sábado, 17 de outubro de 2020

JÁ DEI PARA ESTE PEDITÓRIO



 "1. Volto ao tema da vergonha quotidiana a que diariamente nos sujeitamos ao abrir jornais e televisões. Toda a gente já sabe que, regra quase absoluta, a imprensa generalista e as televisões de mercado aberto afinal, praticamente sempre em concerto, continuam a tanger as respectivas músicas, conforme, em sedes de alta decisões nos correspondentes grupos empresariais, hajam previamente sido traçados a brocha azul (o lápis era dantes...) as baias dos devidos interesses pessoais e colectivos dos seus stakeholders.

2. Os assuntos do futebol, vistos dessa maneira, são verdadeiro pasto desta pastagem de animais. Mas, na realidade, também é assim que acontece, mais ou menos escancaradamente, acerca de assuntos da política, da economia, de temáticas religiosas ou, nos últimos tempos, praticamente sempre que se garatuja ou gorgoleja, nas páginas e nos estúdios, até acerca de substâncias e epifenómenos do domínio da própria justiça.
3. Esta sinfónica estampagem mediática que está a definir os dias e serões do nosso tempo alastrou como uma mancha podre nos meios de comunicação, se não ao ponto de provocar enfado e enjoo nas faixas dos incautos consumidores mais fragilizados, pelo menos e para já, ao mitigar drasticamente, os índices de confiança daqueles que ainda vão retendo algum poder de compra; isto é, os que ainda iam podendo justificar, com o seu retorno no comércio e no dia a dia, o investimento publicitário que algumas empresas e marcas arriscam nessas TV e nesses jornais...
4. Na linha da frente da exposição dessa vergonhosa decadência dos valores éticos e deontológicos, mais do que os chamados comentadores 'independentes' que ali vão quase sempre como 'canários' sob avença, estão os 'papagaios da casa' que lhes são postos como pseudomoderadores, cada vez mais para incentivar o conflito, do que alguma vez, para evitar ou minorar as peixaradas.
5. Interrogo-me até onde e como conseguem estes pobres títeres suportar o primarismo dos raciocínios, a boçalidade das argumentações e desbochado fervedouro que, ainda por cima, são constantemente obrigados a estimular fazendo figura de patetas, a fingir - uma, cinco, dez, ou vinte vezes na mesma meia hora, se for preciso - que ainda não esteja suficientemente esclarecida uma qualquer questão de pacotilha, uma meia-verdade ou uma rematada calúnia, prolongando a miséria até à náusea.
6. A vida custa muito a ganhar. É o que é. A eles, e aos 'coronéis' escondidos nos gabinetes de chefia das redações e nas mesas de direcção dos programas que, mesmo a caminho do abismo, para defenderem as cadeiras em que (ainda) se sentam, assim estabelecem - vendidos - essas nojentas 'regras' do 'jogo' aos desgraçados que têm de dar a cara porque, infelizmente, só sabem ganhar a vida desse modo, a cavalo ad insinuação, da mentira e no meio da algazarra boçal.
7. Para mais debates desses, basta. Também eu, já dei para esse peditório."

José Nuno Martins, in O Benfica

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