sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
PRIMEIRAS PÁGINAS DOS MÉRDIA TUGAS: RAZIA NA EUROPA
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
SONHO VIROU PESADELO: DE FORA DA EUROPA
Benfica, apresento-te a terceira divisão europeia. Acho que se vão dar bem
É isto que acontece quando a vulnerabilidade defensiva empata a invulnerabilidade ofensiva: a história descamba e pela primeira vez o Benfica é eliminado nos 16 avos da Liga Europa onde já não há equipas portuguesas. O nosso futebol bateu de frente com o espelho. E estilhaçou-se.
Um de cada vez, Braga, FC Porto e enfim Sporting foram progressivamente eliminados por adversários de valias diferentes e por resultados diferentes - as gradações de escandaleira foram obviamente diferentes também.
Assim, pois, o Benfica iria entrar em campo na Luz com o Shakhtar Donetsk da Ucrânia como o último resistente do contingente português na Liga Europa, que até era o maior entre os que viajavam nesta segunda liga europeia.
Das quatro, ficaram três e acabou por ser uma questão de tempo até estar nenhum: em 24 horas, o futebol português dos múltiplos milhões em vendas de jogadores, do Ronaldo, do Euro2016, da Liga über profissional e da Federação altamente sofisticada (e bem relacionada) - e, vá, dos pequenitos probleminhas das alegadas corrupções, violências verbais e físicas - bateu de frente com o espelho. E partiu-se em bocadinhos.
Dos outros, já se escreveu aqui na Tribuna Expresso, pelo que vamos passar sem delongas ao Benfica 3-3 Shakhtar Donetsk (4-5, no combinado), que eu tenderia a resumir da seguinte maneira:
O Benfica está defensivamente fragilizado, é um facto assumido, e Bruno Lage não encontra forma de resolver a coisa, pois os golos continuam a entrar na baliza de Vlachodimos, sobretudo na Luz, onde há sete encontros consecutivos o grego cruza a linha para ir buscar a bola.
O treinador, que tem o mérito de não ser um negacionista, reconhece e atribui os tremeliques ao “momento” e insiste na ideia do futebol positivo que consiste, basicamente, em marcar mais do que sofrer, para lutar contra a inevitabilidade.
Ou seja, sim, aquele lado entre Ferro e Grimaldo é um íman para a asneira, a transição defensiva é pouco agressiva “porque não é esse o ADN” dos futebolistas do Benfica (Lage dixit), mas, caramba, se a equipa pressionar alto e recuperar a bola à frente e concretizar as oportunidades criadas pelo talento, tudo se compõe.
Bom, mais ou menos.
Porque, como se viu aqui, basta a vulnerabilidade defensiva empatar a invulnerabilidade ofensiva para a história descambar - o Benfica fez o 1-0 num belo golo de Pizzi (9’) e sofreu um autogolo de Rúben Dias no 1-1, após jogada, precisamente, pelo lado de Ferro e de Grimaldo; o Benfica fez o 2-1 numa redenção temporária num salto de Rúben Dias (36’) que falhou o pulo no 3-2 de Stepanenko (pelo meio, Rafa Silva, com jeito, fizera o 3-2); finalmente, Alan Patrick estilhaçou a esperança encarnada, aproveitando um notável desequilíbrio individual (falha de Tomás Tavares) e coletivo.
O Benfica não foi, então, controlado tatica nem emocionalmente, submetendo-se variadas vezes a dificuldades desnecessárias quando até parecia ter o jogo empacotado. Lá à frente, a teoria passava à prática e a vontade de roubar a bola traduziu-se em recuperações eficazes; lá atrás, era tudo uma questão de instinto, de quem-devia-estar-aqui-eras-tu entre Ferro e Grimaldo, etc.
Ora, é verdade que jogaram Chiquinho e Dyego Sousa de início, como se Lage não estivesse assim tão interessado na Liga Europa, e é indesmentível que, com Seferovic e depois Vinicius, a formação da Luz até podia ter reentrado na eliminatória em alguns lances de relativo perigo.
Mas não é de somenos avisar para o seguinte: pela primeira vez na sua história o Benfica não ultrapassa os 16 avos de final da Liga Europa. A segunda divisão europeia começa a ser curta para a Luz.
Felizmente, para o Benfica, isto não é só com ele. Infelizmente, para Portugal, isto é com todos nós.
Onzes iniciais das duas equipas:
Onze do Benfica: Vlachodimos; Tomás Tavares, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo; Pizzi, Weigl, Taarabt, Rafa; Chiquinho e Dyego Sousa
Onze do Shakhtar: Pyatov; Dodô, Kryvtsov, Matviyenko, Ismaily; Marcos Antônio e Stepaneko; Marlos, Alan Patrick e Taison; Junior Moraes
Suplentes do Benfica: Svilar, Cervi, Seferovic, Florentino, Nuno Tavares, Jota e Carlos Vinícius
Suplentes do Shakhtar: Shevchenko, Kocholava, Tetê, Konoplyanka, Maycon, Bolbat e Fernando
O SILÊNCIO DAS PANTERAS
"Emile Griffith, boxeur que matou Paret no ringue, escondia a sua homossexualidade na companhia de loiras espampanantes.
Emile Griffith trazia uma dor por dentro e não podia falar dela com ninguém. Aos fins de semana, quando saía à noite, procurava nunca ser reconhecido. Oscar Wilde chamava às suas escapadelas em busca de relações sexuais com outros homens – «Dinning with the panthers». Emile não lhes chamava coisa nenhuma. Suportava a vergonha e calava-se. Deixava-se envolver pelo silêncio das panteras.
No dia 24 de Março de 1962, Emile Griffith matou um homem em frente de uma multidão ululante. Na verdade não o matou logo ali, no ringue do_Madison Square Garden. Benny Paret ainda ficou dez dias em coma. Norman Mayler, que cobriu como repórter esse combate que decidia o título de campeão do mundo de pesos médios, escreveu que nunca tinha visto um homem bater noutro com tamanha violência. Ao 13.º assalto, Paret desmanchara-se junto às cordas como um cartucho de papel pardo e vazio.
Três meses antes, Paret, The Kid, tinha sido espancado brutalmente por um daqueles bulldozers que a história do boxe regista como montanhas de carne e músculo: Gene Fullmer. A sova foi de tal forma hedionda que todos ficaram convencidos de que jamais Benny voltaria a combater. Os médicos foram de opinião diferente. Carimbaram-lhe uma autorização oficial para que voltasse a ser sovado. Foi um caminho sem regresso.
Alguém escreveu um dia que Benny Paret, o cubano de Santa Clara, era analfabeto em duas línguas: castelhano e inglês. Não saber ler nem escrever não foi impeditivo de sucesso: tornou-se campeão do mundo de médios em 1960 e 1961. Começou aí a sua questão com Emile, se é que se tratou de uma questão.
Muita gente escreveu sobre Paret, de Lou Lipsitz, o poeta de To a Fighter Killed in the_Ring, a Dave_Smith, o cantor de Blues for_Benny Kid Paret, e a Mark Kozelek, que deixou musicado:
«Benny Kid Paret came a good way
Climbed to the grey sky to raise his hands
Stopped by the better man».
O «better man», Emile Griffith, não conseguiu merecer tantas palavras escritas como o rapazola de Santa Clara que matou_à custa de punhos. Aliás, caiu de tal forma no esquecimento que um dia se lamentou: «Não me destruíram por ter matado um homem. Mas perseguiram-me a vida inteira por ter amado homens». E, no entanto, deixava-se fotografar ao lado de beldades loiras e espampanantes. Era a sua forma de esconder a dor das panteras.
Um dia, num documentário, vi um homem alto e melânico abrir os braços e declamar com lágrimas nos olhos:
«Comienza el round, voy hacia el centro
en este plan voy a perder
este es el round numero trece
¡voy a demostrarle quién es quién!
Me está llevando hacia una esquina
si caigo aquí me cuentan diez
¡Virgen del Cobre estoy perdido!
No puedo ver
No... pue.. do... ver...».
O homem era Nicomedes Santa Cruz Navarra, peruano, o trovador-ferreiro.
O dia 30 de Setembro de 1961 foi especialmente triste para Griffith. Perdera frente a Benny ao 15.º assalto de forma tão surpreendente que arrasou muitas casas de apostas. Afinal, em Abril aplicara a Kid um KO acachapante e não deixara muitas dúvidas que a diferença de estatura entre ambos marcava a sua superioridade a ferro em brasa. Além disso, suportara a forma viperina como o cubano lhe murmurara ao ouvido de cada vez que se encontraram num daqueles abraços que só os árbitros conseguem separar: «Maricón! Maricón!» Nessa noite, Emile Alphonse Griffith, o gigante de Saint Thomas, nas Ilhas Virgens, chorara como uma criança nos braços de um dos seus amantes sem nome. Paret saíra pela cidade festejando o título, cada vez mais convencido de que se tornara invencível. Humilhara Emile, desfizera-lhe a confiança, apoucara a sua masculinidade. Pusera em prática tudo o que aprendera na lei das ruas. Não imaginava sequer que tinha sido a sua vitória derradeira.
«¿Qué hemos de hacer nosotros los negros
que no sabemos ni leer?
Fregar escupideras en los grandes hoteles
encerar y barrer/manejar ascensores
en el Gran Club servirles de beber».
Nem mesmo depois de ter sido triturado por Fullmer, Kid perdeu a protérvia. Logo no primeiro assalto do combate fatídico de Madison Square Garden, passou uma das luvas pelas nádegas de Emile e ciciou uma porcaria. Viu o sangue raiar nos olhos do adversário. A cadeia de televisão ABC transmitiu tudo em directo. Os murros de Griffith pareciam golpes de bigorna. 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, e mais e mais, O árbitro não mandou parar a carnificina. A cara de_Benny é uma pasta de sangue.
«La gente aplaude al que me mata
El referee no dice “break
Que mi mujer no sepa nada...
Mi nombre es Benny “Kid” Paret».
Dentro do peito de Emile rosnavam as panteras."
ÓDIO DE PERDIÇÃO
"Que segurança podem ter pessoas de bem e de paz e adeptos que levam a família e filhos menores à festa do desporto?
1. Sendo a terça-feira o dia da minha crónica semanal, sempre me calha o dia de Carnaval. Mas não é deste Carnaval que vou falar. Nestas alturas, sempre me lembro, de uma frase de Vergílio Ferreira: «Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se».
Camilo Castelo Branco escreveu o livro Amor de Perdição em 1861. Um tempo em que ainda não havia sido inventado o futebol que, acima de todos os outros desportos, se tornou o mais universal e o mais popular. De tal modo, que, ao longo da sua história de cerca de século e meio, gerou amores também de perdição, paixões assolapadas e relações identitárias absolutas.
Perdição quer dizer, segundo os dicionários, acto ou efeito de perder, desgraça, estrago, danação, ou, ainda, desregramento. Qualquer uma destas indicações semânticas tem o seu lugar no futebol.
O problema é quando a estes diferentes estados de espíritos se junta, explosivamente, o ódio. Daí o título desta crónica: ódio de perdição, que vai invadindo, crescente e impunemente, o ambiente em torno e por causa do futebol.
2. Antes de entrar no tema que escolhi para hoje - o chamado caso Marega - recordo aqui e agora duas extremadas e dramáticas situações que enegreceram o futebol. A primeira relacionada com um notável jogador austríaco Matthias Sindelar, conhecido como o Mozart do futebol, que morreu numa fria noite vienense de Janeiro de 1939. Foi encontrado morto na cama do seu quarto com a sua mulher Camila Castagnola, uma judia de origem italiana. Sindelar, que era filho de emigrantes checos judeus, negou-se a jogar pela selecção da Alemanha nazi que passara a integrar a Wunderteam (equipa maravilha, assim era apelidada a selecção austríaca), como consequência de a Áustria ter passado a ser a província alemã de Ostmark. Hitler não perdoou. Os nazis ofereceram uma recompensa pela sua captura. O cerco ao jogador apertou-se, até que um dia a polícia informou da sua morte. Assim terminou a vida e a brilhante carreira de um jogador que foi popularmente eleito o melhor atleta austríaco do século passado.
A segunda, bem mais recente, sobre Albert Ebossé, jogador de futebol camaronês, que morreu em 2014, com 24 anos. No seu último ano, na idade de todos os sonhos, emigrou para jogar na 1.ª divisão argelina. Na última partida da sua curta vida, até marcou o único golo da sua equipa (JS Kabilylie), o que não impediu a derrota por 1-2. Quando regressava aos balneários, foi barnaramente atingido por uma pedrada na cabeça. Adeptos - inconformados com a derrota - atiraram pedras, como se, do outro lado, pedras estivessem. Curioso é que por cá, esta brutal morte do jovem africano surgiu no rodapé noticioso. Mesmo no desportivo.
Eis dois exemplos brutais do lado perverso deste desporto. Por um lado, o totalitarismo mais cruel e desumano a impor as regras e a esmagar a liberdade mais singela. Por outro lado, a fúria totalitária de quem vê um simples jogo de futebol como se de uma guerra se tratasse.
3. Sobre o que aconteceu em Guimarães já quase tudo foi dito. No calor do momento, no sofá caseiro, na tertúlia do café, nas análises comentaristas, nos compulsivos comunicados de todas autoridades políticas, associativas e clubistas. Tudo... até que o assunto se perca na memória dissolvente e selectiva, trucidada por um qualquer novo epifenómeno, que agite a rotina e alimente o sobressalto vampiresco dos mais inflamados. Depois, virá a necrótica indiferença que tudo banaliza. Até a própria indiferença...
Houve de tudo. Hipocrisia em estado puro, lágrimas de crocodilos, prantos falsos de ateadores profissionais do ódio e da violência verbal, panegíricos compungidos em programas que, todas as semanas, nos dão sangue e ajudam os mais jovens e os mais incautos a transformar rivalidades sadias em insanidades rivais, tiradas políticas e partidárias majestáticas de quem quer ser o primeiro a chegar. Tudo servido em regime de pot-pourri durante horas a fio e páginas sobre páginas.
Houve de todos. Dirigentes com défice de exemplaridade, que não sabem ser homens no fracasso, nem senhores no sucesso. Políticos mais preocupados com consequências sobre a candidatura ibérica ao Mundial-2030 do que com o caso em si. Autoridades disciplinares que abdicaram de ser parte da solução, para serem parte do problema, sobretudo pela omissão, pela ilusória arte da procrastinação, ou, ainda, pelo discurso redondo, inútil e politicamente correcto. Claques em regime de seita que vomitam, quase impunemente, chamas de apelo às mais torpes acções. Certos treinadores e homens de banco incendiários que tudo perdoam na sua casa e tudo criticam na casa dos outros. Árbitros impreparados, enviesados, atemorizados que adoram ser os protagonistas de qualquer jogatana. Auto-regulação entre os clubes em regime de pseudo auto-defesa, com a ilusão de míseras multas face à violência endémica, mas que nada punem e nada dissuadem ou previnem. Órgãos disciplinares que vêm satisfazendo eloquentemente a ideia de que justiça tardia já não é verdadeira justiça (como se compreende, por exemplo, que jogos de há um ano ou largos meses sejam tão tardiamente objecto de punições, por sua vez sempre recorríveis, até que tudo fique nas calendas?).
No meio de todos, os menos culpados são os jogadores.
4. O que é que, de facto, aconteceu em Guimarães de verdadeiramente diferente em comparação com tantas e recorrentes atitudes ignomoniosas nos estádios (ou mesmo fora deles)? Apenas a saída determinada, respeitável, compreensível e corajosa do jogador Marega, depois dos insultos de que foi alvo. Não tivesse ele saído e tudo teria sido visto como normal, sem ser notícia e sem a repulsa lacrimejante de meio-mundo.
Marega foi inusitado sobretudo depois de ter marcado ao seu anterior clube (embora ele também tenha sido provocatório, pormenor que foi quase omitido). Situação infelizmente comum em momentos idênticos, em qualquer estádio, com tantos atletas que foram para um clube rival. Para não citar muitos casos que aconteceram, imagino o que diria a horda de adeptos mais inflamados e malcriados, se visse Hulk no Benfica a marcar um golo no Dragão, Òscar Cardozo no FC Porto a dar a vitória à sua nova equipa, na Luz, Bruno Fernandes no Benfica a facturar em Alvalade, Marega de volta ao Guimarães a marcar no Dragão, etc., etc.. E o que diriam jornais, televisões, comentadores, autoridades nestes casos hipotéticos, iguais a tantos outros? Eu respondo: nada. Quanto muito diriam que foi uma anormalidade dentro da normalidade.
Então o que é que houve em Guimarães que suscitou uma onda generalizada de repulsa? Eu respondo: o meio e a forma dos insultos, não a sua causa. E aqui sim, o meio constituiu uma ignóbil expressão racista que, infelizmente, já tem acontecido com outros jogadores e não deve, em caso algum, ser tolerada. E, repito, como tal, Marega fez bem em sair. Para simular macacos, já bastam aqueles (caucasianos) que até apreciam que assim lhes chamem.
Aliás, no jogo Vitória - Porto, uma parte significativa dos titulares e suplentes até era de origem africana. E não ignoremos que no nosso país muitos ídolos vieram das antigas colónias e são considerados, justamente, ícones da nossa história desportiva, encimados pelo rei Eusébio, o pantera negra (será que ainda posso dizer «pantera negra»?).
5. Diante de tantos problemas que se tendem a agravar, o que fazem o ministro e o secretário de Estado que andam sempre aos papéis, a disciplina federativa que finge que o é, ou quem, nos clubes, deveria dar o bom exemplo? Como é possível que se pactue com insultos e ofensas de todas a espécie e se dê corda a gabinetes comunicação de clubes que alimentam um mundo-cão de grosseira sem limites morais? E por que razão nada acontece - para além de umas multas de uns desprezíveis euros - com a exibição de lonas e tarjas de apelo à violência ou de insulto soez a autoridades e juízes, com cânticos a desejar mortes ou a caluniar um clube que nem sequer está a jogar, com jogadores que escolhem celebrar conquistas desportivas com ordinarices sobre clube rivais? O que será mais preciso para se criarem plenas condições para identificar e punir boçais que dão cabo do futebol e dos seus clubes? Que segurança podem ter pessoas de bem e de paz e adeptos que levam a família e filhos menores à festa do desporto?
E quantas vezes num só jogo se insultam jogadores e árbitros com todos os impropérios possíveis, começando pelo que mais fere a dignidade de cada qual (filho da...)? Será que aqui temos de nos conformar com um acórdão recente de um Tribunal da Relação, que consagrou, em modo de jurisprudência, o mundo do futebol como uma realidade à parte, que se pode resumir neste impensável raciocínio de que «um comportamento revelador de falta de educação e de baixeza moral e contra as regras de ética desportiva é de alguma forma tolerado nos bastidores da cena futebolística», ou seja, uma ilha onde tudo é permitido, mesmo o que é proibido?
Em suma: ódio de perdição com inacção de rendição. Até quando?"
Bagão Félix, in A Bola
TRAVAR O VENTO COM AS MÃOS?
"Um hotel em Innsbruck, Áustria, em quarentena, outro em Tenerife, Espanha, também, um palácio flutuante em Yokohama a servir de incubadora de vírus, o Extremo Oriente em estado de emergência e a Europa, com a Itália como epicentro, cada vez mais em estado de sítio.
A incapacidade manifesta para travar a progressão do coronavírus - poucas são as notícias que referem expectativa de vacina ou qualquer droga milagrosa que atalhe a maleita - deve preparar-nos para alguns meses de convulsão social, alterações de hábitos e crise na economia.
As manifestações de massas estão a ser proibidas ou limitadas, um pouco por todo o lado, e o desporto, que arregimenta regularmente multidões como nenhum outro fenómeno, vai ter de adaptar-se para ultrapassar esta fase crítica.
Na China, pura e simplesmente, todos os eventos foram cancelados, em Itália há adiamentos de jogos das mais diversas modalidades e jogos à porta fechada (Juventus - Inter, que pode decidir o scudetto), o ministro da Saúde irlandês pediu o cancelamento do Irlanda - Itália, do Torneio das Seis Nações e, finalmente, o Comité Olímpico Internacional já veio levantar a hipótese de não haver Jogos em Tóquio, pelo menos nas datas previstas. E falta perceber os riscos que corre o Euro-2020...
Por cá, onde, felizmente, os casos suspeitos ainda não passaram disso mesmo, o microcosmos do desporto deverá ter em carteira planos B e C para uma eventual italianização da nossa situação. Porque, apesar de todas as medidas e cuidados, a verdade é que em plena era de globalização ninguém consegue travar o vento com as mãos."
José Manuel Delgado, in A Bola
IMPORTANTE VENCER, O RESTO VIRÁ DEPOIS
"A boa notícia para o Benfica é que, enfim, ganhou um jogo que era, realmente, muito importante ganhar. É verdade que esteve longe de o ganhar com autoridade e com a consistência própria de um campeão, mas ganhar, e que diga o FC Porto que também ganhou o seu jogo a poucos minutos do fim, num pontapé divino.
Tudo está bem quando acaba bem? Não creio. Mais do que a convicção mostrada pelo Gil Vicente de que seria possível não perder o jogo, a atitude receosa, trémula, mentalmente frágil de um Benfica que teve momentos de equipa pequena, sem dimensão e sem estatuto de campeão.
Deve-se, porém, perceber o contexto. Vindo de onde vinha, o Benfica precisava, acima de tudo, de inverter a tendência desastrada de derrotas sucessivas e ganhar um jogo que nunca seria fácil perante um adversário com bons jogadores e, sobretudo, com um treinador que sabe mais de futebol a dormir do que a esmagadora maioria dos técnicos acordados.
A exibição, portanto, é menos significativa. Tal como se deve compreender a atitude assustada e ansiosa da equipa. Seria difícil, no actual contexto, exigir uma exibição de domínio absoluto, sem dar margem ao risco. A partir daqui, deste regresso à liderança, deverá ser outro o nível de exigência à equipa de Bruno Lage que, aliás, teve a humildade de reconhecer a necessidade urgente de ganhar consistência defensiva e equilíbrio global, com a entrada de Samaris.
Volta, assim, o Benfica à liderança do campeonato, o que também trava o sentido único de ascensão de um FC Porto que, percebe agora, não terá tarefa fácil na luta pelo título."
Vítor Serpa, in A Bola
FUNDAMENTAL NÃO SOFRER
Mudanças no Benfica
1. Novidades no onze do Benfica a começar. Weigl de regresso, titularidade de Samaris, Rafa na esquerda, talvez mais fresco do que Cervi. Com estas mudanças, o Benfica mostrou respeito pelo Gil Vicente, uma equipa difícil, cheia de bons jogadores. O Benfica preencheu o meio-campo com outros jogadores, e libertou mais Taarabt, um jogador que procura sempre desequilíbrios e muito agressivo.
Lage ganhou com Samaris
2. O Benfica ganhou mais força com Samaris. Com Weigl e o grego a suportarem a defesa, Pizzi, Rafa, Taarabt e Carlos Vinícius tiveram mais liberdade atacante. O ritmo de jogo não foi elevado, mas o golo do Benfica foi justo. A equipa ficou mais equilibrada, não necessariamente mais defensiva, mas não permitiu tantos espaços a meio-campo como em partidas anteriores. Weigl e Samaris foram importantes. Pela forma seguram a defesa, mas também pelo apoio que conseguem dar ao ataque.
Hugo Vieira trouxe rapidez
3. Comportamento diferente do Benfica na segunda parte, com uma entrada mais intensa, a querer terminar logo com o jogo. Mas o Gil Vicente teve muita disponibilidade física, criou oportunidades, mas Vlachodimos voltou a estar a nível fantástico, muito concentrado. A entrada de Hugo Vieira trouxe maior rapidez ao jogo do Gil Vicente. É um jogador bastante criativo, soube colocar-se no apoio a Sandro Lima. Aqui o Gil Vicente criou oportunidades, mas Vlachodimos foi decisivo. Se o Gil Vicente tivesse empatado, o Benfica ia ter muitas dificuldades para voltar à vantagem. Mas o Benfica soube preencher bem os espaços, e soube controlar todas as investidas do Gil Vicente. O lado emocional também foi importante, e o apoio dos adeptos com Barcelos ajudou os jogadores. Homem do jogo? Carlos Vinícius pelo golo apontado, foi fundamental pelo trabalho que deu ao Gil Vicente.
Fórmula para o futuro
4. Depois de seis jogos a sofrer golos sucessivos, acho que o principal objectivo do Benfica era o de não sofrer golos. Por isso creio que Bruno Lage colocou Weigl e Samaris para dar mais estabilidade à equipa. Talvez esteja aqui uma fórmula para o futuro. Era fundamental que o Benfica não sofresse golos. Depois, tem jogadores que fazem a diferença a atacar. É preciso defender bem e atacar melhor. O Benfica dava muitos espaços na perda da bola, e faltava mais apoio a meio-campo."
Álvaro Magalhães, in A Bola
PRIMEIRAS PÁGINAS DOS MÉRDIAS TUGAS
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
"TEMOS DE IR À PROCURA DO RESULTADO"
O Benfica procura chegar aos oitavos de final da Liga Europa, mas, para isso, terá de anular a desvantagem de um golo (2-1) trazida da 1.ª mão.
O Benfica recebe (quinta-feira, às 20h00) os ucranianos do Shakhtar em jogo da 2.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa. Ferro alerta para um "jogo muito difícil", mas está confiante numa reviravolta na eliminatória.
"Sabemos que vai ser um jogo muito difícil. O Shakhtar não é uma equipa qualquer, tem boas ideias de jogo, joga muito bem, e na frente, a nível individual, tem jogadores que fazem muita diferença. Vai ser um jogo diferente do da 1.ª mão, agora jogamos em casa com os nossos adeptos a apoiar-nos. Temos todas as possibilidades de passar a eliminatória", garantiu o central do Benfica, em conferência de Imprensa na Luz.
O Benfica recebe (quinta-feira, às 20h00) os ucranianos do Shakhtar em jogo da 2.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa. Ferro alerta para um "jogo muito difícil", mas está confiante numa reviravolta na eliminatória.
"Sabemos que vai ser um jogo muito difícil. O Shakhtar não é uma equipa qualquer, tem boas ideias de jogo, joga muito bem, e na frente, a nível individual, tem jogadores que fazem muita diferença. Vai ser um jogo diferente do da 1.ª mão, agora jogamos em casa com os nossos adeptos a apoiar-nos. Temos todas as possibilidades de passar a eliminatória", garantiu o central do Benfica, em conferência de Imprensa na Luz.
"Tentamos sempre entrar com tudo, claro que há jogos em que conseguimos mais, outros menos, mas entramos sempre focados. Queremos sempre entrar a mandar. É o que queremos fazer amanhã [quinta-feira]", reforçou.
A formação encarnada chega – apenas três dias depois – de uma importante vitória em Barcelos [Gil Vicente, por 2-1] que lhe permitiu a afirmação da liderança da Liga NOS.
A formação encarnada chega – apenas três dias depois – de uma importante vitória em Barcelos [Gil Vicente, por 2-1] que lhe permitiu a afirmação da liderança da Liga NOS.
"Trabalhar em cima de vitórias é diferente de trabalhar em cima de derrotas, mas também não podemos enfiar a cabeça num buraco quando perdemos, como também não podemos encher o ego quando ganhamos… É trabalhar exatamente da mesma maneira", salientou.
"Não foi um mês fácil. Tivemos muito jogos, mas também penso que é bom ter esse nível de competitividade. Vamos entrar nas máximas condições, tal como o Shakhtar, e acho que vamos disputar o jogo de igual para igual", perspetivou.
Há pouco mais de um ano a trabalhar com Bruno Lage no plantel principal, Ferro confessa ter evoluído "como homem" e como jogador, mas admite ter ainda margem para melhorar.
Há pouco mais de um ano a trabalhar com Bruno Lage no plantel principal, Ferro confessa ter evoluído "como homem" e como jogador, mas admite ter ainda margem para melhorar.
"A nível individual, ainda posso melhorar tudo. Um jogador nunca pode pensar que não pode melhorar em nada, senão acaba por estagnar. Estou mais preparado a nível psicológico do que estava há um ano", lembrou.
Benfica e Shakhtar Donetsk voltam a medir forças esta quinta-feira (27 de fevereiro), às 20h00, na 2.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa. Para Bruno Lage, esta é a hora de as águias evidenciarem todo o seu valor, relembrando que os jogadores encarnados sabem o que têm de fazer.
Que jogo perspetiva na 2.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa?
Que jogo perspetiva na 2.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa?
Espero um grande jogo. Duas excelentes equipas que querem ter bola, que pretendem dominar com bola e, da nossa parte, temos de ser mais competentes quando não tivermos a posse do esférico. Sem bola, temos de ser mais consistentes e melhores do que aquilo que fomos na 1.ª mão. Espero um Benfica competente, à procura de passar este ciclo de jogos muito difíceis e confirmar todo o nosso valor.
O que é que se diz a um jogador como Ferro? Qual é o trabalho do treinador quando surgem críticas?
O que é que se diz a um jogador como Ferro? Qual é o trabalho do treinador quando surgem críticas?
De uma perspetiva coletiva, e até mesmo em função daquilo que é o trabalho dele [Ferro] e dos colegas, é fazer a análise que realizamos regularmente. O objetivo não é apontar o erro ou responsabilizar alguém pelas coisas não correrem bem, mas sim de eles [jogadores] identificarem o que estão a fazer, perceber aquilo que estão a fazer menos bem e como podem executar melhor. O nosso foco assenta muito na tarefa e naquilo que temos de criar em campo, por isso, grande parte do nosso trabalho vai nesse sentido. Por um lado, há que dar responsabilidade ao jogador e, por outro, dar-lhe conforto para ele continuar a evoluir.
A sua filosofia é treino a treino, jogo a jogo. Nesta fase da época sente que terá de optar por alguma competição? Se sim, colocará mais fichas no Campeonato?
A sua filosofia é treino a treino, jogo a jogo. Nesta fase da época sente que terá de optar por alguma competição? Se sim, colocará mais fichas no Campeonato?
A preferência é o jogo seguinte. Vencer e preparar o jogo seguinte é diferente de não vencer; fazer uma boa exibição e preparar o jogo seguinte é diferente de não fazer uma boa exibição... Todos os jogadores que subiram ao relvado estão disponíveis para jogar. Ainda estamos a meio da recuperação, amanhã [quinta-feira] de manhã teremos respostas ainda melhores sobre o estado de cada um dos jogadores. Em função da nossa estratégia, análise e observação, escolhemos o melhor onze, nunca abdicando do que quer que seja. Nunca abdiquei de uma competição. Olhei sempre, e olho, para cada momento, tendo consciência de que os tempos de recuperação variam de jogador para jogador. É em função de uma diversidade de variáveis que decidimos quem joga e quem é que entra.
No jogo de Barcelos [22.ª jornada da Liga NOS], Taarabt atuou numa posição mais avançada [atrás do ponta de lança]. É uma opção para manter?
No jogo de Barcelos [22.ª jornada da Liga NOS], Taarabt atuou numa posição mais avançada [atrás do ponta de lança]. É uma opção para manter?
Para aquele jogo foi. O Adel [Taarabt] já tinha jogado ali. Ele conhece muito bem aquela posição e também tem feito bons desempenhos na outra zona do terreno [médio-centro]. O que me dá prazer é vê-lo a corresponder à aposta do Benfica em dar-lhe uma oportunidade, independentemente de ele jogar como médio, mais atrás, ao lado de um colega ou à frente.
Na preparação para este jogo será mais fácil passar a mensagem aos jogadores, visto que a equipa perdeu na 1.ª mão e sabe que só vencendo no Estádio da Luz é que poderá conseguir o apuramento?
Na preparação para este jogo será mais fácil passar a mensagem aos jogadores, visto que a equipa perdeu na 1.ª mão e sabe que só vencendo no Estádio da Luz é que poderá conseguir o apuramento?
É igual. Diferente do primeiro jogo para o segundo é que amanhã [quinta-feira] se decide, e jogamos em função de um resultado. Os jogadores sabem o que têm de fazer. Temos de ser mais competentes no momento defensivo, em termos coletivos, e temos essa consciência. Este jogo não é mais fácil nem menos fácil, é diferente por ser aquele em que tudo se decide.
A aposta em Samaris é para manter?
Eu aposto em todos os jogadores. No Samaris, no Florentino, no Julian [Weigl], no Adel, no David Tavares... Qualquer um dos médios que hoje esteve no treino está preparado para jogar.
O Benfica atuou com três médios em Barcelos. Na análise de Luís Castro, treinador do Shakhtar, a equipa fica mais condensada e pesada. O que é que o Benfica ganha e perde com Samaris junto a Weigl?
O Benfica atuou com três médios em Barcelos. Na análise de Luís Castro, treinador do Shakhtar, a equipa fica mais condensada e pesada. O que é que o Benfica ganha e perde com Samaris junto a Weigl?
Foi uma decisão em função do que era o momento e da estratégia do adversário. O Gil Vicente tem sido muito forte no ataque à profundidade, com movimentos muito interessantes, principalmente pelo lado direito com a entrada do médio-ofensivo Kraev, que podia atacar espaços entre o Ferro e o Grimaldo. Tem também um lateral-direito com uma projeção muito interessante. Entendemos que ter Adel [Taarabt] disponível para construir e depois não haver ninguém para proteger essa situação poderíamos estar a oportunidade ao Gil Vicente para aproveitar esse espaço. Optámos por Samaris, por um onze e por uma estratégia para estarmos seguros, defender melhor aquele momento e controlar melhor o jogo com bola. Ganha-se e perde-se sempre alguma coisa com diferentes posicionamentos e jogadores.
Para Luís Castro, iremos ter uma batalha onde os dois treinadores têm de ter sangue-frio para, na altura das decisões, saberem quando e como agir. Vamos ter um Benfica a entrar forte e a querer decidir no início, ou vai ser mais expectante e esperar por aquilo que o jogo dá?
Para Luís Castro, iremos ter uma batalha onde os dois treinadores têm de ter sangue-frio para, na altura das decisões, saberem quando e como agir. Vamos ter um Benfica a entrar forte e a querer decidir no início, ou vai ser mais expectante e esperar por aquilo que o jogo dá?
O desafio vai ter vários momentos, mas nós não podemos esperar por aquilo que o jogo dá. Temos de ir à procura do resultado que nos permita passar à próxima eliminatória. A nossa intenção é de ter uma entrada forte, perceber que estamos a jogar com um adversário muito competente, saber o que temos de fazer com e sem bola, quando devemos pressionar e quando não devemos expor espaços que o Shakhtar gosta de explorar. Há medida que o tempo passe, e em função daquilo que for acontecendo no resultado, é normal que um ou outro treinador tenha de agir, ou reagir, como tal, é em função do tempo e do resultado que os treinadores vão mexer na equipa.
O treinador do Shakhtar destacou ainda espetacularidade de se jogar no Estádio da Luz. É esse ambiente que espera? O público pode ser o 12.º jogador do Benfica?
O treinador do Shakhtar destacou ainda espetacularidade de se jogar no Estádio da Luz. É esse ambiente que espera? O público pode ser o 12.º jogador do Benfica?
Sim! Luís Castro tem razão, e nós temos sentido isso, em casa e também fora, como sucedeu ainda agora com o Gil Vicente, onde foi notório esse apoio fantástico dos adeptos. Eu disse no final do jogo que, mesmo numa fase em que os resultados não têm sido os que queremos, os adeptos não deixaram de nos apoiar. Ter uma massa adepta como esta é sempre muito importante. Os adeptos têm sido incansáveis no apoio à equipa do princípio ao fim.
EMPRESÁRIOS XICO-ESPERTOS? QUE SURPRESA...!!!
"O grupo Global Media Group (do qual também faz parte o “jornal” “O Jogo”) não para de surpreender. Hoje, o Jornal de Notícias, que continua a manchar o nome dos seus fundadores ao estar ao serviço de outros interesse, tem como manchete “Empresário de jogadores do Benfica apanhado em fraude com transferências”.
Título nada inocente e claramente a tentar passar a imagem de que o SL Benfica está, de alguma fora, relacionado com fraude em transferências. É a deturpação, omissão e mentira característica desse grupo “jornalístico”.
Para ficar devidamente esclarecido, a empresa em questão é a LianSports que representa nada mais, nada menos, do que 75 (!) jogadores e 3 (!) treinadores. Dos 75 jogadores, apenas Seferovic faz parte do plantel actual do Sport Lisboa e Benfica.
A motivação desta manchete é tão óbvia que nem é preciso darmo-nos ao trabalho de a desmascarar."
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