prosaica alcunha de Filó; em Itália seria Guarisi.
Não foi preciso muito tempo para que esta escola de samba com jeito para o futebol, todos contratados pela Lazio, que chegou a ter um total de 13 italo-brasileiros ao mesmo tempo, arranjasse umas tranquibérnias lá no Brasil de onde tinham vindo. Uma reportagem feita pelo Il Littoriali, tri-semanário que funcionava como suplemento do Corriere dello Sport, trouxe a público declarações inflamadas dos recém-chegados nas quais renegavam o seu estatuto de brasileiros e afirmavam estar, agora sim, na sua verdadeira pátria. O Jornal dos Sports não os poupou: renegados, traidores, ingratos e vendidos, foram vários dos mais suaves adjectivos que encontraram para qualificar os compatriotas.
Amphilóquio, o Filó, destacara-se no Paulistano, na Portuguesa e no Corinthians, jogara ao lado do lendário Friedenreich e fora chamado por quatro vezes à selecção do Brasil. Mas não levou a bem ter ficado de fora da convocatória para o Mundial de 1930, no Uruguai. «Eras sobre eras se somem/No tempo que em eras vem», escrevia Pessoa n’A Mensagem. Filó deixou de ser Filó e passou a ser Guarisi, nome da mãe, italiana como já vimos, e adotou a nacionalidade de tal forma que Vittorio Pozzo começou a chamá-lo para a squadra azzurra. Em 1934, Filó já não Filó, fez parte da Itália que venceu o Mundial. Era reserva, só actuou num jogo. Mas, no Brasil esqueceram o vitupério e gabam-se, hoje, de o ter como primeiro brasileiro campeão do mundo. Quanto aos portugueses, nem sabem quem é o Marques, da parte do pai. Basicamente, querem que o Filó se quilhe."

ESTAR (OU NÃO) EM BOMBAIM


"Os pobres são necessários em Bombaim. Eles são as mãos e o trabalho barato. Mas a cidade não foi feita para os acomodar.

Bombaim – De há uns anos para cá começaram a chamar-lhe Mumbai. Parece que acaba de vez com a velhíssima teoria de que seria a Boa Baía dos portugueses. Virá de Mumbadevi, a Mãe, na língua do Maharastra. Muito bem. Não vou discutir. Não gosto de discutir etimologias. Saio sempre a perder. Mumbai; ou Bombaim, tanto faz.
Espreitei por todo o Mundo o cancro devastador da pobreza. Das grandes cidades de África às capitais da América Central e do Sul, passando por lugares sinistros de Portugal onde há meninos que passam as noites escondidos do frio por debaixo de folhas de cartão canelado. Mas na Índia vi a miséria. Uma miséria capaz de marcar a memória com o ferro em brasa de uma chaga que se não explica.
Dizem as estatísticas que, de há vinte anos a esta parte, entram em Bombaim mais de mil e quinhentas novas pessoas por dia. Vêm dos campos e trazem nada consigo. E em Bombaim não há espaço para eles. Os velhos blocos de apartamentos estão cheios, os arranha-céus entretanto construídos estão cheios; as barracas erguidas a torto e a direito estão cheias. Foi V.S. Naipaul, Nobel da Literatura, que escreveu: “Estar em Bombaim é estar na multidão permanente.
De dia, as ruas estão apinhadas; de noite, os pavimentos estão repletos de gente que dorme”.
Os pobres são necessários em Bombaim. Eles são as mãos e o trabalho barato. Mas a cidade não foi feita para os acomodar. As estatísticas dizem também que cerca de duzentas e cinquenta mil pessoas dormem nas ruas de Bombaim. Dormem? Mas dormir do verbo dormir? Este número parece demasiado curto, extraordinariamente curto para quem atravessa os quilómetros e quilómetros de avenidas da cidade e os vê empilhando-se em passeios, nas ombreiras das portas, nos separadores das vias rápidas. É preciso um esforço muito grande para entender a Índia. É preciso entender que a mendicidade sempre foi importante para os hindus como uma espécie de teatro religioso, uma demonstração dos trabalhos do “karma”, uma lembrança permanente das obrigações de cada um para consigo próprio e para com as suas vidas futuras. Apenas o exagero dos números foi, com o tempo, desvalorizando esta ideia.
Em Bombaim vi defeitos físicos que não pensava possíveis. Vi mutilações horrendas que aterrorizam os olhares. Muitas são, ao que me dizem, infligidas na infância pelos pais, que assim julgam garantir um futuro para os seus filhos, ou por um mendigo-chefe de uma qualquer estrutura organizada de pedintes que adquiriu a criança e pretende assim provar-lhe os pecados cometidos nas suas vidas anteriores. E os miseráveis foram corrompendo a nobreza de Bombaim. Escureceram essa cidade de edifícios vitorianos e fachadas góticas imponentes. E transformaram-se numa força política de importância primordial num processo lento de reacção comunitária perante as necessidades destes milhares e milhares de milhares de sem-abrigo. Uma força política nascida de uma nova religião cujos seguidores se consideram adstritos a um exército: o Shiv Sena, o exército de Shiva. Não o Shiva deus, mas Shivaji, o líder da guerrilha maratha no Séc. XVII que desafiou o império mongol e fez dos marathas, o povo da região de Bombaim, um dos grandes poderes da Índia durante o século que se seguiu.
Junto ao Hotel Taj Mahal, um dos mais luxuosos do Mundo, de frente para as portas da Índia, está a estátua equestre de Shivaji. Ele é o emblema do poder do Sena, do poder das colónias do pavimento, do poder dos habitantes das ruas, dos párias que demandavam a cidade e o trabalhos nas antigas fábricas de cortumes. Lá dentro, pelo corredores, fotografias de artistas, de cinema, da música, do desporto. Gosto de vir aqui. Acreditem: é barato. Para nós, que não queremos gastar mais de 25 euros num jantar e jantá-lo sentado entre o explodir das estrelas. Mas, quando saírem, saiam devagar.
Pelas vizinhas artérias de Colaba, pela largura de Cama Road, ali ao lado, espalham-se as figuras descarnadas dos seus súbditos sem cama e sem comida. Não os pisem."

A PELINTRICE DE D. MANUEL


"Vasco da Gama – Eles por aqui dizem Vascudegama, tudo misturado. Ou então apenas Vasco, para facilitar, aí já sem u. O aeroporto de Dabolim fica mesmo ao lado. Península de Mormugão, a 30 quilómetros de distância de Pangim, no delta do rio Zuari, maior porto de Goa, barcos parados sobre as águas, um ou outro, mais pequeno, de pesca, que zarpa em direcção ao horizonte, os edifícios da base naval indiana da INS Hansa, as instalações mal cuidadas dos Estaleiros Navais de Goa, os ferries para Dona Paula. Ao longe, a Ilha Grande, e as baías consecutivas de Bimbel Beach e Bagmalo Beach, sempre para sul até Velsão, Cansaulim e Majorda.
Estou na zona mais densamente habitada do estado de Goa, o mais pequeno de toda a Índia. Aquele que foi português até dezembro de 1961 mas cujas estações de caminhos-de-ferro, percursos fluviais e divisões administrativas ainda fui obrigado a decorar anos mais tarde, na Escola Primária de Santa Cruz, na ilha da Madeira, o ponto mais alto da ternura, num sala pejada de bibes brancos que tinha dependuradas na parede as fotografias de Sua Excelência o Presidente da República, Almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz, e do Senhor Presidente do Conselho, Professor Marcello José das Neves Alves Caetano, sob um crucifixo no qual jazia, em prata, um Cristo cabisbaixo que velava por nós e, sobretudo, por eles. Goa, Damão e Diu, a Ilha de Angediva e os enclaves de Dadrá e Nagar-Haveli. Começávamos as aulas pela manhã com a lengalenga da Avé Maria Cheia de Graça/O Senhor é Convosco, ventre e tudo, e fechávamos para o almoço com as vozes afinadas nos Heróis do Mar/Nobre Povo/Nação Valente. Eram tempos bizarros, convenhamos.
Quando Vasco da Gama chegou à Índia era maio e fazia um calor insuportável em Calecute. Aliás, ensina-nos a História, era domingo quando Vasco da Gama chegou à Índia, mas só na segunda-feira é que João Nunes foi até Calecute. Os barcos ficaram parados um pouco mais a norte, ao largo de Pandarane e de Kappad Beach.
João Nunes era um degredado, mas parece que não era mau homem e revelava até alguma sensibilidade. Num assomo de ciúmes, espancou brutalmente o primo Fernão Nunes que lhe cobiçava a mulher, Constança, causando-lhe a morte. Ou talvez não tenha sido bem assim. Não garanto. João Nunes foi condenado ao degredo e ao porvir. Viu a cidade dos Samorins.
Parece que os presentes que Vasco da Gama levou ao Samorim de Calecute não eram lá grande coisa: algum tecido; uma dúzia de casacos; seis chapéus; coral; seis bacias; uma caixa de açúcar; um barril de mel e outro de manteiga rançosa.
Conta-se que o Samorim de Calecute riu-se que nem um perdido com os presentes de Vasco da Gama e com a pelintrice de D. Manuel, que queria ser Rei do Mundo comprando monarcas menores à conta de bugigangas.
Na Índia, dar presentes é muito importante. Mesmo que esses presentes façam as pessoas casquinar de gozo. Para os indianos, os presentes representam um regresso à infância, e na Índia a infância é transcendente.
A infância é a fase da vida em que temos mais dificuldade de separarmos o nosso mundo interior do mundo exterior. Os indianos vivem num estado de desenvolvimento em que o mundo exterior não tem uma existência independente, mas vive eternamente relacionado consigo e com os seus sentimentos. De certo modo, é como se vivessem numa infância permanente. Por isso as coisas não são apenas coisas: são boas ou más, ameaçadoras ou reconfortantes, brilhantes ou sombrias, conforme os sentimentos de quem as vê.
Estando em Vasco da Gama, Alto de Chicalim, a ver o mar pelo qual Vasco da Gama aqui chegou antes de isto ser Vasco da Gama, não consegui deixar de sorrir a pensar no Samorim de Calecute às gargalhadas perante os presentes foleiros de D. Manuel. Não deve ter sido uma situação agradável para Vasco da Gama. Até certo ponto, o Samorim mandou-o à merda. E isso não vinha nas sebentas..."