Após cinco jornadas da Liga, primeira análise aos três 'grandes'. Interessante o que Benfica, FC Porto e Sporting nos têm revelado neste começo de temporada
As cinco primeiras jornadas da Liga Portugal mostraram o acentuar do desequilíbrio competitivo entre os três grandes e os restantes clubes. Um fosso que vai cavando cada vez mais fundo, temporada após temporada, pela escavadora da discrepância orçamental entre uns e outros, e que transforma o campeonato numa corrida a três, em que é altamente desaconselhável a Benfica, FC Porto e Sporting cederem pontos frente aos demais e que, por isso, redobra a importância dos duelos diretos.
Isto não quer dizer que o título venha a decidir-se em dérbis e clássicos. Ocorrerão inevitáveis escorregadelas frente aos restantes, além das que já atrasaram o Benfica, contra o Académico de Viseu, na Luz, e o Sporting, frente ao Estrela, na Reboleira, logo na jornada inaugural. Mas, reforce-se, são resultados pouco ou nada recomendáveis, por se perspetivar esporádicos e pouco desculpáveis, tal a diferença de qualidade entre os grandes e os outros.
Essa disparidade não torna necessariamente o campeonato português pouco competitivo. Em escassos campeonatos europeus principais existem três equipas que lutam pelo título quase até ao fim, praticamente todas as épocas. Mas torna os jogos entre águias, dragões e leões e os clubes mais pequenos pouco interessantes, quase sempre de sentido único, reduzidos, em muitos casos, a uma questão de tempo de resistência das outras equipas.
Essa menor qualidade das equipas não-grandes tem, naturalmente, outra consequência: torna ainda menos interessantes os jogos em que estes se defrontam entre si. Por isso, o campeonato português é nivelado por baixo quando comparado com os principais campeonatos europeus.
No jogo jogado, neste início de temporada, pode aferir-se o seguinte.
O FC Porto manteve a bitola da temporada transata, na sequência de uma atualização cirúrgica do plantel que lhe permite conservar rotinas. Os dragões não praticam um futebol que deslumbre - não o praticaram, de resto, na bem-sucedida época passada - mas jogam mais do que o suficiente para estarem sempre perto da vitória contra os pequenos, condição que promovem com uma atitude competitiva forte, com bastante raras oscilações e ainda menos falhas. Os resultados após cinco jornadas são esclarecedores: só vitórias, todas ou quase todas conseguidas sem sobressaltos.
O Sporting procedeu a uma verdadeira revolução no plantel. Numa perspetiva de fim de ciclo, depois de um bicampeonato, saíram alguns jogadores fundamentais nessa conquista e entraram mais, cuja garantia de substituição equivalente está longe de ser certa. Há valor nos reforços, e alguns entraram diretamente para as primeiras escolhas do treinador, que, por entre críticas vindas das bancadas movidas pela impaciência e por indiscutível falta de empatia com o técnico, que tem feito um trabalho meritório de integração e de estabelecimento de um coletivismo suficientemente competitivo em tão pouco tempo. Isso tem permitido aos leões, por ora, mostrarem virtudes consonantes com as ambições de um candidato ao título.
Quem esperaria que, despojada de metade dos titulares, a equipa mantivesse imediatamente o nível? Quem esperaria que o treinador não precisasse de tempo - e de tolerância dos adeptos para as inevitáveis falhas?
No Benfica, outra revolução, mas mais discreta do que a do Sporting, digamos, que em continuidade, embora com mudanças arrojadas: importantes saídas de jogadores que custaram caro - algo que se repete nas últimas temporadas, mas que, mais do que necessário, se tornou obrigatório - e entradas igualmente significativas, também uma prática costumeira nos anos recentes.
Apesar de só um reforço apresentar valor acrescentado garantido e indiscutível, Palhinha - uma contratação que contrasta, para melhor, com as realizadas pelo clube nas últimas épocas, à exceção do regresso, por sinal nada consensual, de Rafa -, e de se ter encontrado central pendular em Lenglet (substituição direta de Otamendi, mais do que de António Silva), há ainda reforços de algum renome, mas por provar, como Echeverri, concorrente para o pouco influente Sudakov, ou El Karouani, destinado ao lado esquerdo da defesa, que, tal como o direito, estava (está) carenciado.
Ainda assim, a melhoria exponencial do futebol praticado pela equipa resulta, sobretudo, do muito maior rendimento de jogadores que permaneceram. O melhor exemplo é Prestianni, cujo enorme talento, agora aplicado de forma consistente, tem feito toda a diferença. Depois, Rafa, indiscutível pelo mesmo motivo do argentino: talento, classe e diferenciação. E haverá Aursnes melhor do que Barreiro? A isso junta-se a veia goleadora de Pavlidis.
É, portanto, um Benfica que, mais do que através das novidades, parece estar a crescer pela valorização do que já tinha - e que, neste início de época, encontrou nos jogadores que permaneceram uma boa parte das respostas que procurava.
Ricardo Jorge Costa, in a Bola

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