terça-feira, 2 de junho de 2020

OLHOS POSTOS NO FUTURO

"O Presidente Luís Filipe Vieira concedeu, ontem, uma longa entrevista à BTV, na qual, durante um pouco mais de hora e meia, todas as questões da actualidade benfiquista lhe foram colocadas e nenhuma ficou por responder.
Dos temas mais quentes do momento ao contexto em que o Benfica está inserido, passando pela visão estratégica para o futuro do Clube e da SAD, tudo foi escalpelizado numa entrevista esclarecedora, recheada de conteúdo e, sobretudo, reveladora da confiança moderada que a excelente situação do Clube, num tempo caracterizado pela incerteza, permite sentir.
A evolução do Clube desde que Luís Filipe Vieira assumiu a presidência assenta num pilar fundamental, a credibilidade, com o cumprimento escrupuloso de todos os compromissos assumidos, sejam com funcionários, atletas, fornecedores, Estado ou parceiros. A partir desta, gerou-se um ambiente de colaboração ideal para reerguer o Benfica, independentemente do grau de ambição de cada projecto.
A crença no potencial ilimitado do Benfica, a dedicação inexcedível dos benfiquistas, o rigor na gestão e uma visão estratégica para o Clube fizeram o resto, conduzindo-o a um patamar de excelência que muitos julgavam inalcançável há apenas uma década.
A solidez financeira da SAD é um bom exemplo disso mesmo, com uma valorização recorde do activo em muito superior à do passivo. Recuperados os capitais próprios, com seis exercícios consecutivos a dar lucro (enquanto se conquistaram cinco Campeonatos Nacionais nessas seis épocas), a SAD benfiquista tem hoje a capacidade, em simultâneo, de manter um elevado investimento e de reduzir o passivo.
Luís Filipe Vieira revelou, inclusivamente, que estava no seu horizonte baixar a dívida para valores residuais, mas que a pandemia, e as consequências que dela advêm, atrasaram este objectivo, não se podendo ainda antever o que nos reservará o futuro próximo (em Março a dívida financeira rondava os 70 milhões de euros, enquanto no final de 2013/14 superava os 300 milhões de euros).
Só uma situação económica e financeira muito positiva e uma tesouraria desafogada permitiriam atravessar este período sem grandes sobressaltos. Tem sido o caso do Benfica, embora, como é natural, se saiba que não será possível mantê-la indefinidamente. Esta é a razão para que o Benfica, ao longo destes meses, tudo tenha feito em prol da retoma das competições, estranhando-se que nem todos os clubes pareçam ter estado sempre interessados neste desígnio.
Conseguido o regresso das competições, é com enorme entusiasmo, comprometimento e ambição que a nossa equipa abordará as onze "finais". Queremos muito ser bicampeões nacionais e vencer a Taça de Portugal.
Mas o futuro do Benfica faz-se para além da presente temporada e Luís Filipe Vieira deixou pistas importantes quanto à estratégia implementada. A aposta na formação será para continuar, complementada por um scouting competente que preencherá as eventuais lacunas da nossa Formação para completar o plantel. Manter a hegemonia nacional e melhorar o desempenho nas competições europeias é o objectivo.
Bruno Lage é, neste momento, o treinador ideal para este projecto. Pela sua competência, pelo seu bom percurso à frente da equipa e pela total identificação com os valores e estratégia do Clube.
O investimento em infraestruturas, meios técnicos e metodologias será igualmente para manter. O Benfica, dada a evidente menor capacidade de investimento em atletas face aos mais ricos clubes europeus, estará sempre obrigado a procurar obter vantagens competitivas.
E estas podem ser obtidas em diversas vertentes, sendo que uma delas está relacionada com a capitalização da SAD, para a qual a OPA, entretanto não realizada, teria sido o primeiro passo. Luís Filipe Vieira explicou que a detenção de 95 a 97% do capital da SAD possibilitaria, no futuro, a entrada de parceiros estratégicos, ficando o Clube, directa e indirectamente, com a maioria do capital.
Foram muitos mais os assuntos abordados ao longo da entrevista, predominando a visão para o futuro do Clube. Por muito que o Benfica tenha evoluído nas últimas duas décadas, amanhã será sempre mais importante. Tentar ganhar em todas as áreas no presente enquanto se preparam as vitórias no futuro é o dia a dia do Sport Lisboa e Benfica!"

ONDE ANDAS TU?

"Ó futebol de rua, ó futebol mágico e sonhador, onde andas tu? O futebol pelo qual me apaixonei não era medido em cifrões. Não fazia distinções entre Campeonatos. Não contemplava o racismo. Nem muito menos existiam jogadores a vender a sua derrota. A aceitar dinheiro para que o mundo sombrio das apostas lhes destrua o sonho mais brilhante das suas vidas.
Pois é, actualmente, aquilo que foi dito no parágrafo inicial trata-se de uma triste realidade. Cabe aos verdadeiros apaixonados pelo desporto e pelo futebol vir a público colocar a sua posição bem vincada. De desagradado e desilusão.
A Primeira Liga Portuguesa vai regressar no início de Junho. Com todas as jornadas a serem disputadas. Excelente notícia. Em forma de contraste, na Segunda Liga, Nacional e Farense foram automaticamente promovidos. Uma varinha mágica limpou as restantes jornadas e, como por magia, já temos equipas promovidas. No Campeonato de Portugal, uma notícia ainda mais arrepiante. Arouca e Vizela sobem à Segunda Liga, uma vez que estavam em primeiro nas suas séries e tinham mais pontos do que Olhanense e Praiense, líderes das duas restantes séries. Dá para acreditar? O que dizer sobre isto? É elementar que existem séries mais competitivas do que outras. É uma falta de respeito pelo futebol passar um pano nas trajectórias fantásticas das formações de Olhão e dos Açores e, como por magia, deixá-los sem uma palavra a dizer. Nem a um justíssimo play-off de subida tiveram direito. Era assim tão complicado colocar os líderes das quatro séries num play-off que pudesse apurar, com justiça, as duas equipas promovidas? Será que o Campeonato que gera mais dinheiro tem outras regras da sensatez?
Por sua vez, existem mais casos suspeitos de jogadores a vender a sua derrota em Campeonatos com menos mediatismo. Já sabemos que os salários nessas divisões são inferiores. E que há gente que se aproveita dessa fragilidade para aliciar e conseguir milhares de euros. Mas pense em tudo o que fez para poder ser futebolista. Em todos os sacrifícios. Em tudo aquilo que os seus pais, avós e irmãos vibraram e se apaixonaram. Pense no futebol com que sonhou e se, de alguma forma, esse futebol contemplava golos na própria baliza ou expulsões encomendadas. Julga que um dinheiro extra, em forma de felicidade fictícia, poderá ser mais importante do que tudo isto? Na nossa magia do futebol, interessavam apenas duas coisas: divertimento imensurável e ganhar. Tão fácil assim. E, como Johan Cruyff dizia, o mais difícil é jogar futebol de forma simples.
As sombras até podem tentar estragar os sonhos mágicos que iluminam a vida. Mas a última palavra será sempre nossa."

A PRÁTICA DESPORTIVA E A ESCOLA


"Será que o atraso que se verifica na prática desportiva em Portugal é da Escola? As opiniões valem o que valem. Alguns comentadores, dirigentes e políticos dizem que sim. Outros respondem que não. A verdade é que muitos ignoram a realidade da escola (pública e privada). A existência de alguma confusão sobre o que é o desporto e o que é a educação física também não abona em nada. Sabemos que a escola, enquanto espaço de aprendizagem, pode dar um contributo para a elevação da prática desportiva, mas não resolve todos os problemas existentes. Não lhe cabe a ela formar “campeões” e “atletas”. Todavia, a prática desportiva escolar pode dar um contributo, qualificando os jovens. O esforço tem que vir também dos clubes desportivos. Mas muitos não conseguem atrair a juventude, que organizam o seu tempo livre de outra forma. Os espaços de sociabilidade, os hábitos, os consumos e os gostos culturais são outros.
Determinados dirigentes de clubes precisam de compreender isso e deveriam se adaptar-se novas realidades. Neste mundo globalizado, há práticas desportivas que não têm interesse por parte dos jovens. Os estudos nacionais e internacionais, relativamente aos hábitos desportivos, demonstram que determinadas variáveis (idade, género, escolaridade, estatuto socioprofissional) são estruturantes da prática desportiva. Em termos tendenciais, podemos dizer que: 1) os homens praticam mais desporto do que as mulheres; 2) os jovens praticam mais desporto do que os mais velhos; 3) os que têm um nível de escolaridade mais elevado do que os que têm um nível de escolaridade mais baixo; 4) os que detêm um estatuto socioprofissional mais elevado do que os que detêm um estatuto socioprofissional inferior. O argumento da “falta de tempo” entre os não praticantes, como a principal razão para não praticarem uma modalidade desportiva, merece um estudo aprofundado em Portugal.
Os que dizem não gostar de desporto permite reforçar a ideia de que existe uma deficiente aculturação dos valores da cultura físico-desportiva. Quando olhamos para os dados do Eurobarómetro do Desporto e da Actividade Física (2017), verifica-se que participação desportiva portuguesa é baixa, quando comparada com outros países da União Europeia. Em 2009, a percentagem de portugueses que praticava exercício ou desporto regularmente era de 9%, diminuiu para 8% em 2013 e para 5% em 2017. O número dos que raramente ou nunca praticam estas actividades (nos tempos de lazer) subiu de 66%, em 2009, para 72%, em 2013, e para 74%, em 2017. Estudos recentes referem também que muitos adolescentes não praticam exercício físico suficiente. Portugal regista uma percentagem de 84,2% (em adolescentes, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre 11 e 17 anos). Ocupa, assim, o 74.º lugar da tabela de classificação dos 146 países avaliados pela OMS (Organização Mundial de Saúde) entre 2001 e 2016. Dá que pensar…"

FUTEBOL / EM NOME DO PRESENTE


"Faz hoje (1 de Junho), 9 anos que que cobrindo a quietude duma distância, numa manhã de sonho vi erguer uma das maiores conquistas académicas revertidas no mastro da minha existência pela prestação de provas do meu doutoramento.
Aos Professores Doutores Manuel Sérgio, José Antunes de Sousa e Pedro Guedes de Carvalho, pelos quais humildemente me curvarei todos os dias da minha vida, num ato de eterna gratidão que jamais esmorecerá… e nessa tão afectuosa viagem de suporte em supervisionar, aconselhar, orientar os caminhos rasgados pela investigação e desejo em olhar o Futebol de Corpo Inteiro, visto à luz da ciência da motricidade humana no reencontro com a vida. Lhes dedico, neste dia de festa, este simples mas significativo texto no âmbito da reflexão do “Futebol – em nome do presente!”...
A adversidade desperta em nós capacidades que em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas. (Horácio, 65-8 a.C.)
Estamos quase a bater à porta duma nova retoma de competição, configurada com a existência de atípicas fórmulas de metodologia, que nos vai remeter sem dúvida para uma observação e qualificação de rendimento suportado ou não pelo resultado.
Assim, iremos ter em conta o facto a ser ou não confirmado, em que equipas que para além da concentração de jogos em tempo muito curto, conseguem ou não disponibilizar-se para a competição em tempo inteiro, enriquecidas pela valorosa identidade dos seus profissionais que, embora esculpidos no caminho das dificuldades, que uma preparação muito discutível de processos lhes facultou, possam ultrapassar a crise dum rendimento sem ser acometidas de lesões e perante o silêncio que o estádio despido de energia, que em condições normais se alimenta das bancadas, serão capazes de transportar na seiva as pegadas da sua experiência, e ir à luta, continuando a fazer do jogo de Futebol um espectáculo coberto de beleza e emoção.
Como tenho repetidamente referido, a consciência é a base de toda a existência, facto que implica o absoluto o primado dessa mesma consciência sobre os demais elementos na construção da forma desportiva, física, atlética, técnica, funcional. Isto é, um corpo fisicamente em forma, mas descrente nos objectivos de conquista, não é de modo algum suficiente para garantir o sucesso no seu desempenho (Goswami, 2008 cit. Sousa, A; 2014).
Não deixará de ser interessante reflectir e avaliar a capacidade de mestria do líder/treinador e pelas assessorias administrativas e médico desportivas expressas pelos seus mais qualificados intérpretes, nesta vergada curva do tempo que a vida condicionou de forma inapelavelmente castrante. Sentiremos o compromisso dos jogadores, apelando para transformar o estado da crença num desejo, que fará renascer a convicção para a conquista do sucesso?!...
Creio que mais do que apelar para as condicionantes biológicas, fisiológicas, atléticas e funcionais, nesta fase de abrangência competitiva, e tendo presente situações de dificuldade, que por mim foram evidenciadas no artigo anterior, deveremos antes de mais controlar os pensamentos, que movidos por uma cultura de honestidade, autenticidade, ética, resiliência e altruísmo, podem verem-se aperfeiçoados os seus desempenhos.
Neste âmbito, uma equipa mentalmente forte, os seus jogadores batem-se, jogam e lutam com a bravura dum guerreiro e vão mais longe na luta da sua conquista. Deixam no ar a linguagem da palavra, do gesto ou do silêncio, que acaba por ser o oxigénio que sustenta a convicção do êxito conseguido, porque o estado de alma envolto num espírito de conquista, é capaz de produzir um estado de crença que também gera biologia como força motriz de intencionalidade energética, onde se opera e alimenta o sucesso.
Nos dias de hoje e de acordo com algumas estratégias já por mim evocadas, através duma dinâmica de intervenção ou planificação de treino é possível a reconstrução dum modelo operacional, que após a avaliação de várias competências dos jogadores, poderemos atestar comportamentos, ajustar desejos, invocar convicções e partir para a viagem de sonho onde habita o êxito.
Entramos num momento fundamental para uma nova aprendizagem, convocados pelos sinais dos tempos. Cá estaremos para no momento próprio validar a oportunidade de rumar ao conhecimento, que vai nascendo da dúvida e alimentando da incerteza e nos permitirá requalificar o futuro."

PRIMEIRAS PÁGINAS DO JORNALIXO TUGA


segunda-feira, 1 de junho de 2020

A IMPORTÂNCIA DE SER O MUNDO...


"Duas visitas do Benfica ao Municipal, no Redolho, em Águeda. Primeiro para o campeonato, para defrontar o Recreio, na maior enchente jamais vista naquele estádio, depois para jogar contra o Luso, da vizinha Mealhada, para a Taça de Portugal.

No tempo do meu bisavó Afonso dizia-se: Águeda é o mundo! E até certo ponto era verdade. Não sei se hoje em dia Águeda oferece muito ao País. Se calhar, não. Mas o País também não nos oferece muito ao País. Se calhar, não. Mas o País também não nos oferece grande coisa, e nós não deixamos, por isso, de gostar dele. Claro que também nós não acrescentamos muito ao País, mas aí já somos tratados em conformidade. E este nós é mesmo nós: ou seja, é a primeira pessoa do plural; não é majestático.
Conheço muita gente para quem Águeda continua a ser o mundo. Com ponto de exclamação, ou não, no final da frase, pouco importa. Diria mais... ou, melhor, vou pôr o Alberto Caeiro a dizer para mim: 'O mundo não se fez para pensarmos nele, mas para olharmos para ele e estarmos de acordo'.
Não há muita gente que saiba que o Vidal, da Aguada, levou leitões à rainha de Inglaterra. Já esteve em lugares da Terra onde as pessoas ficam em Aguadas, de Cima e de Baixo, quanto mais Oronhe ou Bolfiar, o Raivo ou Valdomingos. Já estive em lugares da Terra onde as pessoas não sabem ao certo o que é um leitão e não têm conhecimentos muito mais profundos sobre a própria rainha de Inglaterra.
Antigamente, em Águeda, o campo de futebol chamava-se Campo de S. Sebastião. Tinha a capela atrás de uma baliza e o campo de básquete atrás da outra. À volta tinha tapumes de madeira, e o Recreio disputou nele os jogos mais fantásticos da sua história, expecto um. Nestas coisas de jogos históricos, a memória tem uma importância fundamental: quanto menos a gente se lembra deles, mais históricos são. Não há jogos históricos sem imaginação e um ou outro pormenor impossível de confirmar que possam motivar discussões vitalicias. Não é segredo para ninguém: a memória é a maior inimiga da imaginação. Nenhum golo é tão bonito como aquele do qual não há quem se lembre, mas do qual toda a gente finge lembrar-se no momento em que alguém se decide descrevê-lo. A bola caindo na entrada da área, o Fanfas chutando de primeira, as redes da baliza do lado da capela abanando de alegria. E quando o discutem, tornar-no verdadeiro: isto é, mais histórico.

As visitas do Benfica
Na excepção dos jogos históricos do Campo de S. Sebastião, há o Recreio - Benfica já na beira-rio, no Redolho, junto às Lavadeiras e ao Fojo. Nessa tarde, foi tanta gente ao Municipal, que o público se esticou ás linhas laterais, e eram guardas-republicanos a cavalo que vigiavam os fiscais de linha. A malta gritava: 'Tira o cavalo da frente, que quero ver a bola'! E cavalo e cavaleiro num orgulho desmedido de bestas a fazerem de guardas fronteiriços sobre os traços de cal.
Dia 26 de Fevereiro de 1984. O Recreio tinha o Tibi na baliza e levou quatro golos. O público do Benfica lançava a velha pilhéria: 'Vai buscar, Tibi!' E o Tibi ia, que remédio. Nené marcou dois golos, o Diamantino, um, e o Paulo César que jogava na defesa aguedense, acertou com a bola na própria baliza. O golo do Recreio foi de César, um brasileiro elegante que seguiu para Setúbal.
Os meus amigos Jorginho e Nogueira estava em campo, defendendo a camisola cor de sangue seco dos Galos do Botaréu. Mas não chegava. Como não chegou para evitar a descida e terminar de vez com a presença de Águeda na I Divisão, que durou apenas essa época na qual o Benfica viria a ser campeão.
Estive lá e vi. O Benfica em Águeda.
Depois o Benfica voltou a Águeda, e eu vi outra vez. E outra vez em Fevereiro: dia 29. Desta vez para a Taça de Portugal, mas sem Recreio. O adversário foi o Luso. Não o Luso do Barreiro, que não faria sentido andarem tanto as duas equipas para disputar uma eliminatória. Um Luso bairrradino, o Clube Desportivo do Luso, ali vizinho da Mealhada, que, não tendo campo de jeito para receber adversário de tal tamanho, recorreu aos préstimos do Recreio. Nesse tempo, o Municipal já não era pelado, tinha uma relva bem arranjada, à medida da habilidade dos craques. Curiosamente, e talvez porque não havia público até às laterais, a ser empurrado para fora das quatro linhas por guarda-republicanos, a relva não deu ao jogo a qualidade do anterior. Diamantino fez um golo, aos 73 minutos, e a contagem ficou-se por aí. Faltou-lhe a alma, ao encontro, quero dizer. A alma das gentes de Águeda que continuam a acreditar que Águeda é o mundo..."

Afonso de Melo, in O Benfica

A BOLA VAI ROLAR


"Portimonense e Gil Vicente, no Algarve, reabrem as “hostilidades”, depois de em 8 de Março último Paços Ferreira e Vitória de Guimarães terem encerrado a jornada 24.

O apetite dos milhões de adeptos portugueses do futebol está prestes a ser satisfeito com o reatamento do campeonato da primeira Liga, marcado para a próxima quarta-feira.
Nesse dia Portimonense e Gil Vicente, no Algarve, reabrirão as “hostilidades”, depois de em 8 de Março último Paços Ferreira e Vitória de Guimarães terem encerrado a jornada 24.
E aí, quando o apito do juiz soou pela última vez, sancionando o triunfo dos vimaranenses por 2-1, estávamos todos muito longe de imaginar o que iria acontecer poucos dias depois.
A verdade é que só após três meses é possível voltar a ver em acção as nossas 18 equipas, e em circunstâncias nunca pensadas antes e com consequências ainda difíceis de prever.
No ar há perguntas para as quais não são conhecidas respostas, mas que continuam a justificar-se por inteiro. Por exemplo: e se houver necessidade de proceder a uma nova interrupção do campeonato, quais são os procedimentos a adoptar? E, nesse caso, que se deseja não venha a surgir, como será feito o escalonamento das equipas portuguesas com vista à sua participação nas competições europeias?
Este não é, aliás, um tema novo, porque muitas vozes se têm levantado fazendo perguntas e acrescentando-lhes recomendações segundo as quais tudo deverá estar muito claro antes do primeiro chuto na bola na próxima quarta-feira.
E não é somente por falta de bom senso, pois é, sobretudo, ausência de serenidade, que tem estado ausente nos últimos dias entre a família do futebol, para que estas questões importantes tivessem sido debatidas e merecessem decisões adequadas.
Claro que, face à actual situação sanitária, pode vir a repetir-se tudo aquilo que deu origem à paragem iniciada em 13 de Março.
Não se deseja, mas a verdade é que a organização deveria partir mais respaldada para esta nova fase."

BENFICA ATÉ DEBAIXO DE ÁGUA


"Um adepto do Benfica preferiu ficar com a cabeça à chuva do que usar um barrete dos holandeses

Dias antes do Benfica defrontar o Feyenoord para a 1.ª mão dos quartos de final da Taça dos Clubes Campeões Europeus 1971/72, o treinador dos holandeses, Ernst Happel, teceu declarações acerca dos 'encarnados' que inflamaram o ambiente da partida, 'uma perfeita mistificação futebolística, que não passava de equipa medíocre, de onze cultivado tecnicamente e ao nível de uma escassa instrução primária'. As palavras do técnico criaram enorme mal-estar junto dos adeptos benfiquistas e foram um tónico para os jogadores, que entraram em campo motivados para provar o contrário.
Com um excelente início de jogo, 'o Benfica meteu num chinelo o Feyenoord', contudo, por falta de acerto dos atacantes 'encarnados', a partida terminou com a vitória dos holandeses por 1-0. A boa imagem deixada pelos portugueses fez com que, no final do encontro, o treinador adversário se retratasse: 'estou, sinceramente, arrependido daquilo que disse sobre o Benfica (...) é muito mais forte do que pensava'.
Porém, o orgulho dos benfiquistas estava ferido. Não havia nada a fazer! Na 2.ª mão, os adeptos prepararam uma recepção monstruosa: «o Estádio da Luz, que apresentava o aspecto ciclópico de uma das suas maiores enchentes, o 'velho Benfica'. O Benfica das noites de gala europeia». Se nas bancadas os 'encarnados' apresentaram a sua melhor versão, em campo também não foi diferente. A equipa entrou muito forte e precisou apenas de cinco minutos para inaugurar o marcador.
A chuva intensificou-se e, na bancada à frente das cabines da rádio, estava 'um garoto que assistia ao jogo, ao lado de um holandês que obviamente se 'despistara' do seu lugar'. Ao aperceber-se que o miúdo tinha a cabeça encharcada, o rival ofereceu-lhe o seu barrete. No entanto, o 'rapaz olha para a barrete, lê o dístico «Feyenoord» e esboça um sorriso amarelo e recusa'. O holandês insistiu e o garoto 'acabou por aceitar, mas continuou com a cabeça descoberta à chuva'. Há feridas que demoram a sarar!
Em campo, os 'encarnados' responderam com golos à provocação do técnico holandês, marcaram três golos em 'quinze minutos de ouro e de aço (o ouro da técnica e o aço da determinação) (que) perdurarão por muitos anos na memória de mais de setenta mil pessoas', triunfaram por 5-1 e apuraram-se para a fase seguinte.
Nessa época, o Benfica sagrou-se campeão nacional. Saiba mais na área 6 - Campeões Sempre no Museu Benfica - Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

O LEITE FARÁ BEM ÀS ÁGUIAS?

"Por não serem animais mamíferos, as águias não consomem leite. No entanto, as águias do SL Benfica parecem estar prestes a adquirir 1,96m de Leite. O guardião brasileiro do Boavista FC, Helton Leite, estará a caminho dos ainda campeões nacionais, confiando nas notícias veiculadas.
A confirmar-se a sua chegada aos encarnados, o futebolista de 29 anos será sombra de Vlachodimos, acreditando, mais uma vez, que todas as notícias desportivas nacionais são verdadeiras (um mau princípio). Desta forma, o guardião grego permanecerá no clube da Luz. Ficaria desta forma solucionada a problemática da alternativa ao titular da baliza encarnada e, quiçá, a problemática do seu sucessor.
Com a contratação de Helton, Varela e Zlobin deverão conhecer o fim dos seus vínculos ao SL Benfica. Já Svilar deverá ter a oportunidade de dar seguimento à sua evolução num outro clube português, por empréstimo dos encarnados. Kokubo será, acredito, o eleito para fazer a ponte entre a titularidade na equipa B e a posição de terceiro guarda-redes do plantel principal.
“Gosta muito da ideia de jogar no SL Benfica” (pai de Helton Leite sobre o filho, ao jornal O Jogo, dia 26 de maio de 2020)
Apesar da idade, não se pode asseverar que as águias adquirem um guarda-redes experiente. Pelo menos não no panorama internacional. As duas épocas que está prestes a completar no Bessa constituem a sua primeira experiência fora do Brasil. No seu país natal, Leite destacou-se no Botafogo de Futebol e Regatas, clube carioca ao qual os axadrezados adquiriram o seu passe.
Ainda assim, os dez anos de experiência sénior dar-lhe-ão, por certo, uma bagagem interessante. Todavia, mesmo sem a bagagem de guarda-redes que Júlio Cesar, que, não há muito tempo, se despediu dos encarnados, tem, Helton Leite aparenta ter qualidade, ou qualidades, que o tornam um bom activo para as águias rentabilizarem desportivamente (financeiramente, já não haverá grande proveito a usufruir).
Fazendo (bom) uso da sua envergadura e altura, o brasileiro tem demonstrado competência nas bolas aéreas e nos remates de meia altura para cima, bem como no encurtamento dos espaços, graças à larga passada, e na execução da “mancha”. Tem igualmente revelado ser destemido e inteligente nos duelos um para um com jogadores adversários, incluindo nas saídas aos seus pés. Helton Leite revela alguma agilidade e rapidez e, sobretudo, capacidade técnica nos confrontos directos com adversários. A sua capacidade de encaixe a remates de meia e longa distância é para lá de razoável. Por outro lado, remates de curta distância – sobretudo se rentes à relva – provocam-lhe dificuldades, não sendo a sua agilidade por vezes suficiente para compensar as suas dimensões físicas (1,96m e 92Kg). Contudo, Helton Leite consegue, por inúmeras vezes, fazer uso da sua capacidade mental e do conhecimento alargado que tem das lides da sua posição para suprir as eventuais lacunas físicas que possa apresentar.
O seu jogo de pés, ainda que não muito conhecido, não pode ser considerado mau. Ainda assim, a equipa técnica encarnada terá que empenhar algum tempo no trabalho de pés do guardião brasileiro. Eu acredito que esse empenho terá frutos, visto que quem se há pronunciado sobre a forma de trabalho de Leite revelou sempre que o “90” dos boavisteiros é dotado de excelente carácter, motivação e vontade de trabalhar.
Após duas épocas sem uma alternativa credível a Vlachodimos, os encarnados preparam-se para – por fim! – contratar um digno concorrente à titularidade da baliza benfiquista. Ainda por cima, o “módico” pagamento é de cerca de dois milhões de euros. Na presunção de que Helton assina pelos encarnados e de que nenhuma lesão o impede de mostrar serviço e todo o seu talento (como há acontecido no Boavista FC, na corrente época), afigura-se-me seguro afirmar que Leite fará muito bem às águias."

PRIMEIRAS PÁGINAS DOS TUGA LIXO