quarta-feira, 1 de julho de 2020

UM AZAR DO KRALJ


O Benfica está entregue a um piloto sem brevê e as únicas recordações de Weigl serão o diploma do 3.º lugar, um tipo a correr nu e um calhau
Vasco Mendonça, cronista da Tribuna, comentador televisivo e metade de Um Azar do Kralj está num momento particularmente sensível da sua carreira de aficionado benfiquista. É ler o que escreve a propósito dos jogadores que foram derrotados pelo Santa Clara, em casa, e também as críticas a Bruno Lage. Vasco pede, inclusivamente, a intervenção de Adel Taarabt para que leve o treinador pela mão a ver o mar à praia das Avencas.
Vlachodimos
A culpa não foi dele, mas Vlachodimos desceu hoje à galeria dos horrores onde figuram os pouquíssimos guarda-redes do Benfica batidos por 4 vezes num só jogo do campeonato na Luz. Tem a companhia de um dos melhores que eu vi até hoje naquela posição, Michel Preud’Homme. À sua frente, no dia 16 de Março de 1997, o guarda-redes belga teve Tahar El-Khalej, Jorge Soares, Bermudez e El Hadrioui, quatro jogadores que, vendidos em conjunto ao Desportivo das Aves, não dariam para pagar uma daquelas bandeletes do Rúben Dias.
André Almeida
Há uma diferença entre essa derrota com a Salgueiros e a de hoje. Nesse dia estavam alguns milhares de pessoas no estádio, que tiveram de sofrer pelo seu amor ao Benfica. Felizmente desta vez houve uma pandemia que poupou os adeptos à humilhação. Obrigado, Covid-19. Quanto ao André, pareceu melhor jogador com o Zivkovic em campo, uma situação que só nos pode deixar deveras surpreendidos.
Ferro
Bati hoje um novo recorde pessoal de terços rezados entre uma falta cometida de forma desnecessária por um jogador do Benfica e a marcação do respectivo livre. Tenho a dizer-vos que é por estas e por outras que o ateísmo vai ganhando terreno. Não sei o que me deu, mas decidi que era boa ideia ver o lance do quarto golo em câmara lenta ao som de Andrea Bocelli e acabei a limpar o vómito dos cantos da boca.
Rúben Dias
A ele se deve um verdadeiro hino à verdade desportiva visto na Luz, e não falo apenas da justíssima vitória do Santa Clara. O lance em que o Ruben decide estupidamente tocar com a mão na bola permitiu a João Pinheiro, árbitro cujo carácter foi assassinado duas dúzias de vezes nos últimos anos, ter o seu momento de redenção ao assinalar um penálti contra o Benfica na sua própria casa. Desculpem repetir-me, mas com padres destes não admira que o ateísmo ganhe terreno.
Nuno Tavares
A confiança tem destas coisas. Por vezes catapulta-nos para níveis impensáveis; noutras ocasiões, revela a distância que nos separa da realidade, e há ainda algumas circunstâncias em que a confiança parece dar a entender que andamos a brincar com esta merda. Aquela saída a jogar seria inadmissível num gajo que chegou direto da noite para uma futebolada entre amigos. Agora imaginem num jogo em que o maior clube do mundo tem obrigação de ganhar.
Weigl
Posso estar enganado, mas começo a achar que as únicas recordações que o Weigl vai levar de Portugal são um tipo a correr nu na rua por causa dele, um diploma de terceiro classificado e um calhau.
Gabriel
O jogo com o Marítimo ainda não começou, mas eu antecipo-me já ao Goalpoint: 0% de passes falhados. Inchem. Assim está bem. Os haters dirão que essa estatística só é possível porque Gabriel está suspenso no próximo jogo. Não liguem. É gente que não sabe ver futebol.
Pizzi
Não sei quanto a vocês, mas eu estou pronto para a segunda vaga da pandemia.
Adel
A sua dívida de gratidão para com Bruno Lage é seguramente muito grande, mas não supera aquilo que o Benfica lhe pagou em salários e prémio de assinatura ao longo destes anos. Sendo assim, e porque o presidente não tem coragem de falar com o Lage, sugiro que peçam ao Adel para o levar à praia das Avencas onde poderão recordar os bons momentos passados juntos e acertar os termos da rescisão amigável.
Rafa
Rafa, se me estiveres a ler combinamos já uma coisa: só voltas a aparar a barba quando o Benfica vencer 3 jogos consecutivos.
Seferovic
Sugestão: começamos com o Dyego Sousa a titular, este recebe entre linhas e faz as coisas todas que o Lage lhe pede mesmo não marcando um único golo. Pouco depois sofremos um golo e, aí sim, colocamos o Seferovic e o Vinicius em campo. Não vale a pena alterar constantemente a ordem natural destas coisas quando finalmente se descobre uma fórmula para conquistar 3 pontos - a não ser que essa fórmula vencedora seja um mero acaso e estejamos entregues a um piloto sem brevê.
Vinicius
Tornou evidentes as fragilidades da defesa do Santa Clara e devolveu a esperança aos adeptos, contribuindo assim para mais uma vantagem enganadora no marcador. Já lhe deveriam ter explicado que o golo da vitória deve surgir sempre após o minuto 90, para que os colegas não tenham tempo de desperdiçar a vantagem. Marcar a 25 minutos do fim é simplesmente suicida.
Zivkovic
Parece a caminho da titularidade. Só precisa de mais minutos nas pernas e de um novo treinador. Já faltou mais.
Dyego Sousa
Digo-vos uma coisa, sem falsas modéstias. É preciso gostar mesmo MUITO do Benfica para estar aqui às 2 da manhã a tentar encontrar palavras que me permitam caracterizar os minutos do Dyego Sousa em campo.
Cervi
Autor do último cruzamento do Benfica durante o jogo, que acertou em cheio no Zivkovic, momentos antes do quarto golo do Santa Clara.

ÉPOCA BASQUETEBOL 2019/20

"A época de Basquetebol terminou e é altura de fazer uma introspecção à temporada que passou. 
Depois do despedimento de Arturo Alvarez a meio da temporada anterior, Carlos Lisboa acabou por regressar e ficar, numa decisão que não foi muito consensual para os adeptos. Houve muitas mudanças no plantel. A começar pelas saídas dos portugueses Miguel Maria, Jacques Conceição (angolano mas que contava como português) e Cláudio Fonseca, e dos estrangeiros Juan Cantero, Álex Suárez, Xavi Rey, Mickell Gladness. Além de Quentin Snider e Kris Joseph que já tinham saído no decorrer da temporada. Entraram para os seus lugares Toure' Murry (que viria a desaparecer das convocatórias a meio da época), Anthony Ireland (que chega já com a época a decorrer quando nos apercebemos que Murry não era um base organizador), Betinho, Damian Hollis, Eric Coleman, Gary McGhee e Anthony Hilliard (que também chegou a meio da época depois da lesão de Micah Downs e do desaparecimento do Murry). Resta dizer que mexidas nos americanos a meio da temporada, tem sido anormal para o Benfica, mas que na Europa fora é algo bastante comum no Basquetebol.
O racional por trás destas mexidas todas fez sentido. Rafael Lisboa precisava de mais minutos, como tal Miguel Maria só lhe iria tirar espaço. Este ano as regras permitiam ter cinco estrangeiros. Como a nossa base de portugueses é mais forte no back-court (com Rafael Lisboa, Tomás Barroso, Zé Silva, Fábio Lima) podemos ter um front-court mais pesado em estrangeiros. Daí termos dois postes americanos (Coleman e McGhee). O regresso de Betinho, permitia-nos ter o melhor português da modalidade, que contava, a nível de talento, como um estrangeiro.
A nível interno fizemos 26 jogos e vencemos 23. No Campeonato estávamos a 4 jornadas do fim da Fase Regular, com 22 jogos, 20 vitórias e 2 derrotas. As derrotas tinham sido contra o FC Porto e Sporting. Ambos fora de casa. O Sporting ia em primeiro, só com uma derrota, nos pavilhões da Luz. Na Taça Hugo dos Santos eliminámos o FC Porto no prolongamento, mas depois perdemos na final contra a Oliveirense, que tinha eliminado o Sporting, por apenas dois pontos. Fizemos apenas dois jogos para a Taça de Portugal. Vencemos ambos. Estávamos agora na meia-final, contra o FC Porto. Ou seja, não estava a ser uma época extraordinária, mas ainda tínhamos boas hipóteses relativamente aos dois principais títulos, até porque tivemos diversas baixas ao longo da época. A mais importante de todas foi a lesão de Micah Downs, mas não se ficou por aí.
Na Europa, foi uma das nossas melhores temporadas no passado recente. Demos boa luta na Fase de Qualificação da Champions League. Na primeira ronda eliminámos o Donar Groningen (1º lugar na Liga Holandesa). Na segunda ronda caímos diante do Mornar Bar de Montenegro (5º lugar na Liga Adriática). Seguimos daqui para a FIBA Europe League onde pela primeira vez passámos a primeira Fase de Grupos, num grupo com ZZ Leiden (4º lugar Holanda), BK Inter Bratislava (1º lugar da Eslováquia) e PVSK-Panthers (5º lugar da Hungria). Tivemos cinco vitórias e apenas uma derrota contra o Leiden. Na segunda Fase de Grupos, não nos apurámos para os quartos-de-final por uma unha negra. Ficámos no grupo com Medi Bayreuth (12º da Alemanha), Bakken Bears (1º da Dinamarca) e Spirou Charleroi (5º da Bélgica). Vencemos os dois jogos contra os belgas e o primeiro contra o Bakken Bears. Se temos ganho o último jogo contra os Bakken Bears na Dinamarca, tínhamos conseguido o apuramento.
Dos 14 jogadores que utilizámos na FIBA Europe Cup, 13 fizeram pelo menos 6.1 pontos por jogo. Se Micah Downs não se tem lesionado (acabou por participar apenas em 2 dos 12 jogos), podíamos ter ido mais longe. Os nossos melhores atletas foram:
- Anthony Ireland - 15º melhor jogador da FIBA Europe Cup em pontos por jogo e 4º em assistências 
- Eric Coleman - muita garra, muito impacto nos dois lados do campo - Betinho Gomes - top50 melhores jogadores em pontos por jogo e top10 melhores ressaltadores
- Micah Downs - no pouco que jogou, foi sempre dos melhores
- Arnette Hallman - outro jogador muito lutador, com maior impacto defensivo, mas que também contribui para o ataque
- Zé Silva - 46% de 3 pontos na Liga Portuguesa - Fábio Lima - melhor percentagem de 3 pontos da FIBA Europe Cup
- Rafael Lisboa - mostrou que pode ser o base da seleção nacional para os próximos 10-15 anos
Do lado menos positivo, tivemos:
- Gary McGhee - no papel era esperado que fosse o poste titular, à frente de Eric Coleman e que se enchesse de estatísticas defensivas. Na prática passou muito ao lado de quase todos os jogos
- Toure’ Murry - desapareceu do Benfica. O rumor que consta é que o treinador o tirou da equipa
- Damian Hollis - foi um regresso apagado. É um jogador que precisa de muita bola e nós já tínhamos 3-4 jogadores que têm muita bola também.
No geral, acho que a equipa esteve a menos uma derrota de ter tido uma boa época. Bastava termos ganho um dos jogos contra Sporting (F), Oliveirense (Final da Taça HdS) ou Bakken Bears (F) e tinha sido uma boa época. Acho que com o regresso de Micah Downs para a fase mais importante da época, que teríamos um reforço de muito peso que iria desequilibrar o Campeonato a nosso favor. Logo, nem se pode dizer que foi uma má época. Mas para a diferença de qualidade nos plantéis, particularmente em Portugal, esperava-se outra coisa.
Na próxima época para já ainda não há muitas novidades. O clube até agora já anunciou a saída de Gary McGhee, Anthony Ireland e Anthony Hilliard, sendo praticamente certo que pelo menos Toure’ Murry também deverá sair. Damian Hollis, para o que rendeu, também não me espantava que estivesse de partida. Além de que é raro os americanos ficarem no clube mais do que uma época, como tal Micah Downs poderá sempre ter mercado para outros voos. A nível de portugueses, não parece que vá haver nenhuma saída, visto que todos têm contrato ou já o renovaram (Zé Silva e Fábio Lima). O primeiro, e até agora único, reforço é Scottie Lindsey, um extremo jovem que estava a jogar na G-League. Faltam ainda, pelo menos, mais dois reforços. Um base organizador para o lugar que Anthony Ireland andava a ocupar, e um poste para competir com Eric Coleman."

PRIMEIRAS PÁGINAS DA LIXEIRA JORNALEIRA TUGA


terça-feira, 30 de junho de 2020

CAPAS NEGRAS DESFRALDADAS AO SOL DE DEZEMBRO...


"Guilherme Espírito Santo era um homem modesto e quis uma festa modesta no dia em que disse adeus ao futebol do Benfica. Modesta mas belíssima. E comovente. Os seus amigos da Académica de Coimbra prestaram-lhe uma homenagem única.

Dia triste, esse Dezembro. São sempre tristes despedidas, e esta era uma despedida especial. Guilherme Espírito Santo resolvera abandonar o futebol, o desporto que era apenas um dos muitos que praticava. O campeão dizia adeus.
Tinha acabado de cumprir 30 anos. Nasceu no dia 30 de Outubro 1919. Estávamos em 8 de Dezembro de 1949.
Tinha um nome tão extraordinário como o desenrolar da sua carreira: Guilherme Baptista Santana Graça do Espírito Santo. Um halo de santidade em redor de um homem mágico? Era um daqueles divinos negros que atravessaram como cometas o céu do futebol em Portugal. Veio ao mundo em Lisboa, passou parte da sua infância em Luanda, regressou à capital e ao Benfica.
Houve, portanto, na sua despedida, um Benfica - Sporting. Em veteranos. Do lado dos leões, jogou Peyroteo, seu grande rival e amigo. Foi Peyroteo que fez o único golo do jogo, batendo Dyson com um remate poderoso. Em seguida, os jogadores de ambas as equipas fizeram a guarda de honra. Espírito Santo era um senhor. Homem da mais simples das educações, cavalheiro intrínseco. Passou com timidez por entre as alas dos jogadores que o aplaudiam com o respeito que se presta a um ser humano de inequívocas virtudes. No meio do terreno foi ovacionado, em pé, por todo o público presente. Depois, o tenente-coronel Ribeiro dos Reis proferiu um discurso em sua homenagem: 'A festa de hoje deve considerar-se como de consagração de todas as virtudes que Espírito Santo revelou ao longo da sua carreira'. E as palmas estralejaram por todo  recinto, proporcionado à Pérola Negra um momento de grande comoção.

Modesto
Foi modesto a tua festa, pá!, cantaria o Chico Buarque. Festa modesta porque Guilherme Espírito Santo assim o quis. Rodeou-se dos velhos companheiros e adversários que tanto o respeitavam: Gustavo Teixeira, Francisco Albino, Rogério de Sousa, Valadas e Domingos Lopes, Artur Dyson, João Jurado, Abrantes Mendes, Aníbal Paciência, Fernando Peyroteo... Pediu a José Travassos que fosse o árbitro do jogo das velhas guardas, quis ter presente a Académica, clube onde tinha profundas amizades.
O poder não falhou a sua presença. Salazar Carreira leu a Espírito o louvor da Direcção-Geral dos Desportos. Os academistas fizeram questão de se fazer fotografar com ele de capa sobre os ombros, em honra profundamente universitária.
As primeiras guardas do Benfica e da Académica defrontaram-se no jogo da tarde amena de um Dezembro frio. Tavares da Silva, um dos grandes nomes do jornalismo português, desafiou nas colunas do seu jornal umas frases comovidas: 'Muito fez Espírito Santo para merecer a festa que teve. Talvez, até, uma desta demasiado singela para um desportista que atingiu no nosso país um lugar de eleição. Mas Espírito Santo apareceu modestamente, e modestamente quis sair'. De 1936, quando se estreou de águia sobre o coração na primeira equipa dos encarnados, marcando um golo num jogo amigável frente ao Vitória de Setúbal (5-2), àquela tarde de 1941 que num dérbi contra o Sporting se viu obrigado a substituir Martins na baliza do Benfica e fez uma exibição de encantar todos os que a ela assistiram, Espírito Santo foi marcando o futebol e o desporto entre nós. Primeiro africano a jogar na selecção nacional, no dia 28 de Novembro de 1937, com 18 anos, numa vitória histórica em Vigo, frente à Espanha, foi campeão e recordista nacional de salto em altura (1,82), em 1938, uma semana antes de bater, igualmente, o recorde nacional de salto em comprimento (6,89), vindo também a ser recordista de triplo salto (14,15). Além do mais, foi um tenista de excelência.
Não havia desporto para qual Guilherme não tivesse queda. Atleta completa. Atleta feliz. Nessa tarde de Dezembro, Guilherme Espírito Santo vestiu pela última vez a camisola encarnada da sua paixão como jogador de futebol - continuaria a praticar outros desportos -, e o Benfica venceu a Académica por 7-1. Nem por isso os estudantes deixaram de erguer bem alto as suas capas, desfraldando-as ao vento. A sombra batia no relvado e abria em flor. Como se o sino da velha cabra da Universidade também tocasse em nome de Guilherme, o Espírito Santo."

Afonso de Melo, in O Benfica

O FACTOR RESILIÊNCIA EM TEMPOS DE DESISTÊNCIA


"Em 1937, depois de uma época 'brilhantíssima (...) talvez como nunca tivesse tido', o râguebi lisboeta ia 'de mal a pior'.

Quando a modalidade se iniciou no Benfica, em 1924, o râguebi era praticamente uma novidade entre os portugueses. Quase quinze anos depois, era 'considerado por muitos como um jogo violento'. O Benfica recomendava a sua prática a homens 'física e moralmente fortes', dando à execução do râguebi um espelho daquilo que pretendia reflectir se si próprio enquanto Clube.
Depois de alguns anos de desenvolvimento, a modalidade esteve às vésperas de se extinguir, em Lisboa. Para contrariar esse processo, o Benfica foi fundamental, fazendo 'o impossível para que tal não suceda'.
No final de 1936, disputou-se a Taça António Simões, no Campo das Amoreiras. Nesse campo competiram as quatro equipas inscritas: Académico SC, CF Os Belenenses, Ginásio CP e Benfica, que venceu a competição somando 120 pontos contra 10 sofridos, em três partidas.
Avizinhava-se o Campeonato de Lisboa, com grande expectativa. Para concretizar uma bela competição, o quinze do Benfica foi composto 'quási exclusivamente por estudantes', recrutados de escolas onde se praticava o râguebi. Parte da degradação da modalidade devia-se à incompreensão de alguns praticantes, degenerando 'em verdadeira batalha campal quando esses homens não possuem uma noção exacta do desporto'.
'Para surpresa de todos', apenas duas equipas se inscreveram: o Benfica e o Académico SC. O râguebi 'lisboeta, pelos vistos, vai de mal a pior', comentavam os jornais. O campeonato seguiria, com duas equipas, em 1.ª e 2.ª categorias, com datas marcadas para 4 de Abril e 9 de Maio de 1937, no Campo das Amoreiras. Mas, em todas as partidas, 'ao Benfica foram adjudicados os pontos regulamentares' por falta de comparência da equipa adversária, que 'seguiu as pisadas dos outros clubes'.
Nos jornais, as notícias de râguebi viram-se reduzidas a um parágrafo, sendo um 'campeonato sem jogos, sem história'. A imprensa criticou as equipas 'que fugiram à chamada'. Os clubes argumentavam que tinham 'falta de local para treinos'.
O Benfica 'adjudicado' campeão, recebeu uma taça com pouco mais de 15 centímetros, compatível com que a secção do Clube descreveu ser uma 'história tão triste, que é preferível pormos um ponto final no assunto'.
Este episódio é um exemplo fundamental de que impedir a realização do bonito espectáculo do desporto não é, nem nunca foi, uma decisão bem aceite. A resiliência do Benfica ao continuar 'a trabalhar para que não acabe tão belo desporto', face às acções e 'culpa única de alguns senhores que se julgam desportistas', valeu mais que o reflexo da prata que recebeu.
Saiba mais sobre a história do 'desporto da bola oval' benfiquista na Área 2 - Jóias do Ecletismo, no Museu Benfica - Cosme Damião."

Pedro S. Amorim, in O Benfica

PRIMEIRAS PÁGINAS: O FESTIM DOS PASQUINS TUGAS


segunda-feira, 29 de junho de 2020

DESCALABRO ATRÁS DE DESCALABRO...


O Benfica perdeu esta segunda-feira frente ao Marítimo, por 2-0, no Funchal, em jogo a contar para a 29ª jornada do campeonato nacional. Correa e Rodrigo Pinho apontaram os golos dos insulares que deixam o Benfica mais longe de revalidar o título.
A primeira oportunidade de golo do Benfica surgiu bem cedo no jogo logo aos três minutos. Valeu Amir Abedzadeh ao Marítimo. Depois de um cruzamento de Nuno Tavares, que lançou Chiquinho na frente, este apareceu na cara do guarda-redes do Marítimo da Madeira, mas este conseguiu defender.
Aos cinco minutos, o Benfica voltou a tentar a sua sorte com um remate fortíssimo de Chiquinho, que atirou do meio da rua, mas Amir afastou a soco. Os encarnados iam acumulando remates perigosos que iam ao encontro da facilidade dos homens de Bruno Lage de chegar ao último terço do campo adversário.
Aos 17 minutos, os encarnados voltaram a ameaçar a baliza do Marítimo. Na sequência de um passe rasteiro de Chiquinho para Vinícius, este apareceu sozinho na cara de Amir, mas este negou o que parecia ser um golo certo. O lance prosseguiu, Pizzi ainda tentou o segundo remate, mas o guarda-redes muito atento, voltou a defender.
Cinco minutos depois, os homens de José Gomes 'gelaram' o Benfica ao inaugurar o marcador. Rodrigo Pinho atirou para o fundo das redes de Odysseas, mas o lance acabaria por ser anulado por fora-de-jogo. Hélder Malheiro ouviu a confirmação do VAR e mandou seguir.
Depois de um período com vários oportunidades de perigo por parte do Benfica, os homens de Lage foram perdendo potência ao mesmo tempo que o Marítimo ia ganhando espaço. Aos 40 minutos surgiu um cruzamento de Chiquinho para a área, mas Vinícius não chegou e Cervi também não conseguiu finalizar. O lance acabou por ser anulado por falta ofensiva do brasileiro.
O nulo manteve-se até ao final da primeira parte. A segunda parte arrancou da mesma forma que a primeira, com um Benfica muito forte e chegar com relativa facilidade ao setor defensivo dos insulares.

Ao minuto 58, Bruno Lage tirou um cansado Samaris para dar lugar a Rafa e ainda Carlos Vinícius para a entrada de Haris Seferovic. Alguns minutos depois de entrar, o jogador suíço teve uma boa oportunidade de dar o primeiro golo ao Benfica. Depois de um cruzamento milimétrico de André Almeida, o avançado suíço apareceu ao segundo poste, ainda tocou na bola, mas não conseguiu finalizar.
Aos 73 minutos, os encarnados voltaram a sofrer alterações. Desta vez, Lage tirou Pizzi e Cervi para as entradas de Zivkovic e Dyego Sousa. Um minuto depois, o Marítimo marcou por Correa. Depois de uma grande jogada de Nanu, que passou por Ferro e Zivkovic, este meteu rasteiro para o segundo poste onde apareceu Correa a finalizar. Já quase sem ângulo, o argentino colocou a bola entre o poste e Odysseas e marcou mesmo.
A emoção não parou nos Barreiros e Nanu voltou a fazer das suas com um golo muito similar ao anterior. Depois de uma correria de Nanu, este voltou a meter rasteiro para o segundo poste onde desta vez foi Rodrigo Pinho quem apareceu a marcar.
O passar do tempo ia mostrando um Benfica cada vez mais fraturado e foi assim que Tagueu chegou ao terceiro dos insulares. Um passe longo lançou Tagueu, Odysseas saiu da área mas falhou a intercepção e o avançado dos insulares seguiu e atirou para o fundo da baliza vazia. Hélder Malheiro ouviu o VAR e o lance acabou por ser invalidado por fora-de-jogo.
Com esta derrota, a segunda consecutiva, os ‘encarnados’ somam 64 pontos, a três do líder FC Porto, que pode aumentar a vantagem no jogo de hoje em Paços de Ferreira, enquanto o Marítimo sobe ao 12.º lugar, com 31 pontos, confirmando a descida do Desportivo das Aves à II Liga.

DOIS LAGES NA MESMA MOEDA

"Quando um clube contrata um treinador.
Contrata uma ideia de jogo.´
Contrata um modelo táctico e posteriormente jogadores de acordo com esse modelo.
Contrata uma pessoa com um perfil e uma postura.
Mais ou menos agressivo nos diálogos com a imprensa.
Mais ou menos “atrevido” nas substituições e no risco que o jogo pede.
Tudo isso está bem patente.
Mais professor e estudioso ou ex-jogador e da velha guarda.
Aspas para todos estes termos que podem convergir.
O mercado tem de tudo.
O grande problema foi que Lage não estava no mercado.
Não se conhecia a forma nem o conteúdo. Lage era interino.
E como tal uma solução passageira para um clube que dava o campeonato como entregue. 
Surpreendeu tudo e todos.
Até ele se deve ter surpreendido.
E com resultados há paciência e há tempo.
Agora vamos ao outro lado.
Quando os adeptos veem a contratação de um treinador.
Esperam vitórias.
Ponto.
Não querem saber se jogam bem ou jogam mal.
Se a comunicação é assertiva.
Se falam bem ou mal.
Se as substituições são bem feitas ou não resultam.
Tudo isso pouco interessa para o adepto comum.
O adepto quer vitórias e títulos.
Quer ganhar.
Esqueçam o futebol bem jogado e as notas artísticas.
Futebol é para quem ganha.
Sempre foi.
E quem hoje dorme como herói.
Amanhã acorda como vilão.
Quando os treinadores não ganham.
Vem a magia e o feitiço da derrota.
A derrota transforma a educação em deselegância.
Transforma alguém que fala sobre tácticas e estratégias.
Em alguém que fala em almoços e favores.
O que quero explicar é o seguinte.
Não podemos esperar que Lage seja algo que não é.
Assim como Rui Vitória já não era.
Na hora da derrota.
Ser boa pessoa e bom pai de família vale o mesmo que ser parvo e órfão.
Já ninguém se lembra dos bebés de Lage.
Até porque os deste ano são embriões.
E os do ano passado já não são bebés.
E agora estão naquela idade que só fazem asneiras.
E lá está.
Este Pai não dá uma palmada quando é preciso.
E muito menos castigos.
É mais de conversa.
Lage só tem uma salvação.
E ela está a quatro pontos de distância.
E ele sabe disso.
Quem hoje o assobia e pede a sua saída.
Vai aplaudir e pedir a sua permanência.
E isso amigos.
Não se chama ingratidão.
Tem outro nome.
Chama-se futebol."

PRIMEIRAS PÁGINAS DO JORNALIXO TUGA