quinta-feira, 23 de outubro de 2014

FUTEBOL - UM DESPORTO DE MÁQUINAS?

Futebol - um desporto de máquinas?

 
Desde que comecei a estudar futebol, aprendi coisas que nunca aprenderia se não o fizesse. E tenho reparado que o futebol depende muito da cultura de quem está envolvido nele. Cada vez mais se transforma num negócio, tal como muito se fala em dinheiro pelo mundo todo, assim como dentro de campo, depende da cultura que o treinador incutir nos jogadores. Ou mesmo, depende daquilo que os adeptos pedirem.

Sempre existirá alguém que acredita que a vertente física é a mais importante no jogador. Mas o futebol, não é feito de atletismo. Mesmo que um jogador esteja a maior parte do tempo sem bola, precisa ter habilidades quando esta lhe cais nos pés. Não basta apenas correr no futebol, há mais do que isso.

Ultimamente, também se fala imenso de organização tática. Ouvimos aquelas pessoas a falar num 4x3x3, duas movimentações ou três e está montada a “tática” da equipa. Alguns jornais referem mesmo a palavra tática, e mostram um sistema de jogo qualquer, como um 4x3x3 ou 4x4x2 ou x3x5x2 ou outro qualquer, iludindo o leitor. Até que nem seja muito mau, e podiam substituir a palavra tática por sistema. Mas o que na realidade acontece, é que muitos leitores, no que diz respeito a futebol, a única fonte de informação são os jornais, ou seja, são iludidos anos a fio, do verdadeiro futebol.

Depois, temos a condição técnica. Aqueles que fazem as melhores fintas, os melhores passes e os melhores remates, são considerados os melhores jogadores. E depois encontramos um jogador em campo a fintar sozinho vezes sem conta, a ser constantemente aplaudido, enquanto estoura imensas oportunidades para criar situações de finalização. E não é só em Portugal que isso acontece, para o caso de não levarem como uma indireta a qualquer jogador a atuar em Portugal neste momento.

Três dimensões (técnica, física e tática) e nem me atrevo a referir a condição psicológica, porque disso é que nem se fala praticamente nada. Infelizmente, ainda encontramos disto no futebol, e poderemos encontrar durante muito tempo.

O futebol é a cultura de uma nação, e é natural que seja um desporto de máquinas, porque a maioria entende que um jogador tem que fintar, passar ou rematar, e o treinador enviar 11 jogadores para dentro de campo em função de um sistema tático.

Mas, na organização tática, não há leis que obriguem o jogador a rematar ou a passar. Não existem leis, existem princípios, que bem ligados entre si, pedem que o jogador saiba jogar em equipa. E para se jogar bem em equipa, não basta saber tocar na bola, porque dificilmente acontecem duas situações iguais. É necessário criatividade, instinto, coragem. Foi assim que o ser humano inventou a roda, as ferramentas, descobriu o fogo e hoje exploramos o universo. É necessário que alguém seja criativo para a civilização humana evoluir, assim como é necessário que o jogador seja criativo para fazer o jogo se desenrolar com qualidade.

Por vezes, nem importa ter o remate mais forte, a melhor finta ou o passe mais certo do mundo, se a situação de jogo em que se encontra, não lhe permite fazer isso. Conta mais um passe para trás para manter a posse de bola, do que tentar fintar três de uma vez. E é preciso muita coragem e muita criatividade, para tomar uma decisão favorável para a equipa. Jogar em medo ou jogar mecanizado, impede que o jogador retire a melhor opção possível da situação em que se encontra, em função da sua habilidade e experiência.

Por isso defendo modelos de jogos estabelecidos por princípios, com liberdade para os jogadores jogarem e sobressaírem, mas com disciplina para que joguem como equipa. O ser humano pensa e a máquina é que é programada. E no jogo, é preciso pensar, para decidir, porque decidir, bem ou mal, o jogador vai decidir sempre. Muito se tenta, mas o ser humano não pode ser programado. Não tem como dar uma volta a isso.

E, em parte, condeno o Guardiola por pensar desta forma. Grande modelo de jogo, do seu tempo no Barça, mais do que posse de bola!

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