sábado, 27 de novembro de 2021

" CARTÃO AZUL " - ESPISÓDIO 2

 


"Hoje o Polvo das Antas aborda as ligações entre o FC Porto e o Brasil através do Banco BMG.
Comecemos, então, pelo início. O Banco BMG chegou a patrocinar 40 clubes no futebol brasileiro e esteve envolvido no escândalo Mensalão em 2005. Este foi um escândalo de compra de votos que ameaçou derrubar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Só na principal divisão brasileira, este banco chegou a patrocinar, ou teve participação, em jogadores de 12 clubes diferentes.
Tal influência permitiu que o Banco BMG participasse diretamente em diversas negociações de jogadores com os clubes parceiros. Ricardo Guimarães, ex-presidente do Atlético-MG, vice-presidente do banco desde 1996, CEO entre 2004 e 2013 e atual membro do Conselho de Administração, criou o fundo BR Soccer em 2009, com registo na Comissão de Valores Mobiliários. Indiretamente passou a ter o controlo sobre o Coimbra Esporte Clube da terceira divisão de Minas Gerais. O clube é propriedade da empresa Vevent Empreendimentos e Participações, que por sua vez é detida em 99.95% pelo fundo BR Soccer.
O que é interessante constatar e começa a revelar a cortina da lavandaria, é o facto do fundo BR Soccer ter chegado a ter uma carteira com mais de uma centena de jogadores em 2013. Quanto ao Coimbra Esporte Clube, chegou ao cúmulo de, em 2014, ter um valor de mercado em atletas superior a clubes como Flamengo e Palmeiras. Nem sequer imaginamos a dor e sofrimento dos adeptos do Coimbra Esporte Clube ao constatarem que nenhum desses jogadores jogava, na realidade, no seu clube.
Isto significa que um clube que apenas disputava o Campeonato Mineiro e a Taça Belo Horizonte conseguiu, em tempo recorde, a proeza de ter um ativo superior a clubes que disputavam o Brasileirão e competições internacionais.
No ano seguinte, em 2015, a FIFA vetou a participação de terceiros em direitos de jogadores e deixou de se poder adquirir e vender direitos de atletas. De modo a contornar a proibição de partilha de passes de jogadores por terceiros, o FC Porto e o Banco BMG, através do Coimbra Esporte Clube, começaram a fazer negociatas de jogadores de futebol.
E quem é o Presidente do Coimbra Esporte Clube?
Marcus Vinícius Fernandes Vieira, que é - por coincidência - sócio da Vevent, e foi - também por coincidência - diretor jurídico do Banco BMG. Como se isso não bastasse, este chegou a defender o Banco BMG como advogado em diversas ocasiões.
Como entra o FC Porto no universo BMG?
O ponto de partida foi o museu do clube, onde acabou por encaixar 8 milhões de euros através de um contrato de publicidade e naming, o que levaria Ricardo Guimarães a receber um valioso Dragão de Ouro em 2013, na categoria de Parceiro do Ano. Recordamos que Pinto da Costa e Ricardo Guimarães chegaram a inaugurar o museu com pompa e circunstância. Contudo ficou uma questão no ar: qual a razão pela qual o Banco BMG decidiu investir tanto dinheiro no FC Porto, se não tem qualquer atividade comercial em Portugal?
Vejamos o caso do jogador Otávio.
Sabemos que o Banco BMG adquiriu 50% do seu passe por cerca de 1.35 milhões de euros, além de 15% a um fundo japonês, perfazendo os 65% que o Coimbra Esporte Clube detinha do jogador. Em 2014 o FC Porto comprou 33% do seu passe por 2.5 milhões de euros. Mais tarde, e sem explicação a ninguém, a SAD do FC Porto cedeu 0.5% do seu passe. Não sabemos é a quem, nem por quanto.
O que sabemos é que a transferência de Otávio teve o cunho de Adelino Caldeira e Reinaldo Teles, como comprova o seu contrato. Importa ainda dizer que um dos representantes do Banco BMG é o empresário Giuliano Bertolucci, que colocou no FC Porto jogadores como Éder Militão, Alex Telles, Felipe, Otávio, entre outros.
Isto tudo leva a concluir que a prospecção do FC Porto no mercado brasileiro é feita em conluio com o Banco BMG/Giuliano Bertolucci.
Segue-se um raciocínio de fácil compreensão:
Desde que existe o FC Porto B e até ao final de 2018, foram contratados pelo menos 23 jogadores a clubes brasileiros. E desses 23 jogadores, quantos chegaram à equipa principal até esse ano?
Um, tão e somente um. E qual jogador? O nosso caro e prezado Otávio, que acabou por custar €7.5 milhões de euros por 68% do passe, praticamente o mesmo que o patrocínio do Banco BMG no FC Porto. Curioso, não? O Banco BMG paga um patrocínio ao FC Porto e este compra jogadores do catálogo do Banco BMG pelo mesmo valor.
Façamos um exercício muito simples. Quantos desses jogadores chegaram à equipa principal? A resposta é desoladora, pois a percentagem de sucesso do Porto B em brasileiros foi de 4,34%.
Para que não restem dúvidas:
• 2012-13: Diogo Mateus, Víctor Luís, Anderson Santos, Guilherme Lopes, Sebá (via Cruzeiro), Dellatorre (via Desportivo Brasil/Traffic).
• 2014-15: Diego Carlos (via Desportivo Brasil fundado pela Traffic), Otávio, Roniel (via Grêmio Anápolis controlado pela Promosport), Anderson Dim.
• 2015-16: Rodrigo Soares (via Grêmio Anápolis controlado pela Promosport), Maurício (via Portimonense/Teodoro), Wellington Nascimento (via Grêmio Anápolis controlado pela Promosport), Ronan, Enrick Santos, Gleison (via Portimonense/Teodoro).
• 2016-17: Inácio (via Portimonense/Teodoro), Galeno (via Grêmio Anápolis controlado pela Promosport).
• 2017-18: Luizão, Danúbio (via Grêmio Anápolis controlado pela Promosport), Anderson Canhoto.
• 2018-19: Diego Landis (via Desportivo Brasil fundado pela Traffic), Emerson Souza e Ewerton Pereira (via Portimonense/Teodoro).
O que é feito destes jogadores?
- Guilherme Lopes, a título de exemplo, jogou um minuto na Segunda Liga e acabou a carreira aos 24 anos.
- Enrick Santos, infelizmente, ainda teve menos sucesso terminando a carreira prematuramente aos 20 anos de idade.
- Anderson Canhoto teve mais sorte e quando voltou ao Brasil foi jogar na quarta divisão. - Anderson Dim seguiu viagem para Freamunde e depois para o Coimbra MG. Entretanto mudou de profissão.
- Ronan, depois de 2 grandes jogos pelo Porto B, passou pelo Tombense, Nova Iguaçu, Santa Cruz e Natal e Cabrofiense. Não participou sequer em 10 jogos nestes "grandes" clubes.
- Danúbio pertence atualmente ao Moto Club MA, tendo estado emprestado ao Estoril pelo Grémio Anápolis.
- Ewerton Pereira, que chegou ao FC Porto em 1 de julho de 2018, voltou para o Portimonense em 24 de julho do mesmo mês, por empréstimo. Em janeiro de 2019 terminou o empréstimo, tendo ido posteriormente para o Japão. Entretanto andou a passear-se entre o FC Porto e o Portimonense em empréstimos e transferências que estão em investigação criminal.
Conclusão: existem jogadores que vêm passar férias a Portugal com tudo pago, numa autêntica lavandaria, e depois voltam para o Brasil para se dedicarem à pesca.
O Polvo das Antas pergunta:
- Haverá algum banco no mundo que patrocine clubes de futebol em países onde não exerça atividade e negoceie passes de jogadores em grande número, à exceção do Banco BMG? Quais as contrapartidas, sabendo que não há almoços grátis?
- É normal um banco ter um acordo com um clube onde diz, e citamos, «toda e qualquer negociação envolvendo possíveis reforços para os portugueses no Brasil tem de passar pelo BMG»?
- Podemos colocar o Banco BMG ao lado da Gestifute e Doyen, por exemplo?
Estas são perguntas às quais gostaríamos de ter respostas, e, para quem tanto pugna pela verdade desportiva, certamente que não haverá problema em esclarecer estas situações. Não é necessário responder já, nós continuaremos aqui e não temos pressa.
Como não podia deixar de ser, continuaremos a levantar a ponta do véu e a expor os intervenientes da operação “Cartão Azul”."

" CARTÃO AZUL " - EPISÓDIO 1

 

"Quem é Pedro Pinho?
Pedro Pinho é proprietário da empresa PP Sports, sendo também representante de vários jogadores. Apesar de não ser um agente com uma grande “carteira” de jogadores, conseguiu colocar ao longo dos anos vários jogadores no FC Porto, entre os quais Brahimi - em parceria com Nélio Lucas (administrador executivo do fundo de investimento Doyen Sports), Herrera, Militão, entre outros. Pedro Pinho foi, igualmente, intermediário no negócio do patrocínio com a atual dona da MEO, a Altice, no qual terá ganho valores que rondam os 20 milhões de euros.
Este é o único agente que consegue comprar e vender jogadores diretamente do FC Porto.
Para além disto, Pedro Pinho teve ainda uma sociedade com Alexandre Pinto da Costa, filho de Jorge Nuno Pinto da Costa, chamada Soccer Energy. Alexandre Pinto da Costa, enquanto sócio de Pedro Pinho, conseguia fazer alguns negócios na instituição FC Porto e usufruir de comissões chorudas. Contudo estes acabariam por se separar, e, após essa separação, o filho de Pinto da Costa terá sido afastado da maioria dos negócios do clube. Pedro Pinho foi o grande beneficiário.
A título de exemplo, uma comissão de um jogador normalmente é de 10%, qual o motivo de o FC Porto pagar 8.5 milhões de euros por Militão quando o custo do jogador por 90% do passe foi de 4 milhões? Se 1.5 milhões foram para encargos como refere o R&C consolidado da SAD portista de 2018/2019, para onde terão ido os restantes 3 milhões?
Os empresários de Militão são agentes do Banco BMG, parceiro do FC Porto no Museu e fiador do clube. Estes são os únicos que podem tratar de negócios do FC Porto no Brasil.
Pedro Pinho é, em conjunto com outro empresário português, o representante oficial deste grupo em Portugal. O porquê desta coincidência? Porque só através dele conseguiram e conseguem fazer negócios com o FC Porto e usufruir das comissões milionárias.
Suspeita-se que Pedro Pinho tenha, alegadamente, pago a jogadores para facilitarem nos jogos em prol do FC Porto. Diz-se que Vágner, a título de exemplo, poderá ter recebido 150 mil euros de Pedro Pinho para facilitar no Boavista - FC Porto, há algumas épocas atrás. Mas não só, existiram também suspeitas de manobras de bastidores utilizando António Perdigão - antigo árbitro-assistente, arguido do “Apito Dourado” e ex-analista de arbitragem do Porto Canal - para condicionar os árbitros dos jogos, como Vasco Santos, no célebre Estoril - FC Porto.
Recordam-se das ameaças e agressão a um repórter da TVI na época passada? Pedro Pinho foi o responsável pela investida.
Nas buscas mais recentes à sua moradia, Pedro Pinho, por obra divina, não se encontrava presente. Porquê? Porque tinha viajado para a Roménia dias antes, quando, muito provavelmente, terá sido avisado de que seria alvo de buscas. O mesmo, presumivelmente sabendo de antemão aquilo que se iria passar, viajou para a Roménia, alegadamente por “motivos de caça”. Fica a nota curiosa sobre o destino escolhido pelo empresário: não existe acordo de extradição entre a jurisdição portuguesa e romena.
Esta é uma das personagens em investigação pela justiça portuguesa neste processo que se adivinha longo.
Iremos, ao longo dos dias que se seguirão, abordar um por um dos intervenientes no processo “Cartão Azul” e expor a teia, recorrendo a dados concretos que temos em nossa posse.
Amanhã seguir-se-á o Banco BMG."

CRÓNICA DE BENFIQUISTA EM BARCELONA

 


""Pá, não queres ir a Barcelona?"
A pergunta surgiu às 3h da manhã num bar em Alfama. Era a noite das eleições do Benfica e tínhamos escolhido aquele local para aguardar os resultados do processo eleitoral entre cerveja e amigos. Sem hesitar respondi logo que sim. Não sabia pormenores, valores ou disponibilidade de datas. Sabia sim que queria ir, claro que queria ir. Naquela noite ficou decidido que ia acompanhar o Benfica ao estrangeiro pela primeira vez.
As semanas seguintes foram feitas a preparar os pormenores. Liderados por um veterano destas andanças (esta ida a Barcelona foi o seu 28º away a jogos do Benfica!!), descobriu-se a preços baixos o plano de viagem: Avião até Barcelona na 2* feira e na 4ª regresso de comboio para Madrid e daí novo avião de volta à capital Portuguesa. Marcar 3 dias de férias para esse período? Check! Comprar bilhete para o jogo? Check! Estadia de duas noites num hostel? Check!
O encontro foi feito no aeroporto às 18h de 2ª feira. Seríamos cinco naquele voo e já lá na cidade condal juntar-nos-íamos ao resto do pessoal. Rapidamente percebi o quão sou amador nestas andanças: enquanto eu vinha de mala de rodas, todos eles traziam mochilas e até um saco de plástico! Claro, tão mais prático!
O voo até Barcelona correu sem peripécias até ao momento em que aterrou. Do nada, começa-se a ouvir ao longe o hino do Benfica a tocar! Seria algum adepto sentado no avião que se lembrou disso? Não, vem mesmo dos speakers do avião! Foi ideia do piloto! Mas a voz de Luís Piçarra é rapidamente abafada, pois a esmagadora maioria das pessoas presentes naquele avião tinham na sua alma a chama imensa e entoam a música a altos berros. Que chegada a Barcelona!
Sair do aeroporto, apanhar o bus para o centro da cidade, procurar o hostel, fazer o check in, pousar malas (aliás, mala, mochilas e saco de plástico) e arrancar para as Ramblas. Já passava da meia-noite, tudo fechado. Noite estragada? Claro que não, convívio feito numa das praças com vários Benfiquistas rodeados de vendedores ambulantes locais, a trocarem latas de San Miguel e Estrela Damn por 1 euro. O regresso ao hostel foi feito às 3h. Ou seriam 4h? Ou 5h? Quem sabe. Sei que chegamos divertidos aos beliches.
O dia do jogo não teve muito que saber. Acordar tarde e ir para o mercado "La Boqueria" comer tapas, beber cervejas e cantar, cantar muito, perante o espanto dos espanhóis, certamente todos adeptos do Barcelona. Todos? Todos não. Que o empregado de mesa veio ter connosco e disse "aqui estão em casa! Eu sou adepto do Real Madrid e os meus dois colegas lá dentro são do Espanyol". Retorqui-lhe "então todos queremos o mesmo, o Benfica a ganhar!". E a resposta dele virou o mote para aquela viagem: "Isto não é para ganhar...é para dar três!!". A vitória na Luz ainda presente na memória de todos...
Passagem por novo bar, o "L'Ovella Negra", onde encontramos novos dois adeptos do Espanyol e a eles oferecemos bilhetes para o jogo, já que dois dos nossos companheiros não tinham conseguido fazer a viagem à última da hora. Eles certamente quereriam que o Benfica ganhasse o jogo tanto como nós!
Viagem de metro até Camp Nou e aí começa o dilúvio. Chuva, chuva everywhere! Quando avistamos o relvado já o jogo começou. Olho para o imenso Camp Nou e recordo-me das mesmas sensações que tinha tido quando o visitei em 2009: "és gigantesco, mas estás a cair aos bocados. E a minha antiga Luz era ainda mais bonita e imponente que tu!" Mas agora era hora de concentrar no jogo, até porque o Benfica está-se a aguentar. Chega inclusive a marcar um golo, festejado imensamente até percebermos que tinha sido anulado. Mas anulado porquê? Impossível saber lá daquela incrível altura. O relvado está tão longe que parece que vemos o jogo num avião. O acrílico e as redes a separar o sector adversário das restantes bancadas também não ajudam nada à visibilidade. 
O grande momento do jogo já todos sabem. Ainda hoje me dói pensar no que teria sido se o Seferovic tem metido aquela bola dentro daquela rede. Que explosão teria sido! Quão épico teria sido! Aiiii Sefero...como foste falhar aquilo?
Bom, mais chuvada no regresso ao centro de Barcelona e aqui não houve ideias de festa. Toca a ir para o hostel dormir umas 3 ou 4 horas, porque havia comboio para apanhar às 6h45! Quando o despertador toca, percebo que terei que vestir umas calças e ténis ainda molhados. "Burro. Trazes uma mala, mas não te lembraste de trazer muda de roupa da cintura para baixo".
Duas horas depois estamos em Madrid. Passear pelo parque gigantesco da cidade, comer mais umas tapas, beber mais umas cervejas e arranque para o aeroporto e daí para Lisboa.
Estava feita a minha primeira ida ao estrangeiro com o Benfica. Que não será a última.
Agora que venha o Dínamo Kiev. E o Sporting. E o Porto para a taça. Que isto não é para ganhar. É para dar três!
(Mas Sefero...porra.)"

OS SOLDADOS CHORAM À NOITE

 


"Poesia em prosa como dizia o jornalista Jesús Ramos sobre Vicente, aquele que dançava com uma bola nos pés como saltasse a fogueira dos demónios e quem deram a alcunha de La Bruja.

Vicente Piera não foi soldado, mas viveu a guerra. Essa terrível Guerra Civil de Espanha que somou mais de 500 mil mortos, tantos deles fuzilados pelo exército franquista ao qual ninguém conhecia a piedade. Mas isso foi mais tarde. Nascido em 11 de junho de 1903, em Barcelona, Vicente Piera Pañella foi sempre um libertário. Tinha o futebol no sangue. Era apenas um garoto quando começou a jogar no Centre d’Esports de Sants. O seu pé direito era desconcertante. A bola colava-se a ele como se fosse coberto de resina. E só ele lhe dava ordem para prosseguir o seu caminho a partir do momento em que considerava que ela fazia falta noutro lado, sobretudo no fundo da baliza dos adversários.
Em 1922, com apenas 19 anos, estava em Lisboa. Portugal recebia a Espanha e o selecionador espanhol, Julián Ruete mandou que doze jogadores se aprontassem e saíssem para o aquecimento. Em cima da hora do jogo ter início decidiria qual deles seria descartado da equipa principal. Foi, de certa forma, uma revolução. Porque Ruete, no último minuto, disse com a sua voz autoritária: «Santiago Bernabéu, tú no juegas!». E enquanto o peso do descarte caía sobre o vaidoso jogador que viria a ser o presidente do Real Madrid, a alegria do jogo foi entregue a Vicente que, ao minuto 60, fez um dos dois golos espanhóis da vitória.
Desde que se transformara em jogador que Piera parecia, muitas vezes, não entender o jogo de conjunto. Chamavam-lhe Cavalo Bravo, Cavalo à Solta, podia ter sido uma personagem desses escritores catalães de imaginação prodigiosa, Eduardo Mendoza, Mercè Rodoreda, Manuel Váquez Moltalbán. Ou melhor ainda, personagem rebelde da mestra das rebeldes personagens, Ana María Matute, nascida em 1925, relatadora de batalhas e do que ia por dentro dos que combatiam nessa guerra entre irmãos, autora de Primera Memoria, Los Soldados Lloran de Noche, La Trampa, atravessando a estrada da novela para o conto com Los Niños Tontos, Tres y un Sueño, El Verdadero Final de la Bella Durmiente e Al niño que se le Murió el Amigo. Poesia em prosa como dizia o jornalista Jesús Ramos sobre Vicente, aquele que dançava com uma bola nos pés como saltasse a fogueira dos demónios e quem deram a alcunha de La Bruja.
O rebelde Piera não ouvia nada do que os mestres que lhe queriam ensinar. No Centre d’Esports de Sants arranjou um conflito sério porque se recusava a jogar a extremo direito. Quando, aos 17 anos, foi contratado pelo Barcelona, escutou com os nervos a bulirem-lhe como agulhas de pinheiro o presidente Juan Gamper gabar-se para a imprensa: «Hemos encontrado el extremo derecho que estábamos buscando hace tiempo».
O treinador, o inglês Greewell, olhou para o seu físico meio raquítico, para as suas pernas que pareciam caniços, e impôs-lhe um trabalho diário para aumentar decisivamente a sua capacidade de choque. Vicente limitou-se a responder: «A mí que me den una pelota y me dejen de tonterías y cuentos tártaros». Num jogo amigável contra o Sparta de Praga, depois de ter passado meia-hora a fazer gato sapato do defesa que o marcava, estoirou como uma castanha e passou a hora seguinte a ser massacrado com cargas sucessivas de pancadaria que o deixaram de rastos. Foi aí que percebeu que não lhe bastava ser La Bruja. O Cavalo à Solta chorou à noite como os soldados Ana María Matute. E mudou de vida, fez corpo, tomou conta do lado direito do ataque do Barcelona até 1933, três anos antes de começar La Cruzada.
Durante umas festividades locais, o Barcelona defrontou o Vic que pedira emprestado ao adversário o seu guarda-redes lendário Ricardo Zamora, o rei das zamoranas. Por ordem de Garcia, o capitão, de cada vez que os avançados do Barça se aproximavam da baliza onde estava o seu companheiro de equipa, voltavam para trás, recusando-se a chutar ao golo. Zamora impunha um respeito impossível de contrariar. Não seriam os seus apoderados do Barça a sujeitá-lo a ir buscar bolas dentro da baliza. O público enfureceu-se. Ou, como dizem em Espanha, cabreou-se. A confusão não tardou a instalar-se no estádio, houve alguns que ameaçaram entrar em campo para agredir os jogadores da própria equipa, Zamora tentava apaziguar toda a gente com a sua figura grande, vestida de negro, Vicente Piera saltitava de um lado para o outro como um galito de combate, as farripas do cabelo caindo-lhe sobre os olhos que brilhavam de contentamento perante o caos que se abria na sua frente. Atingia o ponto mais alto da sua incontrolável rebeldia. A Guardia Civil entrou em ação e tratou de acusar os jogadores do Barcelona de boicotarem um espetáculo para o qual muitas centenas de pessoas tinham pago o seu bilhete. Toda a equipa foi parar à esquadra e passou a noite no cárcere como castigo para a trafulhice. Esgotada a excitação, Vicente Piera, o rebelde dos rebeldes, dormiu tranquilo como se nada se passasse..."

5 HISTÓRICAS REMONTADAS DO SL BENFICA

 


"Descobre quais são as 5 históricas remontadas do SL Benfica!

Como foi prodigiosa a resistência pacense na Luz. O 4-1 final não transparece a urgência do SL Benfica em recorrer dos seus míticos ‘15 minutos’ para ultrapassar mais uma eliminatória da Taça: Jorge Simão alimentou preparação competente e só uma remontada daquele nível o poderia derrotar naquela noite.
Inspirados pela mesma, tentámos uma exercício de memória – que nunca o é quando tivemos o azar de nascer tarde, obrigado somos a vasculhar tudo e mais alguma coisa movidos pela sede de conhecimento do mundo da bola.
Como Jorge Simão, fomos explorar e estudar as fragilidades do monstro contrário – a história do SL Benfica oferece surpresas a cada página, jogos tão míticos que, aos tempos de hoje, fica difícil assimilar o impacto na época, por força do contexto que os envolveu e que nos é desconhecido.
A curiosidade nasce precisamente aí, no que contribuiu para o resultado dentro e fora do pelado, as incidências que transformaram um jogo normal numa ‘remontada’ que marcou uma geração – que, tristemente, a força do tempo vai colocando nas profundezas da memória coletiva.
Eis cinco reviravoltas épicas do palmarés encarnado prontas a ser revividas por quem se interessa pelas origens do benfiquismo e de como chegámos nós até aqui.

1. FC Porto 1-2 SL Benfica (Taça de Portugal 2003-04 – final)
O FC Porto de Mourinho era titular da Taça UEFA e preparava a final da Liga dos Campeões, jogada daí a duas semanas em Gelsenkirchen. Nas bancadas do Jamor, a massa encarnada empunhava tarja curiosa que se lia “Apoiamos as nossas cores: força Mónaco”, provocando o topo contrário e aquecendo ainda mais os ânimos daquele clássico.
O SL Benfica de Camacho tinha ganho o segundo lugar à ‘rasca’ ao Sporting CP de Fernando Santos com uma vitória em Alvalade na penúltima jornada e a chegada à final da Taça representava hipótese de conquistar um troféu… oito anos depois.
Sobre tudo isso, um objetivo e pensamento muito mais prioritário – honrar Miklos Féher, que se tinha despedido em janeiro dessa época, oferecendo-lhe aquela Taça. Era missão sacramental e sentido de dever moral de um grupo atordoado ainda pela maior das infelicidades.
O golo de Derlei na primeira metade foi provocação ainda maior ao brio daquele conjunto de jogadores – Fyssas empatou ainda antes do interregno e Simão concretizou, em chapéu de aba larga a Vítor Baía, o 2-1 final já no prolongamento.
Camacho, banhado pela fúria competitiva transformada em suor, era um homem feliz e realizado. Adorado por todos, não resistiria ao chamamento do seu primeiro amor – o Real Madrid CF – e sairia nesse verão, iluminado por uma aura de Messias.

2. FC Porto 1-3 SL Benfica (Campeonato 1971-72, 1ª jornada)
No segundo ano de Jimmy Hagan ao comando dos encarnados começava-se a desenhar equipa e sistema que permitiria ser campeão invicto em 1972-73.
Se 70-71 tinha sido em crescendo, com o salto para a frente da classificação apenas à 22ª jornada – ultrapassando o Sporting CP – interessava agora manter a toada e garantir a liderança desde o tiro de partida.
A 12 de setembro de 1971 o SL Benfica ia às Antas estrear-se no campeonato, o FC Porto esperava o campeão sedento de vingança: e começou bem, indo para intervalo a ganhar 1-0.
Mas uma segunda parte avassaladora dos encarnados – que jogaram com menos um desde os 55’ (!) por expulsão de Humberto Coelho – confirmaria a ideia que se concretizaria em maio seguinte: o SL Benfica de Hagan era a equipa mais competente do país e poucos se conseguiam bater de igual contra ela.
Só o surpreendente Vitória setubalense comandado por Pedroto, segundo classificado final, tentou ingloriamente intrometer-se na luta pelo título.

3. SL Benfica 5-4 Sporting CP (Taça de Portugal 1951-52 – final)
O SL Benfica perdia 3-4 aos 71’. No Jamor suava-se de ansiedade pela enxurrada de golos e constante trocas de vantagens. Em jogo estava o brio encarnado: em caso de vitória, alcançar-se-ia o recorde leonino de três consecutivas.
Águas faz o 4-4 aos 72’, nem permitindo grandes festejos e remete o jogo para período de monotonia até aí desconhecido. Rogério Pipi, o homem das finais de Taça (marcou em todas que participou, 15 golos) desfez a igualdade aos 89’- redimindo-se, já que havia falhado grande penalidade ainda na primeira parte.
“Quando o Águas me passou a bola, tive um pressentimento, via a Taça na minha frente (…) pareceu-me que a bola levou um século a chegar ao fundo da baliza”.
Levantou a taça o mítico capitão Francisco Ferreira. A última ocasião em que o fez, já que teria a sua despedida em setembro do mesmo ano.

4. Vitória FC 3-8 SL Benfica (Campeonato da Liga 1944-45)
No último campeonato disputado por apenas dez clubes – passaria a 12 em 45/46 – e a 18 rondas, o SL Benfica foi campeoníssimo: 79 golos marcados, média de 4,3 por jogo e oito goleadas (onde marcou cinco ou mais golos).
Além deste 8-3 no Campo dos Arcos em Setúbal, outros para a troca foram o 11-3 ao Salgueiros ou o 7-2 ao FC Porto, quarto classificado.
Nas margens do Sado, o SL Benfica foi para intervalo a perder por… 3-1, abalroando o frágil Vitória FC apenas nos segundos 45’, nos quais Espírito Santo assinou hattrick para responder ao do sadino Rodrigues.

5. SL Benfica 2-1 Sporting CP (Campeonato de Portugal 1934-35 – final)
No terceiro Campeonato de Portugal – que depois se tornou Taça – ganho pelos encarnados, a primeira final frente aos rivais leoninos: e por isso também se escreveu história.
Como comprovativo do prestígio da ocasião, Marechal Carmona fez-se representar enquanto Presidente da República, gerindo as celebrações que levaram ao Estádio do Lumiar 30 mil adeptos, um recorde.
Aquele SL Benfica, comandado pelo carismático Ribeiro dos Reis, fora para o intervalo a perder por causa de um golo de Mourão (41’). Contudo, bastaram cinco minutos no início da segunda metade para se proceder à reviravolta – Lucas e Valadas, aos 50′ e aos 55′, deram o troféu à equipa.
A temporada 1934-35 ficaria marcada pela primeira ocasião em que Campeonato de Portugal e o da Liga se disputaram paralelamente."

JORNALEIROS PREOCUPADOS COM O COVID NA B SAD, E O TONDELA NÃO CONTA? OPSSS ESPERA É CONTRA OS LAGARTOS...


 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

TERRORISMO MEDIÁTICO



 "Coincidência ou não, desde que ocorreram alterações na estrutura directiva do grupo Cofina, este encetou uma verdadeira cruzada antibenfiquista, atacando o nosso clube por todas as vias.

Primeiro foi Otamendi. De acordo com os órgãos de comunicação daquele grupo, o central, é um dos capitães de equipa ameaçara sair do Benfica por não gostar da abordagem verbal de Jorge Jesus. Seria a primeira vez que um jogador profissional rescindia unilateralmente um contrato de trabalho por causa do... tom de voz do técnico durante os treinos.
Seguiu-se o próprio Jesus. Segundo o mesmo grupo, o nosso treinador estaria insatisfeito por não lhe ter sido ainda renovado o contrato, quando estamos com menos de um terço da época cumprido. Aliás, o Benfica já teria até reservado Pepa como substituto. Diga-se que o técnico vimaranense tem o seu valor, mas está em 7.º lugar no campeonato e acaba de ser eliminado da Taça de Portugal pelo Moreirense.
A pérola veio a seguir. A FPF estaria descontente com Rafa, devido à falta de compromisso com a selecção, e à sua personalidade complicada (??). Ou seja, um profissional de 28 anos, com uma carreira exemplar, ausente do jogo com a Sérvia por lesão, mesmo na enfermaria viu serem-lhe atribuídas responsabilidades pelo desaire da equipa lusa.
As mentiras têm caído por si próprias como um castelo de cartas. Mas é preciso percebermos que não vão ficar por aqui.
Quando se ganha, a caravana passa, e os cães ficam a ladrar sozinhos. No momento da derrota será preciso que todos nos mantenhamos fortes, unidos e serenos, sabendo resistir a quem pretende destruir-nos."

Luís Fialho, in O Benfica

BANCADOLÂNDIA



 "Piso 0 do Estádio da Luz, setor 5, fila X, lugares 3 e 4 ocupados. Bola a rolar no relvado, milhares (milhões) de sentimentos e emoções projetados no retângulo jogavam-se os primeiros minutos de uma 'final' de apuramento para o Mundial 2022. Portugal ainda era o todo-poderoso no acerto de contas com a Sérvia o desenlace arreliador, para os lusitanos, seria materializado uns bons quilómetros de ação e uns quantos cruzamentos e remates depois.

A meu lado, com pelos mal semeados cobertos por uma máscara que as normas da DGS impõem, um adolescente aprendiz de central, curioso e inquisidor, arquitetou e sonorizou a interrogação: 'Pai, porquê é que o Rúben Dias está sempre a arregaçar os calções?' Expliquei-lhe, especulando em cima da minha leitura daquele gesto repetido vezes sem conta, que seria parcela de uma estratégia do atleta, para garantir que está sempre ligado à corrente, pronto para qualquer momento ou intervenção no jogo.
O apetite para a prática do futebol despertou-lhe 'tarde', à entrada para os 14 anos (porque jogar à bola, que já o fazia há anos, é uma coisa muito diferente...), mas a absorção de ideias conceitos, fundamentos e técnicas revela-se um processo interessante, para ele, sim, mas também, ou sobretudo, para quem, do mesmo sangue, guarda lugar entre os contempladores. Ao vivo e a cores, ele viu Rúben com outros olhos, captou detalhes e depois, no seu mundo, quis ser Rúben (no que conseguiu registar e executar), mormente na comunicação e na orientação da linha defensiva. Um bom exemplo, e foi copiar e colar à medida do seu contexto e das aptidões. Este é o futebol que (nos) cativa, encanta, vale o bilhete e merece louvor.
'Cultura desportiva', podemos ufunar-nos. Ou não, quando, depois, descemos a outras camadas da realidade e constatamos que a mensagem do(s) emissor(es) nas bancadas envergonha e nada educa, repetidamente, os homens de amanhã em campo, na tribuna e na vida. Por muito que se leia, por mais perguntas que se façam no papel de jornalista, por mais reportagens que se vejam ou produzam sobre fanatismos e derivados, nada suplanta o resultado da percepção de pai ou encarregado de educação preocupado com 'a' formação. Respeito e desportivismo: deveria ser copiar e colar, assim tão fácil como 'imitar' Rúben."

João Sanches, in O Benfica

NÚM3ROS D4 S3M4N4



 "5

Everton lidera o ranking das assistências para golo na presente temporada, seguido por Pizzi, Rafa e Weigl, com 4. Ao fim de um terço da segunda temporada no Benfica, é o 13.º com mais assistências nas últimas 10 temporadas (desde 2012/13), com 15;

6
Sócios integrantes na Comissão de Estatutos, representando sensibilidades diferentes no Clube. A Direcção do Sport Lisboa e Benfica está de parabéns por esta iniciativa e pela forma como a tem conduzindo;

9
Rafa voltou à frente da 'corrida' dos goleadores benfiquistas na presente temporada. Leva 9, igualando já o seu 3.º melhor desempenho (2020/21) neste capítulo numa época desde que chegou ao Benfica. Totaliza 55 'golos oficiais' de águia ao peito, a marca atingida por Jesus Crespo, o 41.º no ranking;

70
Seferovic chegou aos 70 golos 'oficiais' (1 de penálti) pelo Benfica. E o 34.º a fazê-lo, o último havia sido Pizzi, que totaliza 93, no jogo com o Shakhtar (3-3), em 2020, para a Liga Europa. Seferovic igualou os 70 de Lima (14 de penálti), com mais 30 jogos, mas consegui-o ao fim de 10486 minutos de utilização, enquanto o brasileiro precisou de 11128 minutos (inclui tempos adicionais);

293
André Almeida passou a ser, a par de Cardozo, o 31.º com mais 'jogos oficiais' pela equipa de honra do Benfica;

400
Jorge Jesus completou, com o Paços de Ferreira, 400 jogos 'oficiais' na liderança do banco benfiquista: 277 vitórias, 62 empates e 61 derrotas. Os 69,25% de vitórias são superados por 11 treinadores, o mais recente, Fernando Cabrita (61 jogos), que comandou a equipa, pela última vez, em 1973/74. Entre os treinadores com mais de 75 jogos, apenas Hagan (77,78%), Riera (75,51%), Biri (70,66%) e Guttmann (69,75%) alcançaram melhor percentagem de triunfos."

João Tomaz, in O Benfica